Fantasmas
Capítulo 15
A coisa na janela
Bry ce falara com o oficial de serviço da noite que guarnecia a linha de em ergência na Unidade de Defesa Civil da CBW em Dugway, Utah. Não precisara dizer m uito até ser transferido para o telefone da casa do general Galen Copperfield. Este escutara com atenção, m as pouco falara. Bry ce queria saber se era provável que um agente quím ico ou bacteriológico pudesse ser o causador da agonia e obliteração de Snowfield. Copperfield dissera "Sim ". Mas dissera som ente isto. Avisara a Bry ce que estavam falando num a linha telefônica livre e fizera referências vagas, m as severas, a norm as de segurança e inform ações confidenciais. Quando tinha ouvido todo o essencial, m as apenas alguns dos detalhes, ele interrom pera Bry ce um tanto bruscam ente e sugerira que discutissem o resto quando se encontrassem frente a frente.
— Já ouvi o bastante para m e convencer de que a m inha organização deve se envolver.
Ele prom eteu m andar um laboratório de cam po e um a equipe de investigadores para Snowfield até o alvorecer, ou logo depois.
Bry ce estava pousando o fone no gancho quando as luzes piscaram , dim inuíram , piscaram , oscilaram ... e se apagaram .
Ele buscou a lanterna elétrica na m esa à sua frente, encontrou-a e acendeu-a.
Ao voltarem à subdelegacia, há pouco, haviam localizado duas lanternas elétricas adicionais, de cabo longo, equipam ento policial.
Gordy ficara com um a, a dra. Paige com a outra. Agora, as duas lanternas se acenderam sim ultaneam ente, abrindo longas feridas brilhantes na escuridão.
Tinham discutido um plano de ação, um a rotina para seguir se as luzes se apagassem de novo. Agora, com o fora planej ado, todos se dirigiram para o centro da sala, longe de portas e j anelas, e se am ontoaram num círculo, as costas voltadas para dentro, reduzindo a sua vulnerabilidade.
Ninguém falou m uito. Estavam todos de ouvidos atentos.
Lisa Paige estava à esquerda de Bry ce, os om bros esbeltos encurvados, a cabeça baixa.
Tal Whitm an estava à direita de Bry ce, os dentes à m ostra num rosnado silencioso, enquanto inspecionavam a escuridão que ficava além do Incho m óvel da lanterna.
Tal e Bry ce estavam de revólver na m ão.
Eles três estavam de frente para os fundos da sala, enquanto os outros quatro — dra. Paige, Gordy, Frank e Stu — encaravam a frente do Aposento.
Bry ce j ogava o facho da sua lanterna sobre tudo, pois até os contornos vagos dos obj etos m ais triviais subitam ente pareciam am eaçadores. Nada, porém , se escondia ou se m ovia por entre as peças fam iliares de m óveis e equipam ento.
Silêncio.
Na parede dos fundos, j unto ao canto direito da sala, havia duas portas. Um a dava para o corredor que servia as três celas de detenção.
Eles tinham revistado aquela parte do prédio anteriorm ente; as celas, a sala de interrogatórios e os dois banheiros que ocupavam aquela m etade do andar térreo estavam todos desertos. A outra porta dava para a escada que levava ao apartam ento do delegado. Aqueles aposentos tam bém estavam desocupados. Apesar disso, Bry ce voltava repetidam ente o facho da lanterna para as portas entreabertas. Estava intranquilo quanto a elas. Na escuridão, ouviu-se um a batida suave.
— O que foi isso? — perguntou Wargle.
— Veio daqui — falou Gordy.
— Não, daqui — retrucou Lisa Paige.
— Quietos! — Exclam ou Bry ce, vivam ente. Turn... tum -tum .
Era o som de um golpe am ortecido. Com o um travesseiro caindo ao chão.
Bry ce m exeu a sua lanterna rapidam ente daqui para ali.
Tal acom panhou o facho de luz com o revólver.
Bry ce pensou: o que farem os se as luzes ficarem apagadas a noite toda? O que farem os quando as pilhas das lanternas finalm ente acabarem ? O que vai acontecer então!
Desde pequeno não sabia o que era ter m edo do escuro. Agora estava se lem brando de com o era.
Tum -tum ... tum ... tum -tum .
Mais alto. Porém não m ais perto.
Tum !
— As j anelas! — exclam ou Frank.
Bry ce deu m eia-volta, sondando com a lanterna elétrica.
Os três fachos fortes encontraram as j anelas da frente ao m esm o tem po, transform ando os quadrados de vidro em espelhos que ocultavam o que quer que houvesse por trás deles.
— Voltem as luzes para o chão ou o teto — falou Bry ce. Um facho subiu, dois desceram .
A luz indireta revelou as j anelas, m as não as transform ou em superfícies de prata refletivas.
Tum !
Algo bateu num a j anela, fez chocalhar um a vidraça solta e ricocheteou dentro da noite. Bry ce teve um a im pressão de asas.
— O que foi isso?
— ...um pássaro...
— ...não um pássaro de um tipo que j á...
— ...algo...
— ...terrível...
A coisa voltou, batendo de encontro ao vidro com m ais determ inação do que antes: tum -tum -tum -tum -tum ! Lisa berrou. Franky Autry arquej ou, e Stu Wargle exclam ou: — Puta que o pariu!
Gordy em itiu um som m udo e estrangulado.
Fitando a j anela, Bry ce sentiu com o se tivesse atravessado a cortina da realidade e sido proj etado num lugar de pesadelo e ilusão.
Com os postes de rua apagados, a Sky line Road se achava às escuras, exceto pelo luar lum inoso; todavia, a coisa na j anela estava vagam ente ilum inada.
Mesm o a vaga ilum inação daquela m onstruosidade esvoaçante era dem ais. O que Bry ce viu do outro lado do vidro — o que ele pensou ter visto na m ultiplicidade caleidoscópica de luz, som bra e luar — foi algo saído de um sonho febril. Tinha um a envergadura de asas de 1,00m a 1,20m . Um a cabeça insetoide. Antenas curtas e trêm ulas. Mandíbulas pequenas, pontudas e em m ovim ento incessante. Um corpo segm entado. Que ficava suspenso entre as asas cinzentas e tinha aproxim adam ente o tam anho e o form ato de duas bolas de futebol sobrepostas. Ele tam bém era cinzento, do m esm o tom das asas — um cinza doentio, bolorento —, tinha penugem e parecia úm ido. Bry ce vislum brou ainda os olhos: lentes im ensas, negras com o o piche, m ultifacetadas, protuberantes, que refratavam e refletiam a luz, brilhando som bria e esfaim adam ente.
Se ele estava vendo o que pensava ver, a coisa na j anela era um a m ariposa grande com o um a águia. O que era um a loucura.
Ela se j ogou contra as j anelas com fúria renovada, num frenesi, as asas pálidas batendo tão depressa que se tornou um borrão. Movia-se ao longo das vidraças escuras, ricocheteando repetidam ente dentro da noite, depois voltando, tentando febrilm ente entrar pela j anela.
Tum tum tum tum . Mas não tinha forças para quebrar a j anela e entrar.
Além do m ais, não tinha carapaça; o seu corpo era inteiram ente m acio e, a despeito do tam anho incrível e aparência intim idadora, incapaz de rom per o vidro.
Tum tum tum .
E então foi em bora.
As luzes se acenderam .
É com o um a m aldita peça de teatro, pensou Bry ce.
Quando se deram conta de que a coisa na j anela não ia voltar m ais, todos se adiantaram , num consenso tácito, até a frente da sala.
Cruzaram o portão na grade que levava à área do público, aproxim aram -se das j anelas e ficaram olhando para fora num silêncio atônito.
A Sky line Road não sofrerá nenhum a m odificação.
A noite estava vazia.
Nada se m exia.
Bry ce sentou-se na cadeira rangedora à m esa de Paul Henderson. Os outros se aproxim aram .
— E então — falou Bry ce.
— E então — falou Tal. Entreolharam -se, inquietos.
— Algum a ideia? — perguntou Bry ce.
Ninguém falou nada.
— Algum a teoria sobre o que possa ter sido?
— Obsceno — disse Lisa, e estrem eceu.
— Ah, isso foi m esm o — falou a dra. Paige, colocando um a m ão reconfortante no om bro da irm ã m ais m oça.
Bry ce ficou im pressionado com a força e resistência em ocionais da doutora. Parecia estar aguentando cada choque que Snowfield lhe proporcionava. Na verdade, parecia até estar resistindo m elhor do que os seus próprios hom ens. Os olhos dela eram os únicos que não se desviavam quando ele os fitava. Retribuía o olhar, francam ente. Esta, pensou ele, é um a m ulher especial.
— Im possível — falou Frank Autry. — Foi isso. Sim plesm ente im possível.
— Que diabo, o que está havendo com vocês? — indagou Wargle. Franziu o rosto gordo. — Foi só um pássaro. Era só isso que estava lá fora. Só um a droga de um pássaro.
— Um a ova que foi — falou Frank.
— Só um pássaro noj ento — insistiu Wargle. Quando os outros discordaram , ele falou: — A luz fraca e todas aquelas som bras lá fora dão um a im pressão falsa. Vocês não viram o que acham que viram .
— E o que você acha que vim os? — perguntou-lhe Tal. O rosto de Wargle ficou verm elho. — Será que vim os a m esm a coisa que você viu, a coisa em que não quer acreditar? — insistiu Tal. — Um a m ariposa? Viu um a m aldita m ariposa, grande, feia, im possível?
Wargle fitou os sapatos.
— Vi um pássaro. Apenas um pássaro.
Bry ce se deu conta de que Wargle era tão com pletam ente desprovido de im aginação que não conseguia aceitar a possibilidade do im possível, nem m esm o quando o havia testem unhado com os próprios olhos.
— De onde ela veio?—perguntou Bry ce. Ninguém soube dizer.
— O que queria? — continuou Bry ce.
— Queria a gente — respondeu Lisa.
Todos pareciam concordar com a opinião dela.
— Mas aquela coisa na j anela não foi o que pegou o Jake — disse Frank. — Era frágil, levinha. Não poderia levar em bora um hom em adulto.
— Então o que pegou o Jake? — perguntou Gordy.
— Um a coisa m aior — falou Frank. — Um a coisa bem m ais forte e perversa.
Bry ce concluiu que, afinal de contas, era chegada a hora de lhes contar sobre as coisas que ouvira — e sentira — ao telefone, no intervalo dos seus telefonem as para o governador Retlock e o general Copperfield: a presença silenciosa; o grito triste das gaivotas; o ruído de advertência de um a cascavel; e o pior de tudo, os gritos de agonia e desespero de hom ens, m ulheres e crianças. Não tinha a intenção de tocar naquele assunto até a m anhã seguinte, até a chegada da luz do sol e dos reforços. Mas eles poderiam perceber algo im portante que ele deixara passar, algum detalhe, algum a pista que seria útil. Além disso, agora que tinham Iodos visto a coisa na j anela, o incidente do telefone, por com paração, m io era m ais m uito chocante.
Os outros escutaram Bry ce falar, e essa nova inform ação teve uni efeito negativo no com portam ento deles.
— Que espécie de degenerado gravaria os gritos de suas vítim as? — perguntou Gordy.
Tal Whitm an balançou a cabeça.
— Podia ser outra coisa. Podia ser...
— O quê?
— Bem , talvez nenhum de vocês queira escutar isso neste m om ento
— Já que com eçou, vá até o fim — insistiu Bry ce.
— Bem — falou Tal —, e se não foi um a gravação que você ouviu? Quero dizer, sabem os que desapareceu gente de Snowfield. Na verdade, pelo que vim os, tem m ais gente desaparecida do que m orta.
Portanto... e se os desaparecidos estão presos em algum lugar? Com o reféns? Quem sabe os gritos viessem de gente ainda viva, que estava sendo torturada e m orta talvez naquele m om ento, bem na hora em que você tinha o fone no ouvido.
Lem brando-se daqueles gritos terríveis, Bry ce sentiu a m edula congelar lentam ente.
— Quer tenha sido ou não gravado — disse Frank Autry —, é provável que sej a um erro pensar em term os de reféns.
— É — falou a dra. Paige. — Se o sr. Autry está querendo dizer que tem os que ter cuidado para não lim itar nossas ideias a situações convencionais, concordo inteiram ente. Isso não m e parece um dram a de reféns. Algo trem endam ente esquisito está acontecendo aqui, algo que ninguém ainda encontrou antes, portanto não vam os cair em erro só porque nos sentim os m ais confortáveis com explicações aconchegantes e fam iliares. Além disso, se estam os lidando com terroristas, com o é que isso com bina com aquela coisa que vim os na j anela?
Bry ce assentiu.
— Tem razão. Mas não creio que Tal tenha querido dizer que as pessoas estão sendo m antidas com o reféns por m otivos convencionais.
— Não, não — disse Tal. — Não precisa ser coisa de terrorista ou de sequestrador. Se há pessoas m antidas com o reféns, isso não quer dizer necessariam ente que haj a outras pessoas prendendo-as. Estou até disposto a considerar que estão sendo aprisionados por algo que não é hum ano. Se isso não é ser liberal, o que é? Talvez aquilo as estej a aprisionando, o aquilo que nenhum de nós pode definir. Quem sabe as estej a aprisionando apenas para prolongar o prazer que sente em acabar com a vida delas. Quem sabe as estej a aprisionando apenas para nos provocar com os seus gritos, do j eito que provocou Bry ce ao telefone. Que diabo, se estam os lidando com algo verdadeiram ente extraordinário, verdadeiram ente inum ano, os seus m otivos para fazer reféns — se é que fez algum — certam ente serão incom preensíveis.
— Pom bas, vocês estão falando com o lunáticos — disse Wargle.
Todos o ignoraram .
Tinham atravessado o espelho. O im possível era possível. O inim igo era o desconhecido.
Lisa Paige pigarreou. Seu rosto estava cinzento. Num a voz que m al se ouvia, disse:
— Quem sabe teceu um a teia em algum lugar, num lugar escuro, num porão ou num a caverna, am arrou nela todas as pessoas desaparecidas, envolveu-as em casulos, vivas. Quem sabe está guardando-as só para quando tiver fom e de novo?
Se não havia absolutam ente nada que ficasse além da esfera da possibilidade, se até m esm o as teorias m ais ousadas podiam se confirm ar, então talvez a m ocinha estivesse certa, pensou Bry ce. Talvez houvesse um a leia enorm e vibrando baixinho em algum lugar escuro, cheia de guloseim as, cem , duzentos ou m ais hom ens-m ulheres-crianças em balados individualm ente para conservarem o frescor e facilitar o consum o. Em algum canto de Snowfield havia seres hum anos que tinham sido reduzidos ao terrível equivalente de tortinhas em brulhadas em alum ínio, esperando apenas servir de alim ento para algum horror de outra dim ensão, brutal, inim aginavelm ente perverso, som briam ente inteligente.
Não. Ridículo.
Por outro lado: talvez.
Jesus.
Bry ce se agachou em frente ao rádio de ondas curtas e espiou as suas entranhas destroçadas. Os painéis dos circuitos tinham sido arrancados. Várias partes pareciam ter sido esm agadas num torno ou am assadas com m artelo.
Frank disse:
— Eles teriam que retirar a chapa protetora para m exer nisso aí, com o nós retiram os.
— Então, depois que esculham baram com a m erda toda — disse Wargle —, por que teriam se dado ao trabalho de recolocar a chapa?
— E por que se dar a todo esse trabalho, só para com eço de conversa? — questionou-se Frank. — Bastaria arrancar o fio do lugar para o rádio deixar de funcionar.
Lisa e Gordy apareceram quando Bry ce estava se afastando do rádio. A m ocinha falou:
A com ida e o café estão prontos, se alguém quiser com er algum a coisa.
— Estou m orrendo de fom e — disse Wargle, lam bendo os lábios.
— Todos devem os com er algum a coisa, m esm o sem vontade — falou Bry ce.
— Xerife — falou Gordy —, Lisa e eu estivem os pensando nos anim ais, nos bichinhos de estim ação. Nós fom os levados a pensar nisso porque o senhor falou que tinha ouvido ruídos de cães e gatos ao telefone. Senhor, o que aconteceu a todos os bichos de estim ação?
— Ninguém viu nem gatos nem cachorros — falou Lisa. — Nem escutou nenhum latido.
Pensando nas ruas silenciosas, Bry ce franziu o cenho e falou: — Tem razão. É estranho.
— Jenny falou que há uns cachorros bem grandes na cidade.
Alguns pastores alem ães. Pelo m enos um doberm an que ela conhece.
Até m esm o um dinam arquês. Não acha que eles teriam lutado? Não acha que alguns dos cachorros teriam conseguido escapar? — perguntou a garota.
— Vam os adm itir — falou Gordy rapidam ente, antecipando a resposta de Bry ce — que a coisa fosse grande bastante para dom inar um cachorro norm al e zangado. Sabem os tam bém que as balas não puderam detê-la, o que significa que talvez nada possa. É
aparentem ente grande e m uito forte. Porém , senhor, grande e forte não contam m uito, necessariam ente, para um gato. Os gatos são uns verdadeiros raios. Seria preciso algo um bocado traiçoeiro para pegar todos os gatos da cidade.
— Um bocado traiçoeiro e um bocado ligeiro — falou Lisa.
— É — com entou Bry ce, inquieto. — Um bocado ligeiro.
Jenny estava com eçando a com er um sanduíche quando o xerife Ham m ond se sentou num a cadeira ao lado da escrivaninha, equilibrando o prato no colo.
— Im porta-se de ter um pouco de com panhia?
— De m odo algum .
— Tal Whitm an andou m e contando que a senhora é o flagelo da nossa gangue de m otoqueiros local.
Ela sorriu.
— Tal está exagerando.
— Aquele hom em não sabe o que é exagerar — falou o xerife. — Deixe-m e contar-lhe um a coisa a respeito dele. Há um ano e pouco viaj ei para Chicago a fim de participar de um a conferência sobre atividades policiais. Fiquei fora três dias e, quando voltei, Tal foi a prim eira pessoa que vi. Perguntei-lhe se tinha acontecido algum a coisa de especial enquanto eu estivera fora, e ele m e disse que tinham ocorrido as coisas de sem pre, m otoristas bêbados, brigas de bar, uns furtos, diversos GNA...
— O que é GNA? — perguntou Jenny.
— Ah, é um cham ado para gato-na-árvore.
— Os policiais não salvam m esm o os gatos, não é?
— Acha que não tem os coração? — perguntou, fingindo estar chocado.
— GNA? Ora, vam os!
Ele abriu um sorriso. Tinha um sorriso m aravilhoso.
— Lá um a vez em cada dois m eses nós tem os que tirar um gato de cim a de um a árvore. Mas um GNA não quer dizer apenas gatos nas árvores. É nosso código para qualquer tipo de cham ada chatinha que nos afaste de trabalhos m ais im portantes.
— Ah!
— Bem , então, quando voltei de Chicago, aquela vez, Tal m e disse que tinham sido três dias bem com uns. E depois, quase com o se só então tivesse se lem brado, contou que houvera um a tentativa de roubo, num m ercado 7-Eleven. Tal era apenas um freguês, à paisana, quando o fato ocorrera. Um tira, porém , m esm o quando não está de serviço, é obrigado a andar arm ado, e Tal tinha um revólver num coldre de tornozelo. Ele m e contou que um dos m arginais estava arm ado, e que fora forçado a m atá-lo; que eu não devia m e preocupar pensando se fora hom icídio j ustificado ou não. Disse que fora m ais do que j ustificado. Quando fiquei preocupado com ele, falou: "Bry ce, foi um a sopa." Mais tarde, fiquei sabendo que os dois m arginais tinham pretendido atirar em todo m undo. Então Tal atirara num deles...
em bora tivesse sido atingido antes. O m arginal enfiara um a bala no braço esquerdo de Tal, e, um a fração de segundo m ais tarde, Tal o m atara. O ferim ento de Tal não era sério, m as sangrava pra diabo, e deve ter doído um a barbaridade. Naturalm ente eu não reparara na atadura porque estava debaixo da m anga da cam isa, e Tal não se dera ao trabalho de falar no assunto. Bem , então, lá está Tal no 7-Eleven, sangrando feito um desesperado, e descobre que está sem m unição. O
segundo bandido, que pegou a arm a que o prim eiro deixara cair, tam bém está sem m unição, e resolve correr. Tal vai no seu encalço; eles se atracam e rolam de um lado para o outro da pequena m ercearia. O
suj eito tinha cinco centím etros e nove quilos a m ais do que Tal, não estava ferido. Mas sabe o que o guarda que atendeu ao cham ado contou que encontraram , quando chegaram ao local? Que Tal estava sentado no balcão ao lado da caixa registradora, sem cam isa, tom ando um cafezinho de cortesia, enquanto o funcionário tentava estancar o fluxo de sangue. Um dos suspeitos estava m orto. O outro estava inconsciente, esparram ado no m eio de um a m assa pegaj osa de Hostess Twinkies, Fudge Fantasies e bolinhos de coco. Parece que tinham derrubado um a prateleira cheia de bolinhos e m erendas bem no m eio da luta. Cerca de cem pacotes de guloseim as tinham se esparram ado pelo chão, e Tal e o outro suj eito tinham pisoteado tudo enquanto se atracavam . A m aioria dos pacotes se abrira. Havia coberturas, biscoitos esfarelados e Twinkies esm agados por todo um corredor. Todo aquele lixo estava cheio de pegadas incertas, e dava para se acom panhar o progresso da briga olhando para a trilha pegaj osa.
O xerife term inou a sua história e olhou para Jenny, na expectativa.
— Ah, e ele tinha dito ao senhor que fora um a prisão fácil...
um a sopa.
— Pois é — riu-se o xerife.
Jenny lançou um olhar para Tal Whitm an, que estava do outro lado da sala, com endo um sanduíche e conversando com o guarda Brogan e Lisa.
— Então — continuou o xerife —, quando Tal m e diz que a senhora é o flagelo da Dem on Chrom e, sei que não está exagerando.
Exagero não faz o gênero dele.
Jenny sacudiu a cabeça, im pressionada.
— Quando contei a Tal sobre o m eu breve encontro com esse hom em que ele cham a de Gene Terr, ele agiu com o se pensasse que era um a das coisas m ais coraj osas que alguém j á fizera. Com parado com a "sopa" dele, a m inha história deve ter parecido um a disputa num play ground de j ardim de infância.
— Não, não — falou Ham m ond. — Tal não estava apenas sendo gentil. Ele realm ente acha que a senhora fez um a coisa coraj osa pra burro. E eu tam bém . O Jeeter é um a cobra, dra. Paige. Do tipo venenoso.
— Pode m e cham ar de Jenny, se quiser.
— Bem , Jenny -se-quiser, pode m e cham ar de Bry ce.
Ele tinha os olhos m ais azuis que ela j á vira. Seu sorriso se definia tanto por aqueles olhos lum inosos quanto pela curva da boca.
Enquanto com iam , conversavam sobre coisas inconsequentes, com o se aquela fosse um a noite com um . Ele possuía um a capacidade im pressionante de deixar as pessoas à vontade, a despeito das circunstâncias. Trazia consigo um a aura de tranquilidade. Ela se sentiu agradecida pelo interlúdio calm o.
Quando term inaram de com er, todavia, ele voltou a conduzir a conversa de volta à crise que estavam enfrentando.
— Você conhece Snowfield m elhor do que eu. Tem os que encontrar um quartel-general adequado para esta operação. Este lugar é pequeno dem ais. Logo terem os m ais dez hom ens aqui. E a equipe de Copperfield pela m anhã.
— Quantos hom ens ele vai trazer?
— Pelo m enos doze. Talvez até vinte. Preciso de um QG de onde cada aspecto da operação possa ser coordenado. Talvez fiquem os aqui por vários dias, então é preciso que haj a um quarto onde o pessoal que não está de serviço possa dorm ir, e tam bém precisam os de um a lanchonete para alim entar todo m undo.
— Um a das estalagens seria o lugar ideal — disse Jenny.
— Talvez. Mas não quero o pessoal dorm indo de dois em dois em m uitos quartos diferentes. Ficariam vulneráveis dem ais. Tem os que bolar todo m undo num único dorm itório.
— Então, o Hilltop Inn é a m elhor solução. Fica a um a quadra daqui, do outro lado da rua.
— Ah, sim , claro. O m aior hotel da cidade, não é?
— É. O Hilltop tem um saguão bem grande porque funciona tam bém com o bar.
— Já tom ei um drinque ali um a ou duas vezes. Se m odificarm os o m obiliário do saguão, podem os transform á-lo num a área de trabalho para acom odar lodo m undo.
— Tem tam bém um grande restaurante dividido em duas salas.
Um a parte poderia ser um a lanchonete e poderíam os trazer colchões dos quartos e usar a outra m etade do restaurante com o dorm itório.
— Vam os dar um a olhada nele — falou Bry ce.
Ele largou o prato de papel vazio em cim a da m esa e se pôs de pé.
Jenny lançou um olhar às j anelas da frente. Pensou na estranha criatura que voam de encontro ao vidro e, m entalm ente, ouviu o barulho suave m as frenético: tum tum tum tum .
— Quer dizer... dar um a olhada agora?
— Por que não?
— Não seria m elhor esperar pelos reforços? — perguntou.
— Provavelm ente ainda dem orarão um pouco para chegar. Não faz sentido ficar parado olhando para ontem . Todos vam os nos sentir m elhor se estiverm os fazendo algum a coisa construtiva. Vai desviar a nossa atenção... das coisas piores que j á vim os.
Jenny não conseguia se libertar da lem brança daqueles olhos negros de inseto, tão m alévolos, tão esfaim ados. Fitou as j anelas, fitou a noite além delas. A cidade não m ais lhe parecia fam iliar. Era totalm ente estranha agora, um lugar hostil no qual ela era um a desconhecida m al acolhida.
— Não estam os nem um pouquinho m ais seguros aqui do que estaríam os ali — falou Bry ce, gentilm ente.
Jenny assentiu, lem brando-se dos Oxley s no seu quarto com barricada. Ao se levantar da escrivaninha, falou: — Não há segurança em lugar algum .