Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 14 de 48

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Fantasmas

Capítulo 13

Subitamente

 

Jake Johnson desaparecera.

Antes que Tal pudesse localizar a lanterna intacta, aquela que Frank Autry deixara cair, as luzes do m ercado piscaram e depois se acenderam , firm es e fortes. A escuridão não durara m ais do que quinze ou vinte segundos.

Mas Jake sum ira.

Procuraram -no. Não estava nos corredores, na geladeira de carne, no depósito, no escritório nem no banheiro dos em pregados.

Saíram do m ercado — agora em núm ero de sete — atrás de Bry ce, m ovendo-se com extrem a cautela, esperando encontrar Jake do lado de fora, na rua. Mas ele não estava lá.

O silêncio de Snowfield era um grito m udo e zom beteiro de ridículo.

Tal Whitm an achou que a noite parecia agora infinitam ente m ais escura do que fora há alguns m inutos. Era um im enso papo no qual tinham entrado, inadvertidam ente. Esta noite profunda e atenta estava com fom e.

— Onde é que ele pode ter ido? — perguntou Gordy, parecendo um tanto selvagem , com o sem pre parecia quando franzia o cenho, m uito em bora, no m om ento, estivesse apenas com m edo.

— Ele não foi a lugar algum — disse Stu Wargle. — Ele foi levado.

— Não pediu socorro.

— Nem teve chance.

— Acha que ele está vivo... ou m orto? — perguntou a m ais j ovem das Paiges.

— Bonequinha — falou Wargle, esfregando a barba por fazer na ponta do queixo —, eu não ficaria cheia de esperança, se fosse você.

Aposto o m eu últim o tostão com o vam os achar Jake em algum lugar, duro feito um a tábua, todo inchado e roxo com o os outros todos.

A m ocinha estrem eceu e se acercou m ais da irm ã. Bry ce Ham m ond disse:

— Calm a, não vam os dar Jake por perdido assim tão depressa.

— Concordo — m anifestou-se Tal. — Existe m uita gente m orta nesta cidade. Mas m e parece que a m aioria não está m orta. Apenas desaparecida.

— Estão todos m ais m ortos do que bebês sob o efeito do napalm . Não é m esm o, Frank? — Wargle não perdia um a chance de im plicar com Frank sobre o tem po que este servira no Vietnã. — Só que ainda não os encontram os.

Frank não se deu por achado. Tinha inteligência e autocontrole dem ais para isso. Falou:

— O que não entendo é por que aquilo não nos pegou a todos quando teve a chance. Por que apenas derrubou Tal?

— Eu ia acender a lanterna — disse Tal. — Aquilo não queria que eu o fizesse.

— É — disse Frank —, m as por que Jake foi o único a ser agarrado, e por que se m andou logo depois?

— Está brincando conosco — disse a dra. Paige. A luz da rua fazia seus olhos faiscarem com um fogo verde. — É com o eu falei na hora do sino da igrej a e da sirene. É com o um gato brincando com os ratos.

— Mas por quê? — indagou Gordy, exasperado. — O que consegue com tudo isso? O que é que aquilo quer?

— Esperem aí — aparteou Bry ce. — Que história é essa de todo m undo estar falando em "aquilo"? Da últim a vez em que fiz um a pesquisa inform al, m e parece que o consenso geral era que som ente um bando de assassinos psicopatas poderia ter feito isso. Maníacos. Gente.

Eles se entreolharam , inquietos. Ninguém estava ansioso para dizer o que lhe passava pela cabeça. Coisas inim agináveis agora eram im agináveis. Eram coisas que pessoas razoáveis não conseguiam verbalizar com facilidade.

O vento soprou na escuridão e as árvores obedientes se inclinaram , reverentes.

As luzes da rua piscaram .

Todos se sobressaltaram , assustados com a inconstância da luz.

Tal levou à m ão ao revólver no coldre. Mas as luzes não se apagaram .

Ficaram atentos à cidade sepulcral. O único som era o sussurro das árvores agitadas pelo vento, que era com o a últim a, longa expiração antes do túm ulo, um últim o suspiro extenso.

Jake está m orto, pensou Tal. Ao m enos desta vez Wargle tem razão. Jake está m orto, e talvez nós todos tam bém estej am os, só que ainda não sabem os.

Voltando-se para Frank Autry, Bry ce perguntou: — Frank, por que você falou "aquilo", em vez de "eles", ou coisa parecida?

Frank lançou um olhar para Tal, buscando apoio, m as Tal tam bém não sabia ao certo por que ele próprio dissera "aquilo". Frank pigarreou. Passou o peso do corpo de um pé para o outro e olhou para Bry ce. Deu de om bros.

— Bem , senhor, acho que falei "aquilo" porque... bem ... um soldado, um adversário hum ano, nos teria feito em pedaços logo ali no m ercado, quando tinha a oportunidade, a todos nós de um a vez, na escuridão.

— Então você acha... o quê? Que este adversário não é hum ano?

— Talvez possa ser algum tipo de... anim al.

— Anim al? É m esm o isso que você acha? Frank parecia m uitíssim o constrangido.

— Não, senhor.

— Então, o que é que você acha? — perguntou Bry ce.

— Que diabo, não sei o que pensar — falou Frank, frustrado, — Com o sabe, tive treinam ento m ilitar. Um m ilitar não gosta de entrar às cegas em qualquer situação. Gosta de planej ar cuidadosam ente a sua estratégia. Mas um planej am ento estratégico eficiente depende de uni conj unto confiável de experiências. O que aconteceu em batalhas sem elhantes em outras guerras? O que outros hom ens fizeram em circunstâncias sem elhantes? Tiveram êxito ou fracassaram ? Desta vez, porém , não baterm os de com paração. Não há nenhum a experiência a que se recorrer. Isso é estranho dem ais. Vou continuar pensando no inim igo com o um "aquilo" neutro e sem rosto.

Voltando-se para a dra. Paige, Bry ce falou: — E quanto à senhora? Por que tam bém em pregou a palavra "aquilo"?

— Não tenho certeza. Talvez porque o guarda Autry a tenha em pregado.

— Mas foi a senhora que propôs a teoria de um a espécie m utante de raiva que poderia criar um bando de m aníacos hom icidas.

Está se descartando dela agora?

Ela franziu o cenho.

— Não. A esta altura não podem os nos descartar de nada.

Porém , xerife, eu nunca quis dizer que aquela fosse a única teoria possível.

— Tem outras?

— Não.

— E quanto a você? — perguntou Bry ce a Tal.

Tal se sentia tão constrangido quanto Frank aparentara estar.

— Bem , acho que usei "aquilo" porque não posso m ais aceitar a teoria de m aníacos hom icidas.

As pálpebras pesadas de Bry ce se ergueram m ais do que habitualm ente:

— Ah, é? E por que não?

— Por causa do que aconteceu na Candleglow Inn. Quando descem os e encontram os aquela m ão na m esa do saguão, segurando o lápis de sobrancelha que estávam os procurando... bem ... isso não m e pareceu o que um biruta hom icida faria. Todos nós som os tiras há bastante tem po e j á lidam os com a nossa cota de desequilibrados.

Algum de vocês j á encontrou um tipo desses com senso de hum or? Até m esm o um senso de hum or pervertido? São gente sem hum or.

Perderam a capacidade de rir de qualquer coisa, o que é provavelm ente parte do m otivo pelo qual são m alucos. Assim , logo que vi aquela m ão na m esa do saguão, a coisa pareceu não se encaixar. Concordo com Frank; pelo m enos no m om ento, vou pensar no nosso inim igo com o um "aquilo" sem rosto.

— Por que nenhum de vocês adm ite o que está sentindo? — perguntou baixinho Lisa Paige. Ela tinha quatorze anos, um a adolescente prestes a se tornar um a linda m oça, m as fitava cada um deles com o olhar franco e direto de um a criança. — De certa form a, bem lá no fundo, onde lealm ente im porta, todos sabem os que não foi gente que fez aquelas coisas. É um a coisa realm ente terrível... pom bas, dá para a gente sentir... um a coisa estranha e noj enta. Sej a lá o que for, nós estam os sentindo. Estam os Iodos com m edo dela. Então estam os tentando, de todas as form as, não adm itir que ela existe.

Som ente Bry ce retribuiu o olhar da m ocinha. Fitou-a, pensativo.

Os outros desviaram o olhar de Lisa. Tam bém não estavam querendo fitar uns aos outros.

Nos não estam os querendo olhar para dentro de nós m esm os, pensou Tal, e é exatam ente isto o que a garota está dizendo que façam os. Não querem os olhar para dentro e encontrar superstições prim itivas. Som os todos adultos, civilizados, razoavelm ente intruídos, e os adultos não devem acreditar em bicho-papão.

— Lisa tem razão — falou Bry ce. — O único m odo de resolver esta parada — talvez o único m odo de evitarm os virar vítim as tam bém — é ficar de cabeça aberta e soltar a im aginação.

— Concordo — falou a dra. Paige. Gordy Brogan sacudiu a cabeça.

— Mas, então, em que devem os pensar? Em qualquer coisa?

Quero dizer, não deve haver lim ites? Devem os com eçar a nos preocupar com fantasm as, assom brações, lobisom ens e... e vam piros? Tem que haver algum as coisas que possam os elim inar.

— Claro — disse Bry ce, pacientem ente. — Gordy, ninguém está dizendo que estam os lidando com fantasm as e lobisom ens. Mas tem os que nos dar conta de que estam os lidando com o desconhecido. Isso é tudo. O desconhecido.

— Não aceito isso — disse Stu Wargle, em burrado. — O desconhecido, um a ova. No final das contas, vam os ver que tudo foi obra de algum pervertido, algum lixo hum ano m uito parecido com todo o lixo hum ano com que j á lidam os antes.

— Wargle — disse Frank —, o seu j eito de pensar é exatam ente o que fará com que deixem os passar provas im portantes. E tam bém é o j eito de pensar que nos m atará a todos.

— Esperem só — disselhes Wargle. — Vocês vão ver que tenho razão.

Cuspiu na calçada, enfiou os polegares no cinturão e tentou dar a im pressão de que era o único hom em sensato do grupo.

Tal Whitm an viu o que havia por trás da atitude de m achão; viu o terror em Wargle tam bém . Em bora fosse um dos hom ens m ais insensíveis que Tal j á conhecera, Stu não ignorava a reação prim itiva de que Lisa Paige falara. Quer adm itisse, quer não, sentia claram ente o m esm o frio nos ossos que percorria todos eles.

Frank Autry tam bém viu que o ar im perturbável de Wargle não passava de um a pose. Num tom de adm iração exagerada e insincera, Frank falou:

— Stu, você nos fortifica com seu belo exem plo. Inspira-nos. O que faríam os sem você?

— Sem m im — retrucou Wargle, com azedum e — vocês desceriam latrina abaixo, Frank.

Fingindo pesar, Frank olhou para Tal, Gordy e Bry ce.

— Esse cara não é um pretensioso?

— Claro que é. É um pretensioso e um cabeça-de-vento — falou Tal. — Só que essa últim a qualidade não é culpa dele; é o resultado dos esforços desesperados da natureza para preencher um vácuo.

Era um a piadinha boba, m as provocou grandes risadas. Em bora Stu gostasse de dar alfinetadas nos outros, não gostava de ser o alvo delas. No entanto, até m esm o ele conseguiu dar um sorriso.

Tal sabia que não era bem da piada que estavam rindo, m as sim da Morte, rindo dela na sua cara esquelética.

Quando as risadas cessaram , porém , a noite ainda estava som bria.

A cidade ainda estava inaturalm ente silenciosa.

Jake Johnson ainda estava desaparecido.

E aquilo ainda estava à solta.

A dia. Paige virou-se para Bry ce Ham m ond e perguntou: — Está pronto para ir dar um a olhada na casa dos Oxlcy s?

Bry ce balançou a cabeça.

— Não no m om ento. Nilo creio que sej a sensato continuarm os as nossas explorações até conseguirm os reforçou, Nilo vou perder outro hom em . Não se puder evitar.

Tal notou a angústia nos olhos de Hry co quando ele m encionou Jake.

Pensou: Bry ce, m eu am igo, você sem pre assum e dem ais a responsabilidade quando algo dá errado, do m esm o m odo que sem pre se apressa a partilhar o crédito para êxitos que foram inteiram ente seus.

— Vam os voltar para a subdelegacia — disse Bry ce. — Tem os que planej ar cuidadosam ente nossos m ovim entos, é preciso dar uns telefonem as.

Voltaram pelo m esm o cam inho por que tinham vindo. Stu Wargle, ainda resolvido a provar que não tinha m edo, insistiu em fechar a retaguarda desta feita, e foi atrás dos outros, andando com arrogância.

Ao chegarem à Sky line Road, um sino de igrej a tocou, sobressaltando-os. Tocou de novo, lentam ente, de novo...

Tal sentiu o som m etálico vibrar nos dentes.

Todos tinham parado num a esquina, atentos ao sino e olhando para o leste, para a outra extrem idade da Vail Lane. A pouco m ais de um a quadra de distância, um a torre de igrej a de tij olos sobressaia acim a dos outros prédios. Havia um a luzinha pequena em cada canto do telhado de ardósia pontudo do cam panário.

— A igrej a católica — inform ou-lhes a dra. Paige, erguendo a voz para com petir com o sino. — Atende a todas as cidades da redondeza.

Nossa Senhora das Montanhas.

O soar de um sino de igrej a podia ser um a m úsica alegre. Mas nada havia de alegre nesse aí, concluiu Tal.

— Quem será que o está tocando? — perguntou-se Gordy, em voz alta.

— Pode ser que não haj a ninguém tocando — falou Frank. — Talvez ele estej a lidado a um dispositivo m ecânico de algum tipo; provavelm ente a um cronôm etro.

No cam panário ilum inado, o sino balançava, lançando um reflexo de bronze j untam ente com a sua única nota lím pida.

— Ele geralm ente toca a esta hora no dom ingo à noite? — perguntou Bry ce à dra. Paige.

— Não.

— Então não está ligado a um cronôm etro. A um a quadra de distância, bem acim a do chão, o sino faiscou e tocou de novo.

— Então, quem está puxando a corda? — indagou Gordy Brogan.

Um a im agem m acabra surgiu na cabeça de Tal: Jake Johnson, pisado e inchado e m ortinho da silva, parado na câm era do tocador de sino na base da torre da igrej a, a corda segura nas m ãos exangues, m orto m as dem oniacam ente anim ado, m orto m as puxando a corda, apesar disso, puxando e puxando, o rosto m orto voltado para cim a, exibindo o sorriso largo e sem alegria de um cadáver, os olhos protuberantes fitando o sino que balançava e soava sob o telhado pontudo.

Tal estrem eceu.

— Talvez devêssem os ir até a igrej a para ver quem está lá — falou Frank.

— Não — disse Bry ce, im ediatam ente. — É isso que aquilo quer que façam os. Que vam os dar um a olhada. Que entrem os na igrej a.

Então apagará as luzes de novo...

Tal reparou que tam bém Bry ce, agora, estava usando o pronom e "aquilo".

— É — concordou Lisa Paige. — Aquilo está lá neste exato m inuto, esperando por nós.

Até m esm o Stu Wargle não estava preparado para encoraj á-los a visitar a igrej a esta noite.

No cam panário aberto, o sino visível balançava, lançando novos reflexos de bronze, balançava, cintilava, balançava, faiscava, com o se estivesse m andando um a m ensagem sem afórica de força hipnótica ao m esm o tem po que soava m onotonam ente: Você está ficando sonolento, m ais sonolento, quer dorm ir, dorm ir... está profundam ente adorm ecido, num transe... está em m eu poder... virá à igrej a... virá agora, venha, venha, venha à igrej a e vej a a surpresa m aravilhosa que o espera aqui... venha... venha...

Bry ce se sacudiu, com o que despertando de um sonho. Falou: — Se aquilo quer que vam os à igrej a, m ais um m otivo para não irm os. Nada m ais de explorações até o alvorecer.

Todos se afastaram da Vail Lane e cam inharam para o norte na Sky line Road, passando pelo Restaurante Mountainview, na direção da subdelegacia.

Tinham cam inhado talvez uns seis m etros quando o sino da igrej a parou de tocar.

Mais um a vez aquele silêncio irreal derram ou-se pela cidade com o um fluido viscoso, cobrindo tudo.

Quando chegaram à subdelegacia descobriram que o cadáver de Paul Henderson tinha desaparecido. Parecia que o delegado m orto sim plesm ente se levantara e saíra andando. Com o Lázaro.