Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 8 de 48

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Fantasmas

Capítulo 7

O xerife do condado

 

As autoridades do condado, com sede em Santa Mira, ainda não tinham tom ado ciência da crise de Snowfield. Tinham seus próprios problem as. O tenente Talbert Whitm an entrou na sala de interrogatórios j usto na hora em que o xerife Bry ce Ham m ond ligava o gravador e com eçava a inform ar o suspeito de seus direitos constitucionais. Tal fechou a porta sem fazer ruído. Sem querer interrom per, agora que o interrogatório estava com eçando, ele não se sentou à m esa em que os três outros hom ens se achavam sentados. Em vez disso, dirigiu-se à grande j anela, a única j anela, no aposento oblongo.

O departam ento policial do Condado de Santa Mira ocupava um a estrutura em estilo espanhol que fora erigida no final da década de 30. As portas eram sólidas e tinham um som sólido quando eram fechadas, e as paredes eram grossas o bastante para acom odar peitoris de j anela de 45cm de profundidade, com o aquele em que Tal Whitm an se instalara.

Do outro lado da j anela ficava Santa Mira, a sede do condado, com um a população de 18 m il alm as. Pela m anhã, quando o sol finalm ente chegava ao alto das Sierras e acabava com as som bras das m ontanhas, Tal às vezes se pegava olhando, espantado e encantado, para os contra-fortes suaves e arborizados onde se erguia Santa Mira, pois ela era um a cidade excepcionalm ente lim pa e j eitosa que lançara suas raízes de concreto e ferro com um certo respeito pelas belezas naturais em que crescera. Agora, a noite j á se instalara. Milhares de luzes brilhavam nas colinas suaves abaixo das m ontanhas, e parecia que as estrelas tinham caído aqui.

Para um filho do Harlem , negro com o um a som bra nítida de inverno, nascido na pobreza e na ignorância, Tal Whitm an linha acabado, aos trinta anos, num lugar bem inesperado. Inesperado, m as m aravilhoso.

Do lado de cá da j anela, todavia, a cena não era assim tão especial. A sala de interrogatórios se parecia com inúm eras outras em delegacias de polícia por todo o país. Um piso barato de linóleo.

Arquivos m uito castigados. Um a m esa redonda de reunião e cim o cadeiras. Paredes verdes. Lâm padas fluorescentes nuas.

Na m esa de reuniões no centro da sala, o ocupante atual da cadeira de suspeitos era um corretor im obiliário de 26 anos, alto e bem -apessoado, cham ado Fletcher Kale. Ele estava ficando num estado im pressionante de indignação j ustificada.

— Escute, xerife — dizia Kale —, vam os acabar logo com essa m erda? O senhor não precisa ler para m im os m eus direitos outra vez, pelo am or de Deus. Já não passam os por tudo isso unia dúzias de vezes, nos três últim os dias?

Bob Robine, o advogado de Kale, bateu rapidam ente no braço do cliente para fazer com que ele ficasse quieto. Robine era gorducho, de rosto redondo, com um sorriso doce m as com os olhos duros de um segurança de cassino.

— Fletch — disse Robine —, o xerife Ham m ond sabe que deteve você sob suspeita o m áxim o de tem po que a lei perm ite, e sabe que eu sei disso tam bém . Então, tudo que ele vai fazer é resolver isso de um j eito ou de outro dentro da próxim a hora.

Kale pestanej ou, assentiu e m udou de tática. Desabou na cadeira com o se um grande fardo de dor repousasse sobre seus om bros.

Quando falou, havia um leve trem or na sua voz.

— Desculpe se perdi a cabeça por um m inuto, xerife. Não devia ter estourado com o senhor daquele j eito. Mas é tão duro para m im ...

tão duro. — O rosto dele pareceu afundar, e o trem or na sua voz ficou ainda m ais pronunciado. — Quero dizer, pelo am or de Deus, perdi a m inha fam ília. Minha m ulher... m eu filho... os dois m ortos. Bry ce Ham m ond falou:

— Sinto m uito que o senhor ache que eu o tratei inj ustam ente, Sr. Kale. Apenas tento fazer o que acho ser m elhor. Às vezes estou certo. Quem sabe estej a errado desta vez.

Aparentem ente decidindo que não estava assim tão encrencado, afinal de contas, e que podia se dar ao luxo de ser m agnânim o agora, Fletcher Kale enxugou as lágrim as do rosto, sentou-se m ais ereto na cadeira e falou:

— Bem ... é, bem ... acho que dá para eu entender a sua posição, xerife.

Kale estava subestim ando Bry ce Ham m ond.

Bob Robine conhecia o xerife m elhor do que o seu cliente.

Franziu o cenho, lançou um olhar para Tal, depois fitou Bry ce insistentem ente.

Pela experiência de Tal, a m aioria das pessoas que lidava com o xerife subestim ava-o, assim com o Fletcher Kale o fizera. Era fácil fazê-lo. Bry ce não parecia im pressionante. Tinha 39 anos, m as aparentava bem m enos. O cabelo averm elhado e espesso lhe caía por sobre a testa, dando-lhe um ar j uvenil e desarrum ado. Tinha o nariz achatado, com um punhado de sardas espalhadas por ele e por am bas as faces. Os olhos azuis eram claros e vivos, em bora cobertos por pálpebras pesadas que davam a im pressão de que ele estava entediado, sonolento, ou m esm o que era m eio lerdo de raciocínio. A sua voz tam bém enganava.

Era suave, m elódica, gentil. Além do m ais, ele falava lentam ente às vezes, e sem pre com deliberação calculada, e algum as pessoas achavam que falava daquele j eito porque tinha dificuldade em form ular os pensam entos. Nada podia estar m ais longe da verdade. Bry ce Ham m ond tinha consciência perfeita de com o os outros o viam e, quando podia tirar vantagem disso, reforçava essas opiniões errôneas com um m odo de ser insinuante, com um sorriso quase boçal e com um a fala ainda m ais arrastada que faziam com que parecesse o clássico tira do interior.

Apenas um a coisa im pedia Tal de apreciar plenam ente esse confronto: ele sabia que a investigação Kale afetara Bry ce Ham m ond num nível profundo e pessoal. Bry ce estava m agoado, arrasado com as m ortes sem sentido de Joanna e Danny Kale, porque, de um a form a curiosa, este caso fazia eco aos acontecim entos ocorridos na sua própria vida. Assim com o Fletcher Kale, o xerife perdera m ulher e filho, em bora as circunstâncias de sua perda fossem consideravelm ente distintas das de Kale.

Um ano atrás, Ellen Ham m ond tivera m orte instantânea num desastre de carro. Tim m y, de sete anos, sentado no banco da frente ao lado da m ãe, sofrera sérios ferim entos na cabeça e estava em com a há doze m eses. Os m édicos não davam a Tim m y m uita chance de recobrar a consciência.

Bry ce quase fora destruído pela tragédia. Apenas recentem ente é que Tal Whitm an com eçara a sentir que o am igo estava se afastando do abism o do desespero.

O caso Kale reabrira as feridas de Bry ce Ham m ond, m as ele não perm itira que a dor lhe em botasse os sentidos; ele não fizera com que ele se descuidasse de coisa algum a. Tal Whitm an sabia qual o m om ento preciso, na quinta à noite, em que Bry ce com eçara a suspeitar de que Fletcher Kale era culpado de dois assassinatos prem editados, pois subitam ente algo frio e im placável surgira nos olhos encobertos do xerife.

Agora, enquanto rabiscava num bloquinho am arelo com o se estivesse apenas parcialm ente interessado no interrogatório, o xerife falou:

— Sr. Kale, em vez de fazer um a série de perguntas às quais o senhor j á respondeu um a dúzia de vezes, por que não faço um resum o daquilo que o senhor nos contou? Se o m eu resum o parecer correto para o senhor, então poderem os prosseguir com esses itens sobre os quais gostaria que m e esclarecesse.

— Claro. Vam os term inar logo com isso e sair daqui — disse Kale.

— Tudo bem então — falou Bry ce. — Sr. Kale, segundo o seu testem unho, sua esposa, Joanna, sentia-se aprisionada no casam ento e na m aternidade, achava que era j ovem dem ais para ter tanta responsabilidade. Achava que tinha com etido um grande erro e que iria ter que pagar por ele o resto da vida. Queria curtir um pouco, queria fugir, então se voltou para as drogas. O senhor diria que foi assim que nos descreveu o estado de espírito dela.

— Foi — concordou Kale. — Exatam ente.

— Ótim o — falou Bry ce. — Então ela com eçou a fum ar m aconha. Não dem orou m uito para ela viver drogada quase o tem po todo. Durante dois anos e m eio o senhor viveu com um a viciada, o tem po todo esperando poder m odificá-la. Então, h;i um a sem ana, ela pirou de vez, quebrou um bocado de pratos e j ogou com ida pela cozinha, e o senhor teve um a trabalheira para conseguir acalm á-la. Foi então que descobriu que ela com eçara a usar recentem ente o PCP — que é cham ado de "pó de anj o" nas ruas. O senhor ficou chocado. Sabia que algum as pessoas ficam m aniacam ente violentas quando estão sob a influência do PCP; então fez com que ela lhe m ostrasse onde guardava o seu suprim ento e o destruiu. Depois, disse a ela que se voltasse a usar drogas perto de Danny novam ente, o senhor lhe daria um a surra que poderia m atá-la.

Kale pigarreou.

— Mas ela ficou rindo de m im . Disse que eu não era espancador de m ulheres e que não devia fingir que era um m achão. E m ais: "Porra, Fletch, seu eu te desse um chute no saco, você m e agradeceria por estar anim ando o seu dia."

— E foi aí que o senhor se descontrolou e com eçou a chorar? — perguntou Bry ce.

Kale respondeu:

— Bem .., é que eu m e dei conta de que não tinha nenhum a influência sobre ela.

Sentado no peitoril da j anela, Tal viu o rosto de Kale se retorcer de dor... ou de um a im itação razoável de dor. O filho da m ãe era bom .

— E quando o viu chorar — disse Bry ce —, ela caiu em si.

— Certo. Acho que... aquilo m exeu com ela... um hom enzarrão com o eu chorando feito um bebê. Ela tam bém chorou e prom eteu não tom ar m ais PCP. Conversam os sobre o passado, sobre o que tínham os esperado do casam ento, dissem os um bocado de coisas que talvez devêssem os ter dito antes e nos sentim os m ais próxim os do que nos últim os dois anos. Pelo m enos eu m e senti assim . Pensei que ela tam bém . Ela j urou que com eçaria a dim inuir o consum o de m aconha.

Ainda rabiscando, Bry ce falou: — Então, na quinta-feira passada, o senhor chegou cedo do trabalho e encontrou o seu filho, Danny, m orto no quarto de casal.

Escutou um barulho às suas costas. Era Joanna, segurando um cutelo de açougueiro, o m esm o que usara para m atar Danny.

— Ela estava drogada — disse Kale. — PCP. Pude perceber logo.

Aquela loucura nos olhos dela, o ar anim alesco.

— Ela berrou um bocado de baboseiras sobre cobras que m oravam dentro da cabeça das pessoas, sobre as pessoas sendo controladas por cobras perversas. O senhor foi se afastando dela, e ela veio atrás. O senhor não tentou tirar o cutelo de suas m ãos...

— Im aginei que seria m orto. Tentei argum entar com ela.

— Então o senhor continuou se afastando em círculos até chegar à m esinha-de-cabeceira onde guardava um 38 autom ático.

— Eu avisei a ela que largasse o cutelo. Eu avisei.

— Em vez disso, ela correu para cim a do senhor com o cutelo levantado.

Então o senhor atirou nela. Um a vez. No peito.

Kale agora estava inclinado para a frente, com o rosto nas m ãos.

O xerife largou a caneta. Pousou as m ãos sobre o estôm ago, com os dedos entrelaçados.

— Agora, sr. Kale, espero que o senhor possa ter m ais um pouquinho de paciência com igo. Só m ais um as perguntinhas e depois todos poderem os sair daqui e continuar vivendo as nossas vidas.

Kale tirou as m ãos do rosto. Estava claro para Tal Whitm an que Kale achava que "continuar vivendo as nossas vidas" queria dizer que ele seria finalm ente libertado.

— Estou bem , xerife. Pode prosseguir. Bob Robine não disse um a palavra.

Esparram ado na cadeira, parecendo frouxo e sem ossos, Bry ce Ham m ond disse:

— Enquanto o estivem os detendo sob suspeita, sr. Kale, surgiram algum as perguntas para as quais precisam os de respostas, a fim de poderm os ficar tranquilos com relação a essa coisa terrível. Bem , algum as dessas perguntas podem parecer m uito corriqueiras para o senhor, m uito indignas de gastarm os o m eu ou o seu tem po com elas.

São pequenas coisas, lenho que adm itir. O m otivo pelo qual estou continuando a incom odá-lo... bem , é porque quero ser reeleito no ano que vem , sr. Kale. Se os m eus oponentes m e pegarem em qualquer falha técnica, em qualquer coisinha, por m enor que sej a, vão fazer de tudo para transform ar a coisa num escândalo. Vão dizer que sou preguiçoso, que não sou m ais o m esm o, ou algo parecido.

Bry ce abriu um sorriso para Kale — um largo sorriso. Tal nem podia acreditar.

— Com preendo, xerife — falou Kale.

Do seu assento no vão da j anela, Talbert Whitm an se retesou e se inclinou para diante.

E Bry ce Ham m ond falou: — Bem , a prim eira coisa é... eu estava m e perguntando por que m otivo o senhor atirou na sua m ulher e depois lavou um bocado de roupa antes de nos ligar para com unicar o que acontecera.