Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 19 de 48

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Fantasmas

Capítulo 18

Londres, Inglaterra

 

Quando a m eia-noite chegou na Califórnia, eram oito horas da m anhã de segunda-feira em Londres.

O dia estava m elancólico. Nuvens cinzentas se derretiam sobre a cidade. Um a garoa constante e desanim adora caía desde antes do alvorecer. As árvores afogadas pendiam m urchas, as ruas cintilavam som briam ente e todo m undo que andava pelas calçadas parecia possuir guarda-chuvas pretos.

No Churchill Hotel, em Portm an Square, a chuva batia de encontro às j anelas e escorria pelos vidros, distorcendo a visão no refeitório. Raios ocasionais, cuj a luz passava pelas vidraças tom adas pela água, lançavam breves im agens im precisas de gotas de chuva nas toalhas de m esa brancas e lim pas.

Burt Sandler, de Nova York, em viagem de negócios a Londres, sentava-se a um a das m esas j unto à j anela, im aginando com o, em nom e de Deus, iria j ustificar o tam anho desta conta de café da m anhã na sua despesa de representação. O seu convidado com eçara pedindo um a garrafa de bom cham panhe: Mum m 's Extra Dry, que não era barato. Junto com o cham panhe, o seu convidado queria caviar — cham panhe e caviar no café da m anhã! — e duas qualidades de frutas frescas. E estava claro que o velhote ainda não parara de fazer os seus pedidos.

Do outro lado da m esa, o dr. Tim othy Fly te, o obj eto do espanto de Sandler, exam inava o cardápio com alegria infantil. Falou para o garçom :

— E quero tam bém um pouco dos seus croissants.

— Pois não, senhor — retrucou o garçom .

— Estão frescos?

— Estão sim , senhor. Bem frescos.

— Ótim o. E ovos — continuou Fly te. — Dois belos ovos, é claro, com a gem a m ole, e torradas com m anteiga.

— Torradas? — perguntou o garçom . — Além dos dois croissants, senhor?

— É, é sim — disse Fly te, roçando o dedo pelo colarinho ligeiram ente puído da cam isa branca. — E um a porção de bacon com os ovos.

O garçom pestanej ou.

— Sim , senhor.

Finalm ente, Fly te ergueu os olhos para Burt Sandler.

— O que é um café da m anhã sem bacon! Não estou certo?

— Eu tam bém sou adepto do ovos-com -bacon — concordou Burt Sandler, forçando um sorriso.

— Muito sensato da sua parte — falou Fly te, j udiciosam ente. Os óculos de aros largos tinham escorregado nariz abaixo e agora estavam encarapitados na ponta redonda e verm elha do próprio. Com um dedo com prido e m agro ele os recolocou no lugar.

Sandler reparou que a arm ação, na parte que repousava sobre o nariz, tinha sido quebrada e rem endada. O rem endo era tão nitidam ente am ador que ele desconfiou ter sido feito pelo próprio Fly te, para poupar dinheiro.

— As linguiças estão boas? — perguntou Fly te ao garçom . — Diga a verdade. Eu as devolverei im ediatam ente se não forem da m elhor qualidade.

— Tem os linguiças excelentes — assegurou-lhe o garçom . — Eu m esm o gosto m uito delas.

— Linguiças, então.

— Em vez do bacon, senhor?

— Não, não, não. Além dele — disse Fly te, com o se a pergunta do garçom não fosse apenas ditada pela curiosidade, m as pela burrice.

Fly te tinha 58 anos, m as parecia um a década m ais velho. O seu cabelo ralo e espetado se enroscava no alto da cabeça e sobressaía ao redor das orelhas grandes com o se estivesse cheio de eletricidade estática. Tinha o pescoço esquálido e enrugado; os om bros eram estreitos; o seu corpo tendia m ais para ossos e cartilagem do que para carne. Podia-se duvidar, legitim am ente, que fosse capaz de com er tudo aquilo que tinha pedido.

— Batatas — falou Fly te.

— Pois não, senhor — disse o garçom , anotando no bloco de pedidos, onde j á quase não havia espaço para escrever.

— Tem pasteizinhos doces? — indagou Fly te.

O garçom , um m odelo de com portam ento, dadas as circunstâncias, sem ter feito a m ais leve alusão à gula espantosa de Fly te, olhou para Burt Sandler, com o que a dizer: O seu avô é totalm ente senil, senhor, ou é um corredor de m aratonas que precisa de calorias?

Sandler apenas sorriu.

Para Fly te, o garçom falou:

— Tem os sim , senhor, de diversos tipos. Tem os um delicioso...

— Traga-m e um prato deles, variados. No final da refeição, é claro.

— Perfeitam ente, senhor.

— Bom . Ótim o. Excelente! — disse Fly te, todo sorridente.

Finalm ente, coin um a ponta de relutância, deixou de lado o seu cardápio.

Sandler quase soltou um suspiro de alívio. Pediu suco de laranj a, ovos, bacon e torradas, enquanto o professor Fly te aj eitava o cravo de um dia de idade preso à lapela do seu terno azul um tanto lustroso.

Quando Sandler term inou de fazer o seu pedido, Fly te inclinou-se para ele com ar de conspiração.

— Vai tom ar um pouco do cham panhe, sr. Sandler?

— Creio que vou aceitar um a ou duas taças — disse Sandler, esperando que as borbulhas liberassem a sua m ente e o aj udassem a form ular um a explicação digna de crédito para esta extravagância, um a história que pudesse convencer até m esm o os contadores parcim oniosos que exam inariam a conta com m icroscópio de elétron.

Fly te olhou para o garçom .

— Então é m elhor o senhor trazer duas garrafas.

Sandler, que estava sorvendo água gelada, quase se engasgou. O garçom se foi e Fly te espiou pela j anela m anchada de água ao lado da m esa deles.

— Que tem po horrível. Nova York no outono é assim ?

— Tem os nossa cota de dias chuvosos. Mas o outono pode ser belo às vezes.

— Aqui tam bém — disse Fly te. — Em bora eu im agine que tenham os m ais dias com o este do que vocês. A reputação de Londres para o tem po chuvoso não é inteiram ente im erecida.

O professor insistiu em conversar fiado até que o cham panhe e o caviar tivessem sido servidos, com o se tem esse que, tão logo o assunto de negócios tivesse sido discutido, Sandler m andaria prontam ente cancelar o resto do pedido.

Ele parece um personagem de Dickens, pensou Sandler.

Tão logo tinham feito um brinde, desej ando-se m utuam ente boa sorte, e tinham sorvido o Mum m 's, Fly te falou: — Quer dizer que veio desde Nova York para m e ver, não é?

Seus olhos brilhavam alegrem ente.

— Para ver diversos escritores, na verdade — falou Sandler. — Faço essa viagem um a vez ao ano. Sondo os livros em andam ento. Os autores britânicos são populares nos Estados Unidos, especialm ente os autores de thrillers.

— MacLean, Follet, Forsy the, Bagley, essa turm a?

— É, e alguns são m esm o m uito populares.

O caviar estava soberbo. Por insistência do professor, Sandler experim entou um pouco com cebola batidinha. Fly te enchia pequenas fatias de torradas com m ontes de caviar e com ia-o sem o auxílio de condim entos.

— Mas não vim apenas em busca de thrillers — explicou Sandler. — Estou atrás de outros gêneros tam bém . E de autores desconhecidos tam bém . E ocasionalm ente sugiro proj etos, quando tenho um assunto para um determ inado autor.

— Aparentem ente, tem algo em m ente para m im .

— Prim eiro, deixe-m e dizer-lhe que li O inim igo antigo logo que foi publicado e achei-o fascinante.

— Muitas pessoas acharam -no fascinante — falou Fly te. — Mas a m aior parte achou-o enfurecedor.

— Ouvi dizer que o livro criou problem as para o senhor.

— Virtualm ente apenas problem as.

— Tais com o?

— Perdi m eu cargo na universidade há quinze anos, na idade de 43 anos, quando a m aioria dos acadêm icos está adquirindo estabilidade no em prego.

— Perdeu o seu cargo por causa de O inim igo antigo?

— Eles não puseram a coisa nesses term os — disse Fly te —-, engolindo um bocado de caviar. — Isso faria com que parecessem ter a m ente m uito estreita. Os adm inistradores da m inha faculdade, o chefe do m eu departam ento e a m aior parte dos m eus ilustres colegas preferiram atacar indiretam ente. Meu caro sr. Sandler, a com petição entre políticos am biciosos e as atitudes m aquiavélicas dos j ovens executivos nas grandes com panhias são ninharias, em term os de baixeza e perversidade, quando com paradas ao com portam ento dos acadêm icos que, de repente, vislum bram um a oportunidade de galgar os degraus da vida universitária à custa de um colega. Espalharam boatos sem fundam ento, noj eiras escandalosas sobre as m inhas preferências sexuais, sugestões de confraternização íntim a com as m inhas alunas. E com os m eus alunos tam bém , diga-se de passagem .

Nenhum a dessas calúnias foi discutida abertam ente num fórum onde eu pudesse refutá-las. Apenas boatos, m urm urados por trás das costas.

Venenosos.

Mais abertam ente, fizeram sugestões polidas de incom petência, excesso de trabalho, fadiga m ental. Foram m e elim inando aos poucos, entende, em bora para m im isso fosse tão penoso quanto um a dem issão abrupta. Dezoito m eses depois da publicação de O inim igo antigo, tinham m e posto na rua. E nenhum a outra universidade queria m e aceitar, ostensivam ente por causa de m inha m á reputação. O verdadeiro m otivo, é claro, era que m inhas teorias eram excêntricas dem ais para os gostos acadêm icos. Fui acusado de tentar fazer fortuna explorando o gosto do hom em com um pela pseudociência e pelo sensacionalism o, de vender a m inha credibilidade.

Fly te parou para tom ar m ais um gole de cham panhe, saboreando-o. Sandler ficou genuinam ente chocado com o que Fly te lhe contara.

— Mas isso é um absurdo! O seu trabalho foi um tratado erudito. Jam ais foi dirigido às listas de bestsellers. O hom em com um teria a m aior dificuldade em acom panhar O inim igo antigo. É virtualm ente im possível fazer fortuna com esse tipo de obra.

— Um fato que m eus direitos autorais bem podem atestar — disse Fly te, term inando o restinho do caviar.

— O senhor era um arqueólogo respeitado — disse Sandler.

— Bem , nunca fui assim tão respeitado — disse Fly te, depreciando a si m esm o. — Em bora nunca tivesse sido um a vergonha para a m inha profissão, com o foi sugerido com tanta frequência posteriorm ente. Se a conduta de m eus colegas lhe parece incrível, sr. Sandler, é porque o senhor não com preende a natureza dó anim al.

Quero dizer, do anim al cientista. Os cientistas são educados para acreditar que todo novo conhecim ento vem em porções m inúsculas, grãos de areia em pilhados uns sobre os outros. Portanto, nunca estão preparados para aqueles visionários que chegam a novas conclusões que, da noite, para o dia, transform am com pletam ente todo um cam po de investigação. Copérnico foi ridicularizado por seus contem porâneos por crer que os planetas giravam em torno do sol. Claro que m ais tarde provou-se que Copérnico estava com a razão. Existem exem plos incontáveis na história da ciência. — Fly te enrubesceu e bebeu m ais cham panhe. — Não que eu m e com pare a Copérnico ou a qualquer desses outros grandes hom ens. Estou sim plesm ente tentando explicar por que m eus colegas estavam condicionados a se voltar contra m im .

Eu devia ter esperado por isso.

O garçom veio apanhar o prato de caviar. Aproveitou para servir o suco de laranj a de Sandler e as frutas frescas de Fly te.

Quando ficou sozinho de novo com Fly te, Sandler perguntou: — Ainda acredita que sua teoria tinha validade?

— Inteiram ente! — exclam ou Fly te. — Estou certo: ou, pelo m enos, há um a chance danada de boa que estej a. A história está cheia de m isteriosos desaparecim entos em m assa para os quais os historiadores e arqueólogos não podem oferecer explicações viáveis.

Os olhos rem elentos do professor ficaram vivos e penetrantes por sob as fartas sobrancelhas brancas. Inclinou-se sobre a m esa, fixando Burt Sandler com um olhar hipnótico.

— No dia 10 de dezem bro de 1939 — continuou Fly te —, perto das colinas de Nanquim , um exército de três m il soldados chineses, a cam inho da linha de frente para lutar contra os j aponeses, sim plesm ente desapareceu sem deixar vestígios, antes de sequer se aproxim ar da batalha. Nem um só corpo foi encontrado. Nem um a única sepultura. Nem um a testem unha. Os historiadores m ilitares j aponeses j am ais encontraram registros de terem enfrentado aquela força chinesa em particular. No cam po por onde passaram os soldados desaparecidos, nenhum cam ponês ouviu ruídos de tiros ou outras indicações de conflito. Um exército evaporou-se em pleno ar. Em 1711, durante a Guerra Espanhola de Sucessão, quatro m il soldados partiram para um a expedição aos Pireneus. Até o últim o hom em desapareceu em terreno fam iliar e am istoso, antes m esm o de m ontarem acam pam ento na prim eira noite.

Fly te ainda era tão entusiasm ado pelo tem a quanto o fora ao escrever o seu livro, dezessete anos antes. As frutas e o cham panhe estavam esquecidos. Ele fitava Sandler com o que o desafiando a contestar as suas notórias teorias.

— Num a escala m aior — prosseguiu o professor —, consideram os as grandes cidades m aias de Copán, Piedras Negras, Palenque, Menché, Seibal e várias outras que foram abandonadas da noite para o dia. Dezenas de m ilhares, centenas de m ilhares de m aias abandonaram as suas casas em 610 d.C, aproxim adam ente, talvez no espaço de um a sem ana, talvez no espaço de um dia. Alguns parecem ter fugido para o norte, para fundar novas cidades, m as há evidências de que inúm eros m ilhares sim plesm ente desapareceram . Tudo isso num espaço de tem po chocantem ente curto. Não se deram ao trabalho de levar m uitas das suas panelas, ferram entas, utensílios de cozinha...

Meus ilustres colegas dizem que a terra ao redor daquelas cidades m aias ficou infértil, tornando essencial, dessa form a, a m udança do povo para o norte, onde a terra seria m ais produtiva. Se esse grande êxodo, porém , foi planej ado, por que deixar para trás os pertences? Por que deixar para trás as preciosas sem entes de m ilho? Por que nem um só sobrevivente voltou para saquear aquelas cidades com os tesouros abandonados? — Fly te bateu na m esa de leve com o punho cerrado. — É irracional! Os em igrantes não com eçam viagens longas e árduas sem se preparar, sem levar todas as ferram entas que possam aj udá-los.

Além disso, em algum as das casas de Piedras Negras e Seibal existem evidências de que as fam ílias partiram depois de preparar refeições elaboradas... m as sem com ê-las. Isso sem dúvida pareceria indicar que a partida deles fora repentina. Nenhum a teoria atual responde adequadam ente a essas perguntas — exceto a m inha, por m ais excêntrica que sej a, por m ais estranha que sej a, por m ais im possível que sej a.

— Por m ais assustadora que sej a — acrescentou Sandler.

— Exatam ente — concordou Fly te.

O professor afundou de volta na cadeira, sem fôlego. Reparou na taça de cham panhe, agarrou-a, esvaziou-a e lam beu os lábios.

O garçom apareceu e voltou a encher as taças.

Fly te consum iu rapidam ente as suas frutas, com o que tem endo que o garçom pudesse levar em bora os m orangos de estufa se eles perm anecessem intactos.

Sandler teve pena do velhote. Era evidente que há m uito tem po o professor não era convidado para um a refeição cara servida num a atm osfera elegante.

— Fui acusado de tentar explicar todos os desaparecim entos m isteriosos, dos m aias até o j uiz Crater e Am elia Earhart, com um a única teoria. Isso foi m uito inj usto. Jam ais m encionei o j uiz ou a desafortunada aviadora. Estou interessado apenas no desaparecim ento em m assa inexplicado de seres hum anos e de anim ais. Houve literalm ente centenas deles ao longo da História.

O garçom trouxe croissants.

Do lado de fora, um raio cruzou velozm ente o céu som brio e botou o pé pontiagudo na terra, em outra parte da cidade. A sua descida flam e-j ante foi acom panhada de um terrível estrondo e um rugido que ecoou por todo o firm am ento.

Sandler falou:

— Se, após a publicação do seu livro, tivesse havido um novo e espantoso desaparecim ento em m assa, isso teria dado considerável credibilidade...

— Ah — interrom peu Fly te, batendo enfaticam ente na m esa com o dedo esticado —, m as houve tais desaparecim entos!

— Mas sem dúvida teriam sido notícia de prim eira página...

— Tive ciência de dois casos. Pode haver outros. — insistiu Fly te. — Um deles foi o desaparecim ento de grandes quantidades de espécim es inferiores... especificam ente peixes. Foi com entado na im prensa, m as sem grande destaque. Política, assassinato, sexo e cabras de duas cabeças são as únicas coisas que os j ornais gostam de noticiar. É preciso ler revistas científicas para saber o que está realm ente acontecendo. Foi por isso que eu soube que, faz oito anos, os biólogos m arinhos notaram um decréscim o dram ático da quantidade de peixes num a das regiões do Pacífico. Na realidade, em algum as espécies houvera um a redução pela m etade. Em certos círculos científicos houve pânico a princípio, um m edo de que a tem peratura do oceano pudesse estar sofrendo um a súbita m odificação que fosse despovoar os m ares de todas as espécies, exceto as m ais resistentes. Mas esse acabou não sendo o caso. Aos poucos a vida m arinha naquela área — que cobria centenas de quilôm etros quadrados — acabou se reabastecendo. No fim , ninguém pôde explicar o que acontecera aos m ilhões e m ilhões de criaturas que tinham desaparecido.

— Poluição — sugeriu Sandler, alternando goles de suco de laranj a e de cham panhe.

Passando m arm elada num pedaço de croissant, Fly te disse: — Não, não, não. Não senhor. Teria sido preciso o m ais m aciço caso de poluição da água j á registrado para causar um despovoam ento tão devastador num a área tão extensa. Um acidente naquela escala não teria passado despercebido. Mas não houve acidentes, nem vazam entos de óleo, nada. Na verdade, um m ero vazam ento de óleo não poderia ser responsável; a região afetada e o volum e de água eram vastos dem ais para isso. E não apareceram peixes m ortos nas praias. Os peixes sim plesm ente desapareceram sem deixar vestígio.

Burt Sandler estava em polgado. Podia sentir o cheiro do dinheiro. Tinha palpites sobre alguns livros, e nenhum dos seus palpites j am ais dera errado. (Bem , se não contarm os o livro de dietas escrito pela estrela de cinem a que, um a sem ana antes da data da publicação, m orreu de desnutrição depois de passar seis m eses se alim entando de toranj a, m am ão, torradas com passas e cenouras.) Havia um bestseller certo nessa história; duzentos ou trezentos m il exem plares encadernados, talvez até m ais; dois m ilhões em brochuras.

Se ele pudesse persuadir Fly te a popularizar e atualizar o m aterial acadêm ico árido de O inim igo antigo, o professor poderia pagar o seu próprio cham panhe por m uitos e m uitos anos.

— O senhor falou que teve ciência de dois desaparecim entos em m assa desde a publicação de seu livro — disse Sandler, encoraj ando-o a continuar.

— O outro foi na África, em 1980. Entre três a quatro m il nativos de um a tribo — hom ens, m ulheres e crianças — desapareceram de um a área relativam ente rem ota da África Central. Encontraram vazias as suas aldeias; tinham abandonado todos os seus pertences, inclusive grandes quantidades de com ida. Pareciam sim plesm ente ter corrido para dentro do m ato. Os únicos sinais de violência eram alguns pedaços quebrados de cerâm ica. Claro que os desaparecim entos em m assa naquela parte do m undo são m ais tristem ente frequentes do que costum avam ser, principalm ente devido à violência política. Os m ercenários cubanos, operando com arm am entos soviéticos, vêm contribuindo para o exterm ínio de tribos inteiras que não estão dispostas a colocar suas identidades étnicas a reboque dos propósitos revolucionários. Porém , quando aldeias inteiras são chacinadas para fins políticos, são sem pre saqueadas, depois queim adas, os corpos sendo enterrados em covas com unitárias. Nesse caso a que m e refiro não houve saques, nem queim adas, nem corpos encontrados. Algum as sem anas m ais tarde, os guarda-caças naquele distrito com unicaram um decréscim o inexplicável na população anim al. Ninguém ligou o fato aos aldeões desaparecidos; considerou-se isso um fenôm eno separado.

— Mas o senhor sabe que não é assim .

— Bem , eu desconfio que não é assim — disse Fly te, passando geleia de m orango num últim o pedaço de croissant.

— A m aior parte desses desaparecim entos parece ocorrer em áreas rem otas — disse Sandler. — O que torna difícil a verificação, — É. Isso tam bém m e foi lançado no rosto. Na verdade, a m aior parte dos incidentes provavelm ente ocorre no m ar, pois este cobre a m aior parte da Terra. O m ar pode ser tão rem oto quanto a Lua, e m uita coisa que ocorre por sob as ondas fica ignorada por nós. No entanto, não se esqueça dos dois exércitos que m encionei: o chinês e o espanhol.

Esses desaparecim entos ocorreram dentro do contexto da civilização m oderna. E se dezenas de m ilhares de m aias foram vítim as do inim igo antigo para cuj a existência criei a m inha teoria, então aquele foi um caso em que cidades inteiras, centros de um a civilização, foram atacadas com ousadia assustadora.

— Acha que poderia acontecer agora, hoj e...

— Sem dúvida algum a!

— ...num lugar com o Nova York, ou m esm o aqui em Londres?

— Claro que sim ! Poderia acontecer virtualm ente em qualquer parte que tenha as escoras geológicas que descrevi no m eu livro.

Ficaram os dois sorvendo cham panhe, pensando.

A chuva m artelava as j anelas com m aior fúria do que antes.

Sandler não tinha certeza de que acreditava nas teorias que Fly te form ulara em O inim igo antigo. Sabia que elas podiam form ar a base de um livro de trem endo sucesso, escrito em linguagem popular, m as isso não significava que tinha que acreditar nelas. Não queria realm ente acreditar. Acreditar era com o abrir a porta do Inferno.

Olhou para Fly te, que estava aj eitando novam ente o seu cravo m urcho, e falou:

— Isso m e dá arrepios.

— E deve dar — assentiu Fly te. — Deve dar m esm o. O garçom chegou com ovos, bacon, linguiças e torradas.