Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 38 de 48

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Fantasmas

Capítulo 36

Cara a cara

 

Às 3h12 os sinos da igrej a de Snowfield com eçaram a tocar.

No saguão do Hilltop, Bry ce se levantou da cadeira. Os outros fizeram o m esm o.

A sirene do corpo de bom beiros gem eu.

Jenny falou:

— Fly te deve estar aqui.

Os seis saíram do hotel.

As luzes das ruas estavam se acendendo e apagando, lançando som bras fantoches saltitantes por entre a neblina espessa.

No sopé da Sky line Road, um carro dobrou a esquina, com os faróis lançando suas luzes para cim a, em prestando um brilho prateado à neblina.

As luzes das ruas pararam de piscar e Bry ce se adiantou, parando sob a cascata suave de luz am arela lançada por um dos lam piões, esperando que Fly te pudesse enxergá-lo através dos véus de neblina.

Os sinos continuavam a tocar, e a sirene a gritar, e o carro veio se arrastando lentam ente pela ladeira com prida. Era um carro-patrulha verde e branco do departam ento de polícia. Aproxim ou-se do m eio-fio e parou a três m etros de onde Bry ce se encontrava. O m otorista apagou os faróis.

A porta do lado esquerdo se abriu e Fly te saltou. Ele não era o que Bry ce esperava. Usava óculos de lentes grossas que faziam seus olhos parecerem anorm alm ente grandes. O cabelo branco, fino e em aranhado arrepiava-se com o um halo à volta da cabeça. Alguém na delegacia lhe em prestara um a j aqueta acolchoada com o em blem a do departam ento de polícia do condado de Santa Mira sobre o peito esquerdo.

Os sinos pararam de tocar.

A sirene deu um últim o gem ido rouco.

O silêncio subsequente foi profundo.

Fly te correu os olhos pela rua envolta em neblina, à escuta e à espera.

Finalm ente, Bry ce falou: — Aparentem ente, ainda não está disposto a aparecer. Fly te voltou-se para ele: — Xerife Ham m ond?

— Sim . Vam os entrar e ficar à vontade enquanto esperam os.

O refeitório do hotel. Café quente.

Mãos trêm ulas largavam ruidosam ente canecas de porcelana sobre o tam po da m esa. Mãos nervosas enroscavam -se nas canecas quentes, com firm eza, para se forçarem a ficar paradas.

Os seis sobreviventes se inclinavam para a frente, debruçados sobre a m esa, para m elhor ouvir as palavras de Tim othy Fly te.

Lisa estava nitidam ente fascinada pelo cientista britânico, m as Jenny teve, a princípio, as suas sérias dúvidas. Ele parecia um a caricatura escancarada do clássico professor distraído. Porém , quando ele com eçou a falar das suas teorias, Jenny se viu forçada a abandonar a sua opinião inicial e desfavorável, e logo estava tão fascinada quanto Lisa.

Ele lhes contou dos exércitos desaparecidos na Espanha e na China, das cidades m aias abandonadas, da colônia de Roanoke Island.

E lhes contou de Joia Verde, um povoado na selva sul-am ericana que tivera um destino sem elhante ao de Snowfield. Joia Verde era um posto com ercial no rio Am azonas, bem longe da civilização. Em 1923, 605 pessoas — cada hom em , cada m ulher e criança que viviam ali — desapareceram de Joia Verde num a única tarde, no intervalo entre as visitas regulares das barcaças fluviais, pela m anhã e à noite. A princípio pensou-se que fossem índios vizinhos, norm alm ente pacíficos m as que podiam ter se tornado inexplicavelm ente hostis e desfechado um ataque surpresa. Todavia, não foram encontrados corpos, nenhum indício de luta, nenhum sinal de saque. Descobriu-se um a m ensagem no quadro-negro da escola da m issão: Não tem form a, no entanto tem todas as form as. Muitos que investigaram o m istério de Joia Verde logo descartaram as nove palavras escritas a giz, achando que não tinham ligação com o desaparecim ento. Fly te acreditava j ustam ente no contrário, e depois de ouvi-lo, Jenny tam bém passou a acreditar.

— Um tipo de m ensagem tam bém foi deixado num a das antigas cidades m aias — falou Fly te. — Os arqueólogos desencavaram parte de um a oração, escrita em hieróglifos, da época do grande sum iço. — Ele citou, de cor: — "Deuses perversos m oram na Terra, o seu poder adorm ecido na rocha. Quando acordam , erguem -se com o a lava, m as lava fria, fluindo, e assum indo m uitas form as. Então, hom ens orgulhosos, ficam os sabendo que som os apenas vozes no trovão, rostos no vento, para serm os dispersados com o se nunca tivéssem os vivido."

— Os óculos de Fly te tinham escorregado nariz abaixo. Ele os recolocou no lugar. — Ora, há quem diga que esta parte determ inada da oração se refere ao poder dos terrem otos e vulcões. Eu acho que se refere ao inim igo antigo.

— Nós tam bém encontram os um a m ensagem aqui — disse Bry ce. — Parte de um a palavra.

— Não conseguim os entender qual seria — falou Sara Yam aguchi. Jenny contou a Fly te das duas letras — P e R — que Nick Papandrakis pintara na parede do seu banheiro, usando um vidro de iodo. — Tam bém havia um a terceira letra. Podia ser o com eço de um U ou de um O.

— Papandrakis — falou Fly te, balançando vigorosam ente a cabeça. — Grego. Sim , sim , sim ... eis aí a confirm ação do que estou dizendo. Esse tal de Papandrakis tinha orgulho de sua origem ?

— Sim — disse Jenny —, era extrem am ente orgulhoso dela. Por quê?

— Bem , se ele tinha orgulho de ser grego, devia conhecer a m itologia grega. Sabem , na antiga m itologia grega havia um deus cham ado Proteu. Desconfio que era esta a palavra que o seu Papandrakis estava tentando escrever na parede. Proteu. Um deus que vivia na terra, se arrastava pelas suas entranhas. Um deus que não tinha form a própria. Um deus que podia assum ir a form a que quisesse... e que se alim entava de tudo e todos que desej asse.

Deixando transparecer na voz a sua frustração, Tal Whitm an falou: — O que é toda essa história de sobrenatural? Quando nos com unicam os com a coisa pelo com putador, ela insistiu em dar a si m esm a os nom es de dem ônios.

Fly te explicou: — O dem ônio am orfo, o deus inform e e geralm ente m aligno que pode assum ir a form a que desej a... essas são figuras relativam ente com uns na m aioria dos sistem as m itológicos antigos, e na m aioria das religiões do m undo, senão em todas. Tal criatura m itológica aparece sob dezenas de nom es em todas as culturas do m undo. Tom em com o exem plo o Antigo Testam ento da Bíblia. Satanás aparece prim eiro com o um a serpente, depois com o um bode, um cervo, um besouro, um a aranha, um a criança, um m endigo e m uitas outras coisas. Entre outros nom es, é cham ado de: Mestre do Caos e da Inform idade, Mestre do Engodo, a Besta de Muitas Caras. A Bíblia nos diz que Satanás é "m utável com o as som bras" e "tão esperto quanto a água, pois a água pode se transform ar em vapor ou gelo, e do m esm o m odo Satanás pode se transform ar naquilo que desej a se transform ar.

— Está querendo dizer que o transm orfo aqui em Snowfield é Satanás?

— Bem ... de um a certa form a, sim . Frank Autry sacudiu a cabeça.

— Não. Não sou um hom em que acredita em assom brações, dr. Fly te.

— Nem eu — assegurou-lhe o dr. Fly te. — Não estou discutindo que esta coisa sej a um ser sobrenatural. Não é... é real, um a criatura de carne, em bora não de carne com o a nossa. Não é um espírito ou um diabo. No entanto... de certa form a... creio que sej a Satanás. Porque, sabem , eu acredito que foi esta criatura, ou outra parecida com ela, outra m onstruosa sobrevivente da era m esozóica, que inspirou o m ito de Satanás. Nas épocas pré-históricas, os hom ens devem ter encontrado um a dessas coisas, e alguns deles devem ter vivido para falar nela.

Naturalm ente, descreveram as suas experiências na term inologia do m ito e da superstição. Desconfio que a m aioria das figuras dem oníacas das várias religiões do m undo são, na realidade, relatos desses transm orfos, relatos passados de geração a geração, inúm eras vezes, até que finalm ente foram descritos em hieróglifos, pergam inhos e depois na palavra im pressa. Eram relatos de um a fera m uito rara, m uito real, m uito perigosa... porém descrita na linguagem do m ito religioso.

Jenny achou esta parte da tese de Fly te a um só tem po m aluca e brilhante, im provável m as convincente.

— A coisa consegue absorver o conhecim ento e as lem branças daqueles de quem se alim enta — disse ela —, e portanto sabe que m uitas de suas vítim as o encaram com o sendo o Diabo, assim , obtém um a espécie de prazer perverso em desem penhar este papel.

Bry ce falou:

— Parece gostar de debochar de nós.

Sara Yam aguchi prendeu os longos cabelos por detrás das orelhas e disse: — Dr. Fly te, que tal explicar tudo isso em term os científicos.

Com o é que um a criatura dessas pode existir? Com o pode funcionar biologicam ente? Qual é a sua racionalização científica, a sua teoria?

Antes que Fly te pudesse responder, aquilo veio.

No alto de um a parede, perto do teto, um a grade de m etal que cobria um conduto de aquecim ento soltou-se de seus parafusos. Voou para dentro da sala, caiu em cim a de um a m esa vazia, deslizou da m esa para o chão ruidosam ente.

Jenny e os outros levantaram -se de um salto das cadeiras onde estavam sentados.

Lisa gritou, apontou.

O transm orfo saía de dentro do conduto. Ficou ali, pendendo da parede. Escuro. Molhado. Pulsante. Com o um a m assa de ranho brilhante e sangrenta suspensa da beirada de um a narina.

Bry ce e Tal levaram a m ão aos revólveres, depois hesitaram . Não havia absolutam ente nada que pudessem fazer.

A coisa continuou a sair de dentro do conduto, inchando, ondulando, form ando um a m assa obscena, inform e, revolvedora, do tam anho de um hom em . Depois, ainda fluindo de dentro do buraco, com eçou a deslizar parede abaixo. Form ou um m onte no chão. Agora, m uito m aior do que um hom em , ainda saindo de dentro do conduto.

Crescendo, crescendo.

Jenny olhou para Fly te.

O rosto do professor não conseguia se firm ar num a única expressão.

Experim entou espanto, depois terror, depois assom bro, depois noj o, depois assom bro, terror e espanto de novo.

A m assa viscosa, de protoplasm a escuro sem pre a se revolver, era agora do tam anho de três ou quatro hom ens, e m aior quantidade ainda da coisa noj enta continuava a j orrar do conduto de aquecim ento, num fluxo revoltante e nauseante.

Lisa teve ânsias de vôm ito e virou o rosto.

Mas Jenny não conseguia tirar os olhos da coisa. Havia um a fascinação grotesca que não podia ser negada.

Na aglom eração j á enorm e de tecidos inform es que se proj etara para dentro da sala, com eçaram a se form ar m em bros, m uito em bora nenhum deles m antivesse a sua form a por m ais de poucos segundos.

Braços hum anos, tanto de hom ens quanto de m ulheres, estendiam -se com o que buscando aj uda. Os braços finos e agitados de crianças form avam -se no tecido gelatinoso, alguns deles com as m ãozinhas abertas, com o que num a súplica m uda e patética. Era difícil raciocinar que aqueles não eram braços de crianças presas dentro do transm orfo; eram im itações, braços fantasm as, um a parte da coisa, não um a parte de qualquer criança. E garras. Um a variedade espantosa e assustadora de garras e patas de anim ais aparecia no caldo protoplásm ico. Havia tam bém partes de insetos, enorm es, im ensam ente exageradas, aterradoram ente frenéticas e ansiosas. Mas tudo isso voltava rapidam ente a se fundir com o protoplasm a inform e praticam ente logo depois que tinha tom ado form a.

O transm orfo se expandia pela largura da sala. Estava agora m aior do que um elefante.

Enquanto a coisa se entretinha naquele padrão contínuo, im placável, m isterioso de m odificações aparentem ente sem sentido, Jenny e os outros recuaram para j unto das j anelas.

Lá fora, na rua, a neblina se agitava na sua própria dança inform e, com o se fosse um reflexo fantasm agórico do transm orfo.

Fly te falou com um a urgência repentina, respondendo às perguntas que Sara Yam aguchi form ulara, com o se sentisse que não lhe sobrava m uito tem po para responder.

— Há uns vinte anos, m e ocorreu que poderia haver um a conexão entre os desaparecim entos em m assa e a inexplicável extinção de certas espécies nas eras geológicas pré-hum anas. Com o os dinossauros, por exem plo.

O transm orfo pulsava e latej ava, chegando quase ao teto, lotando toda a extrem idade oposta da sala.

Lisa se agarrou a Jenny.

Um odor vago m as repelente estava no ar. Com um leve cheiro de enxofre. Com o um a corrente de ar vinda do Inferno.

— Existem inúm eras teorias que tentam explicar a extinção dos dinossauros — continuou Fly te —, m as não há um a única que responda-a todas as perguntas. Então, fiquei pensando... e se os dinossauros tivessem sido exterm inados por outra criatura, um inim igo natural, um caçador e lutador superior? Teria que ter sido algo grande.

E teria que ter sido tam bém algo com um esqueleto m uito frágil, ou talvez sem esqueleto nenhum , pois j am ais encontram os registros de fósseis de qualquer espécie que pudesse ter com petido com aqueles grandes sáurios.

Um arrepio percorreu toda a m assa de lim o tenebroso, revolvedor. Por toda a sua extensão, dúzias de caras com eçaram a aparecer.

— E se — dizia Fly te — várias dessas criaturas am ebóides tivessem sobrevivido por m ilhões de anos...

Caras hum anas e anim ais surgiram de dentro da carne am orfa, cintilaram nela.

— ...vivendo em rios ou lagos subterrâneos...

Havia rostos que não tinham olhos. Outros não tinham bocas.

Mas, então, os olhos apareceram , se abriram . Eram olhos dolorosam ente reais, penetrantes, cheios de dor, m edo e sofrim ento.

— ...ou em profundos fossos oceânicos...

E bocas se rasgaram naquelas fisionom ias previam ente sem fendas.

— ...m ilhares de pés abaixo da superfície do m ar... Lábios se form aram em volta das bocas abertas.

— ...alim entando-se da vida m arinha...

Os rostos fantasm as estavam berrando, no entanto não em itiam som algum .

— ...subindo à tona infrequentem ente para se alim entar...

Caras de gatos. Caras de cães. Fisionom ias de répteis pré-históricos.

Erguendo-se com o balões de dentro do lim o.

—...e m enos frequentem ente ainda alim entando-se de seres hum anos...

Para Jenny, os rostos hum anos pareciam estar espiando do outro lado de um espelho enfum açado. Nenhum deles chegava a tom ar form a com pletam ente. Tinham que se dissolver, pois havia inúm eros novos rostos irrom pendo e se aglutinando por baixo deles. Era um espetáculo de som bras interm inavelm ente bruxuleantes dos perdidos e am aldiçoados.

Então os rostos pararam de se form ar.

A m assa im ensa ficou quieta por um m om ento, pulsando lenta e quase im perceptivelm ente, porém , exceto por isso, im óvel.

Sara Yam aguchi gem ia baixinho.

Jenny abraçava Lisa com força.

Ninguém falava. Durante diversos segundos, ninguém sequer ousava respirar.

E então, num a nova dem onstração de sua m aleabilidade, o inim igo antigo abruptam ente fez brotar do corpo dezenas de tentáculos.

Alguns eram grossos, com ventosas de lula ou de polvo. Outros eram finos, pegaj osos; alguns destes eram lisos, alguns segm entados. Eram ainda m ais obscenos do que os tentáculos gordos e de aparência úm ida.

Alguns desses apêndices deslizavam para a frente e para trás no chão, derrubando cadeiras e afastando m esas do lugar, enquanto outros se contorciam no ar, com o cobras que dançassem ao som da m úsica de um encantador de serpentes.

Então, aquilo atacou. Moveu-se rapidam ente, adiantou-se.

Jenny deu um passo cam baleante para trás. Estava no canto da sala.

Os m uitos tentáculos vieram na direção deles, com o chicotes, cortando o ar com um som sibilante.

Lisa não podia m ais deixar de olhar. Soltou um a exclam ação abafada ante o que viu.

Num a fração de segundo, os tentáculos cresceram dram aticam ente.

Um a corda de carne fria, escorregadia, totalm ente estranha, desabou sobre as costas da m ão de Jenny. Enroscou-se no seu pulso.

Não!

Com um arrepio de alívio, ela se libertou. Não fora preciso m uito esforço para se libertar. Evidentem ente, a coisa não estava realm ente interessada nela; não agora; não ainda.

Ela se agachou enquanto os tentáculos chicoteavam o ar acim a de sua cabeça, e Lisa se agachou j unto dela.

Na sua pressa de sair do cam inho da criatura, Fly te tropeçou e caiu.

Um tentáculo se m oveu na sua direção.

Fly te se arrastou para trás, até dar de encontro à parede.

O tentáculo seguiu-o, pairou acim a dele, com o se quisesse golpeá-lo. Depois, afastou-se. Tam bém não estava interessado em Fly te.

Em bora o gesto fosse inútil, Bry ce disparou o seu revólver.

Tal gritou algo que Jenny não com preendeu. Meteu-se na frente dela e de Lisa, ficando entre elas e o transm orfo.

Depois de passar por Sara, a coisa agarrou Frank Autry. Era ele que ela queria. Dois grossos tentáculos envolveram o tórax de Frank e o afastaram dos dem ais.

Chutando, socando, arranhando a coisa que o agarrava, Frank soltou um grito sem palavras, o rosto contorcido de horror.

Todos agora gritavam — até Bry ce, até Tal.

Bry ce foi atrás de Frank. Agarrou-lhe o braço direito. Tentou arrancá-lo da fera, que, im placavelm ente, puxava-o para j unto de si.

— Tire isso de cim a de m im ! Tire isso de cim a de m im ! — berrou Frank.

Bry ce tentou arrancar um dos tentáculos de cim a do delegado.

Outro dos apêndices grossos e lim osos levantou-se do chão, rodopiou, chicoteou, atingiu Bry ce com um a força trem enda, atirando-o ao solo.

Frank foi erguido do chão e m antido em pleno ar. Seus olhos saltaram ao olhar para o corpo escuro, lim oso, m utável do inim igo antigo. Ele chutava e se debatia em vão.

Outro pseudópode brotou da m assa central do transm orfo e se ergueu no ar, vibrando com ansiedade selvagem . Ao longo de um a parte da extensão repulsiva do tentáculo, a pele m osqueada cinza-m arrom -verm elha-castanha pareceu se dissolver. O tecido em carne viva, supurando, apareceu.

Lisa teve ânsias de vôm ito.

Não era apenas a visão da carne supurada que era abom inável e nauseante. O cheiro repulsivo tam bém ficara m ais forte.

Um liquido am arelado com eçou a pingar da ferida aberta no tentáculo. Onde os pingos atingiam o chão, chiavam , espum avam e dissolviam o ladrilho.

Jenny ouviu alguém dizer:

— Ácido!

Os gritos de Frank tornaram -se uns guinchos penetrantes e alucinados de terror e desesperança.

O tentáculo que pingava ácido envolveu sinuosam ente o pescoço do delegado e apertou-o com o se fosse um garrote.

— Oh, Jesus, não!

— Não olhe — disse Jenny para Lisa.

O transm orfo estava m ostrando a eles com o decapitara Jakob e Aida Lieberm ann. Com o um a criança se exibindo.

O grito de Frank m orreu num gorgolej o borbulhante, m ucoso, sanguinolento. O tentáculo devastador cortou o seu pescoço com rapidez surpreendente. Apenas um ou dois segundos depois de Frank ter sido silenciado, sua cabeça se soltou e caiu ao chão, chocando-se contra os ladrilhos.

Jenny sentiu o gosto da bile no fundo da garganta, fez força para engoli-la.

Sara Yam aguchi soluçava.

A coisa ainda segurava o corpo sem cabeça de Frank em pleno ar. Agora, na m assa de tecido inform e de onde tinham brotado os tentáculos, um a goela im ensa e sem dentes abriu-se, esfom eada. Tinha tam anho m ais do que suficiente para engolir um hom em inteiro. Os tentáculos levaram o corpo decapitado do delegado até a boca rasgada e escancarada. A carne escura ressum brou ao redor do corpo. Então, a boca cerrou-se firm em ente e deixou de existir.

Frank Autry tam bém deixara de existir.

Bry ce fitou, em choque, a cabeça cortada de Frank. Os olhos sem visão olhavam para ele, através dele.

Frank estava m orto. Frank, que sobrevivera a várias guerras, que sobrevivera a um a vida de serviços perigosos, não sobrevivera a isto.

Bry ce pensou em Ruth Autry. Seu coração, que j á batia feito louco, retorceu-se de dor ao im aginar Ruth sozinha. Ela e Frank tinham sido excepcionalm ente ligados. Dar-lhe a notícia seria doloroso.

Os tentáculos voltaram a entrar para dentro do bolo pulsante de tecido inform e; dentro de um ou dois segundos, tinham desaparecido.

A im ensa m assa inform e, ondulante, preenchia um terço do aposento.

Bry ce podia im aginá-la ressum brando velozm ente pelos pântanos pré-históricos, m isturando-se com a lam a, atacando as presas furtivam ente. É, seria m ais do que páreo para os dinossauros.

Anteriorm ente, ele acreditara que o transm orfo o tinha poupado e a alguns dos outros para que pudessem atrair Fly te para Snowfield.

Agora, dava-se conta de que não era bem isso. A coisa poderia tê-los consum ido e depois im itado as suas vozes ao telefone, e Fly te teria sido convencido a vir a Snowfield com a m esm a facilidade. Ela os poupara por algum outro m otivo. Talvez os tivesse poupado apenas para m atá-

los, um por um , na frente de Fly te, para que este pudesse ver exatam ente com o funcionava.

Santo Deus.

O transm orfo se agigantava acim a deles, trem endo feito gelatina, toda aquela m assa grotesca pulsando com o que com as batidas não sincronizadas de um a dúzia de corações.

Num a voz ainda m ais trêm ula do que Bry ce se sentia, Sara Yam aguchi falou:

— Gostaria que houvesse algum m eio de obterm os um a am ostra do tecido. Daria qualquer coisa para poder estudá-la sob um m icroscópio... ter algum a ideia da estrutura celular. Quem sabe conseguiríam os achar um ponto fraco... um m odo de lidar com isso, quem sabe até de derrotá-lo.

Fly te falou: — Gostaria de estudá-lo... só para conseguir com preender... só para saber.

Um a extrusão de tecidos ressum brou do centro da m assa inform e. Com eçou a adquirir form a hum ana. Bry ce ficou chocado ao ver Gordy Brogan se aglutinando à sua frente. Antes do fantasm a estar inteiram ente com pleto, enquanto o corpo ainda estava irregular e pouco detalhado, o rosto não de todo term inado, a boca se abriu e a réplica de Gordy falou. Mas não com a voz de Gordy. A voz era de Stu Wargle, um toque suprem am ente desconcertante.

— Vá ao laboratório — disse, a boca apenas parcialm ente form ada, m as falando com perfeita clareza. — Eu lhe m ostrarei tudo o que quer ver, dr. Fly te. O senhor é m eu Mateus. Meu Lucas. Vá ao laboratório. Vá ao laboratório.

A im agem incom pleta de Gordy Brogan dissolveu-se quase com o se tivesse sido com posta de fum aça.

O bolo de tecido proj etado, do tam anho de um hom em , voltou a fluir para dentro do bolo m aior às suas costas.

A m assa inteira, pulsante e ondulante, com eçou a voltar na direção da parede e do conduto de aquecim ento.

Bry ce im aginou, inquieto, que quantidade ainda haveria daquilo dentro das paredes do hotel. Que quantidade daquilo estaria à espera nos escoadouros? De que tam anho seria o deus Proteu?

Enquanto a coisa ia se afastando deles, orifícios de form atos estranhos foram se abrindo em toda a superfície, nenhum m aior do que um a boca hum ana, um a dúzia deles, duas dúzias, e com eçaram a em itir sons: o chilrear de pássaros, os gritos das gaivotas, o zum bido das abelhas, rosnados, silvos, a risada doce de um a criança, canções distantes, o piar de um a coruj a, o chocalhar de advertência de um a cascavel. Esses ruídos, todos ecoando sim ultaneam ente, form aram um coro desagradável, irritante, decididam ente agourento.

E então o transm orfo desapareceu pelo buraco da parede.

Apenas a cabeça cortada de Frank e a grade entortada do conduto de aquecim ento perm aneciam com o prova de que algo nascido no Inferno estivera ali.

Segundo o relógio elétrico de parede, eram 3h44.

A noite estava praticam ente no fim .

Quanto tem po ainda resta até o alvorecer? perguntou-se Bry ce.

Um a hora e m eia? Um a hora e quarenta m inutos, ou m ais?

Supunha que isso não tinha im portância.

De qualquer form a, não esperava estar vivo para ver o sol nascer.