Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 2 de 48

Páginas do PDF

Fantasmas

Primeira Parte

 

VÍTIMAS

Sobrevieram -m e o m edo e o trem or.

— Livro de Jó, 4:14

 

O espírito hum ano civilizado ... não consegue se livrar de um a sensação do

fantástico.

— Dr. Fausto, THOMAS MANN

1

A cadeia municipal

O grito foi longínquo e breve. Um grito de m ulher.

O delegado Paul Henderson ergueu os olhos do seu exem plar de Tim e. Inclinou a cabeça, ouvido atento.

Os grãos de poeira vagavam preguiçosos num raio de sol brilhante que penetrava por um a das j anelas com m ainel. No relógio da parede, o ponteiro dos m inutos, fino e verm elho, m ovia-se silenciosam ente pelo m ostrador.

O único ruído era o ranger da cadeira de escritório de Henderson, quando ele m udou de posição.

Através das grandes j anelas da frente, ele podia enxergar um trecho da rua principal de Snowfield, a Sky line Road, que estava perfeitam ente calm a e serena ao sol dourado da tarde. Apenas as árvores se m oviam , as folhas adej ando ao vento suave.

Depois de escutar atentam ente por vários segundos, Henderson ficou sem ter certeza se realm ente ouvira algum a coisa.

Im aginação, falou consigo m esm o. Apenas a racionalização de um desej o.

Quase estava preferindo que alguém tivesse gritado. Estava se sentindo inquieto.

Durante a baixa tem porada, de abril a setem bro, ele era o único auxiliar de xerife em tem po integral designado para a subdelegacia de Snowfield, e o trabalho era tedioso. No inverno, quando a cidade recebia vários m ilhares de esquiadores, havia bêbados para atender, brigas para apartar e roubos para investigar nos quartos das estalagens, pousadas e m otéis onde os esquiadores se hospedavam . Mas agora, no com eço de setem bro, som ente estavam funcionando a Candleglow Inn, um hotel e dois pequenos m otéis; os nativos eram tranquilos, e Henderson — que tinha apenas 24 anos e estava concluindo o seu prim eiro ano com o delegado — sentia-se entediado.

Ele soltou um suspiro, voltou o olhar para a revista sobre a m esa... e ouviu um outro grito. Com o anteriorm ente, era longínquo e breve, m as desta feita parecia voz de hom em . Não era um m ero gritinho excitado ou m esm o um grito de alarm e; era o som do terror.

Franzindo o cenho, Henderson se levantou e se dirigiu para a porta, aj eitando o revólver no coldre sobre o quadril direito. Passou pelo portão de vaivém na grade que separava a área pública da cadeia propriam ente dita e j á estava a m eio cam inho da porta, quando percebeu um m ovim ento na sala às suas costas.

Isso era im possível. Estivera sozinho na cadeia o dia todo e desde o com eço da sem ana passada não havia prisioneiro algum nas três celas de detenção. A porta dos fundos estava trancada e era o único outro m eio de entrada na prisão.

Quando se virou, contudo, descobriu que não estava m ais sozinho. E de repente não estava nem m ais um pouquinho entediado.