Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 28 de 48

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Fantasmas

Capítulo 26

Londres, Inglaterra

Onze horas da m anhã em Snowfield eram sete horas da noite em Londres. Um a segunda-feira.

Um dia m iseravelm ente úm ido se transform ara num a noite m iseravelm ente úm ida. Gotas de chuva tam borilavam na j anela da cozinha m inúscula do apartam ento de duas peças, num sótão, em que m orava Tim othy Fly te.

O professor estava parado diante de um a tábua de carne, preparando um sanduíche.

Depois de tom ar aquele m agnífico café da m anhã com cham panhe, à custa de Burt Sandler, Tim othy não tivera disposição para alm oçar. Tam bém dispensara o chá da tarde.

Dera aula a dois estudantes hoj e. Um deles estava aprendendo análise de hieróglifos, e o outro, latim . Em panturrado com o café da m anhã, quase pegara no sono durante as duas aulas. Em baraçoso.

Porém , pelo pouco que lhe pagavam , seus alunos não podiam reclam ar com m uita veem ência se, apenas esta vez, ele tivesse cochilado no m eio de um a lição.

Enquanto colocava um a fatia fina de presunto cozido e um a de queij o suíço num pão besuntado de m ostarda, escutou o telefone tocando no Vestíbulo da casa de côm odos. Não pensou que fosse para ele. Recebia m uito poucos telefonem as.

Dali a segundos, porém , ouviu um a batida na porta. Era o j ovem indiano que alugava um quarto no prim eiro andar. Num inglês com forte sotaque, ele disse a Tim othy que o telefonem a era para ele. E que era urgente.

— Urgente? Quem é? — perguntou Tim othy, enquanto acom panhava o rapaz pelas escadas. — Ele falou quem era?

— Sandler — disse o indiano. Sandler? Burt Sandler?

Durante o café da m anhã, eles tinham acertado os term os para um a nova edição de O inim igo antigo, que seria com pletam ente reescrita para atrair o leitor com um . Logo depois da publicação original do livro, há quase dezessete anos, ele recebera várias ofertas para popularizar as suas teorias sobre os desaparecim entos históricos em m assa, m as resistira à ideia. Achara que a publicação de um a versão popularizada de O inim igo antigo pareceria estar dando razão & todos aqueles que tão inj ustam ente o tinham acusado de sensacionalism o, fraude e ganância.

Agora, todavia, anos de penúria tinham feito com que encarasse a ideia com outros olhos. O aparecim ento de Sandler e a sua oferta de um contrato tinham vindo num a hora em que a pobreza cada vez m aior de Tim othy chegara a um estágio crítico. Era um verdadeiro m ilagre. Pela m anhã tinham acertado um adiantam ento (sobre os direitos autorais) de quinze m il dólares. Ao câm bio atual, dava um pouco m ais de oito m il libras esterlinas. Não era um a fortuna, m as era m ais dinheiro do que Tim othy via num período bem grande de tem po, e no m om ento lhe parecia um a fortuna incalculável.

Enquanto descia a escada estreita que levava ao Vestíbulo, onde o telefone ficava num a m esinha debaixo de um a cópia barata de um tela ruim , Tim othy se perguntava se Sandler estaria ligando para cancelar o acordo.

O coração do professor com eçou a bater com um a força quase dolorosa.

O j ovem cavalheiro indiano disse: — Espero que não sej a problem a, senhor. Depois retornou ao seu quarto e fechou a porta. Fly te pegou o telefone: — Alô?

— Meu Deus, leu o j ornal da tarde? — perguntou Sandler. A voz dele estava estridente, quase histérica.

Tim othy ficou im aginando se Sandler estava bêbado. Será que era isso o que considerava assunto urgente?

Antes de Tim othy poder responder, Sandler falou: — Acho que aconteceu! Por Deus, dr. Fly te, acho que aconteceu de verdade! Deu no j ornal vespertino. E deu no rádio. Sem m uitos detalhes. Mas parece m esm o que aconteceu.

A preocupação do professor com o contrato do livro estava agora aum entada pela exasperação.

— Por favor, quer ser m ais específico, sr. Sandler?

— O inim igo antigo, dr. Fly te. Um a daquelas criaturas atacou de novo. Ontem . Um a cidade na Califórnia. Alguns estão m ortos. A m aioria está desaparecida. Centenas. Um a cidade inteira. Sum ida.

— Deus lenha piedade deles — disse Fly te.

— lenho um am igo no escritório da Associated Press em Londres, e ele leu para m im as últim as notícias que chegaram — disse Sandler. — Sei de coisas que ainda nem saíram nos j ornais. Por exem plo, a polícia da Califórnia expediu um alerta geral para o senhor.

Aparentem ente, um a das vítim as tinha lido o seu livro. Quando chegou o ataque, ele se trancou num banheiro. A coisa o pegou, de qualquer form a. Mas ele teve tem po suficiente para rabiscar o seu nom e e o título do seu livro no espelho!

Tim othy perdera a fala. Havia um a cadeira j unto ao telefone.

Sentiu um a súbita necessidade de sentar-se. Sandler prosseguiu: — As autoridades na Califórnia não com preendem o que aconteceu. Nem se dão conta de que O inim igo antigo é o título de um livro, e não sabem a parte que o senhor desem penha em tudo isso. Eles estão achando que foi um ataque com gás que afeta o sistem a nervoso ou um ato de guerra biológica ou até m esm o contato extraterrestre. Mas o hom em que escreveu o seu nom e no espelho sabia que não era isso. E nós tam bém . Conversarem os m ais no carro.

— Carro? — perguntou Tim othy.

— Meu Deus, espero que o senhor lenha um passaporte.

— É... tenho.

— Vou passar de carro para pegá-lo e levá-lo ao aeroporto.

Quero que vá para a Califórnia, dr. Fly te.

— Mas...

— Esta noite. Há um a vaga m im vôo partindo de Heathrow. Fiz a reserva em seu nom e.

— Mas eu não tenho com o pagar...

— A sua editora vai pagar todas as despesas. Não se preocupe.

O senhor precisa ir para Snowfield. Não vai escrever apenas um a popularização de O inim igo antigo. Agora não. Vai escrever um a história bem trabalhada e hum ana sobre Snowfield, e todo o seu m aterial sobre os desaparecim entos em m assa até hoj e e as suas teorias sobre o inim igo antigo reforçarão a sua narrativa. Está percebendo? Não vai ser form idável?

— Mas seria correto eu correr para lá agora?

— Com o assim ? — indagou Sandler.

— Seria correto? — perguntou Tim othy, preocupado. — Não iria parecer que eu estava tentando tirar proveito de um a tragédia terrível?

— Escute, dr. Fly te, vai haver um a centena de vigaristas em Snowfield, todos com contratos para livros no bolso das calças. Eles irão se apossar do seu m aterial. Se o senhor não escrever o livro sobre o assunto, um deles o escreverá, à sua custa.

— Mas há centenas de m ortos — disse Tim othy. Sentia-se m al.

— Centenas. A dor, a tragédia...

Era evidente que Sandler estava im paciente com a hesitação do professor.

— Ora... está bem . Pode ser que tenha razão. Pode ser que eu não tenha realm ente parado para pensar no horror da coisa. Mas vej a bem : é por isso que tem que ser o senhor a escrever o livro definitivo sobre o assunto. Ninguém m ais pode trazer ao proj eto a sua erudição ou com paixão.

— Bem ...

Aproveitando-se da hesitação de Tim othy, Sandler falou: — Ótim o. Faça a m ala rapidinho. Passo por aí dentro de m eia hora. Sandler desligou e Tim othy ficou sentado por um m om ento, segurando o fone, escutando o aparelho m udo. Aturdido.

À luz dos faróis do táxi, a chuva era prateada. Inclinava-se ao vento, com o m ilhares de tiras finas de um brilhante ouropel de Natal.

No chão, ela form ava poças m ercuriais.

O m otorista do táxi era im prudente. O carro voava pelas ruas escorregadias. Com um a das m ãos, Tim othy se agarrava com força à barra de segurança da porta. Era evidente que Burt Sandler prom etera um a bela gorj eta com o recom pensa pela velocidade.

Sentado ao lado do professor, Sandler dizia: — Vai haver um a escala em Nova York, m as não será longa. Um dos nossos irá recebê-lo e acom panhá-lo. Não vam os alertar a m ídia em Nova York. Vam os guardar a entrevista coletiva para São Francisco.

Portanto, estej a preparado para enfrentar um exército de repórteres ansiosos quando saltar do avião.

— Será que eu não posso ir discretam ente para Santa Mira e m e apresentar às autoridades locais? — perguntou Tim othy, desalentado.

— Não, não, não! — disse Sandler, evidentem ente horrorizado à m enção desta ideia. — Tem os que dar um a entrevista coletiva. O senhor é o único que tem a resposta, dr. Fly te. Tem os que deixar que todos saibam quem é o senhor. Tem os que com eçar a fazer propaganda do seu próxim o livro antes que Norm an Mailer deixe de lado o seu últim o estudo de Marily n Monroe e entre nessa j ogada de cabeça!

— Ainda nem com ecei a escrever este livro.

— Deus, eu sei. E quando sair publicado, a procura será fenom enal! O táxi dobrou um a esquina. Os pneus cantaram . Tim othy foi arrem essado de encontro à porta.

— Um agente de publicidade estará à sua espera no aeroporto, em São Francisco. Ele o orientará durante a coletiva — continuou Sandler. — De um j eito ou de outro ele o levará até Santa Mira. É um a viagem m eio longa, e talvez possa ser feita de helicóptero.

— Helicóptero? — disse Tim othy, atônito.

O táxi passou por cim a de um a poça funda, lançando ao ar plum as de água prateada.

O aeroporto estava à vista.

Burt Sandler estivera falando ininterruptam ente desde que Tim othy entrara no carro. Agora, estava dizendo: — Mais um a coisa. Na entrevista coletiva, conte a eles as histórias que m e contou hoj e de m anhã. Sobre os m aias desaparecidos.

E os três m il soldados da infantaria chinesa que sum iram . E não deixe de fazer qualquer referência possível aos desaparecim entos em m assa ocorridos nos Estados Unidos, m esm o antes de existir o país, m esm o em eras geológicas anteriores. Isso agradará à im prensa am ericana.

Laços locais. Isso sem pre aj uda. A prim eira colônia britânica nos Estados Unidos não sum iu sem deixar vestígios?

— Foi. A colônia de Roanoke Island.

— Não deixe de m encioná-la.

— Mas eu não posso dizer conclusivam ente que o desaparecim ento da colônia de Roanoke tem ligação com o inim igo antigo.

— Mas será que existe algum a chance de que tenha tido?

Fascinado, com o sem pre, por este tópico, Tim othy foi capaz, pela prim eira vez, de desviar a sua atenção do com portam ento suicida do chofer de táxi.

— Quando um a expedição britânica, financiada por Sir Walter Raleigh, retornou à colônia de Roanoke, em m arço de 1590, descobriu que todo m undo sum ira. Cento e vinte pessoas tinham desaparecido sem deixar vestígios. Form ularam -se inúm eras teorias quanto ao seu destino. A m ais popular delas, por exem plo, afirm a que as pessoas em Roanoke Island foram vítim as dos índios croatoan, que viviam próxim o dali. A única m ensagem deixada pelos colonos foi o nom e dessa tribo, riscada às pressas num tronco de árvore. Mas os croatoan asseveraram nada saber sobre o desaparecim ento. E eram índios pacíficos. Nem um pouquinho belicosos. Na verdade, tinham até aj udado os colonos a se instalar, no início. Além do m ais, não havia sinais de violência no povoado. Jam ais se encontrou um só corpo. Ou ossos. Ou covas.

Portanto, com o vê, até m esm o a teoria m ais aceita levanta um núm ero m aior de perguntas do que de respostas.

O táxi fez outra curva alucinada, freou abruptam ente para evitar colidir com um cam inhão.

Agora, porém , Tim othy m al se dava conta da conduta tem erária do m otorista. Ele continuou:

— Ocorreu-m e que a palavra que os colonos tinham entalhado na árvore — croatoan — podia não ter tido a intenção de apontar um dedo acusador para os índios. Podia significar que eles saberiam o que tinha acontecido. Li os diários de diversos exploradores britânicos que m ais tarde falaram com os croatoan sobre o desaparecim ento da colônia, e existem evidências de que os índios realm ente tinham um a ideia do que acontecera. Ou pensavam que tinham . Mas não foram levados m uito a sério quando tentaram explicá-la ao hom em branco. Os croatoan relataram que, sim ultaneam ente com o desaparecim ento dos colonos, houvera um a grande dim inuição na quantidade de caça nas florestas e cam pos em que a tribo caçava. Virtualm ente todas as espécies de anim ais selvagens tinham tido o seu núm ero reduzido de form a drástica. Um ou dois dos exploradores m ais perceptivos com entaram em seus diários que os índios encaravam o assunto com tem or supersticioso. Pareciam ter um a explicação religiosa para o desaparecim ento. Infelizm ente, porém , os hom ens brancos que conversaram com eles sobre os colonos desaparecidos não estavam interessados em superstições indígenas e não foram adiante com essa linha de interrogatório.

— Presum o que tenha pesquisado as crenças religiosas dos croatoan — falou Burt Sandler.

— Sim — replicou Tim othy. — Não é um assunto fácil, pois a tribo está extinta há m uitos e m uitos anos. O que descobri foi que os croatoan eram espiritualistas. Acreditavam que o espírito sobrevivia e andava pela terra m esm o depois da m orte do corpo, e que havia "espíritos m aiores" que se m anifestavam nos elem entos — vento, terra, fogo, água e assim por diante. O m ais im portante de tudo, no que nos diz respeito, é que eles tam bém acreditavam num espírito m au, um a fonte de todo o m al, um equivalente ao Satanás dos cristãos. Não m e lem bro da palavra indígena exata para ele, m as a tradução é Aquele Que Pode Ser Qualquer Coisa Mas Não É Nada.

— Meu Deus — disse Sandler. — Não é um a m á descrição do inim igo antigo.

— Às vezes existem verdades ocultas nas superstições. Os croatoan acreditavam que tanto os anim ais selvagens quanto os colonos tinham sido levados por Aquele Que Pode Ser Qualquer Coisa Mas Não É Nada. Assim , conquanto eu não possa dizer conclusivam ente que o inim igo antigo teve algo a ver com o desaparecim ento dos colonos de Roanoke Island, parece haver um a razão suficiente para levar a possibilidade em consideração.

— Fantástico! — exclam ou Sandler. — Conte tudo isso a eles na coletiva em São Francisco. Exatam ente com o m e contou.

0 táxi parou brusca e ruidosam ente na frente do term inal. Burt Sandler enfiou algum as notas de cinco libras na m ão do chofer. Depois, lançou um olhar ao relógio de pulso.

— Dr. Fly te, vam os para o avião.

Do seu assento j unto à j anela, Tim othy Fly te ficou vendo as luzes da cidade desaparecendo sob as nuvens torm entosas. O j ato alçou vôo em m eio à chuva fina. Logo, subiram acim a da coberta de nuvens; a tem pestade ficara abaixo deles, o céu claro acim a. Os raios da lua ricocheteavam no topo revolto das nuvens, e a noite que ficava para além do avião enchia-se com um a luz suave, fantástica.

O aviso para apertar cintos foi desligado.

Ele soltou o seu, m as não conseguiu relaxar. Sua m ente estava tão revolta quanto as nuvens torm entosas.

A com issária de bordo passou oferecendo bebidas. Ele pediu um uísque.

Sentia-se com o um a m ola enroscada. Da noite para o dia, a sua vida se m odificara. Neste único dia ele tivera m ais em oções do que no ano passado inteiro.

A tensão que o acom etia não era desagradável. Estava m ais do que feliz de se descartar da sua existência m onótona; estava vestindo um a vida nova e m elhor com a m esm a rapidez com que vestiria um terno novo. Estava correndo o risco de cair no ridículo e de ver repetidas todas as velhas acusações, ao tornar públicas de novo as suas teorias.

Mas tam bém havia um a chance de que finalm ente pudesse provar o seu valor.

O uísque chegou, e ele o tom ou. Pediu m ais um . Lentam ente foi relaxando.

Para além do avião, a noite era vasta.