Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 24 de 48

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Fantasmas

Capítulo 22

Manhã em Snowfield

 

Pouco depois do alvorecer, o rádio de ondas curtas e os dois geradores elétricos m ovidos a gasolina chegaram ao bloqueio na estrada que m arcava o perím etro da zona de quarentena. Os dois pequenos furgões que os conduziam eram guiados pelos Patrulheiros das Rodovias da Califórnia (CHIP). Perm itiram que eles passassem pelo bloqueio até um ponto a m eio cam inho dos seis quilôm etros e m eio da Snowfield Road, onde foram estacionados e abandonados.

Quando os patrulheiros retornaram ao local do bloqueio, os delegados do condado passaram um rádio dando conta da situação para o QG em Santa Mira. Por sua vez, o QG entrou em contato com Bry ce Ham m ond no hotel Hilltop.

Tal Whitm an, Frank Autry e dois outros hom ens levaram um carro-patrulha até a m etade da Snowfield Road e pegaram os furgões abandonados. Desse m odo, m antinha-se a contenção de quaisquer possíveis vetores de m oléstias.

O rádio de ondas curtas foi instalado num canto do saguão do Hilltop. Um a m ensagem enviada para o QG em Santa Mira foi recebida e respondida. Agora, se algo acontecesse aos telefones, não ficariam inteiram ente isolados.

Dentro de um a hora, um dos geradores fora ligado aos circuitos dos postes de rua no lado oeste da Sky line Road. O outro foi ligado no sistem a elétrico do hotel. Esta noite, se o suprim ento principal de força fosse m isteriosam ente desligado, os geradores passariam a funcionar autom aticam ente. A escuridão duraria apenas um ou dois segundos.

Bry ce estava confiante de que nem m esm o aquele inim igo desconhecido poderia levar em bora um a vítim a nesse espaço de tem po.

Jenny Paige com eçou a m anhã com um banho de esponj a insatisfatório, seguido de um café da m anhã com pletam ente satisfatório, com posto de ovos, fatias de presunto, torradas e café.

Depois, acom panhada por três hom ens fortem ente arm ados, ela subiu a rua até a sua casa, onde pegou roupas lim pas para si m esm a e para Lisa. Tam bém deu um a passada no seu consultório, onde apanhou um estetoscópio, um esfigm om anôm etro, abaixa-língua, algodão, gaze, talas, ataduras, torniquetes, antissépticos, seringas descartáveis, analgésicos, antibióticos e outros instrum entos e suprim entos de que precisaria a fim de m ontar um a enferm aria de em ergência num dos cantos do saguão do Hilltop.

A casa estava quieta.

Os delegados ficavam olhando à sua volta, nervosos, entrando em cada aposento com o se esperassem que houvesse um a guilhotina arm ada em cim a da porta.

Quando Jenny estava term inando de arrum ar os suprim entos m édicos no consultório, o telefone tocou. Todos ficaram olhando para ele.

Sabiam que som ente dois telefones na cidade estavam funcionando e que am bos ficavam no Hilltop.

O telefone tocou de novo.

Jenny atendeu. Não disse "alô".

Silêncio.

Ela esperou.

Após um segundo, ouviu os gritos distantes de gaivotas. O zum bido de abelhas. O m iado de um gatinho. Um a criança chorando.

Outra criança: rindo. Um cão arfando. O chocalhar de um a cascavel.

Bry ce ouvira coisas sem elhantes ao telefone na noite passada, na subdelegacia, pouco antes da m ariposa vir bater nas j anelas. Ele dissera que os sons tinham sido ruídos anim ais perfeitam ente com uns e fam iliares. A despeito disso, tinham -no perturbado. Não conseguira explicar por quê.

Agora Jenny sabia exatam ente o que ele queria dizer.

Pássaros cantando.

Sapos coaxando.

Um gato ronronando.

O ronronar tornou-se um sibilar. O sibilar tornou-se um grito estridente de gato, cheio de raiva. O grito tornou-se um guincho de dor, breve m as terrível.

Então um a voz:

— Vou enfiar a m inha grande pica na sua irm ãzinha suculenta.

— Jenny reconheceu a voz. Wargle. O m orto. — Está m e ouvindo, Doc?

Ela ficou calada.

— E estou m e lixando para o buraco em que vou enfiar — continuou ele, soltando um a risadinha.

Ela bateu com o telefone.

Os delegados olharam para ela, com ar de expectativa.

— É... não havia ninguém na linha — disse ela, resolvendo não lhes contar o que tinha ouvido. Eles j á estavam nervosos dem ais.

Do consultório de Jenny foram para a Farm ácia Tay ton, na Vail Lane, onde ela apanhou m ais m edicam entos: analgésicos adicionais, um a vasta gam a de antibióticos, coagulantes, anticoagulantes e quaisquer outras coisas de que pudesse vir a necessitar.

Quando estavam term inando na farm ácia, o telefone tocou.

Jenny era quem estava m ais perto dele. Não queria atender, m as não pôde resistir.

E lá estava aquilo de novo.

Jenny esperou um m om ento, depois disse: — Alô?

Wargle falou: — Vou usar a sua irm ãzinha com tanto gosto que ela não vai poder andar por um a sem ana.

Jenny desligou.

— Ninguém — disse aos delegados.

Achou que não tinham acreditado nela. Estavam fitando as suas m ãos trêm ulas.

Bry ce estava sentado à m esa central de operações, falando por telefones com o QG em Santa Mira.

O pedido de inform ações sobre Tim othy Fly te não dera em nada.

Fly te não era procurado por nenhum a agência policial nos Estados Unidos ou Canadá. O FBI nem m esm o ouvira falar dele. O nom e no espelho do banheiro na Candleglow Inn ainda era um m istério.

A polícia de São Francisco pudera dar inform ações sobre os desaparecidos Harold Ordnay e esposa, em cuj o quarto fora encontrado o nom e de Tim othy Fly te. Os Ordnay s eram donos de duas livrarias em São Francisco. Um a delas era um a livraria de varej o com um . A outra vendia livros antigos e raros. Aparentem ente, era, de longe, a m ais lucrativa das duas. Os Ordnay s eram conhecidos e respeitados nos círculos de colecionadores. Segundo a sua fam ília, Harold e Blanche tinham ido para Snowfield passar um fim de sem ana prolongado para com em orar o seu 31º. aniversário de casam ento. A fam ília j am ais ouvira falar em Tim othy Fly te. A polícia teve perm issão para exam inar o caderno de endereços pessoal dos Ordnay s, m as não foi encontrado ninguém por nom e de Fly te.

A polícia ainda não conseguira localizar nenhum dos em pregados das livrarias. Todavia, esperavam fazê-lo tão logo as duas loj as abrissem , às dez da m anhã. Esperava-se que Fly te fosse um a relação com ercial dos Ordnay s da qual os em pregados tivessem conhecim ento.

— Fique m e m antendo a par das novidades — disse Bry ce ao policial de plantão ao telefone, em Santa Mira. — Com o estão as coisas por aí?

— Um pandem ônio.

— E vai piorar.

Quando Bry ce estava desligando, Jenny Paige voltou do seu safári em busca de drogas e equipam entos m édicos.

— Onde está Lisa?

— Trabalhando na cozinha — disse Bry ce.

— Ela está bem ?

— Claro. Há três hom ens grandes, fortes e arm ados com ela.

Esqueceu? Algum problem a?

— Eu conto depois.

Bry ce destacou os três guardas arm ados de Jenny para novas tarefas, depois aj udou-a a m ontar um a enferm aria num dos cantos do saguão.

— Isso provavelm ente é esforço desperdiçado — disse ela.

— Por quê?

— Até agora não houve ninguém ferido. Só m orto.

— Bem , isso pode m udar.

— Acho que aquilo só ataca quando quer m atar. Não tem m eias m edidas.

— Pode ser. Mas com todos esses hom ens carregando arm as, e com todo m undo danado de nervoso, não m e surpreenderia se alguém ferisse um com panheiro acidentalm ente, ou m esm o atirasse no próprio pé.

Aj eitando um as garrafas na gaveta de um a escrivaninha, Jenny disse:

— O telefone tocou na m inha casa, e de novo na farm ácia. Era Wargle.

Narrou-lhe os dois telefonem as.

— Tem certeza de que era m esm o ele?

— Lem bro-m e distintam ente da voz dele. Um a voz desagradável.

— Mas, Jenny, ele foi...

— Eu sei, eu sei. O rosto dele foi carcom ido, o cérebro sum iu, e todo o seu sangue foi sugado do corpo. Eu sei. E estou ficando m aluca tentando adivinhar o que está se passando.

— Alguém fazendo um a im itação?

— Se é, então tem alguém por aí que faz o Rich Little parecer um am ador.

— Ele parecia estar...

Bry ce interrom peu a frase no m eio, e tanto ele quanto Jenny se voltaram ao ver Lisa aparecer correndo. A j ovem fez-lhes um sinal.

— Venham ! Depressa! Tem um a coisa esquisita acontecendo na cozinha.

Antes que Bry ce pudesse detê-la, ela voltou correndo por onde viera. Vários hom ens com eçaram a ir em seu encalço, sacando as arm as, m as Bry ce ordenou-lhes que parassem .

— Fiquem aqui. Fiquem em seus postos. Jenny j á saíra correndo atrás da garota.

Bry ce correu para o refeitório, alcançou Jenny, passou à sua frente, sacou o revólver e acom panhou Lisa pelas portas de vaivém que conduziam à cozinha do hotel.

Os três hom ens destacados para este turno de tarefas na cozinha — Gordy Brogan, Henry Wong e Max Dunbar — j á tinham trocado os abridores de lata e os utensílios de cozinha pelos revólveres, m as não sabiam para o que apontar.

Ergueram os olhos para Bry ce, com ar desconcertado e perplexo.

Lá vamos nós rodear a amoreira,

a amoreira, a amoreira.

O ar se enchia com o canto de um a criança. Um garotinho. A voz dele era clara, frágil e doce.

Lá vamos nós rodear a amoreira,

de manhã bem ceeediiinhoooo!

— A pia — falou Lisa, apontando.

Intrigado, Bry ce se aproxim ou da pia dupla m ais próxim a, com Jenny vindo logo atrás.

A canção m udara. A voz era a m esm a.

Este velho sabe tocar

Toca pão-pa-ra-rão no meu tambor

Com um pão-pa-ra-rão-pão, pão-pão

Dá um osso ao cão...

A voz da criança saía do ralo da pia, com o se ela estivesse presa lá em baixo, no encanam ento.

...e este velho se m anda pra casa.

Durante segundos m etronôm icos, Bry ce escutou com intensidade fascinada. Perdera a fala.

Lançou um olhar para Jenny. Ela o olhava com a m esm a expressão atônita que vira no rosto dos hom ens quando passara pelas portas de vaivém .

— Com eçou de repente — disse Lisa, erguendo a voz para abafar a cantoria.

— Quando? — quis saber Bry ce.

— Tem uns dois m inutos — respondeu Gordy Brogan.

— Eu estava na pia — disse Max Dunbar. Era um hom em corpulento, cabeludo, de aparência rude e olhos castanhos sim páticos e tím idos. — Quando a cantoria com eçou... pom bas, acho que dei um salto de m eio m etro!

A canção m udou de novo. A doçura foi substituída por um a devoção untuosa, quase zom beteira:

Jesus me ama, disso eu sei,

pois a Bíblia me diz que sim

— Não estou gostando disso — falou Henry Wong. — Com o é que pode?

Chama a si os pequeninos.

Eles são fracos, mas Ele é forte.

Não havia no canto nada de claram ente am eaçador; no entanto, com o os ruídos que Bry ce e Jenny tinham ouvido pelo telefone, a voz m eiga da criança, vinda de um a fonte tão absurda, era de dar nos nervos. Assustadora.

Sim, Jesus me ama.

Sim, Jesus me ama.

Sim, Jesus...

O cantar cessou abruptam ente.

— Graças a Deus! — exclam ou Max Dunbar, estrem ecendo de alívio, com o se o canto m elódico da criança tivesse sido insuportavelm ente áspero, estridente, desafinado. — Aquela voz estava atingindo até a raiz dos m eus dentes.

Depois de vários segundos passados em silêncio, Bry ce com eçou a se debruçar para espiar para dentro do ralo...

...e Jenny disse que talvez ele não devesse...

...e algo explodiu vindo daquele buraco escuro e redondo.

Todos gritaram , Lisa deu um berro e Bry ce recuou, com m edo e surpresa, am aldiçoando-se por não ter sido m ais cuidadoso, levantando bruscam ente o revólver, m irando na coisa que saía de dentro do ralo.

Mas era som ente água.

Um j ato alto de água excepcionalm ente noj enta e gordurosa explodiu até quase o teto e depois caiu sobre todos os presentes. Foi um j ato de curta duração, apenas um ou dois segundos, lançando borrifos em todas as direções.

Algum as das gotas im undas atingiram o rosto de Bry ce.

Manchas escuras apareceram na frente de sua cam isa. Aquilo fedia.

Era exatam ente o que se esperaria que brotasse de um ralo entupido: água m arrom e suj a, fiapos de lam a viscosa, pedaços das sobras do café da m anhã que tinham sido levados ao triturador.

Gordy pegou um rolo de toalhas de papel e todos esfregaram os rostos e procuraram secar as m anchas das roupas.

Ainda estavam se enxugando, ainda esperando para ver se a cantoria ia recom eçar, quando Tal Whitm an em purrou um a das portas de vaivém .

— Bry ce, acabam os de receber um a ligação. O general Copperfield e a sua equipe chegaram ao bloqueio na estrada e receberam ordens de passar há uns dois m inutos.