Fantasmas
Capítulo 45
O bem e o mal
Dom ingo à noitinha, um a sem ana depois que Jenny e Lisa encontraram Snowfield no seu silêncio sepulcral, cinco dias depois da m orte do transm orfo, elas estavam no hospital em Santa Mira, visitando Tal Whitm an. Ele sofrerá, afinal de contas, um a reação tóxica a algum fluido secretado pelo transm orfo e tam bém tivera um a leve infecção, m as nunca estivera verdadeiram ente em perigo. Agora estava quase novo em folha... e ansioso para voltar para casa.
Quando Lisa e Jenny entraram no quarto de Tal, ele se achava sentado num a cadeira j unto à j anela, lendo um a revista. Estava fardado. O revólver e o coldre estavam num a m esinha ao lado da cadeira.
Lisa o abraçou antes que ele pudesse se levantar, e Tal a abraçou de volta.
— Está com boa cara — disse ela.
— Está com bela cara — disse ele.
— Parecendo um gato.
— Parecendo um a gatinha.
— Vai deixar as senhoras de cabeça virada.
— E você vai deixar os rapazes plantando bananeiras.
Era um ritual a que se dedicavam todos os dias, um a pequena cerim ônia de afeição que sem pre trazia um sorriso aos lábios de Lisa.
Jenny adorava vê-lo. Lisa raram ente sorria, ultim am ente. Na últim a sem ana não rira nenhum a vez, nem um a só.
Tal se levantou, e Jenny tam bém o abraçou. Ela disse: — Bry ce está com Tim m y. Já vai subir.
— Sabe — disse Tal —, ele parece estar enfrentando essa situação bem m elhor. Neste últim o ano, dava para se ver que o estado de Tim m y o estava m atando. Agora, parece ser capaz de lidar com ele.
Jenny assentiu.
— Ele tinha m etido na cabeça que para Tim m y seria m elhor estar m orto. Mas, lá em Snowfield, m udou de opinião. Acho que concluiu que, afinal de contas, não há nenhum destino pior do que a m orte. Onde há vida, há esperança.
— É o que dizem .
— Daqui a m ais um ano, se Tim m y ainda estiver em com a, Bry ce poderá m udar de opinião de novo. Mas no m om ento, sente-se grato apenas por poder sentar ao lado do garoto um pouquinho cada dia, segurando-lhe a m ãozinha quente. — Olhou Tal de alto a baixo e perguntou: — A troco de quê o uniform e?
— Estou recebendo alta.
— Fantástico! — exclam ou Lisa.
O com panheiro de quarto de Tim m y atualm ente era um hom em de oitenta anos que tom ava soro e estava ligado a um m onitor cardíaco e a um a m áscara respiratória.
Em bora Tim m y estivesse apenas tom ando soro, estava entregue a um alheam ento tão com pleto quanto o com a do octogenário. Um a ou duas vezes em cada hora, nunca m ais do que isso, as pálpebras do m enino adej avam ou seus lábios se retorciam ou um m úsculo saltava na sua face. Isso era tudo.
Bry ce estava sentado ao lado da cam a, a m ão enfiada pela grade lateral, segurando suavem ente a m ão do filho. Desde Snowfield, este sim ples contato era o bastante para satisfazê-lo. A cada dia ele se retirava sentindo-se m elhor.
Não havia m uita luz, agora que o entardecer tinha chegado. Na parede, à cabeceira da cam a, havia um a lâm pada fraca que lançava um brilho suave som ente até os om bros de Tim m y, deixando o seu corpinho envolto no lençol na som bra. Naquela débil ilum inação, Bry ce pôde ver com o seu filho definhara, perdendo peso apesar da alim entação intravenosa. As m açãs do rosto estavam salientes dem ais. Ele tinha olheiras. O queixo e a linha dos m axilares pareciam pateticam ente frágeis. O filho sem pre fora m iúdo para a idade. Mas agora a m ão que Bry ce segurava parecia pertencer a um a criança m uito m ais j ovem do que Tim m y. Parecia a m ão de um bebê.
Mas era quente. Era quente.
Dali a um pouco, relutante, Bry ce soltou-a. Alisou o cabelo do m enino, endireitou o lençol, afofou o travesseiro.
Estava na hora de ir, m as ele não podia ir; ainda não. Estava chorando. Não queria sair para o corredor com lágrim as no rosto.
Tirou alguns lenços de papel de um a caixa na m esinha-de-cabeceira, levantou-se, foi até a j anela e ficou olhando para Santa Mira.
Em bora chorasse todos os dias quando vinha aqui, estas eram lágrim as diferentes das que chorara anteriorm ente. Estas escaldavam , lavavam com elas o sofrim ento, e curavam . Aos pouquinhos, lentam ente, curavam -no.
— Alta? — perguntou Jenny, de cara feia. — Quem falou?
Tal abriu um sorriso.
— Eu.
— E desde quando você se tornou o seu próprio m édico?
— Eu achei que um a segunda opinião se fazia necessária, então cham ei a m im m esm o para um a consulta e m e recom endei que fosse para casa.
— Tal...
— Verdade, Doc estou ótim o. O inchaço acabou. Há dois dias que não tenho febre. Sou um excelente candidato a alta. Se tentar fazer com que eu fique m ais tem po aqui, a m inha m orte será responsabilidade sua.
— Morte?
— A com ida do hospital sem dúvida m e m atará.
— Ele parece pronto para ir dançar — disse Lisa.
— E quando foi que a senhorita se form ou em m edicina? — perguntou Jenny. Para Tal, falou: — Bem ... deixe-m e dar um a olhada.
Tire a cam isa.
Ele tirou a cam isa rápida e facilm ente, sem a m esm a rigidez do dia anterior. Jenny soltou as ataduras com cuidado e viu que ele tinha razão: não havia inchaço e as feridas estavam fechadas.
— Vencem os — assegurou ele à m édica.
— Em geral, não dam os alta aos paciente à noite. As ordens são dadas pela m anhã; a alta acontece entre dez horas e m eio-dia.
— As regras foram feitas para serem descum pridas.
— Que coisa feia para um policial dizer — im plicou ela. — Olhe, Tal, eu preferiria que você ficasse aqui m ais um a noite, por via das dúvidas...
— E eu preferiria não ficar, caso contrário vou pirar por ficar confinado aqui.
— Está m esm o resolvido?
— Ele está m esm o resolvido — disse Lisa. Tal falou: — Doc, eles puseram o m eu revólver no cofre deles, j unto com o estoque de drogas do hospital. Tive que chatear, suplicar, im plorar e provocar um a doce enferm eira cham ada Paula para que ela o pegasse para m im hoj e à tarde. Disse a ela que era certo você m e deixar sair esta noite. Sabe, Paula é um a alm a irm ã, um a m oça m uito atraente, solteira, disponível, deliciosa...
— Não se em polgue dem ais — falou Lisa. — Há m enores presentes.
— Gostaria de sair com Paula — continuou Tal. — Gostaria de passar a eternidade com Paula. Mas agora, Doc, se disser que eu não posso ir para casa, então terei que devolver o m eu revólver para o cofre, e talvez a supervisora de Paula descubra que ela o entregou para m im antes que a m inha alta fosse definitiva, e então Paula pode perder o em prego, e se ela o perder por m inha causa, nunca sairei com ela. Se não sair com ela, não poderei m e casar com ela, e se não m e casar com ela não haverá nenhum Tal Whitm an pequenino correndo por aí, nunca, porque eu vou m e retirar para um m osteiro e virar celibatário, j á que decidi que Paula é a única m ulher para m im . Assim , se não m e der alta, não apenas estará arruinando a m inha vida, com o privando o m undo de um Einsteinzinho negro, ou quem sabe um Beethovenzinho negro.
Jenny riu e sacudiu a cabeça.
— Está bem , está bem . Vou dar a ordem de alta por escrito e você pode ir para casa hoj e m esm o.
Ele a abraçou e com eçou rapidam ente a vestir a cam isa.
— A Paula que tom e cuidado — disse Lisa. — Você tem lábia dem ais para ficar solto no m eio das m ulheres sem um sino ao redor do pescoço.
— Eu? Lábia? — Ele afivelou o cinturão do coldre. — Sou apenas o velho Tal Whitm an, um pouco acanhado. Fui tím ido a vida toda.
— Oh, com o eu acredito — falou Lisa. Jenny disse: — Se você...
E, de repente, Tal endoidou. Em purrou Jenny para um lado, derrubou-a no chão. Ela bateu com o om bro no pé da cam a e caiu com força no chão. Ouviu um tiro e viu Lisa cair; não sabia se a garota fora ferida ou se estava só procurando se proteger. Por um instante, pensou que Tal estava atirando nelas. Então viu que ainda tentava tirar o revólver do coldre.
Enquanto o tiro ainda ressoava pelo quarto, ela ouviu o ruído de vidro se estilhaçando. Era a j anela às costas de Tal.
— Largue! — berrou Tal.
Jenny virou a cabeça, viu Gene Terr parado no vão da porta, um a silhueta ilum inada pela luz m ais forte no corredor do hospital às costas dele.
Parado nas profundas som bras j unto à j anela, Bry ce term inou de secar as lágrim as e fez um a bola com o lenço de papel ensopado.
Ouviu um ruído suave no quarto, atrás de si, pensou que era um a enferm eira, virou-se — e viu Fletcher Kale. Por um m om ento, Bry ce ficou petrificado de incredulidade.
Kale estava parado ao pé da cam a de Tim m y, m al identificável à luz m uito fraca. Não tinha visto Bry ce. Observava o m enino — e sorria, o rosto transtornado pela loucura. Estava segurando um revólver.
Bry ce se afastou da j anela, buscando o próprio revólver. Tarde dem ais se deu conta de que não estava de uniform e, não estava com a arm a no lugar costum eiro. Tinha um 38 que usava num coldre no tornozelo quando não se achava de serviço; abaixou-se para pegá-lo.
Mas Kale j á o vira. A arm a na m ão de Kale se levantou, trovej ou um a, duas, três vezes, em rápida sucessão.
Bry ce sentiu um a m arreta atingi-lo no alto e no lado esquerdo, e todo o seu peito foi tom ado de dor. Enquanto caía ao chão, ouviu a arm a do assassino trovej ar m ais três vezes.
— Largue! — berrou Tal, e Jenny viu Jeeter; outro tiro ricocheteou na grade da cam a e deve ter furado o teto, porque dois quadrados de tij olo acústico desabaram no chão.
Agachado, Tal disparou duas vezes. O prim eiro tiro atingiu Jeeter na coxa esquerda. O segundo atingiu-o na barriga, ergueu-o e lançou-o de costas num canto, onde caiu num a nuvem de sangue. Não se m exeu.
— Mas que diabo! — exclam ou Tal.
Jenny cham ou por Lisa e rodeou a cam a de gatinhas, im aginando se a irm ã ainda estaria viva.
Há cerca de duas horas que Kale estava doente. Tinha febre.
Seus olhos ardiam , pareciam cheios de areia. Ficara assim de repente.
Tam bém estava com dor de cabeça e, parado ali ao pé da cam a do garoto, com eçou a ficar nauseado. As pernas ficaram fracas. Não com preendia; devia estar protegido, ser invencível. Claro, talvez Lúcifer estivesse im paciente com ele por ter esperado cinco dias antes de sair das cavernas. Quem sabe esta doença era um aviso para continuar a Sua obra. Os sintom as provavelm ente desapareceriam no m inuto em que o garoto estivesse m orto. É. Era o que provavelm ente aconteceria.
Kale abriu um sorriso olhando para a criança em com a, com eçou a erguer o revólver e se encolheu quando um a pontada lhe retorceu as entranhas.
Foi então que notou m ovim ento nas som bras. Afastou-se da cam a. Um hom em . Vindo em sua direção. Ham m ond. Kale abriu fogo, disparando seis vezes, para não correr riscos. Sentia-se tonto, sua visão se achava nublada, o braço estava fraco e m al conseguia segurar a arm a; m esm o assim tão de perto, não podia confiar na sua m ira.
Ham m ond caiu no chão com força e ficou im óvel.
Rindo de contentam ento, im aginando quando a doença o abandonaria, agora que com pletara um a das tarefas que Lúcifer lhe dera, Kale foi oscilando na direção do corpo, pretendendo dar o golpe de m isericórdia. Mesm o que Ham m ond estivesse m ortinho da silva, Kale queria enfiar um a bala naquela cara convencida, falsa, queria arrebentar bem com ela.
Depois cuidaria do garoto.
Era isso o que Lúcifer queria. Cinco m ortes. Ham m ond, o filho, Whitm an, a dra. Paige e a garota.
Chegou j unto de Ham m ond, com eçou a se abaixar — e o xerife se m oveu. A m ão dele foi veloz com o um raio. Tirou um a arm a de um coldre no tornozelo; Kale viu o clarão do disparo antes que pudesse reagir.
Foi atingido. Tropeçou, caiu. O revólver lhe voou das m ãos.
Ouviu quando retiniu ao bater na perna de um a das cam as.
Isto não pode estar acontecendo, falou consigo m esm o. Estou protegido. Ninguém pode m e fazer m al.
Lisa estava viva. Quando caíra atrás da cam a, não fora atingida, estava apenas buscando se proteger. Jenny abraçou-a com força.
Tal se encontrava agachado j unto a Gene Terr. O líder dos m otoqueiros estava m orto, um buraco aberto no tórax.
Um a m ultidão j á se form ara: enferm eiras, aj udantes de enferm agem , m édicos, um ou dois pacientes de roupão e chinelos.
Um servente ruivo apareceu correndo. Parecia em estado de choque.
— Tam bém teve tiroteio no segundo andar!
— Bry ce — disse Jenny, e um a lâm ina gelada de m edo a penetrou...
— O que está acontecendo? — falou Tal.
Jenny correu para a porta de saída no fim do corredor, atravessou-a voando, desceu as escadas de dois em dois degraus. Tal a alcançou quando ela chegava ao final do segundo lance. Abriu a porta e os dois j untos irrom peram no corredor do segundo andar.
Outro grupo se reunira diante do quarto de Tim m y. O coração disparando, Jenny abriu cam inho por entre os espectadores.
Um corpo estava caído no chão, com um a enferm eira agachada ao lado.
Jenny pensou que fosse Bry ce. Então o viu num a cadeira. Outra enferm eira cortava sua cam isa à altura do om bro. Estava apenas ferido.
Bry ce forçou um sorriso.
— É m elhor tom ar cuidado, Doc. Se chegar ao local sem pre assim tão depressa, vão com eçar a acusá-la de correr atrás de pacientes.
Ela chorou. Não pôde se conter. Nunca sentira tanta alegria ao ouvir algum a coisa quanto ao ouvir a voz dele.
— Só um arranhão — disse ele.
— Agora você está parecendo o Tal falando — disse ela rindo em m eio às lágrim as. — Tim m y está bem ?
— Kale ia m atá-lo. Se eu não estivesse aqui...
— Esse aí é Kale?
— É.
Jenny enxugou os olhos com a m anga e exam inou o om bro de Bry ce. A bala o atravessara, entrando pela frente e saindo pelas costas.
Não havia m otivo para se pensar que houvesse se fragm entado, m as de qualquer m odo, ela tencionava m andar radiografar aquilo. O ferim ento sangrava profusam ente, em bora não estivesse esguichando, e ela m andou a enferm eira estancar o fluxo com gaze ensopada com ácido bórico.
Ele ia ficar bom .
Depois de ter-se certificado do estado de Bry ce, Jenny voltou-se para o hom em caído no chão. Seu estado era m ais grave. A enferm eira rasgava a sua j aqueta e a cam isa; ele fora atingido no peito. Tossiu, e o sangue vivo m anchou os seus lábios.
Jenny m andou a enferm eira ir buscar um a m aca e cham ar um cirurgião para um a em ergência. Foi então que notou que Kale estava com febre. Sua testa se achava quente, o rosto afogueado. Quando foi tom ar o seu pulso, notou que estava coberto de m anchas verm elhas.
Subiu a m anga e viu que as m anchas cobriam m etade do braço.
Tam bém as havia no outro pulso. Nenhum a no rosto ou no pescoço.
Tinha notado m anchas verm elho-claras no seu peito, m as pensara que eram gotas de sangue. Exam inando-as com m ais atenção, viu que eram com o as m anchas dos pulsos.
Saram po? Não. Outra coisa. Pior do que o saram po.
A enferm eira voltou com dois serventes e um a m aca sobre rodas; Jenny falou: — Vam os ter que colocar todo este andar de quarentena. E o que fica acim a dele. Tem os um a m oléstia aqui, e não estou bem certa do que sej a.
Depois dos raios X e depois que o seu ferim ento fora tratado, Bry ce foi colocado num quarto próxim o do de Tim m y. A dor no om bro ficou pior, não m elhor, quando os nervos em choque com eçaram a recobrar a sua função. Ele recusou analgésicos, pretendendo m anter a cabeça desanuviada até saber o que acontecera, e por quê.
Jenny veio vê-lo m eia hora depois que fora posto na cam a.
Estava com ar exausto, no entanto o cansaço não dim inuía a sua beleza. A sim ples visão dela era todo o rem édio de que ele precisava.
— Com o está Kale? — perguntou.
— A bala não lhe atingiu o coração. Pegou num pulm ão, passou de raspão num a artéria. Norm alm ente, o prognóstico não seria dos piores. Mas não é apenas da cirurgia que ele tem que se recuperar; tam bém tem que enfrentar um caso de febre m aculosa das Montanhas Rochosas.
Bry ce pestanej ou.
— Febre m aculosa?
— Há duas queim aduras de cigarro na sua panturrilha direita, ou m elhor, as cicatrizes de duas queim aduras, quando ele se livrou dos carrapatos. Os carrapatos dos bosques são os transm issores da m oléstia. A j ulgar pela aparência das cicatrizes, eu diria que ele foi m ordido há cinco ou seis dias, que é m ais ou m enos o tem po de incubação da febre m aculosa. Os sintom as devem ter aparecido nas últim as horas. Ele deve ter estado tonto, gelado, com as j untas fracas...
— Então era por isso que a m ira dele estava tão ruim — disse Bry ce. — Ele disparou de perto três vezes e só m e acertou um a.
— É m elhor agradecer a Deus por ter m andado aquele carrapato se enfiar pela perna da calça dele.
Bry ce pensou um pouco, depois falou: — Parece m esm o um ato de Deus, não é? Mas o que ele e Terr estavam tram ando? Por que se arriscariam a vir até aqui com arm as? Posso entender que Kale tenha querido m e m atar, e até m esm o a Tim m y. Mas por que você, Tal e Lisa?
— Você não vai acreditar — disse ela. — Desde a últim a terça-feira de m anhã, Kale estava m antendo um registro por escrito daquilo que ele cham a de "Os Acontecim entos Posteriores à Epifania". Parece que Kale e Terr fizeram um trato com o Diabo.
Às quatro horas da m anhã de segunda-feira, som ente seis dias depois da epifania sobre a qual havia escrito, Kale m orreu no hospital do condado. Antes de deixar esta vida, abriu os olhos, fitou alucinadam ente a enferm eira, depois olhou para além dela e viu algo que o apavorou, algo que a enferm eira não podia ver. Achou forças para erguer as m ãos, com o se estivesse se protegendo, e gritou; era um grito fraco, de estertores finais.
Quando a enferm eira tentou acalm á-lo, ele falou: — Mas este não é o m eu destino.
E então se foi.
No dia 31 de outubro, m ais de seis sem anas depois dos acontecim entos de Snowfield, Tal Whitm an e Paula Thorner (a enferm eira que ele estava nam orando) deram um a festa de Dia das Bruxas a fantasia na casa de Tal, em Santa Mira. Bry ce foi de vaqueiro, Jenny de vaqueira. Lisa estava de bruxa, com um chapéu alto e pontudo, e um bocado de rím el preto. Tal abriu a porta e falou: — Có-có-ró-có.
Vestia um a fantasia de galinha.
Jenny nunca vira um a fantasia m ais ridícula. Riu com tanto gosto que levou algum tem po para perceber que Lisa tam bém estava rindo.
Era a prim eira vez que a m ocinha ria nas últim as seis sem anas.
Anteriorm ente, o m áxim o que conseguia dar era um sorriso. Agora, ria até as lágrim as lhe escorrerem pelas faces.
— Qual é, um m inutinho só — falou Tal, fingindo estar ofendido. — Você tam bém está um a bruxa bem ridícula.
Piscou para Jenny e ela soube que ele tinha escolhido a fantasia de galinha por causa do efeito que teria sobre Lisa.
— Pelo am or de Deus — disse Bry ce —, saia logo dessa porta e nos deixe entrar, Tal. Se o público o vir nessa fantasia, vai perder o pouco respeito que ainda tem pelo departam ento policial.
Naquela noite, Lisa participou da conversa e dos j ogos, e riu um bocado. Era um novo com eço.
Em agosto do ano seguinte, no prim eiro dia de sua lua-de-m el, Jenny encontrou Bry ce na sacada do seu quarto de hotel, que dava para a praia de Waikiki. Estava de cenho franzido.
— Não está preocupado de estar tão longe de Tim m y, não é? — indagou ela.
— Não. Mas é em Tim m y que estou pensando. Ultim am ente tenho tido a sensação de que tudo vai dar certo, afinal. É estranho.
Com o um a prem onição. Tive um sonho ontem à noite. Tim m y acordou do estado de com a, disse alô e pediu um Big Mac. Só que... não foi com o nenhum outro sonho que eu tivesse tido antes. Foi bastante real.
— Bem , você nunca perdeu a esperança.
— Perdi, durante algum tem po. Mas voltei a recuperá-la.
Ficaram em silêncio por algum tem po, deixando que o vento cálido que vinha do m ar os em balasse, escutando o ruído das ondas quebrando na praia.
Depois, voltaram a fazer am or.
Naquela noite, j antaram num bom restaurante chinês em Honolulu. Tom aram cham panhe a noite toda, m uito em bora o garçom tivesse sugerido cortesm ente que trocassem para chá durante a refeição, para que seus paladares não ficassem "m aculados".
Enquanto com iam a sobrem esa, Bry ce falou: — Havia m ais outra coisa que Tim m y dizia no seu sonho.
Quando eu fiquei surpreso por ele ter saído do estado de com a, ele falou: "Mas, papai, se existe um Diabo, então tam bém tem que existir um Deus. Você j á não tinha percebido isso quando conheceu o Diabo?
Deus não ia deixar que eu passasse o resto da vida dorm indo."
Jenny fitou-o, insegura. Ele sorriu, e continuou: — Não se preocupe, não vou fraquej ar com você. Não vou com eçar a m andar dinheiro para aqueles pregadores charlatães da TV, pedindo que orem pelo Tim m y. Pom bas, não vou nem m esm o com eçar a frequentar a igrej a. Dom ingo é o único dia em que posso dorm ir à vontade! Não estou falando de religião padrão, tipo beatice...
— É, m as não era realm ente o Diabo — disse ela.
— Não era?
— Era um a criatura pré-histórica que...
— Não podia ser as duas coisas?
— Aonde você está querendo chegar?
— A um a discussão filosófica.
— Na nossa lua-de-m el?
— Casei com você em parte pela sua cabeça.
Mais tarde, na cam a, pouco antes de pegarem no sono, ele falou: — Bem , tudo que eu sei é que o transm orfo fez com que eu m e desse conta de que existe m uito m ais m istério neste m undo do que eu im aginava anteriorm ente. Hoj e em dia eu não duvido de nada. E, olhando para trás, considerando tudo a que sobrevivem os em Snowfield, considerando que Tal acabara de afivelar o cinturão com a arm a quando Jeeter entrou, considerando que a febre m aculosa acabou com a m ira de Kale... bem , parece que estávam os destinados a sobreviver.
Eles dorm iram , acordaram quase ao am anhecer, fizeram am or, dorm iram de novo.
De m anhã, ela falou: — De um a coisa estou certa.
— Do quê?
— Nós estávam os destinados a nos casar.
— Sem dúvida algum a.
— Houvesse o que houvesse, o destino teria feito com que nos encontrássem os, m ais cedo ou m ais tarde.
À tarde, enquanto passeavam na praia, Jenny achou que as ondas pareciam rodas im ensas, ribom bantes. O som fez com que ela pensasse no velho ditado de que as rodas dos m oinhos do Céu m oem lentam ente. O ribom bar das ondas reforçava essa im agem e, m entalm ente, ela pôde ver im ensas rodas de pedra de m oinho girando um as contra as outras.
Falou: — Você acha que tem um sentido, então? Um significado?
Ele não teve que perguntar o que ela queria dizer.
— Acho. Todo volteio e toda curva da vida. Um sentido, um propósito.
O m ar espum ava na areia.
Jenny escutava as rodas do m oinho e se perguntava que m istérios e m ilagres, que horrores e alegrias estavam sendo m oídos naquele m esm o instante, para serem servidos nas épocas vindouras.