Fantasmas
Capítulo 38
Uma possibilidade de êxito, depois da longa luta
Mechas de neblina penetravam pela porta aberta, invadindo o laboratório. Sara estava sentada a um balcão de trabalho, debruçada sobre um m icroscópio.
— Incrível — falou baixinho.
Jenny estava sentada diante de outro m icroscópio, ao lado de Sara, exam inando outra lâm ina do tecido do transm orfo.
— Nunca vi um a estrutura celular com o esta.
— É im possível... no entanto aí está — disse Sara.
Bry ce achava-se parado atrás de Jenny. Estava ansioso para que ela o deixasse dar um a olhada na lâm ina. Não significaria m uito para ele, é claro. Não sabia a diferença entre a estrutura celular norm al e a anorm al. Apesar disso, tinha que dar um a olhada naquilo.
Em bora o dr. Fly te fosse um cientista, não era um biólogo; a estrutura celular significaria para ele pouco m ais do que significava para Bry ce. No entanto, ele tam bém se sentia ansioso para dar um a espiadinha. Estava atrás do om bro de Sara, à espera. Tal e Lisa tam bém se achavam por perto, igualm ente ansiosos para dar um a olhada no Diabo num a lâm ina de vidro.
Ainda olhando atentam ente pelo m icroscópio, Sara falou: — A m aior parte do tecido não tem estrutura celular.
— O m esm o acontece com esta am ostra — falou Jenny.
— Mas toda m atéria orgânica tem que ter estrutura celular — disse Sara. — A estrutura celular é virtualm ente um a definição da m atéria orgânica, um requisito de todos os tecidos vivos, planta ou anim al.
— A m aior parte disto aqui m e parece inorgânico — disse Jenny —, m as é claro que não pode ser.
Bry ce concordou: — É. Todos sabem os bem dem ais o quanto aquilo está vivo.
— Vej o um as células aqui e ali — falou Jenny. — Não m uitas; só algum as.
— Há algum as nesta am ostra tam bém — falou Sara. — Mas cada célula parece existir independentem ente das outras.
— Estão bem separadas, é verdade — disse Jenny. — Parece que estão nadando num m ar de m atéria não diferenciada.
— Paredes celulares m uito flexíveis — disse Sara. — Um núcleo trifurcado. Isso é estranho. E ocupa quase m etade do espaço celular inferior.
— O que significa isso? — perguntou Bry ce. — É im portante?
— Não sei se é im portante ou não — respondeu Sara, afastando-se do m icroscópio e franzindo o cenho. — Só não sei a que conclusão chegar.
Em todas as três telas do com putador um a pergunta apareceu: NÃO ESPERAVAM QUE A CARNE DE SATANÁS FOSSE MISTERIOSA?
O transm orfo lhes m andara um a am ostra da sua carne do tam anho de um cam undongo, m as até agora ela não fora toda utilizada nos diversos testes. Metade dela perm anecia num a placa de Petri, sobre o balcão.
Ela trem ia gelatinosam ente.
Transform ou-se de novo num a aranha e rodeou a placa, inquieta.
Transform ou-se num a barata e com eçou a correr de um lado para o outro por algum tem po.
Transform ou-se num a lesm a.
Num grilo.
Num besouro verde com um padrão verm elho rendado na carapaça.
Bry ce e o dr. Fly te estavam agora sentados em frente aos m icroscópios, enquanto Lisa e Tal esperavam a sua vez.
Jenny e Sara encontravam -se na frente de um VDT, onde realçada pelo com putador um a representação de um a varredura autom ática de m icroscópio de elétron estava em andam ento. Sara dirigira o sistem a para focalizar e fixar-se no núcleo de um a das células com pletam ente dispersas do transm orfo.
— Algum a ideia? — perguntou Jenny.
Sara fez que sim , m as não afastou os olhos da tela.
— A esta altura, posso apenas dar um palpite. Mas diria que a m atéria não diferenciada, claram ente o grosso da criatura, é aquilo que pode im prim ir qualquer estrutura celular que desej e; é o tecido que faz as im itações. Pode se form ar em células de cão, células de coelho, células hum anas... Mas quando a criatura está em repouso, aquele tecido não tem estrutura celular própria. Quanto às poucas células dispersas que vem os... bem , de algum a form a elas devem controlar o tecido am orfo. As células dão as ordens; produzem enzim as ou sinais quím icos que dizem ao tecido desestruturado no que deve se transform ar.
— Então, essas células dispersas perm aneceriam im utáveis o tem po todo, independentem ente da form a que a criatura assum isse.
— Sim , é o que parece. Se o transm orfo se tornasse um cão, por exem plo, e se tirássem os am ostras do tecido do cão, veríam os células de cão. Mas aqui e ali, espalhadas pela am ostra, depararíam os com estas células flexíveis com seu núcleo trifurcado, e teríam os prova de que não era absolutam ente um cão.
— E isso nos diz algum a coisa que possa aj udar a nossa salvação? — indagou Jenny.
— Ao que m e consta, não.
Na placa de Petri, o pedaço de tecido am orfo tinha voltado a assum ir a identidade de um a aranha. Depois a aranha se dissolveu e apareceram dúzias de pequenas form igas, correndo pela placa e se atropelando um as às outras. As form igas se uniram para form ar um a única criatura — um a m inhoca. A m inhoca se retorceu por um m om ento e se transform ou num bicho-de-conta m uito grande. O bicho-de-conta virou um besouro. O ritm o das m odificações parecia estar aum entando.
— E quanto a um cérebro? — perguntou-se Jenny em voz alta.
Sara indagou:
— O que quer dizer com isso?
— A coisa tem que ter um centro de intelecto. Sem dúvida, as suas lem branças, conhecim ento, capacidade de raciocínio não estão arm azenados nestas células dispersas.
— Você provavelm ente tem razão — disse Sara. — Em algum lugar da criatura é provável que exista um órgão análogo ao cérebro hum ano. Não igual ao nosso, é claro. Muito, m uito diferente. Mas com algum a função sim ilar. Ele provavelm ente controla as células que vim os, e elas, por sua vez, controlam o protoplasm a inform e.
Cada vez m ais em polgada, Jenny falou: — As células cerebrais teriam pelo m enos um a coisa im portante em com um com as células espalhadas pelo tecido am orfo: j am ais m udariam de form a.
— Isso provavelm ente é verdade. É difícil im aginar com o as lem branças, a função lógica e a inteligência possam ser arm azenadas em qualquer tecido que não tenha um a estrutura celular perm anente, relativam ente rígida.
— Assim o cérebro seria vulnerável — falou Jenny. A esperança brotou nos olhos de Sara.
— Se o cérebro não é um tecido am orfo — continuou Jenny — .então não pode se recom por quando é danificado. Faça um buraco nele, e o buraco perm anecerá ali. O cérebro ficará perm anentem ente danificado. Se sofrer um dano grande o bastante, não poderá controlar o tecido am orfo que form a o seu corpo, e o corpo tam bém m orrerá.
Sara a fitava.
— Jenny, acho que talvez você tenha descoberto algo. Bry ce falou: — Se pudéssem os localizar o cérebro e déssem os uns tiros nele, deteríam os a coisa. Mas com o vam os localizá-lo? Algo m e diz que o transm orfo conserva o seu cérebro bem protegido, escondido de nós, em baixo da terra.
A em polgação de Jenny desapareceu. Bry ce tinha razão. O cérebro podia ser o ponto fraco da coisa, m as eles não teriam oportunidade de testar essa teoria.
Sara consultava os resultados da análise m ineral e quím ica da am ostra de tecido.
— Um a lista extrem am ente variada de hidrocarbonetos — falou.
— E alguns são m ais do que sim ples traços. Um teor m uito elevado de hidrocarbonetos.
— Os carbonos são um elem ento básico de todo tecido vivo — disse Jenny. — O que há de diferente nisso?
— O grau. Há um a abundância m uito grande de carbono em form a bem diferente...
— E isso nos aj uda, de algum a form a?
— Não sei — respondeu Sara, pensativa. Folheou as saídas im pressas, exam inando o resto dos dados.
Bicho-de-conta.
Gafanhoto.
Lagarta.
Besouro. Form igas. Lagarta. Bicho-de-conta.
Aranha, centopeia, barata, lacraia, aranha.
Besouro-m inhoca-aranha-lesm a-centopeia.
Lisa fitava o bolo de tecido na placa de Petri. Ele sofria um a série rápida de m odificações, m uito m ais depressa do que antes, cada vez m ais depressa, a cada m inuto que se passava.
Havia algo errado.
— Petrolato — disse Sara. Bry ce perguntou: — O que é isso?
— Geleia de petróleo — explicou Jenny.
— Quer dizer... com o vaselina? — indagou Tal.
E Fly te disse para Sara: — Mas, sem dúvida, você não está dizendo que o tecido am orfo é algo tão sim ples quanto o petrolato.
— Não, não, não — replicou Sara rapidam ente. — Claro que não. Este é um tecido vivo. Mas existem sim ilaridades no teor de hidrocarbonetos. A com posição do tecido é bem m ais com plexa do que a com posição do petrolato, é claro. Um a lista m ais com prida de m inerais e substâncias quím icas do que se encontraria num corpo hum ano. Um a série de ácidos e alcalinos... Não consigo entender com o é que se nutre, com o respira, com o funciona sem um sistem a circulatório, sem sistem a nervoso aparente, ou com o cria novos tecidos sem usar um form ato celular. Mas esses valores de hidrocarbonetos extrem am ente elevados...
Sua voz foi sum indo. Os olhos pareceram ficar fora de foco, e ela não estava m ais fitando os resultados dos testes.
Observando a geneticista, Tal teve a sensação de que ela ficara, de repente, em polgada com algum a coisa. Não transparecia no seu rosto ou em qualquer aspecto de seu corpo ou postura. No entanto, havia nela algo de definitivam ente novo que dizia a Tal que ela descobrira um a coisa im portante.
Tal lançou um olhar para Bry ce. Seus olhos se encontraram . Ele viu que Bry ce tam bém se apercebera da m udança em Sara.
Quase inconscientem ente, Tal cruzou os dedos.
— É m elhor virem dar um a olhada nisto — disse Lisa, com urgência. Estava j unto à placa de Petri que continha a porção da am ostra de tecido que ainda não haviam usado.
— Depressa, venham cá! — cham ou Lisa, quando não vieram prontam ente.
Jenny e os outros se reuniram e fitaram a coisa na placa de Petri. Gafanhoto-m inhoca-lacraia-lesm a-centopeia.
— Está se alternando cada vez m ais depressa — disse Lisa.
Aranha-m inhoca-lacraia-aranha-lesm a-aranha-m inhoca-aranham inhoca...
É depois m ais depressa ainda.
...aranham inhocaranham inhocaranham inhocaranha...
— Mal se transform a em m inhoca e j á com eça a se transform ar em aranha de novo — disse Lisa. — Feito um a desesperada, Estão vendo? Há algum a coisa acontecendo com ela.
— Parece que perdeu o controle, que enlouqueceu — disse Tal.
— Está tendo um a espécie de colapso — falou Fly te.
Abruptam ente, a com posição da pequena porção de tecido am orfo se m odificou. Um líquido leitoso escorreu dela; depois ficou sendo apenas um m onte de papa m ole e sem vida.
Não se m exeu.
Não assum iu outra form a.
Jenny teve vontade de tocar nela; não teve coragem .
Sara pegou um a pequena colher de laboratório, cutucou a coisa na placa.
Ela não se m oveu.
Sara rem exeu-a com a colher.
O tecido se liquefez ainda m ais, porém não teve nenhum a outra reação.
— Está m orto — disse Fly te, baixinho.
Bry ce pareceu ficar eletrizado com o acontecim ento. Virou-se para Sara.
— O que havia na placa de Petri antes de você colocar nela a am ostra do tecido?
— Nada.
— Devia haver um resíduo.
— Não.
— Pense, droga. Nossas vidas dependem disso.
— Não havia nada na placa. Eu a retirei do aparelho esterilizador.
— Algum traço de um a substância quím ica...
— Estava perfeitam ente lim pa.
— Espere, espere, espere. Algo na placa deve ter reagido com o tecido do transm orfo — falou Bry ce. — Certo? Não está claro?
— E sej a o que for que estava na placa — falou Tal —, é a nossa arm a.
— É o m aterial que vai m atar o transm orfo — disse Lisa.
— Não necessariam ente — falou Jenny, detestando ter que destroçar as esperanças da j ovem .
— Parece fácil dem ais — concordou Fly te, penteando os cabelos brancos desgrenhados com um a m ão trêm ula. — Não vam os tirar conclusões apressadas.
— Especialm ente quando há outras possibilidades — falou Jenny.
— Tais com o? — quis saber Bry ce.
— Bem ... sabem os que a m assa principal da criatura pode destacar peças de si m esm a na form a que quiser, pode dirigir as atividades destas partes destacadas, e pode cham á-las de volta com o cham ou a parte que enviou para m atar Gordy. Mas suponham os que um a porção destacada do transm orfo possa sobreviver apenas por um período relativam ente curto quando está sozinho, longe do corpo-m atriz.
Suponham os que o tecido am orfo necessite de um suprim ento contínuo de um a determ inada enzim a para m anter a sua coesão, um a enzim a que não é fabricada naquelas células de controle situadas independentem ente, espalhadas por todo o tecido...
— ...um a enzim a que é produzida apenas pelo cérebro do transm orfo — disse Sara, continuando o fio do pensam ento de Jenny.
— Exatam ente — concordou Jenny. — Portanto... qualquer porção destacada teria que se reintegrar à m assa principal a fim de repor o seu suprim ento de enzim a vital, ou sej a lá que substância for.
— Isso não é im provável — falou Sara. — Afinal de contas, o cérebro hum ano produz enzim as e horm ônios sem os quais os nossos corpos não poderiam sobreviver. Por que o cérebro do transm orfo não poderia ter um a função sem elhante?
— Tudo bem — disse Bry ce. — O que esta descoberta pode significar para nós?
— Se for um a descoberta e não apenas um palpite errado — falou Jenny —, então isso significa que poderíam os destruir definitivam ente o transm orfo inteiro se pudéssem os destruir o seu cérebro. A criatura não seria capaz de se separar em diversas partes, se arrastar para longe e continuar vivendo em outras encarnações. Sem as enzim as essenciais fabricadas pelo cérebro — ou horm ônios ou sej a lá o que for —, as partes separadas acabariam por se dissolver num a papa sem vida, com o se dissolveu a coisa na placa de Petri.
Bry ce descaiu de desapontam ento.
— Voltam os à estaca zero. Tem os que localizar o cérebro da coisa antes de term os qualquer chance de dar um golpe m ortal, m as ela nunca vai deixar que o façam os.
— Não voltam os à estaca zero — disse Sara. Apontando para o lim o sem vida na placa de Petri, falou: — Isto nos diz outra coisa igualm ente im portante.
— O quê? — perguntou Bry ce, a voz cheia de frustração. — É
algo útil, algo que pode nos salvar... ou é m ais um a inform ação bizarra?
Sara falou:
— Sabem os agora que o tecido am orfo existe num delicado equilíbrio quím ico que pode ser rom pido.
Deixou que suas palavras produzissem efeito. Os profundos vincos de preocupação no rosto de Bry ce se suavizaram um pouco.
Sara continuou:
— A carne do transm orfo pode ser danificada. Ele pode ser m orto. A prova está aqui, na placa de Petri.
— Com o vam os utilizar esse conhecim ento? — indagou Tal. — Com o vam os rom per o equilíbrio quím ico?
— É o que tem os que descobrir — respondeu Sara.
— Tem algum a ideia? — perguntou Lisa à geneticista.
— Não, nenhum a.
Mas Jenny teve, de repente, a sensação de que Sara Yam aguchi estava m entindo.
Sara queria contar-lhes o plano que lhe ocorrera, m as não podia dizer um a palavra. Prim eiro, porque a sua estratégia oferecia apenas um frágil fio de esperança. Não queria dar-lhes esperanças irreais, para depois vê-las frustradas de novo. O que era ainda m ais im portante: se lhes contasse o que estava pensando e se, por m ilagre, tivesse realm ente descoberto um m eio de destruir o transm orfo, este escutaria o que ela ia dizer, ficaria conhecendo os seus planos e a deteria. Não havia lugar algum em que ela pudesse discutir em segurança os seus planos com Jenny, Bry ce e os outros. A esperança deles era m anter o inim igo antigo convencido e com placente.
Mas ela precisava arranj ar tem po, várias horas, para poder colocar em ação o seu plano. O transm orfo tinha m ilhões e m ilhões de anos, era virtualm ente im ortal. O que eram algum as horas para esta criatura? Sem dúvida ela atenderia ao pedido de Sara. Sem dúvida.
Sentou-se a um dos term inais de com putador, os olhos ardendo de cansaço. Precisava dorm ir. Todos eles precisavam dorm ir. A noite estava quase no fim . Sara passou um a das m ãos pelo rosto, com o se pudesse afastar o cansaço. Depois, datilografou: VOCÊ ESTÁ AÍ?
ESTOU.
COMPLETAMOS DIVERSOS TESTES, datilografou ela, enquanto os dem ais se agrupavam ao seu redor.
EU SEI, replicou o transm orfo.
ESTAMOS FASCINADOS. GOSTARÍAMOS DE SABER MAIS COISAS.
É CLARO.
QUEREMOS REALIZAR OUTROS TESTES.
POR QUÊ?
PARA PODERMOS SABER MAIS A SEU RESPEITO.
ESCLAREÇA, respondeu a coisa, provocadoram ente.
Sara pensou por um m om ento, depois datilografou: O DR. FLYTE PRECISA DE DADOS ADICIONAIS PARA PODER ESCREVER A SEU RESPEITO COM AUTORIDADE.
ELE É MEU MATEUS.
PRECISA DE MAIS DADOS PARA CONTAR A SUA HISTÓRIA COMO
DEVE SER CONTADA.
A criatura m andou um a resposta em três linhas no centro da tela do term inal:
— UMA FANFARRA DE TROMBETAS –
A MAIOR HISTÓRIA QUE JÁ FOI CONTADA
— UMA FANFARRA DE TROMBETAS —
Sara não tinha certeza se ela estava sim plesm ente zom bando deles ou se o seu ego era, na verdade, tão grande que ela podia seriam ente com parar a sua história à história de Cristo.
A tela piscou. Novas palavras apareceram : PROSSIGAM COM SEUS TESTES.
PRECISAMOS MANDAR PEDIR MAIS EQUIPAMENTOS DE LABORATÓRIO.
POR QUÊ? VOCÊS TÊM UM LABORATÓRIO TOTALMENTE EQUIPADO.
As m ãos de Sara estavam úm idas. Ela as enxugou nos j eans antes de dar a sua resposta.
ESTE LABORATÓRIO É TOTALMENTE EQUIPADO APENAS PARA UMA ÁREA LIMITADA DE PESQUISAS CIENTÍFICAS: A ANÁLISE DE AGENTES DE GUERRA QUÍMICA E BACTERIOLÓGICA. NÃO ESPERÁVAMOS ENCONTRAR UM SER DA SUA NATUREZA. PRECISAMOS DE OUTROS EQUIPAMENTOS DE LABORATÓRIO PARA PODER FAZER UM TRABALHO ADEQUADO.
PROSSIGAM.
LEVARÁ VÁRIAS HORAS PARA QUE MANDEM PARA CÁ OS EQUIPAMENTOS, disse ela à criatura.
PROSSIGA.
Ela fitou a palavra, verde sobre verde, m al ousando acreditar que ganhar tem po seria assim tão fácil.
Bateu no teclado: PRECISAREMOS VOLTAR PARA O HOTEL E USAR O TELEFONE DE LÁ.
PROSSIGA, SUA PIRANHA CHATA. PROSSIGA, PROSSIGA, PROSSIGA, PROSSIGA.
As m ãos dela estavam úm idas de novo. Ela as enxugou nos j eans e se pôs de pé.
Pelo m odo com o os outros a olhavam , ela percebeu que sabiam que estava ocultando algum a coisa e que com preendiam o m otivo do seu silêncio.
Mas, com o é que eles sabiam ? Estaria sendo assim tão óbvia? E se eles sabiam , será que a coisa tam bém estava sabendo?
Ela pigarreou: — Vam os em bora — disse, com voz trêm ula.
— Vam os em bora — disse Sara Yam aguchi, com o voz trêm ula, m as Tim othy falou: — Esperem . Só um ou dois m inutos, por favor. Preciso tentar um a coisa.
Sentou-se ao term inal do com putador. Em bora tivesse dorm ido um pouco nos aviões, não estava com a m ente tão aguçada quanto deveria estar. Sacudiu a cabeça e inspirou fundo diversas vezes, depois datilografou: AQUI É TIMOTHY FLYTE.
EU SEI.
PRECISAMOS TER UM DIÁLOGO.
PROSSIGA.
PRECISAMOS REALIZÁ-LO ATRAVÉS DO COMPUTADOR?
É MELHOR DO QUE O EVÔNIMO-DA-AMÉRICA.
Por um ou dois segundos, Tim othy não percebeu o que ele queria dizer. Quando entendeu a piada, quase riu alto. O m aldito tinha o seu senso de hum or perverso. Datilografou: A SUA ESPÉCIE E A MINHA DEVEM VIVER EM PAZ.
POR QUÊ?
PORQUE PARTILHAMOS A TERRA. COMO O FAZENDEIRO PARTILHA A TERRA COM O SEU GADO.
VOCÊS SÃO O MEU GADO.
NÓS SOMOS AS DUAS ÚNICAS ESPÉCIES INTELIGENTES SOBRE A TERRA.
VOCÊS ACHAM QUE SABEM DEMAIS. NA VERDADE SABEM MUITO POUCO.
DEVEMOS COOPERAR, insistiu Fly te, teim osam ente.
VOCÊS SÃO INFERIORES A MIM.
TEMOS MUITO O QUE APRENDER UM COM O OUTRO.
NÃO TENHO NADA QUE APRENDER COM A SUA ESPÉCIE.
PODEMOS SER MAIS ESPERTOS DO QUE VOCÊ IMAGINA.
VOCÊS SÃO MORTAIS, NÃO É VERDADE?
É.
PARA MIM, AS SUAS VIDAS SÃO TÃO BREVES E SEM IMPORTÂNCIA QUANTO AS VIDAS DAS EFEMÉRIDAS O SÃO PARA VOCÊS.
SE É ASSIM QUE SE SENTE, POR QUE SE IMPORTA QUE EU ESCREVA OU NÃO A SEU RESPEITO?
DIVERTE-ME QUE ALGUÉM DA SUA ESPÉCIE TENHA CRIADO UMA TEORIA SOBRE A MINHA EXISTÊNCIA. É COMO UM MIQUINHO
DE ESTIMAÇÃO APRENDENDO UM TRUQUE DIFÍCIL.
NÃO CREIO QUE SEJAMOS INFERIORES A VOCÊ, datilografou Fly te, coraj osam ente.
GADO.
ACREDITO QUE VOCÊ QUER QUE SE ESCREVA A SEU RESPEITO PORQUE ADQUIRIU UM EGO BEM HUMANO.
ESTÁ ERRADO.
ACREDITO QUE SÓ SE TORNOU UMA CRIATURA INTELIGENTE DEPOIS QUE COMEÇOU A SE ALIMENTAR DE CRIATURAS INTELIGENTES, DE HOMENS.
A SUA IGNORÂNCIA ME DESAPONTA.
Tim othy continuou a desafiar o transm orfo.
ACREDITO QUE, JUNTAMENTE COM O CONHECIMENTO E AS LEMBRANÇAS QUE FORAM ABSORVIDAS DE SUAS VÍTIMAS HUMANAS, VOCÊ TAMBÉM ADQUIRIU INTELIGÊNCIA. DEVE A SUA EVOLUÇÃO A NÓS.
Não obteve resposta.
Tim othy lim pou a tela e escreveu m ais: A SUA MENTE PARECE TER UMA ESTRUTURA MUITO HUMANA; EGO, SUPEREGO E ASSIM POR DIANTE.
GADO, replicou a coisa.
Apagar.
PORCOS, disse.
Apagar.
ANIMAIS ABJETOS, disse.
Apagar.
VOCÊS ME ENCHEM, disse.
E então todas as telas escureceram .
Tim othy recostou-se na cadeira e soltou um suspiro.
O xerife Ham m ond falou: — Gostei de ver, dr. Fly te.
— Quanta arrogância — falou Tim othy.
— Com o convém a um deus — disse a dra. Paige. — E é m ais ou m enos isso que a criatura se considera.
— De um a certa form a — falou Lisa Paige —, é isso o que realm ente é.
— É — concordou Tal Whitm an —, para todos os fins e propósitos, bem que pode ser um deus. Tem todos os poderes de um deus, não é?
— Ou de um diabo — disse Lisa.
Para além dos postes de luz e acim a da neblina, a noite agora estava cinzenta. O prim eiro brilho im preciso da aurora ilum inava o céu, ao longe.
Sara gostaria que o dr. Fly te não tivesse desafiado o transm orfo tão abertam ente. Ela estava com m edo de que ele tivesse antagonizado a criatura e que ela agora voltasse atrás na sua prom essa de lhes dar m ais tem po.
Durante a curta cam inhada do laboratório m óvel até o Hilltop, ela ficara esperando ver surgir de dentro da neblina um fantasm a grotesco para atacá-los. Aquilo não podia pegá-los agora. Não agora.
Não quando havia, finalm ente, um a pontinha de esperança.
Noutros cantos da cidade, em m eio à neblina e às som bras, ouviam -se estranhos sons anim ais, sinistros gritos ululantes com o Sara j am ais escutara antes. Aquilo ainda se entretinha com as suas im itações incessantes. Um guincho infernal, assustadoram ente próxim o, fez com que os sobreviventes se agrupassem rapidam ente.
Mas não foram atacados.
As ruas, em bora não silenciosas, estavam quietas. Não havia um a brisa sequer, a neblina pairava im óvel no ar.
Nada estava à espera no hotel, tam pouco.
À m esa da central de operações, Sara sentou-se e discou o núm ero da base da Unidade da Defesa Civil da CBW, em Dugway, Utah.
Jenny, Bry ce e os dem ais reuniram -se à volta dela para escutar.
Por causa da crise em andam ento em Snowfield, não havia apenas o costum eiro sargento do plantão noturno no quartel-general de Dugway. O capitão Daniel Tersch, m édico do Corpo Médico do Exército, um especialista na contenção de m oléstias contagiosas, terceiro na escala de encarregados da unidade, estava de prontidão para dirigir quaisquer operações de apoio que se fizessem necessárias.
Sara lhe contou sobre suas últim as descobertas — os exam es m icroscópicos do tecido do transm orfo, os resultados das diversas análises m inerais e quím icas — e Tersch ficou fascinado, em bora isso fugisse à sua especialidade.
— Petrolato? — indagou a certa altura, surpreso pelo que ela lhe havia contado.
— O tecido am orfo se parece com o petrolato apenas porque tem um a m istura m eio sem elhante de hidrocarbonetos que registra valores m ulto elevados. Mas, naturalm ente, é m uito m ais com plexo, m uito m ais sofisticado.
Ela enfatizou esta descoberta em particular, pois queria ter certeza de que Tersch a passaria aos outros cientistas da equipe da CBW em Dugway. Se outro geneticista ou um bioquím ico levasse em consideração estes dados e depois desse um a olhada na lista de m ateriais que ela ia pedir, era praticam ente certo que soubesse qual o seu plano. Se alguém na unidade da CBW percebesse o que ela estava pretendendo, m ontaria a arm a para ela antes de m andá-la para Snowfield, poupando-lhe o serviço perigoso e dem orado de m ontá-la com o transm orfo olhando por cim a de seu om bro.
Sim plesm ente não podia dizer a Tersch o que estava pretendendo, pois tinha certeza de que o inim igo antigo estava escutando a conversa. Havia um som sibilante e estranho, m uito de leve, na linha...
Finalm ente, ela falou que precisaria de equipam entos de laboratório adicionais.
— A m aioria das coisas que pedi podem ser tom adas de em préstim o dos laboratórios industriais e universitários aqui m esm o na Califórnia do Norte — disse ela a Tersch. — Preciso apenas que vocês usem o pessoal, o transporte e a autoridade do Exército para reunir o pacote e trazê-lo para m im o m ais rapidam ente possível.
— Do que precisa? — perguntou Tersch. — É só m e dizer e terá tudo dentro de cinco ou seis horas.
Ela recitou um a lista de equipam entos nos quais não tinha nenhum interesse real, e depois term inou, dizendo: — Tam bém vou precisar do m áxim o que for viável m andar da quarta geração do pequeno m ilagre do dr. Chakrabarty. E ainda de duas ou três unidades de dispersão de ar com prim ido.
— Quem é Chakrabarty ? — indagou Tersch, intrigado.
— O senhor não saberia quem é.
— O que é o seu pequeno m ilagre? O que quer dizer com isso?
— Basta escrever, Chakrabarty, quarta geração — disse ela, soletrando o nom e para ele.
— Não tenho a m ais vaga ideia do que sej a — disse ele. Ótim o, pensou Sara, com alívio considerável. Perfeito.
Se Tersch soubesse o que era o pequeno m ilagre do dr. Ananda Chakrabarty, poderia ter deixado escapar algum a coisa antes que ela pudesse detê-lo. E o inim igo antigo ficaria prevenido.
— Fica fora da sua área de especialização — retrucou Sara. — Não há m otivo para o senhor reconhecer o nom e ou conhecer o dispositivo. — Ela agora falava às pressas, tentando m udar de assunto o m ais discreta e rapidam ente possível. — Não tenho tem po para explicar, dr. Tersch. Outras pessoas no proj eto CBW saberão o que quero, sem dúvida algum a. Vam os andar logo com isso. O dr. Fly te desej a m uito continuar os seus estudos sobre a criatura, e precisa de todos os itens da m inha lista o m ais rápido possível. Cinco ou seis horas, o senhor falou?
— Devem ser o bastante — disse Tersch. — Com o devem os fazer a entrega?
Sara lançou um olhar a Bry ce. Ele não ia querer arriscar m ais outro de seus hom ens para trazer o m aterial até a cidade. Para o capitão Tersch, ela falou: — Podem trazer o m aterial de helicóptero do Exército?
— Positivo.
— Diga ao piloto que não tente pousar. O transm orfo pode pensar que estam os tentando fugir. Sem dúvida atacaria a tripulação e nos m ataria a todos no m om ento em que o helicóptero pousasse. Basta que fiquem pairando aqui em cim a e desçam o pacote por um cabo.
— O em brulho pode ser bem grande — falou Tersch.
— Tenho certeza de que poderão baixá-lo — retrucou Sara.
— Bem ... está certo. Vou tratar disso im ediatam ente. E boa sorte para vocês.
— Obrigada — falou Sara. — Vam os precisar. Desligou.
— De repente, cinco ou seis horas parecem um tem pão — com entou Jenny.
— Um a eternidade — disse Sara.
Estavam todos nitidam ente ansiosos para escutar o seu plano, m as sabiam que ele não podia ser discutido. Mesm o no seu silêncio, porém , Sara detectava um a nota de otim ism o.
Não esperem dem ais, pensou ela, ansiosa.
Havia um a chance do plano dela não se concretizar. Na verdade, as probabilidades eram contra eles. E se o plano falhasse, o transm orfo saberia o que tinham tentado fazer e acabaria com eles de algum m odo especialm ente brutal.
Lá fora, a aurora despontara.
A neblina perdera o seu brilho pálido. Agora a névoa era ofuscante, branquíssim a, refulgindo com as refrações da luz m atinal do sol.