Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 26 de 48

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Fantasmas

Capítulo 24

Um terror gelado

 

A padaria dos Lieberm anns.

Bry ce, Tal, Frank e Jenny entraram na cozinha. O general Copperfield e os nove cientistas de sua equipe seguiram -nos de perto, e quatro soldados, portando m etralhadoras portáteis, fechavam a retaguarda.

A cozinha ficou superlotada. Bry ce se sentiu pouco à vontade. E se fossem atacados enquanto estivessem ali am ontoados? E se tivessem que sair às pressas?

As duas cabeças estavam exatam ente onde tinham estado na véspera; dentro dos fornos, espiando pelo vidro. Na m esa de trabalho, as m ãos cortadas ainda estavam segurando o rolo de m acarrão.

Niven, um dos hom ens do general, tirou diversas fotos da cozinha de vários ângulos, depois cerca de doze doses das cabeças e das m ãos.

Os outros ficavam circulando pela sala para sair da frente de Niven. O registro fotográfico tinha que ser com pletado antes que o trabalho dos m édicos pudesse com eçar, o que não diferia da rotina que os policiais seguiam na cena de um crim e.

Enquanto os cientistas de traj es espaciais se m oviam , a sua roupa de borracha rangia. As botas pesadas raspavam ruidosam ente no chão ladrilhado.

— Ainda acha que é um sim ples incidente de CBW? — perguntou Bry ce a Copperfield.

— Pode ser.

— Verdade?

Copperfield falou:

— Phil, você é o especialista do grupo no gás que afeta o sistem a nervoso. Está pensando no que eu estou pensando?

A pergunta foi respondida pelo hom em em cuj o capacete se via o nom e HOUK.

— Ainda é m uito cedo para afirm ar qualquer coisa, m as m e parece que podíam os estar lidando com um a toxina neuroplética. E existem algum as coisas a respeito disto — principalm ente a extrem a violência psicopática — que m e fazem pensar se não estaríam os diante de um caso de T-139.

— É um a possibilidade nada desprezível — disse Copper field.

— Foi exatam ente no que pensei quando entram os.

Niven continuou a bater fotos, e Bry ce perguntou: — E o que é esse T-139?

— Um dos principais gases que afetam o sistem a nervoso, do arsenal russo — explicou o general. — Seu nom e com pleto é Tim oshenko-139, batizado em hom enagem a Ily a Tim oshenko, o cientista que o criou.

— Que belo m onum ento — com entou Tal. com sarcasm o.

— A m aior parte dos gases asfixiantes que afetam o sistem a nervoso causa a m orte num período que vai de trinta segundos a cinco m inutos após o contato com a pele — explicou Houk. — Mas o T-139 não é assim tão m isericordioso.

— Misericordioso! — exclam ou Frank Autry, atônito.

— O T-139 não é apenas um m atador — explicou Houk. — Isso seria m isericordioso, por com paração. O T-139 é aquilo que os estrategistas m ilitares cham am de desm oralizador.

Copperfield falou: — Ele passa pela pele e entra na corrente sanguínea em dez segundos, ou m enos, depois m igra para o cérebro e quase instantaneam ente causa danos irreparáveis aos tecidos cerebrais.

— Por um período de quatro a seis horas — disse Houk —, a vítim a continua em pleno uso dos m em bros e com cem por cento da sua força norm al. A princípio, é apenas a m ente que sofre.

— Dem ência paranóide — falou Copperfield. — Confusão intelectual, m edo, raiva, perda do controle em ocional e um a certeza absoluta de que todo m undo está tram ando contra ela. Isso é com binado com um a com pulsão feroz de com eter atos violentos. Em essência, xerife, o T-139 transform a as pessoas em m áquinas alucinadas de m atar por um período de quatro a seis horas. Elas se atacam entre si e atacam as pessoas que não foram afetadas, fora do raio de ação do gás. O senhor pode ver que efeito extrem am ente desm oralizante isso teria num inim igo.

— Sem dúvida — disse Bry ce. — E a dra. Paige apresentou a teoria de um a doença dessas, ontem à noite, um a raiva m utante que m ataria algum as pessoas, transform ando outras em assassinos dem entes.

— O T-139 não é um a m oléstia. — disse Houk rapidam ente. — É um gás que afeta o sistem a nervoso. E se eu pudesse escolher, preferia que isso fosse um ataque deste tipo de gás. Logo que o gás se dissipa, a am eaça term ina. Um a am eaça biológica é bem m ais difícil de controlar.

— Se foi gás — falou Copperfield —, j á se dissipou há m uito tem po, m as haverá vestígios dele em quase toda a parte. Resíduos condensados. Num instante o identificarem os.

Recuaram de encontro a um a parede, para dar passagem a Niven e sua câm ara.

Jenny perguntou:

— Dr. Houk, quanto a este T-139, o senhor m encionou que o estágio am bulatorial dura de quatro a seis horas. E depois?

— Bem — respondeu Houk —, o segundo estágio é tam bém o estágio term inal. Pode durar de seis a doze horas. Com eça com a deterioração dos nervos eferentes e vai crescendo até a paralisia dos centros de reflexos cardíacos, vasom otores e respiratórios do cérebro.

— Santo Deus — exclam ou Jenny. Frank pediu: — Repita m ais um a vez para nós, leigos. Jenny explicou: — Significa que durante o segundo estágio da doença, num período que vai de seis a doze horas, o T-139 reduz gradativam ente a capacidade do cérebro de regular suas funções autom áticas, tais com o respiração, batim entos cardíacos, dilatação dos vasos sanguíneos, função dos órgãos. A vítim a com eça a experim entar um batim ento cardíaco irregular, dificuldade extrem a em respirar e colapso gradativo de todas as glândulas e órgãos. Doze horas podem não parecer gradativo para você, m as pareceria um a eternidade para a vítim a. Ela teria vôm itos, diarreia, incontinência urinária, espasm os m usculares contínuos e violentos. E se apenas os nervos eferentes fossem danificados, se o restante do sistem a nervoso perm anecesse intacto, ela sentiria dores cruciantes e incessantes.

— De seis a doze horas de inferno — confirm ou Copperfield.

— Até que o coração pare — disse Houk — ou até que a vítim a sim plesm ente pare de respirar e sufoque.

Durante longos segundos, enquanto Niven tirava as suas últim as fotos, ninguém falou.

Finalm ente, Jenny falou:

— Ainda acho que um gás não pode ter sido o responsável por isso, nem m esm o um T-139, que explicaria as decapitações. Para com eço de conversa, nenhum a das vítim as que encontram os tinha indícios de vôm itos ou incontinência.

— Bem — disse Copperfield —, podem os estar lidando com um derivado do T-139 que não produza esses sintom as. Ou algum outro gás.

— Nenhum gás pode explicar a m ariposa — falou Tal Whitm an.

— Ou o que aconteceu com Stu Wargle — disse Frank.

Copperfield indagou:

— Mariposa?

— O senhor não queria ouvir a história até ter visto estas outras coisas — lem brou Bry ce a Copperfield. — Mas agora acho que está na hora de...

Niven disse: — Term inei.

— Muito bem — falou Copperfield. — Xerife, dra. Paige, delegados, se quiserem fazer o favor de ficar em silêncio até term os com pletado o resto de nossas tarefas aqui, a sua cooperação será m uitíssim o apreciada.

Os dem ais im ediatam ente se lançaram ao trabalho. Yam aguchi e Bettenby transferiram as cabeças cortadas para um par de baldes para am ostras revestidos de porcelana e com tam pas que os trancavam herm eticam ente. Valdez retirou com cuidado as m ãos do rolo de m acarrão e colocou-as num terceiro balde para am ostras. Houk raspou um pouco da farinha que havia sobre a m esa e colocou-a num pequeno frasco de plástico, evidentem ente porque a farinha seca teria absorvido, e ainda teria, vestígios do gás — se, na verdade, tivesse havido qualquer gás que afetasse o sistem a nervoso. Houk tam bém pegou um a am ostra da m assa para tortas que estava sob o rolo de m acarrão. Goldstein e Roberts inspecionaram os dois fornos de onde as cabeças tinham sido retiradas, e depois Goldstein utilizou um pequeno aspirador a pilha para dar um a lim peza com pleta no prim eiro forno. Quando term inou, Roberts pegou o saco com os resíduos, selou-o e etiquetou-o, enquanto Goldstein usava o aspirador para coletar evidências m ínim as e até m icroscópicas do segundo forno.

Todos os cientistas estavam atarefados, exceto os dois hom ens cuj os nom es não estavam nos capacetes. Eles ficavam de lado, apenas observando.

Bry ce observava os observadores, im aginando quem seriam e qual a função que desem penhariam .

Enquanto os outros trabalhavam , eles descreviam o que estavam fazendo e faziam com entários sobre o que tinham encontrado, sem pre falando num j argão que Bry ce não conseguia com preender. Não falavam dois ao m esm o tem po; este fato, j untam ente com o pedido de silêncio feito por Copperfield para aqueles que não eram m em bros da equipe, fazia parecer que estavam falando oficialm ente.

Entre os obj etos que pendiam do cinto de utilidades à volta da cintura de Copperfield, estava um gravador ligado diretam ente ao sistem a de com unicações do m acacão do general. Bry ce percebeu que os rolos do gravador estavam se m ovendo.

Quando os cientistas tinham obtido tudo que queriam da cozinha da padaria, Copperfield falou: — Muito bem , xerife. Para onde, agora? Bry ce apontou para o gravador.

— Não vai desligar isso até chegarm os lá?

— Não. Com eçam os a gravar desde o m om ento em que nos perm itiram passar pelo bloqueio na estrada e vam os continuar gravando até descobrirm os o que aconteceu a esta cidade. Desse m odo, se algo der errado, se todos m orrerm os antes de ser encontrada a solução, a nova equipe saberá de todos os passos que dem os. Não terão que com eçar da estaca zero, e poderão até ter um registro detalhado do erro fatal que causou a nossa m orte.

A segunda parada foi na galeria de arte e artesanato para onde Frank Autry levara os três outros hom ens na noite anterior. Novam ente foi ele a tom ar a frente, entrando prim eiro na sala de exposição, depois no escritório dos fundos, depois subindo a escada que levava ao apartam ento do segundo andar.

Parecia a Frank haver algo de quase côm ico na cena: todos aqueles astronautas subindo laboriosam ente a escada estreita, os rostos teatralm ente som brios por trás dos visores de plexiglas, o som da sua respiração am plificado pelo espaço fechado do capacete e proj etado pelos alto-falantes no peito num volum e exagerado, um som agourento.

Era com o um daqueles film es de ficção científica de 1950 — O Ataque dos Astronautas Alienígenas, ou qualquer coisa igualm ente cafona —, e Frank não pôde deixar de sorrir.

O seu débil sorriso, porém , desapareceu quando ele entrou na cozinha do apartam ento e viu novam ente o hom em m orto. O cadáver estava no m esm o lugar da véspera, deitado ao pé da geladeira, usando apenas as calças azuis do pij am a. Ainda inchado, pisado, fitando o nada de olhos arregalados.

Frank saiu do cam inho do pessoal de Copperfield e foi se j untar a Bry ce ao lado do balcão onde estava a torradeira.

Copperfield voltou a pedir silêncio aos leigos, enquanto os cientistas rodeavam cuidadosam ente o m aterial para o preparo de sanduíches que estava espalhado pelo chão. Cercaram o cadáver.

Dentro de alguns m inutos tinham term inado um exam e prelim inar do corpo.

Copperfield voltou-se para Bry ce e falou: — Vam os levar este aqui para autópsia.

— Ainda acha que podem os estar lidando com um sim ples incidente de CBW? — perguntou Bry ce, com o j á perguntara antes.

— Sim , é inteiram ente possível — disse o general.

— Mas as pisaduras e o inchaço... — falou Tal.

— Podem ser um a reação alérgica a um gás que afeta o sistem a nervoso — disse Houk.

— Se levantarem a perna do pij am a — falou Jenny —, creio que verão que a reação se estende até m esm o à pele que não está exposta.

— É verdade — concordou Copperfield. — Já olham os.

— Mas com o é possível a pele reagir m esm o nos lugares em que não entrou em contato com o gás?

— Esses gases em geral têm um alto poder de penetração — explicou Houk. — Costum am atravessar a m aioria das roupas. Na verdade, a única coisa que detém m uitos deles são os traj es de vinil ou borracha.

Exatam ente o que vocês estão usando, pensou Frank, e nós não.

— Tam bém há outro corpo aqui — disse Bry ce ao general. — Quer dar um a olhada nele tam bém ?

— Positivo.

— É por aqui, senhor — m ostrou Frank.

Saiu da cozinha e desceu o corredor, de arm a em punho.

Frank tem ia entrar no quarto onde a m ulher m orta j azia nua em m eio aos lençóis am assados. Lem brou-se das coisas grosseiras que Stu Wargle dissera a seu respeito e tinha a sensação terrível de que Stu estaria ali agora, transando com a loura, seus corpos m ortos grudados num a paixão fria e infindável.

Mas apenas a m ulher estava lá. Esparram ada na cam a. As pernas ainda abortas. A boca escancarada num grito eterno.

Quando Copperfield e o seu pessoal tinham term inado um exam e prelim inar do cadáver e estavam prontos para partir, Frank fez questão de que eles vissem a autom ática 22 que ela aparentem ente esvaziara atirando no assassino.

— Acha que ela teria' atirado num a nuvem de gás, general?

— Claro que não — disse Copperfield. — Mas talvez j á estivesse afetada pelo gás, j á estivesse com o cérebro danificado. Poderia estar atirando em alucinações, em fantasm as.

— Fantasm as — falou Frank. — É, senhor, é isso que teriam que ser. Porque, sabe, ela disparou todas as dez balas do pente, no entanto só encontram os dois proj éteis — um naquela côm oda ali, outro na parede onde se vê o buraco. Isso quer dizer que ela acertou a m aioria dos disparos naquilo contra que estava atirando.

— Conheço essa gente — disse a dra. Paige, adiantando-se. — Gary e Sandy Wechlas. Ela era um a exím ia atiradora. Tiro ao alvo.

Ganhou diversas com petições na feira do condado, no ano passado.

— Então tinha perícia bastante para acertar oito tiros entre dez — falou Frank. — E m esm o oito tiros certeiros não detiveram a coisa que ela estava tentando deter. Oito tiros certeiros nem m esm o a fizeram sangrar. Claro, fantasm as não sangram . Mas, senhor, será que um fantasm a seria capaz de sair daqui levando consigo aqueles oito proj éteis!

Copperfield fitou-o, de testa franzida.

Todos os cientistas tam bém estavam franzindo a testa.

Os soldados não estavam apenas franzindo a testa; estavam olhando ao seu redor, inquietos.

Frank pôde ver que o estado dos dois corpos — especialm ente a expressão de pesadelo da m ulher — fizera efeito no general e no seu pessoal. O m edo nos olhos de todos estava m ais nítido. Em bora não quisessem adm iti-lo, tinham encontrado algo além da sua experiência.

Ainda estavam se apegando a explicações que faziam sentido para eles (gases, vírus, veneno), m as estavam com eçando a ter as suas dúvidas.

O pessoal de Copperfield trouxera consigo um a sacola de plástico com zíper para colocar cadáveres. Na cozinha, enfiaram o cadáver de pij am a na sacola, depois tiraram -na do prédio e deixaram -na na calçada, com a intenção de pegá-la na hora de voltar para os laboratórios m óveis.

Bry ce levou-os até o Mercado Gilm artin. Lá dentro, j unto aos refrigeradores de leite, onde a coisa acontecera, ele lhes contou sobre o desaparecim ento de Jake Johnson.

— Nenhum grito. Absolutam ente nenhum som . Som ente alguns segundos de escuridão. Alguns segundos. Mas quando a luz se acendeu de novo, Jake tinha sum ido.

Copperfield falou:

— Vocês procuraram ...

— Por toda-a parte.

— Ele pode ter fugido — falou Roberts.

— É — concordou a dra. Yam aguchi. — Quem sabe desertou.

Dadas as coisas que viu...

— Meu Deus — exclam ou Goldstein. — E se ele deixou Snowfield? Pode estar além da linha de quarentena, espalhando a infecção...

— Não, não, não. Jake não desertaria — disse Bry ce. — Não era exatam ente o policial m ais agressivo da força, m as não m e abandonaria. Não era irresponsável.

— Definitivam ente não — concordou Tal. — Além disso, o pai de Jake foi o xerife do condado, portanto há m uito orgulho de fam ília na história.

— E Jake era um hom em cauteloso — falou Frank. — Não fazia nada im pulsivam ente.

Bry ce assentiu.

— De qualquer form a, m esm o que estivesse apavorado o bastante para fugir, teria levado um carro-patrulha. Não teria saído da cidade a pé.

— Olhem — falou Copperfield. — Ele sabia m uito bem que não o deixariam passar pelo bloqueio da estrada, portanto teria evitado com pletam ente a rodovia. Podia ter se m etido nos bosques.

Jenny sacudiu a cabeça.

— Não, general. A terra por lá é realm ente agreste. O delegado Johnson não ignorava que se perderia e m orreria.

— E — disse Bry ce — será que um hom em assustado se m eteria intem pestivam ente pelo m eio de um a floresta estranha, à noite? Acho que não, general. Mas acho que está na hora do senhor saber o que aconteceu ao m eu outro delegado.

Apoiado de encontro a um refrigerador cheio de queij os e frios, Bry ce contou-lhes sobre a m ariposa, sobre o ataque a Wargle e o estado arrepiante do cadáver. Contou-lhes sobre o encontro de Lisa com um Wargle ressuscitado e sobre a constatação subsequente de que o corpo tinha desaparecido.

Copperfield e a sua equipe expressaram espanto a princípio, depois confusão, depois m edo. Durante a m aior parte da história de Bry ce, porém , fitaram -no num silêncio desconfiado e trocaram olhares intencionais.

Bry ce encerrou a sua narrativa falando-lhes da voz infantil que saíra de dentro do ralo tia cozinha alguns m om entos antes da chegada deles. Então, pela terceira vez, falou: — Com o é, general, ainda acha que parece um sim ples incidente de CBW?

Copperfield hesitou, correu os olhos pelo m ercado desarrum ado, finalm ente encontrou o olhar de Bry ce e falou: — Xerife, o dr. Roberts e o dr. Goldstein farão um exam e físico com pleto no senhor e em todas as pessoas que viram esta... hã... m ariposa.

— Não acredita em m im .

— Ah, eu acredito que vocês, genuína, sinceram ente, acham ter visto todas essas coisas.

— Droga — disse Tal. Copperfield continuou: — Sem dúvida vocês podem com preender que, para nós, isso soa com o se vocês todos tivessem sido contam inados, com o se estivessem sofrendo de alucinações.

Bry ce estava cansado da descrença deles e frustrado pela sua rigidez intelectual. Com o cientistas, supunha-se que devessem ser receptivos a novas ideias e possibilidades inesperadas. Em vez disso, pareciam determ inados a forçar as provas e se conform arem às suas noções preconcebidas do que iam encontrar em Snowfield.

— Acha que todos poderíam os ter tido a m esm a alucinação? — perguntou Bry ce.

— Alucinações em m assa não são algo desconhecido — disse Copperfield.

— General — falou Jenny —, não havia nada de alucinatório no que vim os. Tudo tinha a textura áspera da realidade.

— Dra. Paige, de um m odo geral eu daria um peso considerável a qualquer observação que a senhora houvesse por bem fazer. Porém , à sem elhança daquelas pessoas que alegam ter visto a tal m ariposa, o seu j uízo m édico no assunto sim plesm ente não é obj etivo.

Fechando a cara para Copperfield, Frank Autry falou: — Senhor, se foi tudo apenas um a alucinação coletiva... então onde está Stu Wargle?

— Quem sabe tanto ele quanto esse Jake Johnson abandonaram vocês? — disse Roberts. — E quem sabe vocês sim plesm ente incorporaram o desaparecim ento deles aos seus delírios?

Graças a um a longa experiência, Bry ce sabia que um debate estava perdido do m om ento em que se deixava aflorar a em oção.

Forçou-se a perm anecer num a posição relaxada, apoiado contra o refrigerador. Mantendo a voz baixa e lenta, falou: — General, pelas coisas que o senhor e o seu pessoal disseram , alguém podia achar que o departam ento policial do condado de Santa Mira tem com o funcionários apenas covardes, idiotas e hom ens que se furtam ao seu dever.

Copperfield fazia gestos conciliatórios com as m ãos enluvadas em borracha.

— Não, não, não. Não estam os dizendo nada disso. Por favor, xerife, tente com preender. Estam os sendo francos com o senhor.

Estam os lhe dizendo com o a situação nos parece — com o pareceria, a qualquer um com conhecim ento especializado de guerra quím ica e biológica. A alucinação é um a das coisas que esperam os encontrar nos sobreviventes. É um a das coisas que tem os que procurar. Agora, se vocês conseguissem nos oferecer um a explicação lógica para a existência dessa m ariposa do tam anho de um a águia... bem , então talvez nós pudéssem os vir a acreditar. Mas vocês não conseguiram . O que faz com que a nossa sugestão — de que vocês m eram ente tiveram alucinações — sej a a única explicação que faz sentido.

Bry ce notou que os quatro soldados o estavam fitando de um a m aneira m uito diferente, agora que ele estava sendo considerado com o um a vítim a do gás que afetava o sistem a nervoso. Afinal de contas, um hom em que sofria de alucinações bizarras era obviam ente instável, perigoso, talvez até violento o bastante para cortar fora a cabeça das pessoas e enfiá-las nos fornos de um a padaria. Os soldados ergueram as m etralhadoras portáteis alguns centím etros, em bora não estivessem apontando diretam ente para Bry ce. Olhavam para ele (e para Jenny, Tal e Frank) com um ar de desconfiança novo e indisfarçável.

Antes que pudesse responder a Copperfield, Bry ce sobressaltou-se com um barulho alto vindo dos fundos do m ercado, para além dos cepos de açougueiro. Ele se afastou do refrigerador, voltou-se para a origem da com oção e levou a m ão direita ao revólver no coldre.

Com o canto do olho viu que dois dos soldados estavam reagindo a ele, e não ao barulho. Quando levara a m ão ao revólver, eles haviam instantaneam ente erguido as m etralhadoras.

Fora um som de m arteladas que cham ara a sua atenção. E um a voz. Am bos vinham do grande frigorífico, do outro lado da área de trabalho do açougueiro, a cerca de quatro m etros e m eio de distância, quase diretam ente em oposição ao ponto em que Bry ce e os outros estavam reunidos. A porta espessa e isolada da geladeira abafava os golpes que choviam sobre ela, m as, m esm o assim , eles ainda eram altos. A voz tam bém era abafada, as palavras indistintas, m as Bry ce pensou que podia ouvir alguém pedindo socorro.

— Há alguém preso lá dentro — falou Copperfield.

— Não pode ser — disse Bry ce.

Frank falou:

— Não pode estar trancado lá dentro porque a porta abre dos dois lados.

As batidas e os gritos cessaram abruptam ente. Um tinido.

Um ruído de m etal sobre m etal.

A m açaneta da grande porta de aço polido m oveu-se para cim a e para baixo, para cim a e para baixo, para cim a...

O trinco se soltou. A porta se abriu. Mas apenas uns cinco centím etros. Depois, parou.

O ar refrigerado saiu lá de dentro, m isturando-se com o ar m ais cálido do m ercado. Pequenas nuvens de vapor gelado erguiam -se ao longo da extensão da porta aberta.

Em bora a luz estivesse acesa no aposento para além da porta, Bry ce não podia ver nada pela abertura estreita. Apesar disso, sabia bem com o era o frigorífico. Durante a busca da véspera por Jake Johnson, Bry ce estivera lá dentro, vasculhando. Era um lugar frígido, sem j anelas, claustrofóbico, de cerca de 3,50m por 4,50m . Havia um a outra porta, equipada com duas trancas, que dava para o beco, com o obj etivo de facilitar o recebim ento das entregas de carne. Um piso de concreto pintado. Paredes de concreto seladas. Luzes fluorescentes.

Respiradouros em três das paredes faziam circular o ar gelado em volta dos pedaços de carne de boi e de porco que pendiam dos ganchos no teto.

Bry ce não podia ouvir nada além da respiração aum entada dos cientistas e soldados nos m acacões de descontam inação, que, por sinal, j á estava abrandada; alguns deles pareciam estar prendendo o ar nos pulm ões.

Então, de dentro do frigorífico, saiu um gem ido de dor. Um a voz m uito fraquinha pediu socorro. Ricocheteando nas frias paredes de concreto, levada nos vapores de ar em espiral que escapavam pela porta ligeiram ente aberta, a voz era trêm ula, distorcida, m as reconhecível.

— Bry ce... Tal...? Quem está ai? Frank? Gordy ? Tem alguém aí?

Alguém ... pode... m e aj udar?

Era Jake Johnson.

Bry ce, Jenny, Tal e Frank ficaram im óveis, prestando atenção.

Copperfield disse:

— Sej a quem for, está precisando m uito de aj uda.

— Bry ce... por favor... alguém ...

— O senhor o conhece? — perguntou Copperfield. — Está cham ando pelo senhor, não está, xerife?

Sem esperar resposta, o general ordenou que dois de seus hom ens — o sargento Harker e o praça Pascalli — fossem exam inar o frigorífico.

— Espere! — exclam ou Bry ce. — Ninguém vai entrar lá. Vam os deixar esses refrigeradores nos separando daquele frigorífico até saberm os m ais algum a coisa.

— Xerife, conquanto eu pretenda lhe prestar cooperação integral em tudo que for possível, o senhor não tem autoridade sobre m eus hom ens ou sobre m im .

— Bry ce... sou eu... Jake... Pelo am or de Deus, m e aj ude. Quebrei a droga da m inha perna.

— Jake? — perguntou Copperfield, apertando os olhos, curiosam ente, ao fitar Bry ce. — Quer dizer que esse hom em aí dentro é o m esm o que vocês disseram ter sido levado daqui ontem à noite?

— Alguém ... m e aj ude... Jesus, está f-frio... tão f-f-frio.

— Parece com ele — adm itiu Bry ce.

— Pronto, estão vendo só ? — disse Copperfield. — Não há nada de m isterioso na história, afinal de contas. Ele esteve aí o tem po todo.

Bry ce olhou feio para o general.

— Eu j á lhe disse que revistam os tudo ontem à noite. Até m esm o a droga do frigorífico. Ele não estava lá.

— Bem , m as agora está — retrucou o general.

— Ei, vocês aí fora! Estou com f-frio. Não consigo m -m exer... a droga da perna!

Jenny tocou o braço de Bry ce.

— Está errado. Está tudo errado. Copperfield disse: — Xerife, não podem os ficar aqui parados perm itindo que um hom em ferido sofra.

— Se Jake realm ente tivesse passado a noite toda aí dentro — falou Frank Autry —, a esta altura j á teria m orrido congelado.

— Bem , se é um frigorífico para guardar carne — falou Copperfield —, o ar lá dentro não chega a congelar. É apenas frio. Se o hom em estivesse com roupas bem quentes, sobreviveria este tem po todo com facilidade.

— Mas com o foi que ele entrou aí, para com eço de conversa? — perguntou Frank. — Que diabo estava fazendo aí dentro?

— E ele não estava aí ontem à noite — disse Tal, com im paciência. Jake Johnson pediu socorro de novo.

— Há perigo aí — disse Bry ce a Copperfield. — Eu estou sentindo. Meus hom ens estão sentindo. A dra. Paige está sentindo.

— Eu não — disse Copperfield.

— General, o senhor não esteve em Snowfield tem po suficiente para com preender que tem que esperar o totalm ente inesperado.

— Com o m ariposas do tam anho de águias? Engolindo a sua raiva, Bry ce falou:

— O senhor não está aqui há tem po suficiente para com preender que... bem ... nada é exatam ente o que parece ser.

Copperfield exam inou-o com ar cético.

— Não banque o m ístico para cim a de m im , xerife.

Dentro do frigorífico, Jake Johnson com eçou a chorar. As suas súplicas choram ingadas soavam horríveis. Parecia um velho apavorado, cheio de dores. Não parecia ser nem um pouquinho perigoso.

— Tem os que aj udar aquele hom em agora — disse Copperfield.

— Não vou arriscar os m eus hom ens — disse Bry ce. — Ainda não. Copperfield voltou a ordenar ao sargento Harker e ao praça Pascalli que exam inassem o frigorífico. Em bora fosse óbvio, pela sua fisionom ia, que não estava achando haver m uito perigo para hom ens arm ados com m etralhadoras, disse-lhes que tom assem cuidado. O general ainda acreditava que o inim igo era algo tão pequeno quanto um a bactéria ou um a m olécula de gás.

Os dois soldados atravessaram as filas de refrigeradores na direção do portão que conduzia à área de trabalho do açougueiro.

Frank falou:

— Se Jake pôde abrir a porta, por que não pôde abri-la com pletam ente para deixar que o víssem os?

— Provavelm ente gastou as suas últim as forças sim plesm ente destrancando a porta — falou Copperfield. — Dá para se notar pela voz dele, pelo am or de Deus. Exaustão com pleta.

Harker e Pascalli cruzaram o portão, por trás dos refrigeradores.

A m ão de Bry ce apertou com m ais força o cabo do seu revólver, ainda no coldre.

Tal Whitm an falou: — Tem m uita coisa errada nesta história, pom bas. Se é realm ente o Jake, se precisa de aj uda, por que esperou até agora para abrir a porta?

— A única m aneira de descobrirm os é perguntando a ele — disse o general.

— Não, quero dizer, há um a entrada externa para esta geladeira — falou Tal. — Ele podia ter aberto a porta antes e gritado para dentro do beco. A cidade está tão quieta que nós o teríam os ouvido lá no Hilltop.

— Quem sabe esteve inconsciente até agora — falou Copperfield. Harker e Pascalli estavam passando pelos cepos e a serra elétrica para carne.

Jake Johnson cham ou de novo.

— Alguém ... está vindo? Alguém ... está vindo agora? Jenny com eçou a levantar outra obj eção, m as Bry ce falou: — Poupe seu fôlego.

— Dra. Paige — disse Copperfield —, a senhora realm ente espera que ignorem os os pedidos de socorro desse hom em ?

— Claro que não — replicou ela. — Mas devem os dar um tem po e pensar num m odo seguro de dar um a olhada lá dentro.

Sacudindo a cabeça, Copperfield interrom peu-a: — Tem os que cuidar dele sem dem ora. Preste atenção, doutora.

Ele está m uito ferido.

Jake estava gem endo de dor de novo.

Harker aproxim ou-se da porta do frigorífico.

Pascalli ficou uns dois passos para trás e para o lado, dando a m elhor cobertura possível ao seu sargento.

Bry ce sentiu os m úsculos se enrij ecendo de tensão nas costas, nos om bros e no pescoço.

Harker chegara à porta.

— Não — disse Jenny, baixinho.

A porta do frigorífico abria para dentro. Harker estendeu para diante o cano da m etralhadora e escancarou a porta com a aj uda dele.

As dobradiças gem eram e rangeram .

O ruído deixou Bry ce todo arrepiado.

Jake não estava largado no vão da porta. Não estava visível em parte algum a.

Para além do sargento, nada podia ser visto, exceto os pedaços de carne pendurados: escuros, cheios de gordura, sangrentos.

Harker hesitou...

(Não entre! pensou Bry ce.)

...e depois entrou. Cruzou a soleira da porta agachado, olhando para a esquerda e apontando a arm a para aquele lado, depois, quase instantaneam ente, olhando para a direita e girando a boca da arm a para esse lado.

À sua direita, Harker viu algum a coisa. Endireitou-se bruscam ente, com surpresa e m edo. Cam baleando apressadam ente para trás, colidiu com um talho de carne.

— Puta que pariu!

Harker pontuou o seu grito com um a saraivada curta de balas da sua m etralhadora.

Bry ce se crispou. O ruído da arm a era ensurdecedor.

Algo em purrou a porta da geladeira pelo lado de dentro e fechou-a.

Harker estava preso lá dentro com aquilo. Aquilo.

— Santo Deus — exclam ou Bry ce.

Sem perder o tem po que gastaria até o portão, Bry ce subiu no refrigerador à sua frente, que lhe batia pela cintura, pisando em pacotes de queij o suíço Kraft e queij o de bola envoltos em papel im perm eável.

Passou por cim a de tudo aquilo e saltou pelo outro lado, na área do açougueiro.

Outra saraivada de balas. Mais longa, desta feita. Talvez longa o bastante para esgotar a m unição da arm a.

Pascalli estava j unto à porta do frigorífico, lutando desesperadam ente com a m açaneta.

Bry ce rodeou as m esas de trabalho.

— O que é que há? — O praça Pascalli parecia j ovem dem ais para estar no Exército... e m uito assustado. — Pom bas, vam os tirar ele daí! — disse Bry ce.

— Não posso. Esta m erda não quer abrir! Dentro do frigorífico, os disparos cessaram . Com eçaram os gritos.

Pascalli m exia na m açaneta em perrada feito um alucinado.

Em bora a porta grossa e isolada abafasse os gritos de Harker, ainda assim eles eram altos, e ficaram rapidam ente ainda m ais altos.

Vindo através do transm issor-receptor portátil no m acacão de Pascalli, a gritaria agoniada devia ser ensurdecedora, pois o soldado de repente levou a m ão ao capacete com o se estivesse tentando bloquear o som .

Bry ce em purrou o soldado para o lado. Agarrou a m açaneta com prida da porta, que funcionava com ação de alavanca, com as duas m ãos. Ela não se m oveu nem para cim a nem para baixo.

Dentro do frigorífico, os gritos penetrantes aum entavam , dim inuíam e aum entavam , ficando m ais altos, m ais estridentes e m ais apavorantes.

Que diabo aquilo está fazendo com Harker? perguntou-se Bry ce.

Esfolando vivo o pobre filho da m ãe?

Voltou o olhar para os refrigeradores. Tal tam bém pulara por cim a das m ercadorias e vinha rapidam ente na sua direção. O general e outro soldado, praça Fodor, atravessaram às pressas o portão. Frank tinha saltado para cim a de um dos refrigeradores, m as de frente para a parte principal da loj a, prevendo a hipótese de que aquela com oção no frigorífico fosse apenas unia tática para desviar a atenção. Os restantes ainda estavam parados em grupo, no corredor para além dos refrigeradores.

Bry ce grilou: — Jenny !

— O que é?

— Esta loj a tem seção de ferram entas?

— Um as m iudezas.

— Preciso de um a chave de fenda.

— Estou indo — falou, e j á estava correndo. Harker gritou.

Jesus, que grito terrível. Saído de um pesadelo. De um asilo de loucos. Do Inferno.

Só de escutá-lo, Bry ce ficou suando gelado. Copperfield chegou ao frigorífico.

— Deixe-m e ver essa m açaneta.

— Não adianta.

— Deixe-m e ver! Bry ce saiu do cam inho.

O general era um hom em grande e m usculoso — o m aior hom em de todos, na verdade. Parecia forte o bastante para arrancar pela raiz um carvalho centenário. Esforçando-se, praguej ando, ele não conseguiu m over a m açaneta da porta nem um m ilím etro, da m esm a form a que Bry ce não conseguira.

— O m aldito trinco deve estar quebrado ou torto — disse Copperfield, arfando.

Harker berrava e berrava.

Bry ce pensou na padaria dos Lieberm anns. No rolo de m acarrão sobre a m esa. As m ãos. As m ãos cortadas. Era assim que um hom em poderia berrar enquanto via suas m ãos sendo cortadas fora na altura dos pulsos.

Copperfield esm urrava a porta, com fúria e frustração.

Bry ce lançou um olhar a Tal. Há sem pre um a prim eira vez: Talbert Whitm an estava visivelm ente am edrontado.

Cham ando o nom e de Bry ce, Jenny atravessou o portão.

Carregava três chaves de fenda, cada um a delas fechada num pacote colorido de papelão e plástico.

— Não sabia qual o tam anho que você ia precisar — falou.

— Ótim o — disse Bry ce, estendendo a m ão para as ferram entas.

— Agora saia daqui rápido. Volte para j unto dos outros.

Ignorando a ordem , ela lhe deu duas das chaves de fenda, m as não soltou a terceira.

Os gritos de Harker tinham se tornado tão estridentes, tão horríveis, que j á nem pareciam hum anos.

Enquanto Bry ce abria um dos pacotes, Jenny rasgou o terceiro invólucro am arelo em pedaços e tirou de dentro dele a chave de fenda.

— Sou m édica. Eu fico.

— Não há nenhum m édico que possa fazer m ais nada por ele — falou Bry ce, rasgando furiosam ente o segundo pacote.

— Pode ser que não. Se você achasse que não havia chance, não estaria tentando tirá-lo daí.

— Que droga, Jenny !

Estava preocupado com ela, m as sabia que não conseguiria persuadi-la a sair se ela j á tinha se resolvido a ficar.

Tirou a terceira chave de fenda das m ãos dela, passou pelo general Copperfield e voltou para j unto da porta.

Não podia rem over os parafusos das dobradiças. A porta abria para dentro, portanto as dobradiças eram internas.

A m açaneta de ação de alavanca, porém , aj ustava-se através de um a grande placa de cobertura atrás da qual ficava o m ecanism o da tranca. A placa estava presa à parte externa da porta por quatro parafusos. Bry ce se agachou diante da placa, escolheu a chave de fenda m ais adequada e retirou o prim eiro parafuso, deixando-o cair ao chão.

Os gritos de Harker cessaram .

O silêncio que se seguiu era quase pior do que a gritaria.

Bry ce retirou o segundo, o terceiro e o quarto parafusos.

Ainda não se ouvia som algum vindo do sargento Harker.

Quando a placa de cobertura ficou solta, Bry ce deslizou-a ao longo da m açaneta, soltou-a e j ogou-a ao chão. Fitou de olhos apertados as entranhas do trinco, cutucou o m ecanism o com a chave de fenda.

Com o resposta, pedaços irregulares de m etal partido saltaram de dentro do trinco; outros pedaços foram caindo por um espaço oco no interior da porta. O trinco fora com pletam ente destroçado por dentro da porta.

Ele encontrou a fenda de liberação m anual na haste do trinco, enfiou nela a chave de fenda, puxou para a direita. A m ola parecia ter sido m uito danificada, pois quase não tinha resistência. Apesar disso, ele puxou o trinco o bastante para conseguir retirá-lo do buraco no batente da porta, depois em purrou para dentro. Algo estalou; a porta com eçou a se abrir.

Todos, inclusive Bry ce, recuaram .

O próprio peso da porta contribuía suficientem ente para o seu m om ento, e ela continuou a se m over lenta, lentam ente para dentro.

O praça Pascalli a estava cobrindo com a m etralhadora, e Bry ce sacou o próprio revólver, assim com o Copperfield, em bora o sargento Harker tivesse provado conclusivam ente que tais arm as eram inúteis.

A porta se escancarou.

Bry ce esperava que algo saísse correndo na direção deles. Nada disso ocorreu.

Olhando pela porta aberta para dentro do frigorífico, ele pôde ver que a porta externa tam bém estava aberta, ao contrário de quando Harker entrara, uns dois m inutos antes. Para além dela via-se o beco m anchado pelo sol.

Copperfield m andou que Pascalli e Fodor vistoriassem o frigorífico. Eles entraram rapidam ente porta adentro, um virando para esquerda, outro para a direita, até sum irem de vista.

Dentro de alguns segundos, Pascalli voltou.

— Tudo em ordem , senhor.

Copperfield entrou no frigorífico, e Bry ce o seguiu.

A m etralhadora de Harker j azia no chão.

O sargento Harker estava pendurado na arm ação para carne do teto, ao lado de um talho de carne — pendurado num gancho de duas pontas enorm es e de ar m alévolo que fora enfiado no seu peito.

O estôm ago de Bry ce revirou. Com eçou a se afastar do hom em pendurado, quando se deu conta de que não era realm ente Harker. Era apenas o m acacão de descontam inação e o capacete do sargento, que pendiam frouxos, vazios. O tecido resistente de vinil fora cortado. O

visor de plexiglas fora quebrado e quase arrancado de dentro da base de borracha em que se encaixava firm em ente. Harker fora arrancado do traj e antes que este fosse espetado no gancho.

Mas onde estava Harker?

Sum ira.

Mais outro. Sum ido.

Pascalli e Fodor estavam lá fora na plataform a de carga, olhando para um e outro lado do beco.

— Toda aquela gritaria — disse Jenny, parando ao lado de Bry ce —, no entanto não há sangue no chão ou no m acacão.

Tal Whitm an apanhou vários cartuchos que tinham sido cuspidos pela m etralhadora; dezenas deles coalhavam o chão. Os invólucros de m etal brilhavam na palm a aberta da sua m ão.

— Muitos cartuchos, m as não estou vendo m uitas balas. Parece que o sargento acertou naquilo em que estava atirando. Deve ter acertado pelo m enos uns cem tiros. Quem sabe duzentos. Quantas balas há num desses pentes grandes, general?

Copperfield fitou os cartuchos brilhantes, m as não respondeu.

Pascalli e Fodor voltaram da plataform a de carga e Pascalli falou: — Não há sinal dele lá fora, senhor. Quer que revistem os o beco um pouco m ais?

Antes que Copperfield pudesse responder, Bry ce falou: — General, o senhor tem que esquecer o sargento Harker, por m ais doloroso que isso possa ser. Ele está m orto. Não tenha nenhum a esperança quanto a ele. Trata-se de m orte. De m orte. Não tom ada de reféns. Não terrorism o. Não gás que afeta o sistem a nervoso. Não há nada de parcial nesta história, neste j ogo estão valendo todas as fichas.

Não sei exatam ente que diabo está lá fora, ou de onde veio, m as sei que é a Morte personificada. A m orte está lá fora num a form a que ainda nem podem os im aginar, im pulsionada por algum propósito que talvez nem possam os com preender. A m ariposa que m atou Stu Wargle...

aquela nem era a verdadeira aparência da coisa. Eu sinto isso. A m ariposa foi com o a reanim ação do corpo de Wargle quando ele foi atrás de Lisa no banheiro: foi apenas para enganar, um a prestidigitação.

— Um fantasm a — falou Tal, usando a palavra que Copperfield utilizara com um sentido um tanto diferente.

— É, um fantasm a — concordou Bry ce. — Ainda não encontram os o verdadeiro inim igo. É algo que sim plesm ente gosta de m atar. Pode m atar rápida e silenciosam ente, do j eito que m atou Jake Johnson. Mas m atou Harker m ais lentam ente, m achucando-o de verdade, fazendo-o gritar. Porque queria que ouvíssem os aqueles gritos.

O assassinato de Harker foi m ais ou m enos aquilo que o senhor falou do T-139: desm oralizador. Essa coisa não levou o sargento Harker em bora. Matou-o, general. Aquilo o m atou. Não arrisque a vida de m ais hom ens procurando por um cadáver.

Copperfield ficou calado por um m om ento. Depois, falou: — Mas a voz que ouvim os. Era o seu hom em , Jake Johnson.

— Não — disse Bry ce. — Acho que não era realm ente Jake.

Parecia a voz dele, m as agora estou com eçando a desconfiar que estam os enfrentando algo que é um im itador fantástico.

— Im itador? — perguntou Copperfield. Jenny olhou para Bry ce.

— Aqueles barulhos de anim al ao telefone.

— É. Os gatos, cães, aves, cascavéis, a criança chorando... Era quase com o um a atuação. Com o se ele estivesse se vangloriando: "Ei, olhe o que sei fazer; vej a com o sou esperto." A voz de Jake Johnson era apenas m ais um a im itação do seu repertório.

— O que está sugerindo? — perguntou Copperfield. — Algo de sobrenatural?

— Não. Isto é real.

— E então? Dê-lhe um nom e — exigiu Copperfield.

— Não posso, que diabo — exclam ou Bry ce. — Talvez sej a um a m utação natural ou até m esm o algo que saiu de um laboratório de engenharia genética em algum a parte. Sabe algum a coisa a esse respeito, general? Vai ver, o Exército tem um a droga dum a divisão inteira de geneticistas criando m áquinas guerreiras biológicas, m onstros feitos pelo hom em , proj etados para chacinar e aterrorizar, criaturas com postas do ADN de m eia dúzia de anim ais. Pegue um pouco da estrutura genética da tarântula e com bine-a com um pouco da estrutura genética do crocodilo, da cobra, da vespa, quem sabe do urso m ais feroz, e depois, só de curtição, insira o gens da inteligência hum ana. Ponha tudo num tubo de ensaio; incube-o; nutra-o. O que obteria? Com que se pareceria? Será que estou falando com o um louco furioso, sugerindo um a coisa dessas? Frankenstein com um a bossa m oderna? Será que j á foram tão longe com a pesquisa da recom binação do ADN? Talvez eu nem m esm o devesse ter elim inado o sobrenatural. O que estou tentando dizer, general, é que pode ser qualquer coisa. É por isso que não posso lhe dar um nom e. Dê asas à im aginação, general.

Não im porta que coisa pavorosa o senhor possa im aginar, não podem os elim iná-la. Estam os lidando com o desconhecido, e o desconhecido abrange todos os nossos pesadelos.

Copperfield fitou-o, depois ergueu os olhos para o m acacão e o capacete do sargento Marker, que pendiam do gancho de carne. Voltou-se para Pascalli e Fodor.

— Não vam os revistar o beco. O xerife provavelm ente tem razão.

O sargento Marker está perdido, e não há nada que possam os fazer por ele.

Pela quarta vez desde que Copperfield chegara na cidade, Bry ce falou:

— O senhor ainda acha que podem os estar lidando com um sim ples incidente de CBW?

— Agentes quím icos ou biológicos podem estar envolvidos — disse Copperfield. — Com o o senhor observou, não podem os elim inar coisa algum a. Mas não é um caso sim ples. Tem razão quanto a isso, xerife. Desculpe ter sugerido que vocês estavam apenas tendo alucinações e...

— Desculpas aceitas — falou Bry ce.

— Algum a teoria? — perguntou Jenny.

— Bem — respondeu Copperfield —, quero com eçar a prim eira autópsia e os testes de patologia im ediatam ente. Talvez não encontrem os um a m oléstia ou um gás, m as ainda podem os encontrar algo que nos dê um a pista.

— É bom m esm o fazer isso, senhor — falou Tal. — Porque tenho um palpite de que o tem po está se esgotando.