Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 35 de 48

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Fantasmas

Capítulo 33

Fantasmas

 

Bry ce falou: — É m elhor voltarm os para o hotel.

Dentro do quarto de hora seguinte, a noite tom aria posse da cidade.

As som bras cresciam com velocidade cancerígena, surgindo dos esconderij os onde tinham passado o dia dorm indo. Espalhando-se na direção um as das outras, form ando poças de escuridão.

O céu estava pintado de cores carnavalescas — laranj a, verm elho, am arelo, roxo —, m as lançava apenas um a luz débil sobre Snowfield.

Eles se afastaram do laboratório m óvel, onde recentem ente tinham tido um a conversa com aquilo, por interm édio do com putador, e se dirigiam para a esquina, quando as luzes das ruas se acenderam .

No m esm o m om ento, Bry ce escutou algo. Um ganido. Um vagido. E depois um latido.

O grupo inteiro se virou, com o se fosse um a só pessoa, e olhou para trás.

Atrás deles um cão vinha m ancando pela calçada, passando pelo laboratório m óvel, tentando desesperadam ente alcançá-los. Era um airedale. A sua pata dianteira esquerda parecia quebrada. Estava de língua de fora. O pelo estava lam bido e em baraçado; parecia desgrenhado, esgotado. Deu m ais um passo trôpego, parou para lam ber a pata ferida e ganiu dolorosam ente.

Bry ce ficou petrificado com a súbita aparição do cachorro. Este era o prim eiro sobrevivente que tinham encontrado; não estava em boas condições, m as estava vivo.

Mas, por que estava vivo? O que havia de diferente nele que o salvara, quando todo o resto perecera?

Se eles pudessem descobrir a resposta, ela poderia aj udá-los a se salvarem .

Gordy foi o prim eiro a agir.

A visão do airedale ferido afetou-o m uito m ais do que a qualquer um dos outros. Não podia suportar ver um anim al sofrendo. Preferia ele próprio sentir a dor. Seu coração com eçou a bater m ais forte. Desta vez, a reação foi ainda m ais forte do que norm alm ente, pois ele sabia que este não era uni cão com um precisando de aj uda e consolo. Este airedale era um sinal de Deus. É. Um sinal de que Deus estava dando a Gordon Brogan m ais um a chance de aceitar o Seu dom . Ele tinha o m esm o j eito com os anim ais que São Francisco de Assis tivera, e não devia rej eitá-lo ou fazer pouco-caso dele. Se desse as costas ao dom de Deus, com o j á fizera antes, desta feita certam ente seria am aldiçoado.

Mas se resolvesse aj udar este cão... As lágrim as ardiam nos cantos dos olhos de Gordy ; escorriam por suas faces. Lágrim as de alívio e felicidade. Ficou encantado com a m isericórdia de Deus. Não havia dúvidas do que devia fazer. Andou rápido na direção do airedale, que estava a uns seis m etros de distância.

A princípio, Jenny ficou em basbacada com o cão. Fitou-o, boquiaberta. E, então, um a alegria violenta explodiu dentro dela. A vida conseguira triunfar sobre a m orte. Aquilo não pudera pegar todas as coisas vivas em Snowfield, afinal de contas. Esse cão (que se sentou, cansado, quando Gordy se dirigiu para ele) sobrevivera, o que significava que talvez eles tam bém pudessem deixar esta cidade com vida...

...e então ela se lem brou da m ariposa.

A m ariposa fora um a coisa viva. Mas não fora am istosa.

E o corpo reanim ado de Stu Wargle.

Lá na calçada, no lim iar das som bras, o cão pousou a cabeça no chão e ganiu, pedindo para ser consolado.

Gordy se aproxim ou dele, agachando-se, falando em tom baixo, encoraj ador:

— Não tenha m edo, am igo. Calm a. Calm inha. Que cãozinho bom que você é. Tudo vai dar certo, am igo. Calm a...

O horror tom ou conta de Jenny. Ela abriu a boca para gritar, m as os outros gritaram prim eiro.

— Gordy, não — gritou Lisa.

— Volte! — berrou Bry ce, assim com o Frank Autry. Tal berrou: — Afaste-se dele, Gordy !

Mas Gordy parecia não escutá-los.

Quando Gordy se acercou do cão, ele ergueu o queixo da calçada, levantou a cabeça quadrada e em itiu uns ruídos baixos, insinuantes. Era um belo espécim e. Com a pata escura, o pelo lavado e escovado e brilhando, seria lindo.

Ele estendeu a m ão para o cão.

O anim al roçou-lhe a m ão com o focinho, m as não o lam beu.

Gordy acariciou-o. O pobrezinho estava frio, incrivelm ente frio, e ligeiram ente úm ido.

— Pobrezinho — falou Gordy.

O cão tinha um cheiro esquisito. Acre. Nauseante, na verdade.

Gordy j am ais sentira um cheiro daqueles.

— Onde e que você se m eteu? — perguntou ele ao cão. — Em que tipo de suj eira andou rolando?

O cachorro ganiu e estrem eceu.

Às suas costas, Gordy escutava os outros gritando, m as estava absorto dem ais com o airedale para prestar atenção. Envolveu o anim al com as duas m ãos, ergueu-o do chão, levantou-se e apertou-o j unto ao peito, com a perna ferida pendurada.

Jam ais sentira um anim al tão frio assim . Não era apenas porque o pelo dele estava m olhado e, portanto, frio. É que parecia não vir nenhum calor de sob o pelo tam bém .

O cão lam beu a m ão dele.

A sua língua era fria.

Frank parou de gritar. Ficou apenas olhando. Gordy pegara do chão o vira-lata, com eçara a acariciá-lo e abraçá-lo, e nada de terrível acontecera. Então quem sabe era m esm o só um cachorro. Quem sabe...

Então.

O cão lam beu a m ão de Gordy, e um a expressão estranha surgiu no rosto de Gordy, e o cão com eçou a... se m odificar.

Cristo.

Era com o um a porção de m assa sendo m anipulada velozm ente por um escultor invisível. O pelo em baraçado pareceu se derreter e m udar de cor, então a textura tam bém se alterou, até que parecia m ais escam as do que outra coisa qualquer, escam as esverdeadas; a cabeça com eçou a se afundar para dentro do corpo, que não era m ais um corpo, só um a coisa inform e, um bolo de tecido que se retorcia; as pernas encurtaram e ficaram m ais grossas; e tudo isso aconteceu em apenas cinco ou seis segundos; então...

Gordy fitou, em estado de choque, a coisa nas suas m ãos.

Um a cabeça de lagarto com olhos am arelos e perversos com eçou a tom ar form a na m assa am orfa na qual o cão se tinha degenerado. A boca do lagarto surgiu no tecido gelatinoso, e um a língua bipartida apareceu; havia um bocado de dentinhos pontudos.

Gordy tentou j ogar a coisa no chão, m as ela se agarrou a ele, Jesus, agarrou-se com força a ele, com o se tivesse se m oldado ao redor dos seus braços e m ãos, com o se as suas m ãos estivessem dentro dela agora.

Então, a coisa deixou de ser fria. De repente ficou m orna. E

depois quente. Dolorosam ente quente.

Antes que tivesse saído com pletam ente da m assa latej ante de tecido, o lagarto com eçou a se dissolver, e um novo anim al passou a tom ar form a, um a raposa, um a raposa que rapidam ente se degenerou antes de ficar inteiram ente form ada, transform ando-se em esquilos, dois deles, os corpos unidos com o gêm eos siam eses, m as rapidam ente se separando e...

Gordy com eçou a gritar. Sacudia os braços para cim a e para baixo, tentando j ogar a coisa fora.

O calor agora era com o fogo. A dor era insuportável.

Jesus, por favor.

A dor foi subindo pelos seus braços, pelos om bros.

Ele gritava e soluçava; deu um passo cam baleante à frente, sacudiu de novo os braços, tentou libertar as m ãos, m as a coisa se agarrava a ele.

Os esquilos sem iform ados se dissolveram e um gato com eçou a aparecer no tecido am orfo que ele segurava e que o segurava, e então o gato rapidam ente se desvaneceu e outra coisa surgiu... Jesus, não, não, Jesus, não... um a coisa tipo inseto, grande com o o airedale, m as com seis ou oito olhos no alto da cabeça m alévola e um bocado de perninhas finas e...

A dor o consum ia. Ele tropeçou para o lado, caiu de j oelhos, depois de lado. Chutava e se debatia em agonia, se retorcia e ondulava na calçada.

Sara Yam aguchi fitava a cena, incrédula. O m onstro que atacava Gordy parecia ter o controle total do seu ADN. Podia m udar a sua form a quando bem queria, e com velocidade espantosa.

Nenhum a criatura daquelas podia existir. Ela tinha que saber; era bióloga, geneticista. Im possível. No entanto, ali estava ela.

A form a de aranha se degenerou e nenhum a nova form a fantasm agórica tom ou o seu lugar. No estado natural, a criatura parecia ser apenas um a m assa de tecido gelatinoso, m osqueada de cinza-m arrom -verm elho, um cruzam ento entre um a am eba aum entada e um fungo repelente. Ela se grudava aos braços de Gordy...

...e de repente um a das m ãos de Gordy apareceu em m eio ao lim o que a envolvia. Mas não era m ais um a m ão. Santo Deus, não.

Eram som ente ossos.

Dedos esqueletais, duros e brancos, com pletam ente descarnados. A carne fora totalm ente carcom ida.

Ela sentiu engulhos, cam baleou para trás, virou-se para a sarj eta, vom itou.

Jenny puxou Lisa dois passos para trás, para m ais longe daquela coisa com que Gordy se debatia.

A garota estava gritando.

O lim o escorreu pela m ão ossuda, reclam ou os dedos descarnados, envolveu-os, vestiu-lhes um a luva de tecido pulsante. Em dois segundos os ossos tam bém tinham desaparecido, dissolvidos, e a luva se transform ou num a bola e se incorporou à parte principal do organism o. A coisa se contorcia obscenam ente, se revolvia internam ente, inchava, saltava aqui, form ava um a concavidade ali, agora um a concavidade onde estivera a saliência, agora um nódulo saltado onde a concavidade estivera, alterando-se febrilm ente, com o se a im obilidade de um único m om ento pudesse significar a m orte. Ela foi subindo pelos braços de Gordy, enquanto ele lutava desesperadam ente para se livrar dela, e à m edida que progredia na direção de seus om bros, não deixava nada para trás, nada, nem cotos, nem ossos; devorava tudo. Com eçou a se espalhar pelo peito tam bém , e onde quer que passasse, Gordy sim plesm ente desaparecia dentro dela e não saía m ais, com o se estivesse afundando num tanque de ácido ferozm ente corrosivo.

Lisa afastou o olhar do m oribundo e se agarrou a Jenny, soluçando.

Os gritos de Gordy eram insuportáveis.

O revólver de Tal j á estava na m ão. Ele correu na direção de Gordy. Bry ce o deteve.

— Está m aluco? Porra, Tal, não há nada que possam os fazer.

— Podem os acabar com o sofrim ento dele.

— Não se aproxim e daquela coisa m aldita!

— Não tem os que nos aproxim ar dem ais para dar um tiro certeiro. Os gritos de Gordy ficavam m ais torturados a cada segundo; agora ele com eçou a berrar pedindo a aj uda de Jesus, e tam borilava os calcanhares no chão, arqueava as costas, vibrava com a tensão, fazendo de tudo para se libertar do peso crescente do seu atacante m edonho.

Bry ce estrem eceu.

— Está certo. Depressa.

Am bos se acercaram m ais do delegado m oribundo que se debatia e abriram fogo. Vários tiros acertaram nele. Os gritos cessaram .

Eles recuaram rapidam ente.

Não tentaram m atar a coisa que estava se alim entando de Gordy. Sabiam que as balas não a afetavam , e estavam com eçando a entender por quê. As balas m atam pela destruição de órgãos vitais e vasos sanguíneos essenciais. Porém , pelo que dava para se ver, essa coisa não tinha órgãos e nem sistem a circulatório convencional.

Tam pouco tinha esqueleto. Parecia ser um a m assa de protoplasm a não diferenciado, m as altam ente sofisticado. Um a bala a penetraria, m as a carne surpreendentem ente m aleável logo fluiria para o canal aberto pela bala, e a ferida sararia num instante.

O m onstro se alim entava m ais alucinadam ente do que antes, num frenesi silencioso, e dentro de segundos não havia m ais nenhum sinal de Gordy. Ele deixara de existir. Havia apenas o transm orfo, de um tam anho m aior, m aior do que o cão que fora, m aior até que Gordy, cuj a substância agora incorporava.

Tal e Bry ce j untaram -se aos outros, m as não correram para o hotel. À m edida que o crepúsculo ia sendo esprem ido lentam ente para fora do céu num torno de escuridão, eles ficaram olhando a coisa am ebóide na calçada.

Ela com eçou a tom ar nova form a. Em segundos, todo o protoplasm a de form a livre tinha sido m oldado num im enso e am eaçador lobo cinzento, e a criatura lançou a cabeça para trás e uivou para a lua.

Então a sua cara ondulou, e os elem entos da sua fisionom ia feroz m udaram de lugar; Tal pôde ver feições hum anas tentando surgir através da im agem do lobo. Olhos hum anos substituíram os olhos do anim al, e havia parte de um queixo hum ano. Os olhos de Gordy ? O queixo de Gordy ? A m etam orfose licantrópica durou apenas alguns segundos, e depois as feições da coisa voltaram à sua form a de lobo.

Um lobisom em , pensou Tal.

Mas sabia que não era nada daquilo. Não era coisa algum a. A identidade do lobo, por m ais real e assustadora que parecesse ser, era tão falsa quanto todas as outras identidades.

Por um m om ento ele ficou ali parado, confrontando-os, deixando a m ostra os dentes enorm es e terrivelm ente afiados, m uito m aior do que qualquer outro lobo que j á tivesse percorrido as planícies ou florestas deste m undo. Seus olhos ardiam com a cor pardacenta-sangrenta do pôr-do-sol.

Vai atacar, pensou Tal.

Atirou nele. As balas penetraram , m as não deixaram nenhum ferim ento visível, não fizeram sangrar, não causaram dor aparente.

O lobo se afastou de Tal, com um a espécie de fria indiferença ao tiroteio, e depois se dirigiu para o orifício de entrada para os escoadouros, no qual os cabos elétricos do laboratório de cam po desapareciam .

Abruptam ente, ergueu-se algo do orifício aberto, algo vindo do escoadouro debaixo da rua, ergueu-se e ergueu-se ao crepúsculo, estrem ecendo, proj etando-se no ar com um a potência trem enda, um a m assa escura e pulsante, com o um fluxo de águas de esgoto, exceto que não era um fluido, m as um a substância gelatinosa que form ava um a coluna quase da m esm a largura que o buraco do qual continuava a se proj etar num j orro obsceno, rítm ico. Crescia e crescia: 1,00m de altura, 2,00m , 3,00m ...

Algo bateu nas costas de Tal. Ele deu um salto, tentou se voltar e só então percebeu que tinha colidido com a parede do hotel. Nem se dera conta de que estivera recuando para longe da coisa gigantesca que saía da entrada para os escoadouros.

Ele agora via que a coluna pulsante e ondulante era outro corpo de protoplasm a de form a livre, com o o airedale que se transform ara num lobo cinzento. Todavia, esta coisa era consideravelm ente m aior do que li prim eira criatura. Im ensa. Tal ficou im aginando que parte dela ainda estava oculta debaixo da rua, e teve um palpite de que o escoadouro estava cheio dela, que o que eles estavam vendo aqui era apenas um a pequena porção do m onstro.

Quando chegou a um a altura de três m etros, a coisa parou de se erguer e com eçou a se alterar. A m etade posterior da coluna se alargou para form ar um capuz, um m anto, e a coisa ficou parecendo com a cabeça de um a cobra-capelo. Então, m ais carne am orfa com eçou a sair da coluna ondulante e brilhante e subir para o capuz, e este rapidam ente ficou m ais largo, e logo não era m ais um capuz; agora era um par de asas gigantescas, escuras e m em branosas, com o as asas de m orcego, saindo do tronco central (ainda inform e). E então o segm ento do corpo entre as asas com eçou a adquirir um a textura — escam as ásperas, sobrepostas — e pernas pequenas e pés com garras com eçaram a se form ar. Estava se transform ando num a serpente alada.

Bateu as asas.

O som foi com o o estalar de um chicote.

Tal se apoiou de encontro à parede.

A coisa bateu as asas.

Lisa se agarrou m ais a Jenny.

Jenny abraçou com força a irm ã, m as seus olhos, m ente e im aginação estavam fixos na coisa m onstruosa que saíra de dentro do escoadouro. Ela se flexionava, latej ava e se contorcia ao crepúsculo, e parecia quase com o um a som bra que ganhara vida.

Bateu as asas de novo.

Jenny sentiu um a brisa fria, causada pelo bater das asas.

Este novo fantasm a parecia que ia se destacar de qualquer protoplasm a adicional que houvesse dentro do escoadouro. Jenny esperava que ele saltasse para o ar que escurecia e voasse para longe — ou que viesse diretam ente para cim a deles.

Seu coração bateu com força; disparou.

Sabia que a fuga era im possível. Qualquer m ovim ento que fizesse resultaria apenas em atrair a atenção indesej ada daquilo. Não havia por que desperdiçar energia na fuga. Não havia onde se esconder de um a coisa com o aquela.

Mais postes de rua se acenderam e as som bras se esgueiraram fantasm agoricam ente.

Jenny observou, assom brada, enquanto um a cabeça de serpente tom ou form a no alto da coluna de três m etros de tecido m osqueado. Um par de olhos verdes cheios de ódio proj etou-se da carne inform e; era com o observar o crescim ento de dois tum ores m alignos por um processo fotográfico. Olhos turvos, obviam ente cegos, ovais, verdes, leitosos; rapidam ente eles se desanuviaram , as pupilas negras alongadas tornando-se visíveis, e fitaram Jenny e os outros com intenção m alévola. Um a boca rasgada de 30cm de largura se abriu; um a fieira de presas brancas e afiadas crescia das gengivas negras.

Jenny pensou nos nom es dem oníacos que tinham brilhado nas telas dos term inais, nos nom es gerados no Inferno que a coisa dera a si m esm a. A m assa de carne am orfa, transform ando-se num a serpente alada, era com o um dem ônio convocado do além .

O lobo fantasm a, que incorporara a substância de Gordy Brogan, acercou-se da base da serpente gigantesca. Roçou contra a coluna de carne pulsante — e sim plesm ente se fundiu nela. Em m enos de um piscar de olhos, as duas criaturas tinham se transform ado num a só.

Evidentem ente, o prim eiro transm orfo não era um indivíduo em separado. Era agora, e talvez sem pre tivesse sido, um a parte da criatura gargantuesca que circulava pelos escoadouros, debaixo das ruas.

Aparentem ente, o m aciço corpo-m atriz podia destacar peças de si m esm o, e despachá-las para cum prir tarefas próprias — com o o ataque a Gordy Brogan — e depois cham á-las de volta a seu bel-prazer.

A coisa bateu as asas e a cidade inteira ecoou com aquele som .

Então elas com eçaram a se fundir de novo com a coluna central e esta ficou m ais grossa à m edida que absorvia o tecido. O rosto da serpente tam bém se dissolveu. Cansara-se dessa atuação. As pernas e os pés de três dedos e as garras ferozes retiraram -se para dentro da coluna, até que nada restou senão um a m assa revolvedora e lim osa de tecido m osqueado escuro, com o antes. Durante vários segundos ela posou no entardecer som brio, um a visão do m al, depois com eçou a se afundar para dentro dos escoadouros debaixo de si, a descer pelo orifício aberto.

Logo desapareceu.

Lisa parara de gritar. Estava sem ar, procurando respirar, e chorando.

Alguns dos outros estavam quase tão abalados quanto a garota.

Entreolhavam -se, m as nenhum deles falou.

Bry ce parecia ter levado um a paulada.

Finalm ente, falou: — Vam os indo. Vam os voltar para o hotel antes que fique m ais escuro.

Não havia nenhum guarda na porta da frente.

— Encrenca — falou Tal.

Bry ce assentiu. Atravessou as portas duplas com cuidado e quase pisou num revólver. Estava j ogado no chão. O saguão estava deserto.

— Droga — disse Frank Autry.

Revistaram o hotel, aposento por aposento. Ninguém no refeitório. Ninguém no dorm itório im provisado. A cozinha tam bém estava deserta. Nem um só tiro fora disparado. Ninguém soltara um grito. Ninguém tam bém escapara. Mais dez delegados tinham desaparecido. Lá fora, caíra a noite.