Fantasmas
Capítulo 27
Fuga
Da j anela gradeada da cela de detenção tem porária, Fletcher Kale tinha um a boa visão da rua. Durante toda a m anhã ele viu os repórteres se reunindo. Acontecera algum a coisa realm ente grande.
Alguns dos outros presos estavam trocando notícias, de cela para cela, m as nenhum deles queria partilhar coisa algum a com Kale.
Eles o odiavam . Muitas vezes o insultavam , cham avam -no de m atador de bebês. Até m esm o na cadeia havia classes sociais, e ninguém estava m ais por baixo do que os assassinos de crianças.
Era quase engraçado. Até m esm o ladrões de carros, assaltantes, ladrões com uns, assaltantes a m ão arm ada e autores de desfalques necessitavam sentir-se m oralm ente superiores a alguém . Então eles abom inavam e perseguiam qualquer um que fizera m al a um a criança, e, de certa form a, aquilo fazia com que se sentissem com o padres e bispos, por com paração.
Idiotas. Kale os desprezava.
Não pediu a ninguém para com partilhar com ele a inform ação.
Não lhes daria a satisfação de vê-lo tentar um a aproxim ação.
Esticou-se no seu catre e ficou sonhando de olhos abertos com o seu destino m agnífico: fam a, poder, fortuna...
Às onze e m eia ainda estava deitado no catre quando vieram buscá-lo para levá-lo ao tribunal, onde seria citado por dois assassinatos. O guarda da detenção abriu a porta. Outro hom em — um delegado grisalho e barrigudo — entrou e colocou as algem as em Kale.
— Estam os com pouca gente hoj e — disse ele a Kale. — Sou o único destacado para isso. Mas não encha a cabeça com ideias idiotas de que teria um a chance de tentar escapar. Você está algem ado, e eu estou arm ado, e nada m e daria m ais prazer do que lhe m eter um tiro no rabo.
Tanto nos olhos do guarda quanto nos do delegado, via-se asco.
Finalm ente, a possibilidade de passar o resto da vida na prisão tornou-se real para Kale. Para sua surpresa, ele com eçou a chorar enquanto era conduzido para fora da cela.
Os outros prisioneiros vaiavam , riam e xingavam .
O barrigudo cutucou Kale nas costelas.
— Mexa-se.
Kale desceu o corredor com pernas trôpegas, passou por um portão de segurança que se abriu para eles, deixando para trás o setor de celas, e entrou noutro corredor. O guarda perm aneceu ali m esm o, m as o delegado foi cutucando Kale na direção dos elevadores, cutucando-o com frequência dem ais e com força dem ais, m esm o quando não era necessário. Kale sentiu a sua autopiedade ceder lugar à raiva.
No elevador pequeno que descia lentam ente, ele se deu conta de que o delegado não m ais considerava o prisioneiro um a am eaça. Estava enoj ado, im paciente e em baraçado com o colapso em ocional de Kale.
Quando as portas se abriram , um a m udança tam bém j á ocorrera em Kale. Ainda chorava baixinho, m as as lágrim as não eram m ais genuínas, e estava trem endo de excitação, não de desespero.
Passaram por outro ponto de vistoria. O delegado apresentou alguns papéis a um outro guarda, que o cham ou de Joe. O guarda olhou para Kale com desdém indisfarçável. Kale desviou o rosto com o se estivesse com vergonha de si m esm o. E continuou chorando.
E então ele e Joe estavam do lado de fora, cruzando um grande estacionam ento na direção de um a fila de carros de polícia verde e branco que se achavam enfileirados diante de um a cerca de proteção contra ciclones. O dia estava quente e ensolarado.
Kale continuou a chorar e fingir que estava de perna m ole.
Mantinha os om bros curvados e a cabeça baixa. Ia arrastando os pés, apático, com o se fosse um hom em alquebrado, derrotado.
Excetuando ele próprio e o delegado, o estacionam ento estava deserto. Só eles dois. Perfeito.
Durante todo o percurso até o carro, Kale ficou procurando o m om ento certo de agir. Chegou até a pensar que ele não viria.
Então Joe em purrou-o de encontro a um carro e virou-se parcialm ente para destrancar a porta — e Kale atacou. Jogou-se contra o delegado enquanto o hom em se inclinava para enfiar a chave na fechadura. O delegado soltou um a exclam ação e deu-lhe um soco.
Tarde dem ais. Kale abaixou-se, esquivando-se do soco, depois ergueu-se rapidam ente e j ogou o outro de encontro ao carro, im prensando-o. O
rosto de Joe ficou branco de dor quando o trinco do carro bateu com força na base de sua espinha. O m olho de chaves voou da sua m ão e, enquanto caía, ele usou a m esm a m ão para tentar tirar o revólver do coldre.
Kale sabia que, com as m ãos algem adas, não conseguiria arrancar a arm a do outro. Tão logo o revólver fosse sacado, a luta estaria term inada.
Então Kale partiu para cim a da garganta do hom em . Com os dentes. Mordeu fundo, sentiu o sangue j orrando, m ordeu de novo, em purrou a boca na ferida, com o um cão raivoso, e m ordeu de novo, e o delegado gritou, m as era apenas um ganido-gorgolej o-suspiro que ninguém podia ter ouvido, e a arm a caiu do coldre e da m ão em espasm os do delegado, os dois hom ens foram ao chão violentam ente, com Kale por cim a, e o delegado tentou gritar de novo; então Kale enfiou-lhe o j oelho na genitália, e o sangue saía aos borbotões da garganta do hom em .
— Filho da m ãe — disse Kale.
Os olhos do delegado se velaram . O sangue parou de j orrar da ferida. Estava acabado.
Kale j am ais se sentira tão poderoso, tão vivo.
Correu os olhos pelo estacionam ento. Ainda ninguém à vista.
Foi pegar o m olho de chaves, experim entou-as de um a em um a até destrancar as algem as. Jogou-as sob o carro.
Rolou o cadáver do delegado para baixo do carro-patrulha tam bém , escondendo-o.
Lim pou o rosto na m anga. Sua cam isa estava pintalgada e m anchada de sangue. Não havia nada que pudesse fazer a respeito.
Tam pouco podia m udar o fato de estar usando roupas de prisão, azuis, folgadas, de tecido áspero, e um par de alpargatas de lona e borracha.
Atravessou o beco e entrou noutro estacionam ento, por trás de um bloco de apartam entos grandes, de dois andares. Ergueu os olhos para as j anelas e torceu para que não houvesse ninguém vendo.
Havia talvez uns vinte carros no estacionam ento. Um Datsun am arelo estava com as chaves na ignição. Ele se sentou ao volante, fechou a porta e soltou um suspiro de alívio. Não estava m ais à vista, e tinha um m eio de transporte.
Havia um a caixa de lenços de papel sobre o painel. Usando os lenços e cuspe, ele lim pou o rosto. Tendo retirado o sangue, olhou-se no espelho retrovisor — e abriu um sorriso.