Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 18 de 48

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Fantasmas

Capítulo 17

A hora antes da meia-noite

 

Tal, Gordy, Frank e Lisa sentavam -se em poltronas verm elhas de couro sintético num canto do saguão do Hilltop Inn. O hotel estava fechado desde o térm ino da últim a estação de esqui e eles tinham rem ovido as coberturas brancas em poeiradas das poltronas antes de desabarem nelas, enternecidos com o choque. A m esinha de centro de café ainda estava coberta com um pano; ficaram fitando o obj eto am ortalhado, incapazes de olhar uns para os outros.

No canto m ais afastado da sala, Bry ce e Jenny encontravam -se ao lado do corpo de Stu Wargle, que estava num aparador longo e baixo, de encontro à parede. Ninguém nas poltronas conseguia se forçar a olhar para aquele lado.

Fitando a m esinha de centro coberta, Tal talou: — Eu atirei naquela coisa m aldita. Acertei. Sei que acertei.

— Todos nós vim os o chum bo pegar nela — concordou Frank.

— Então por que ela não explodiu? — quis saber Tal. — Foi atingida em cheio por chum bo de espingarda calibre 20. Devia ter ficado em pedaços, porra.

— Arm as não vão salvar a gente — falou Lisa. Num a voz distante, assom brada, Gordy falou:

— Podia ter sido qualquer um de nós. Aquela coisa podia ter nu-pegado. Eu estava logo atrás de Stu. Se ele tivesse se abaixado ou pulado fora...

— Não — disse Lisa. — Não. Ela queria o guarda Wargle. Mais ninguém . Só o guarda Wargle.

Tal fitou a garota:

— Com o assim ?

A pele dela estava com a palidez de seus ossos.

— O guarda Wargle recusou-se a adm itir que a vira quando estava batendo contra a j anela. Ele insistiu que era só um pássaro.

— E daí?

— Então ela o queria. A ele, especialm ente. Para lhe ensinar um a lição. Mas, principalm ente, para nos ensinar um a lição.

— Mas aquela coisa não podia ter escutado o que Stu dissera.

— Mas escutou.

— Mas não podia ter com preendido.

— Mas com preendeu.

— Acho que você está lhe creditando inteligência dem ais — falou Tal. — Era grande, é verdade, e diferente de qualquer coisa que j á tenham os visto antes. Mas ainda era só um inseto. Um a m ariposa.

Certo?

A m ocinha ficou calada.

— Não é onisciente — continuou Tal, tentando convencer a si m esm o, m ais do que a qualquer outra pessoa. — Não vê tudo, ouve tudo e sabe tudo.

A m ocinha fitava silenciosam ente a m esinha de centro coberta.

Controlando a náusea, Jenny exam inou a horrenda ferida de Wargle. As luzes do saguão não eram bastante fortes, então ela usou um a lanterna elétrica para inspecionar as beiradas do ferim ento e espiar para dentro do crânio. O centro do rosto dem olido do m orto fora consum ido até os ossos: toda a pele, carne e cartilagem tinham desaparecido. Até o osso em si parecia estar parcialm ente dissolvido em alguns lugares, furadinho com o se tivesse sido borrifado com ácido. Os olhos tinham desaparecido. Contudo, existia carne norm al em todos os lados da ferida; havia carne m acia e intacta ao longo dos dois lados do rosto, dos pontos externos dos m axilares até os m alares, e havia pele lisa do m eio do queixo para baixo e do m eio da lesta para cim a. Era com o se algum artista m acabro tivesse proj etado um a m oldura de pele sadia para dar destaque à horrenda exibição de osso em exposição no centro da face.

Tendo visto o suficiente, Jenny desligou a lanterna elétrica.

Anteriorm ente, tinham coberto o corpo com o pano retirado de um a das poltronas. Agora, Jenny acabou de puxar o pano para cim a do rosto do m orto, aliviada por estar cobrindo aquele sorriso esquelético.

— E então? — indagou Bry ce.

— Não há m arcas de dentes — falou ela.

— E um a coisa daquela teria dentes?

— Sei que tinha boca, um pequeno bico quitinoso. Vi as suas m andíbulas se m exendo quando se j ogou contra as j anelas da subdelegacia.

— É, eu tam bém vi.

— Um a boca daquelas m arcaria a carne. Haveria cortes. Marcas de m ordidas. Sinais de m astigação e arrancam ento.

— Mas não havia nenhum .

— Não. A carne não parece ter sido rasgada. Parece ter sido...

dissolvida. Nas beiradas da ferida, a carne que resta está até m eio cauterizada, com o se tivesse sido queim ada com algum a coisa.

— Acha que aquele... aquele inseto... secretou um ácido? — Ela fez que sim . — E dissolveu o rosto de Stu Wargle?

— E chupou a carne liquefeita — disse ela.

— Santo Deus.

— É.

Bry ce estava pálido feito um a m áscara m ortuária, e, contrastantem ente, as sardas pareciam arder e brilhar no seu rosto.

— Isso explica com o pode ter feito tanto estrago em apenas alguns segundos.

Jenny tentou não pensar no rosto ossudo que espiava para fora da carne... com o um a fisionom ia m onstruosa que tivesse retirado um a m áscara de norm alidade.

— Acho que o sangue sum iu — falou. — Todo ele.

— Com o?

— O corpo estava num a poça de sangue?

— Não.

— Tam bém não havia sangue no uniform e.

— Eu reparei.

— Devia haver sangue, devia ter j orrado com o um a fonte. As cavidades dos olhos deviam estar cheias de sangue, m as não há um a única gota.

Bry ce esfregou a m ão pelo rosto. Esfregou-a com tanta força, na verdade, que levou um pouco de cor às faces.

— Dê um a olhada no pescoço dele — falou Jenny. — Na j ugular.

Ele não se adiantou para o corpo.

— E dê um a olhada na parte de dentro dos braços e na parte de trás das m ãos. Não há sinal de veias em parte algum a, nenhum tom de azul.

— Vasos sanguíneos arruinados?

— É. Acho que todo o sangue foi retirado do seu corpo. Bry ce inspirou fundo. Disse:

— Eu o m atei. Sou o responsável. Devíam os ter esperado pelos reforços antes de sair da subdelegacia... com o você falou.

— Não, não. Você tinha razão. Lá não era m ais seguro do que na rua.

— Mas ele m orreu na rua.

— Os reforços não teriam feito a m enor diferença. Do j eito que aquela coisa infernal caiu do céu... que diabo, nem m esm o um exército a lei ia detido. Ligeiro dem ais. Surpreendente dem ais.

A desolação tom ara conta dos olhos dele. Sentia a sua responsabilidade vivam ente dem ais. Ia ficar insistindo em se culpar pela m orte do seu subalterno.

Com relutância, ela falou:

— Tem coisa pior.

— Não pode ser.

— O cérebro dele...

Bry ce ficou esperando. Depois, falou: — O que é que tem ? O que é que tem o cérebro dele?

— Sum iu.

— Sum iu?

— O crânio dele está vazio. Totalm ente vazio.

— Com o é que pode saber disso sem ter aberto...

Ela estendeu a lanterna elétrica para ele, interrom pendo-o.

— Pegue isso e ilum ine as órbitas dele.

Ele não fez nenhum gesto para seguir a sugestão dela. Os seus olhos agora não estavam encobertos. Estavam abertos, arregalados.

Ela reparou que não conseguia segurar direito a lanterna elétrica. Sua m ão trem ia violentam ente.

Ele tam bém reparou. Colocou a lanterna no aparador, ao lado do cadáver am ortalhado. Tom ou am bas as m ãos da m oça e segurou-as nas suas, grandes e curtidas; aqueceu-as com as m ãos em concha.

Ela falou:

— Não há nada para além das órbitas, nada, absolutam ente nada, nada m esm o, exceto a parte de trás do crânio dele.

Bry ce esfregou-lhe as m ãos, tranquilizadoram ente.

— Só um a cavidade úm ida, escareada — continuou ela.

Enquanto falava, a sua voz aum entava de volum e e falhava: — Aquilo corroeu o rosto dele, corroeu os seus olhos, provavelm ente com a m esm a velocidade com que ele era capaz de piscar, pelo am or de Deus, corroeu a sua boca e arrancou a língua pela raiz, retirou as gengivas que cobriam os seus dentes, depois corroeu o céu da boca, Jesus, e sim plesm ente consum iu o seu cérebro, consum iu todo o sangue do seu corpo tam bém , provavelm ente chupou-o todo e...

— Calm a, calm a — falou Bry ce.

Mas as palavras j orravam aos trancos e barrancos, com o se fossem elos de um a cadeia que a prendesse a um albatroz.

— ...consum iu tudo aquilo num m áxim o de dez ou doze segundos, o que é im possível, m aldito sej a, sim plesm ente im possível!

Devorou... está com preendendo?... devorou quilos e quilos de tecido...

só o cérebro pesa uns três quilos... devorou tudo isso em dez ou doze segundos!

Ela ficou arfando, as m ãos presas nas dele.

Ele a levou para um sofá coberto por um pano em poeirado.

Sentaram -se lado a lado.

No outro canto da sala, nenhum dos outros estava olhando para aquele lado.

Jenny ficou contente por isso. Não queria que Lisa a visse naquele estado.

Bry ce pôs a m ão no seu om bro. Falou-lhe em voz baixa, reconfortante.

Aos poucos ela foi ficando m ais calm a. Não m enos perturbada.

Não com m enos m edo. Sim plesm ente m ais calm a.

— Melhor? — perguntou Bry ce.

— Com o diria a m inha irm ã... acho que fraquej ei com você, não foi?

— De m odo algum . Está brincando ou o quê? Eu nem m esm o pude pegar a lanterna e olhar para dentro daqueles ossos, com o você queria que eu fizesse. Você é que teve coragem para exam iná-lo.

— Bem , obrigada por ter m e acalm ado. Você sabe com o ninguém costurar nervos esfarrapados.

— Eu? Mas eu não fiz nada.

— Você tem um j eito bem reconfortante de não fazer nada.

Ficaram em silêncio, pensando em coisas em que não queriam pensar.

Então, ele falou:

— Aquela m ariposa... — Ela esperou. — De onde veio! — perguntou ele.

— Do inferno?

— Mais algum a sugestão? Jenny deu de om bros.

— Era m esozóica? — falou, em tom de brincadeira.

— Quando foi isso?

— Era dos dinossauros.

Os olhos azuis dele brilharam , interessados.

— Mariposas com o aquela existiam naquele tem po?

— Não sei — adm itiu ela.

— Dá para im aginá-la voando por cim a dos pântanos pré-

históricos.

— É. Atacando os anim ais pequenos, incom odando um Ty rannosaurus rex do m esm o j eito que as nossas pequenas m ariposas de verão nos incom odam .

— Mas se é da era m esozóica, onde andou escondida nos últim os cem m ilhões de anos? — perguntou ele. Mais segundos se passaram .

— Será que podia ser... algo de um laboratório de engenharia genética? — ela se perguntou. — Um a experiência com recom binação de ADN?

— Será que j á estão tão adiantados? Podem produzir espécies totalm ente novas? Eu só sei daquilo que leio nos j ornais, m as pensei que ainda faltavam anos para chegarem a esse tipo de coisa. Ainda estão trabalhando com bactérias.

— Você provavelm ente tem razão — disse ela. — No entanto...

— É. Nada é im possível porque a m ariposa está aqui. Depois de novo silêncio, ela falou:

— E o que m ais estará rastej ando ou voando por aí?

— Está pensando no que aconteceu a Jack Johnson?

— É. O que foi que o levou? Não foi a m ariposa. Mesm o m ortífera com o ela é, não poderia tê-lo m atado sem barulho, e não poderia carregá-lo para longe. — Ela soltou um suspiro. — Sabe, a princípio eu não quis tentar sair da cidade porque tinha m edo de que fôssem os espalhar um a epidem ia. Agora não tentaria sair porque sei que não sairíam os com vida. Seríam os detidos.

— Não, não, estou certo de que poderíam os tirar você daqui — falou Bry ce. — Se puderm os provar que isso não tem nada a ver com doenças, se o pessoal do general Copperfield puder elim inar isso, então, é claro, você e Lisa serão levadas em bora em segurança, im ediatam ente.

Ela sacudiu a cabeça.

— Não. Tem algo lá fora, Bry ce, algo m ais astucioso e m uito m ais intim idador do que a m ariposa, e que não quer que nós vam os em bora. Quer brincar conosco antes de nos m atar. Não vai deixar nenhum de nós partir; então, é bom encontrarm os logo essa coisa e descobrir com o lidar com ela antes que ela fique cansada da brincadeira.

Nas duas salas do grande restaurante do Hilltop Inn, as cadeiras estavam em pilhadas de cabeça para baixo em cim a das m esas, tudo coberto com grandes pedaços de plástico verde. Na prim eira sala, Bry ce e os outros rem overam as coberturas de plástico, tiraram as cadeiras de cim a da m esa e com eçaram a preparar o lugar para servir com o lanchonete.

Na segunda sala, os m óveis tiveram que ser retirados para abrir espaço para os colchões que, m ais tarde, seriam trazidos do andar superior. Tinham com eçado a esvaziar aquela parte do restaurante quando escutaram o som débil, m as inconfundível, de m otores de autom óveis.

Bry ce se dirigiu para as portas envidraçadas. Olhou para a esquerda, para o com eço da ladeira da Sky line Road. Três carros-patrulha do condado vinham subindo a rua, as luzes verm elhas do teto piscando.

— Estão aqui — disse Bry ce aos outros.

Estivera pensando nos reforços com o um reabastecim ento reconfortante do seu contingente dizim ado. Agora se dava conta de que m ais dez hom ens ou m ais um era praticam ente a m esm a coisa.

Jenny Paige tivera razão quando dissera que a vida de Stu Wargle provavelm ente não teria sido salva se tivessem esperado pelos reforços antes de deixarem a subdelegacia.

Todas as luzes do Hilltop Inn e tam bém da rua principal piscaram . Ficaram baixas. Apagaram -se. Mas voltaram depois de apenas um segundo de escuridão.

Eram 23h15 de dom ingo, e com eçara a contagem regressiva para a m eia-noite, a hora do encantam ento.