Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 6 de 48

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Fantasmas

Capítulo 5

Três balas

 

Um a única lâm pada fluorescente brilhava na penum bra da cadeia m unicipal, m as o seu pescoço flexível estava dobrado vivam ente, focalizando a luz no alto de um a escrivaninha, revelando pouca coisa m ais da grande sala principal. Um a revista aberta j azia sobre o m ataborrão da escrivaninha, diretam ente sob o facho de luz dura e branca. Tirando isso, o local estava escuro, exceto pela lum inosidade pálida que se filtrava pelas j anelas com m ainel, vinda dos postes de luz.

Jenny abriu a porta e entrou, com Lisa logo atrás.

— Alô? Paul? Você está aí?

Ela localizou um interruptor de parede, acendeu as luzes do teto — e crispou-se toda ao ver o que j azia no chão à sua frente. Paul Henderson. Carne escura, pisada. Inchado. Morto!

— Ah, Jesus! — exclam ou Lisa, afastando-se rapidam ente. Foi aos tropeções até a porta aberta, apoiou-se contra o um bral e inspirou em grandes haustos o ar fresco da noite.

Com esforço considerável, Jenny abafou o m edo prim itivo que com eçara a surgir dentro de si e se dirigiu para j unto de Lisa. Pondo a m ão no om bro esguio da garota, perguntou: — Você está bem ? Quer vom itar?

Lisa estava fazendo força para não ter engulhos. Finalm ente, balançou a cabeça.

— Não. N-não vou vom itar. Já vou ficar bem . V-vam os sair daqui.

— Daqui a um m inuto — falou Jenny. — Prim eiro quero dar um a olhada no corpo.

— Você não pode querer olhar para aquilo.

— Tem razão. Não quero, m as talvez eu possa ter algum a ideia do que estam os enfrentando. Você pode esperar aqui j unto à porta.

A m oça suspirou, resignada.

Jenny dirigiu-se para o cadáver que estava esparram ado no chão, aj oelhou-se ao lado dele.

Paul Henderson estava nas m esm as condições de Hilda Beck.

Cada centím etro visível da carne do delegado estava pisado. O corpo estava intum escido: um rosto inchado e distorcido; o pescoço quase do m esm o tam anho da cabeça; dedos que pareciam pedaços de linguiça; um abdom e dilatado. No entanto, Jenny não conseguia detectar nem o m ais leve sinal de decom posição.

Olhos que não enxergavam saltavam de um rosto m anchado e preto. Aqueles olhos, j ustam ente com a boca escancarada e retorcida, dem onstravam um a em oção inconfundível: o m edo. Com o Hilda, Paul Hender.

— Você está bem ? Quer vom itar?

Lisa estava fazendo força para não ter engulhos. Finalm ente, balançou a cabeça.

— Não. N-não vou vom itar. Já vou ficar bem . V-vam os sair daqui.

— Daqui a um m inuto — falou Jenny. — Prim eiro quero dar um a olhada no corpo.

— Você não pode querer olhar para aquilo.

— Tem razão. Não quero, m as talvez eu possa ter algum a ideia do que estam os enfrentando. Você pode esperar aqui j unto à porta.

A m oça suspirou, resignada.

Jenny dirigiu-se para o cadáver que estava esparram ado no chão, aj oelhou-se ao lado dele.

Paul Henderson estava nas m esm as condições de Hilda Beck.

Cada centím etro visível da carne do delegado estava pisado. O corpo estava intum escido: um rosto inchado e distorcido; o pescoço quase do m esm o tam anho da cabeça; dedos que pareciam pedaços de linguiça; um abdom e dilatado. No entanto, Jenny não conseguia detectar nem o m ais leve sinal de decom posição.

Olhos que não enxergavam saltavam de um rosto m anchado e preto. Aqueles olhos, j ustam ente com a boca escancarada e retorcida, dem onstravam um a em oção inconfundível: o m edo. Com o Hilda, Paul Henderson parecia ter m orrido subitam ente... e nas garras gélidas e potentes do terror.

Jenny não fora am iga íntim a do m orto. Conhecia-o, é claro, pois todos conheciam uns aos outros num a cidade tão pequena quanto Snowfield. Ele parecia bastante agradável, um bom policial. Sentiu-se desolada com o que acontecera a ele. Ao fitar-lhe o rosto contorcido, um fio de náusea form ou um nó de dor seca no seu estôm ago, e ela teve que desviar os olhos.

A arm a do delegado não estava no coldre. Estava no chão, j unto ao corpo. Um revólver calibre 45.

Ela fitou a arm a, considerando as im plicações. Talvez tivesse escorregado do coldre quando o delegado caíra ao chão. Talvez. Mas ela duvidava. A conclusão m ais óbvia era que Henderson puxara o revólver para se defender de um atacante.

Se fosse assim , então não fora m orto por veneno ou m oléstia.

Jenny olhou atrás de si. Lisa ainda estava parada j unto à porta aberta, apoiada contra o um bral, fitando a Sky line Road.

Levantando-se um pouco, afastando-se do corpo, Jenny ficou agachada j unto ao revólver por longos segundos, exam inando-o, tentando decidir se devia ou não tocá-lo. Não estava tão preocupada com o contágio quanto estivera im ediatam ente após a descoberta do corpo da sra. Beck. Aquilo estava parecendo cada vez m enos com um caso de peste estranha. Além disso, se havia um a m oléstia exótica acossando Snowfidd, era assustadoram ente virulenta, e Jenny, a esta altura, certam ente estaria contam inada. Nada tinha a perder se pegasse o revólver e o exam inasse m ais atentam ente. O que m ais a preocupava era que podia estar apagando im pressões digitais incrim inadoras ou outras provas im portantes.

Mas m esm o que Henderson tivesse sido assassinado, não era provável que o crim inoso tivesse usado a arm a da própria vítim a, deixando nela, convenientem ente, suas im pressões digitais. Além do m ais, Paul não parecia ter sido baleado; ao contrário, se é que houvera algum disparo, provavelm ente fora ele quem puxara o gatilho.

Ela pegou o revólver e o exam inou. O cilindro tinha capacidade para seis balas, m as três das câm aras estavam vazias. O cheiro acre de pólvora queim ada revelava que a arm a fora disparada recentem ente; no dia de hoj e; quem sabe, nesta últim a hora.

Carregando o 45, exam inando o chão de cerâm ica, ela se pôs de pé e cam inhou prim eiro até um a ponta da área de recepção, depois até a outra. Percebeu um brilho de m etal, depois outro, e ainda outro: três cartuchos usados.

Nenhum dos tiros fora disparado para baixo, para o chão. A cerâm ica, m uito bem polida, não apresentava m arcas.

Jenny em purrou a porta de vaivém na grade de m adeira e entrou na área da cadeia propriam ente dita. Desceu um corredor form ado por pares de escrivaninhas fronteiras, arquivos e m esas de trabalho. Parou no centro do aposento e olhou lentam ente para as paredes em verde-claro e o teto branco de tij olo acústico, procurando buracos de bala.

Não achou nenhum .

Ficou surpresa. Se a arm a não tinha sido disparada no chão, nem apontada para as j anelas da frente — e não o fora, pois não havia um só vidro quebrado —, então tinha que ter sido disparada com o cano apontado para dentro da sala, à altura da cintura ou m ais alto. Nesse caso, para onde tinham ido as balas? Não via nenhum m óvel danificado, nenhum a m adeira lascada ou m elai lam inado destruído ou plástico arrebentado, em bora soubesse que um a bala de calibre 45 causaria estragos consideráveis no ponto de im pacto.

Se as balas usadas não estavam nesta sala, então havia apenas um outro lugar em que poderiam estar: no corpo do hom em ou hom ens para quem Paul Henderson apontara a arm a.

Mas se o delegado houvesse ferido um assaltante — ou dois ou três — com três tiros de um revólver calibre 45, três tiros colocados tão certeiram ente no tronco do assaltante que as balas tinham sido detidas sem atravessá-lo, então haveria sangue por toda parte. Mas não havia um a só gota.

Confusa, voltou-se para a escrivaninha onde a lâm pada fluorescente de haste flexível lançava a sua luz sobre um exem plar aberto da revista Tim e. Ao lado, um a placa de m etal onde se lia SARGENTO PAUL J. HENDERSON. Fora aí que ele estivera sentado, passando um a tarde aparentem ente enfadonha, quando o que quer que tenha acontecido... acontecera.

Com plena certeza do que ia escutar, Jenny tirou o fone do gancho do aparelho sobre a m esa de Henderson. Nada de sinal de discar. Apenas o sibilar eletrônico, de asa de inseto, de um a linha aberta.

Com o acontecera antes, quando tentara usar o telefone na cozinha dos Santinis, teve a sensação de que não era a única que estava na linha. Desligou o aparelho... com força dem ais, abruptam ente dem ais.

As m ãos lhe trem iam .

Na parede dos fundos da sala havia dois quadros de avisos, um a fotocopiadora, um arm ário de arm as trancado, um rádio de polícia e um teletipo. Jenny não sabia com o operar o teletipo. Além disso, ele estava m udo e parecia enguiçado. Não conseguiu fazer o rádio funcionar.

Em bora a força estivesse ligada, a lâm pada indicadora não acendia. O m icrofone continuava m udo. Quem quer que tivesse acabado com o delegado acabara tam bém com o teletipo e o rádio.

Voltando para a área de recepção na frente da sala, Jenny reparou que Lisa não estava m ais parada no um bral da porta, e, por um instante, seu coração ficou gelado. Depois viu a garota acocorada j unto ao corpo de Paul Henderson, espiando-o atentam ente.

Lisa ergueu os olhos quando Jenny atravessou a porta na grade.

Apontando para o cadáver m uito inchado, a garota falou: — Não sabia que a pele podia esticar deste j eito sem rachar.

A sua pose — curiosidade científica, distanciam ento, indiferença estudada para com o horror da cena — era tão transparente quanto um a vidraça. Os seus olhos dardej antes a traíam . Fingindo que não estava achando aquilo desgastante, Lisa desviou o olhar do delegado e se pôs de pé.

— Meu bem , por que não fica perto da porta?

— Fiquei enj oada com igo m esm a por ser tão covarde.

— Ouça, m ana, j á lhe disse...

— Quero dizer, acho que vai acontecer algo com a gente, algo ruim , aqui m esm o em Snowfield, hoj e, a qualquer m inuto, algo ruim de verdade. Mas não tenho vergonha desse m edo, porque faz sentido ter m edo, depois de tudo que a gente viu. Mas tive m edo até m esm o do corpo do delegado, e isso foi m uito infantil.

Quando Lisa fez um a pausa, Jenny ficou calada. A j ovem tinha m ais coisas a dizer, e precisava botar tudo para fora.

— Ele está m orto — continuou Lisa. — Não pode m e fazer m al.

Não há m otivo para ter m edo dele. É errado ceder aos m edos irracionais, li errado, é fraqueza e é burrice. Um a pessoa deve enfrentar esse tipo de m edo — insistiu. — Enfrentá-lo é a única form a de vencê-lo. Certo? Então resolvi enfrentar isto.

Inclinando a cabeça, indicou o hom em m orto a seus pés.

Há um a angústia tão grande nos seus olhos, pensou Jenny.

Não era m eram ente a situação em Snowfield que estava m exendo com a garota. Era a lem brança de ter encontrado a m ãe m orta de derram e num a tarde clara e quente de j ulho. De repente, por causa de tudo isso, tudo aquilo lhe estava voltando, e voltando com força.

— Agora estou bem — dizia Lisa. — Ainda estou com m edo do que possa acontecer com a gente, m as não estou com m edo dele. — Lançou um olhar ao cadáver para com provar o que dizia, depois ergueu os olhos e fitou os de Jenny. — Está vendo? Pode contar com igo agora.

Não vou fraquej ar m ais.

Pela prim eira vez, Jenny percebeu que era um m odelo para Lisa.

Com os olhos, o rosto, a voz e as m ãos, Lisa revelava, de inúm eras m aneiras sutis, um respeito e um a adm iração por Jenny que eram bem m aiores do que esta im aginara. Sem recorrer a palavras, a m oça estava dizendo algo que em ocionava Jenny profundam ente: Eu a am o, porém , ainda m ais do que isso, eu gosto de você; tenho orgulho de você, acho que é fantástica, e se for paciente com igo, eu afarei orgulhosa e feliz de m e ter com o irm ã caçula.

A percepção de que ocupava um a posição tão elevada no panteão pessoal de Lisa foi um a surpresa para Jenny. Por causa da diferença de idades e porque Jenny estivera longe de casa quase constantem ente desde que Lisa tinha dois anos, ela im aginara ser virtualm ente um a estranha para a garota. Ficou a um só tem po lisonj eada e com ovida com essa nova visão do relacionam ento de am bas.

— Sei que posso contar com você — assegurou à garota. — Nunca m e ocorreu o contrário.

Lisa sorriu, constrangida. Jenny abraçou-a. Por um m om ento, Lisa se agarrou a ela com força, e quando se afastaram , perguntou: — Com o é... encontrou algum a pista do que aconteceu aqui?

— Nada que faça sentido.

— O telefone não funciona, não é?

— Não.

— Quer dizer que estão todos enguiçados na cidade.

— Provavelm ente.

Foram até a porta e depois saíram para a calçada de pedras redondas. Olhando para a rua silenciosa, Lisa falou: — Está todo m undo m orto.

— Não se pode ter certeza.

— Todo m undo — insistiu a m ocinha, suave e desoladam ente.

— A cidade inteira. Todos eles. Dá para se sentir.

— Os Santinis estavam desaparecidos, não m ortos — lem brou-lhe Jenny.

Um a lua crescente se erguera acim a das m ontanhas enquanto ela e Lisa estavam na subdelegacia do xerife. Nos lugares cobertos pela noite que os postes de rua e as luzes das loj as não alcançavam , a luz prateada da lua delineava os contornos das form as obscurecidas. O luar, porém , nada revelava. Ao contrário, caía com o um véu, agarrando-se m ais a alguns obj etos do que a outros, oferecendo apenas vagos indícios de suas form as, e, com o todos os véus, dando um j eito de tornar todas as coisas debaixo de si ainda m ais m isteriosas e obscuras do que teriam sido em total escuridão.

— Um cem itério — falou Lisa. — A cidade inteira é um cem itério, Não podem os pegar o carro e ir buscar aj uda?

— Sabe que não. Se foi um a m oléstia que...

— Não foi m oléstia.

— Não podem os ter certeza absoluta.

— Eu tenho. Tenho certeza. Além disso, você falou que tam bém quase a havia elim inado.

— Mas enquanto houver a m ais leve chance, em bora rem ota, tem os que nos considerar em quarentena.

Lisa pareceu notar a arm a pela prim eira vez.

— Isso era do delegado?

— Era.

— Está carregada?

— Ele disparou três vezes, restando, portanto, três balas no cilindro.

— Disparou contra o quê?

— Quem m e dera saber.

— Você vai ficar com ela? — perguntou Lisa, trem endo. Jenny fitou o revólver na sua m ão direita e assentiu.

— Acho que talvez eu deva.

— É. Mas, pensando bem ... não adiantou para salvá-lo, não é?