Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 39 de 48

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Fantasmas

Capítulo 37

Ego

 

A porta do segundo laboratório se achava escancarada. As luzes estavam acessas. As telas do com putador brilhavam . Tudo estava pronto para eles.

Jenny estivera tentando se agarrar à crença de que ainda poderiam resistir, de que ainda tinham um a chance, em bora pequena, de influenciar o curso dos acontecim entos. Agora, essa crença frágil e preciosa fora destroçada. Estavam im potentes. Podiam fazer apenas o que aquilo queria, ir apenas aonde aquilo perm itia.

Os seis entraram no laboratório.

— E agora? — quis saber Lisa.

— Esperam os — disse Jenny.

Fly te, Sara e Lisa sentaram -se diante das três telas de term inal ilum inadas. Jenny e Bry ce se apoiaram num balcão, e Tal ficou j unto à porta aberta, olhando para fora.

A neblina passava espum ando pela porta.

Esperam os, Jenny dissera a Lisa. Mas esperar não era fácil.

Cada segundo era um a provação de expectativas tensas e m órbidas.

De onde viria a m orte, a seguir?

E sob que form a fantástica?

E para quem chegaria, desta vez?

Finalm ente, Bry ce falou: — Dr. Fly te, se essas criaturas pré-históricas sobreviveram durante m ilhões de anos em lagos e rios subterrâneos, nos fossos m arítim os m ais profundos... ou sej a lá onde for... e se sobem à superfície para se alim entar... por que então os desaparecim entos em m assa não são m ais com uns?

Fly te ficou puxando o queixo com um a m ão m agra e de dedos longos e falou: — Porque elas raram ente encontram seres hum anos.

— Mas por que raram ente?

— Duvido que m ais de um punhado desses anim ais tenha sobrevivido. Pode ter havido m udanças clim áticas que m ataram a m aioria e levaram os restantes a um a existência subterrânea e suboceânica.

— Apesar disso, m esm o alguns deles...

— Raros deles — enfatizou Fly te — espalhados por toda a terra.

E talvez, se alim entem apenas de tem pos em tem pos. Vej am , por exem plo, a j iboia. Esta cobra se alim enta apenas um a vez a cada período de várias sem anas. Então, quem sabe essa coisa se alim enta irregularm ente, quem sabe um a vez a cada período de diversos m eses, ou m esm o um a vez a cada dois anos. O seu m etabolism o é tão totalm ente distinto do nosso que praticam ente qualquer coisa pode ser possível.

— Será que o seu ciclo vital pode incluir períodos de hibernação — perguntou Sara — que durem não apenas um a estação ou duas, m as anos de cada vez?

— Sim , sim — concordou Fly te, m eneando a cabeça. — Muito bom . Muito bom , m esm o. Isso tam bém aj udaria a explicar por que a coisa encontra hom ens apenas em certos períodos. E deixe que lhes lem bre que a hum anidade habita m enos de um por cento da superfície do planeta. Mesm o que o inim igo antigo se alim entasse com certa frequência, raram ente se depararia conosco.

— E quando se deparasse — falou Bry ce —, provavelm ente nos encontraria no m ar, porque a m aior parte da terra é coberta de água.

— Exatam ente — falou Fly te. — E, se levasse todo m undo a bordo do navio, não haveria testem unhas, j am ais saberíam os desses contatos. A história dos m ares está repleta de histórias de navios desaparecidos e navios fantasm as cuj as tripulações desapareceram .

— O Mary Celeste — disse Lisa, lançando um olhar para Jenny.

Jenny lem brou-se de quando a irm ã m encionara o Mary Celeste pela prim eira vez. Fora no dom ingo à noitinha, quando tinham ido à casa vizinha dos Santinis e encontraram a m esa posta para o j antar.

— O Mary Celeste é um caso fam oso — concordou Fly te. — Mas não é o único. Literalm ente centenas e centenas de navios desapareceram sob circunstâncias m isteriosas desde que se vêm m antendo registros náuticos confiáveis. Com tem po bom , em épocas de paz, sem nenhum a explicação "lógica". No total, as tripulações desaparecidas devem som ar dezenas de m ilhares de hom ens.

Do seu posto j unto à porta aberta do laboratório, Tal disse: — Aquela área do Caribe onde tantos navios desapareceram ...

— O Triângulo das Berm udas — disse Lisa, rapidam ente.

— É — disse Tal. — Seria possível que...?

— Fosse obra do transm orfo? — disse Fly te. — Sim .

Possivelm ente. Ao longo dos anos tem havido tam bém um a redução drástica na quantidade de peixe nessa área, portanto a teoria do inim igo antigo é aplicável.

As seguintes palavras apareceram nas telas dos term inais: EU

LHE ENVIO UMA ARANHA.

— O que será que isso quer dizer? — indagou Fly te. Sara datilografou: ESCLAREÇA.

A m esm a m ensagem foi repetida: EU LHE ENVIO UMA ARANHA.

ESCLAREÇA.

OLHE AO SEU REDOR.

Foi Jenny quem a viu prim eiro. Estava parada na superfície de trabalho à esquerda do term inal que Sara estava usando. Um a aranha preta. Não tão grande quanto um a tarântula, m as m uito m aior do que um a aranha com um .

Ela voltou a form ar um bolo, retraindo as pernas com pridas.

Modificou-se. A princípio, em itiu um brilho opaco. O colorido preto foi substituído pelo cinza-m arrom -verm elho j á conhecido do transm orfo. A form a de aranha se dissolveu. O bolo de carne am orfa assum iu outro form ato, m ais com prido: transform ou-se num a barata, um a barata m edonha, irrealisticam ente grande. E depois num cam undongo, com bigodes que se contorciam .

Novas palavras surgiram nas telas dos term inais.

EIS AQUI A AMOSTRA DE TECIDO QUE O SENHOR PEDIU, DR. FLYTE.

— Pom bas, com o está cooperando, de repente — falou Tal.

— Porque sabe que nada que a gente descubra a seu respeito aj udará a destruí-lo — retrucou Bry ce, taciturno.

— Tem que haver um a m aneira — insistiu Lisa. — Não podem os perder a esperança. Não podem os.

Jenny ficou olhando, fascinada, enquanto o cam undongo se dissolvia e voltava a ser um a m assa de tecido inform e.

ESTE É MEU CORPO SAGRADO, QUE VOS DOU, disse a coisa, continuando a zom bar deles com referências religiosas.

A m assa ondulou e se revolveu dentro de si m esm a, form ando concavidades e convexidades m inúsculas, nódulos e buracos. Não conseguia ficar inteiram ente parada, do m esm o m odo que a m assa m aior, aquela que m atara Frank Autry, parecera incapaz de ou relutante em ficar im óvel m esm o que fosse por um segundo.

EIS 0 MILAGRE DA MINHA CARNE, POIS É APENAS EM MIM QUE PODEIS ALCANÇAR A IMORTALIDADE. NÃO EM DEUS. NÃO EM CRISTO. APENAS EM MIM.

— Estou vendo o que vocês querem dizer quando falam que a criatura tem prazer em debochar e ridicularizar — disse Fly te.

A tela piscou. Nova m ensagem apareceu: VOCÊS PODEM TOCÁ-LA. Apagar.

NENHUM MAL LHES ACONTECERÁ SE A TOCAREM. Ninguém se adiantou para a m assa trêm ula de carne estranha. TIREM

AMOSTRAS PARA SEUS TESTES. FAÇAM COM ELA O QUE QUISEREM. Apagar.

QUERO QUE ME COMPREENDAM. Apagar.

QUERO QUE CONHEÇAM AS MINHAS MARAVILHAS.

Não apenas tem autopercepção; parece possuir tam bém um ego m uito desenvolvido — falou Fly te.

Finalm ente, hesitante, Sara Yam aguchi estendeu a m ão, colocou a ponta do dedo no pequeno bolo de protoplasm a.

— Não é quente com o a nossa carne. É fresca. Fresca e um pouco... gordurosa.

O pequeno pedaço do transm orfo trem ia, agitadam ente. Sara retirou a m ão, rapidam ente.

— Vou ter que cortá-lo.

— É — disse Jenny. — Vam os precisar de um ou dois cortes transversais finos para a m icroscopia de luz.

— E m ais outro para o m icroscópio de elétron — falou Sara. — E de um pedaço m aior para a análise da com posição quím ica e m ineral.

Através do com putador, o inim igo antigo os encoraj ava.

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