Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 1 de 36

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Na mente, o veneno

Citação

ANDREA H. JAPP

 

NA MENTE, O VENENO

Diane Silver inicia sua caça ao serial killer...

Tradução Vinicius Carneiro

“Sem forma, ele não pode

ser dominado, nem enganado,

nem mesmo decifrado.”

Huainanzi,

século II a.C.

 

Base m ilitar de Quantico,

Estados Unidos, abril de 2008

– Pesadelos? – perguntou suavem ente o doutor William Folston.

Diane Silver o olhou por um m om ento. Ele se perguntou o que ela via por trás daquele olhar de um azul tão pálido que se tornava intim idador. Que im agens sua m ente estava criando? No fundo, não tinha certeza se queria saber.

– Pesadelos? – ela repetiu, com o se o significado da palavra lhe escapasse.

Folston am ava sua voz lenta, séria, quase sem fôlego. Um a voz cuj o ritm o parecia ser im utável.

– William … m eus piores pesadelos aparecem quando estou acordada. E nunca são os m eus. São os dos outros, daqueles que estão m ortos. Não são sonhos apavorantes, m as a horrível e diária realidade.

– Eu sei… estava m e referindo m ais a esse… acidente ocorrido há seis m eses…

– “Acidente”? Um eufem ism o caridoso… – rebateu ela com um sorriso triste. – “Hom icídio” é o term o correto.

– Não. É “legítim a defesa”. Este é o term o correto, e peço que você se convença disso, Diane, porque é a verdade.

Ela passou a ponta dos dedos nos lábios. O m édico notou a unha am arelada do indicador. Ela ainda não tinha parado de fum ar. Talvez nunca parasse. Diane não se im portava com isso, com o com quase tudo. Mas falar sobre a necessidade de parar… William via nisso um a espécie de grotesca obscenidade. Diane tinha tocado, sentido, vivido o pior. Fum ar três m aços de cigarros por dia apenas evidenciava esse fato.

Estranho. Enquanto seu em pregador, o FBI, desej ava que ela fosse acom panhada por um psicólogo na base m ilitar, Diane j á tinha escolhido um especialista – ele – que nunca foi alguém particularm ente reconhecido por tratar de pacientes com estresse pós-traum ático. Mas será que ela esperava que ele aliviasse aquelas coisas que, por delicadeza, por respeito ou, talvez, um pouco por am izade, sim plesm ente se recusava a lhe dizer? Ela realm ente nutria um a am izade por ele ou por qualquer outra pessoa? Não tinha certeza.

– Não foi legítim a defesa – ela continuou –, m as um fracasso colossal. Eu sou suficientem ente treinada pra não ter de recorrer às arm as. É m eu trabalho.

– Aquele cara tinha tom ado m uitas anfetam inas. Era im previsível. Perigoso. Ele am eaçava você com um a navalha e tentou estuprar você. É bem provável que a m atasse em seguida, pra elim inar um a testem unha. Lem bro que ele j á havia m atado um a m ulher de sessenta e cinco anos em circunstâncias parecidas.

– Com certeza. Porém , eu não sabia disso na época. William , eu estava com m edo, eu atirei. Esvaziei o cartucho na barriga dele porque estava aterrorizada, o dedo colado no gatilho. Eu não devia ter m edo, fui treinada pra guardar o m edo encoleirado, am ordaçado em qualquer canto de m inha m ente.

Fazia três m eses que ela apresentava os m esm os argum entos. Um roubo que deu errado, com o centenas de outros a cada ano. Um ladrãozinho traficante reincidente, entupido de anfetam ina, que descobriu que a proprietária se encontrava no local e pensou que um a trepada, além de todo o resto, não seria m á ideia.

Mas William ainda não conseguira determ inar o que incom odava m ais Diane : ter m atado um hom em ou reagido com o um a m ortal qualquer, com m edo e agressividade.

– Não é porque você é um a das profilers m ais bem conceituadas do Hem isfério Norte que está im une ao m edo – ele argum entou, com o sem pre. – O m edo é um a reação anim al, horm onal, poderosa, um a m anifestação do instinto de sobrevivência.

O olhar azul pálido o abandonou, perdendo-se atrás de seu om bro. A boca de Diane se contraiu. Ele notou as belas rugas finas que se form avam sobre a pele lívida das bochechas. A acreditar em seu dossiê, tinha quarenta e sete anos, sendo que m ais de doze passados a perseguir os piores recônditos da m ente crim inosa, com o especialista em traçar perfis. Um a surpreendente longevidade m ental, m antida, segundo os m ais próxim os, graças às faxinas que fazia em sua casa, de cim a a baixo, com cuidado obsessivo, após cada investigação. Ela deslocava todos os m óveis, rearranj ando-os de m odo diferente. Lim par o exterior para purificar o interior.

– Exatam ente, William … Eu luto com unhas e dentes pra m e livrar de m eu instinto de sobrevivência.

Um a tristeza difusa invadiu o psicanalista. Leonor. Ela estava pensando em Leonor.

– Tendências suicidas? – ele se preocupou.

– Nenhum a – ela sorriu. – Caso contrário, isso j á teria acontecido, e eu não teria m ais o privilégio das nossas conversas. Não se trata de querer destruir a própria vida… a m inha, no caso. Trata-se j ustam ente de saber que a vida possui um a im portância ínfim a. Se eu não soubesse, aquele cara estaria vivo, e eu, provavelm ente, m orta.

– Não m e diga que você pensa que a existência daquele canalha insignificante era m ais im portante que a sua – contrapôs William Folston, com um traço de irritação na voz.

– Oh, não tem nada a ver com ele. – Fez um a pausa e perguntou : – Você j á m atou alguém , William ?

– Não, felizm ente, não : desse tipo de provação eu fui poupado.

– Bom pra você ! O m ais terrível, o m ais inaceitável é que, no m om ento em que você m ete um a bala em alguém … durante esse interm inável segundo, você não se im porta. O rem orso vem depois.

– Você estava em pânico, guiada pelo instinto de sobrevivência, não pelo intelecto. – Um a ideia passou pela m ente do psicanalista, que protestou : – Oh ! Isso ! Percebo aonde você quer chegar… Não, Diane, você não é com o os assassinos que persegue há anos. Não, eles não transm itiram isso a você !

– Eu sei – ela o tranquilizou. – Eles deixam m arcas por onde passam , m arcas enorm es. Não foi o m eu caso.

Ela olhou rapidam ente o relógio de parede e disse :

– Ah, nossa sessão chega ao fim . Você m e faz bem , William , m esm o eu achando que às vezes encho sua paciência ao repetir sem pre a m esm a coisa.

– Você nunca m e enche a paciência. E m esm o que fosse assim , não existem repetições. Cada vez que tem os a sensação de rem oer a m esm a coisa, na verdade avançam os um passo m inúsculo, talvez im perceptível, m as m uito real.

Ela se levantou e cam inhou até a porta do escritório que servia de consultório para Folston quando ele vinha à Quantico.

Folston hesitou por um segundo.

– Diane… Posso fazer um a pergunta… um pouco fora de contexto?

– Pode.

– Por que você m e escolheu, um a vez que poderia ter selecionado um psicólogo entre os m elhores terapeutas especializados no tratam ento de estresse pós-traum ático? Enfim … alguns dos m eus colegas se destacaram por cuidar de gente que volta do Iraque, de vítim as que sobreviveram a atentados ou a sequestros… ou a catástrofes naturais, ou sej a lá o que for…

Ela baixou os olhos. Depois de três m eses, William tinha aprendido a decifrar um pouco de seu gestual. Fixar o outro era um tipo de controle por parte de Diane. Ela calculava cada atitude dele. Desviar o olhar, deixar que este se perdesse atrás dele era um a delicadeza : assim ela o poupava do azul de suas íris, tão pálido que às vezes parecia gelado. O m enor gesto nervoso da m ão revelava sua incerteza quanto a um a palavra, um a frase. Baixar os olhos significava que ela se voltava para dentro de si m esm a para refletir.

– Várias razões… Você tem um a boa reputação no Fredericksburg. É m ais um m édico de fam ília que um psicólogo. Não m e leve a m al, isso é um elogio, vindo de m im . Sua… norm alidade é reconfortante. Eu ganho m inha vida graças à anorm alidade. – E acrescentou, com um sorriso : – A norm alidade é m uito rara, você sabe. Trata-se de um ponto de equilíbrio que m uito poucos apresentam .

– Obrigado por m e consolar – brincou ele. – Pra você se tranquilizar, fique sabendo : eu não acredito que “norm al” sej a sinônim o de “banal”, especialm ente no nosso m undo. Mas você disse “razões”, no plural, e eu só vej o um a…

O olhar dela o fixou sem doçura :

– O tratam ento do estresse pós-traum ático das vítim as. É isso… eu não sou um a vítim a. – Ela suspirou : – Até depois de am anhã, William . Tenha um bom dia.