Na mente, o veneno
Capítulo 25
Boston, Massachusetts,
Estados Unidos, julho de 2008
Charles Devernois-Kly ne entrou relutante no bar Four Seasons, localizado não m uito longe do Instituto de Arte Contem porânea em Boy lston Street, um dos hotéis m ais luxuosos da cidade. Seu olhar varreu, m esm o sem perceber, o enxam e de m esinhas de centro cercadas de enorm es poltronas de couro, protegidas por enorm es plantas em vasos, destinadas a preservar a privacidade dos clientes e a discrição de suas conversas. Um a decoração m uito bem -sucedida, m istura hábil entre um classicism o de bom -tom e um a m odernidade elegante.
Avançou a passos lentos na direção do bar, atrás do qual estavam quatro garçons. Estava cinco m inutos adiantado, e Rupert Teelaney j á o esperava, degustando um coquetel de m anga com kiwi.
Rupert o saudou com a gentileza habitual :
– Com o vai você, Charles? Um a bebida? A m esm a coisa que eu ou algo m ais forte?
– Um uísque.
Um garçom se dirigiu à m esa de canto ao prim eiro sinal discreto do herdeiro e estendeu o cardápio de bebidas e aperitivos. O advogado ficou absorto na leitura da interm inável lista de uísques disponíveis, ensaiando a introdução ao assunto a ser abordado. Percebendo sua indecisão, Teelaney o encoraj ou :
– Você parecia… reticente quando da nossa últim a conversa por telefone. As coisas estão difíceis em Quantico?
Charles tom ou um longo gole da bebida âm bar que tinham acabado de colocar diante dele. A agradável queim ação do álcool lhe fez bem .
– Difíceis? É um eufem ism o – retificou Devernois-Kly ne num tom m ais abrupto do que gostaria. – Ela insiste em deixar cascas de banana no m eu cam inho, pra m e acom panhar, com o diz. Silver. Escute, Rupert, estou perdendo m eu tem po e seu dinheiro. Lam ento. Expliquei repetidas vezes a ela seu proj eto de doação. Ela é m ais teim osa que um a m ula.
Ele se detestava por aquele fracasso, avaliando havia dias todas as consequências negativas que aquilo poderia ter sobre sua reputação e sobre o escritório. E, para ser totalm ente franco consigo m esm o, adm itia que não suportava m ais aquela base m ilitar, aquela Silver e seu olhar.
– Ela está desconfiada?
– Esse tipo de gente desconfia de tudo e de todos. Porém , acho que é m ais perverso do que isso. Ela se diverte. Ganhar um a queda de braço de um advogado a faz salivar.
– Isso não é um pouco paranoico?
– Não. De um m odo geral, os policiais não gostam da gente. Som os aqueles que soltam os indivíduos que eles levaram m eses ou anos perseguindo. Pode-se ver isso na história pessoal da doutora Silver, quando aquele Rick Ford foi solto sob a alegação de erro processual, em bora ele fosse culpado do estupro e assassinato de Leonor.
Devernois-Kly ne tirou os olhos de seu copo e encontrou o doce olhar m íope de seu cliente.
– Realm ente sinto m uito, Rupert. Estou com as m ãos atadas, m as, francam ente, não vej o quem teria podido conseguir. Já que…
– Já que o quê?
O advogado se virou para a sala, procurando palavras. O eco abafado das conversas das outras m esas chegava até ele.
– Já que… cheguei à conclusão de que ela não tinha nenhum desej o de tornar público seu m étodo. Por exem plo, ela desconfia com o da peste – e com razão – de Bob Pliskin, o secretário de Casney. Ele a vem sabotando com afinco. Entretanto, não tem cacife pra tanto. Se ela lhe entrega de bandej a seu m odo de trabalhar, perde seu principal trunfo, e sabe disso.
– Ah, bem … Isso m e tranquiliza um pouco, Charles. Em outras palavras, não é contra nós, contra nosso proj eto, que ela luta, m as m ais internam ente, pra se proteger?
– Estou convencido disso. Contudo…
– Não, eu lhe peço. Tenho certeza de que você lutou, que tentou o im possível. Talvez tenham os lidado com o problem a e com a dam a do j eito errado. Afinal, trata-se de um a diva no seu hábitat – sorriu Rupert. – Um a diva deve ser tratada com todos os cuidados. É preciso que eu reflita. Em todo caso, estej a certo, Charles, de que isso não altera em nada nossas relações afetivas e profissionais.