Na mente, o veneno
Capítulo 10
Base militar de Quantico,
Estados-Unidos, maio de 2008
“A guerra tem a m entira por fundam ento e o lucro por obj etivo”.6 A frase estava sublinhada por um traço firm e.
Charles Devernois-Kly ne recolocou o volum e sobre a m esa de trabalho de Diane Silver. O desgaste da capa e o espaçam ento das folhas diziam que tinha sido lido e relido. O advogado refletiu, recapitulando todas as guerras que estudara na escola, na universidade ou m esm o m ais tarde. Justo, m uito j usto.
Ele esperava a doutora Silver sem im paciência. Devernois-Kly ne tinha certeza de que ela considerava im prescindível chegar atrasada a cada encontro. Um a espécie de queda de braço que, no final das contas, o divertia. De qualquer m odo, ela tinha sido pega de j eito. De qualquer m odo, não podia afastá-lo. De qualquer m odo, durante seu estágio, o poder estava do lado dele. Ela sabia disso, e essa certeza devia lhe causar arrepios. Rebelava-se com o podia. Patético. Ele suspirou de contentam ento.
Observou pela décim a vez a m obília do pequeno escritório que ela ocupava nas entranhas subterrâneas e sem j anelas do Jefferson Building. Mais exatam ente, sua intim idade. Nada. Um nada organizado com cuidado. Sem um a foto, sem um m ísero diplom a enquadrado, sem nem m esm o um a planta verde raquítica definhando sob as luzes de neon. Um a m esa de trabalho, um a poltrona – a dela – duas cadeiras, um com putador, alguns lápis e duas canetas m arca-texto, um cabide, no qual estava pendurada sua capa de chuva. A caderneta na qual registrava suas im pressões e suas questões devia ser guardada no arm arinho que ficava em baixo da m esa de trabalho, ou m esm o na bolsa. Nenhum a biblioteca bem servida de livros sobre crim inologia ou psiquiatria, nenhum arm ário de arquivos no qual estariam com pactados os dossiês estridentes e sangrentos. Nada. Som ente um item pessoal, o volum e de A arte da guerra, de Sun Tzu.
Enfim , Diane apareceu. Ela lhe lançou um olhar interrogativo, consultou seu relógio para destacar que estava, de fato, nove m inutos atrasada, depois se instalou atrás da m esa de trabalho sem nenhum pedido de desculpas.
– Estou progredindo – ele com eçou. – Gostaria de acom panhar o m odo com o você age, com o pensa quando investiga os assassinatos em série.
Ela o encarou. Devernois-Kly ne estava determ inado a não se perturbar com seu olhar azul e branco, certo de que ela o tinha cultivado para utilizar com o arm a de intim idação, de dissuasão. A ideia tinha lhe ocorrido na véspera. Para dizer a verdade, ele j am ais a tinha observado antes. Existiam três tipos de m ulheres para Devernois-Kly ne : as m oças bonitas e com íveis, as feias e as m ulheres com as quais trabalhava. Som ente as características físicas da prim eira categoria despertavam sua atenção, fosse seu obj etivo transar ou não. Entretanto, um detalhe o tinha intrigado no caso de Diane Silver. Ela era o que se cham a caridosam ente de “um a m ulher nada coquete”. Seus cabelos entre o ruivo e o loiro, afastados da testa abaulada por dois pentes grossos, estavam , progressivam ente, tom ados por m echas grisalhas. Ela usava um j eans surrado, cam isa m asculina m al passada, à qual às vezes faltava um botão, e m ocassins. Não usava nenhum perfum e, nenhum a m aquiagem , a não ser um a cam ada de rím el bem preto e um traço de lápis nas pálpebras inferiores. O ideal para deixar seus olhos ainda m aiores, m ais pálidos, m ais frios.
– Com o eu penso? Não sei. As coisas vêm , se organizam , se revelam . É por isso que vou para as cenas do crim e, acho que tenho um processo de com preensão quase involuntário.
– Um tipo de… processo m ediúnico?
– Eu sou um a cientista – ela o lem brou. – Os m édiuns utilizados pelo escritório foram , em geral, m uito decepcionantes. Exceto dois.
– Então você acredita nos m édiuns?
– Eu não acredito, Sr. Devernois-Kly ne. No pior dos casos, eu constato ou não constato. No m elhor, sei ou não sei. Posso, igualm ente, supor, m as tenho a decência de j am ais esquecer que são hipóteses.
– Decência? – ele riu. – Que palavra forte !
– Não. Acreditar no que se sabe ser um a m entira, ou sobre o que se tem dúvida, é um a indecência. Separo os m édiuns e outros adivinhos do que eu faço. Mesm o se o papel deles é acalm ar, trata-se de um serviço que custa caro.
–De quem você está falando?– ele perguntou, talvez porque conhecesse a resposta e porque sentisse a necessidade de se confrontar com aquela m ulher.
Ela o deixava nervoso. Ele queria saber quem dentre os dois era o m ais forte. Tinha sido esfolado vivo tanto no j udiciário com o no m undo dos negócios, de m odo que não tinha m edo de m uita coisa.
– De você. De quem m ais seria?
– Eu sou um indecente desonesto? – ele perguntou, com um a voz que se esforçava para m anter pausada e afável.
Ela se inclinou na direção dele, colocando as m ãos espalm adas sobre a m esa de trabalho, e lhe lançou um olhar desolado e incrédulo.
– Você duvida disso?
A disputa com eçava. Devernois-Kly ne sentiu a adrenalina correr em seu corpo. Adorava esses m om entos. Um superestím ulo perfeitam ente legal e bem m ais prazeroso que um a trepada.
– Posso perguntar o que faz você acreditar nisso?
– Perdão por m e repetir. Não é “acreditar”, é “saber”.
Com os cotovelos alinhados sobre a m esa, ela j untou as m ãos em sinal de reza e apoiou a cabeça na ponta dos dedos.
– Saber – aquiesceu ele. – Sou todo ouvidos.
– Então vam os lá ! Você não tem nenhum proj eto de reform ulação da j ustiça penal, que é um dom ínio certam ente m idiático. Em com pensação, salvo o caso de ter se tornado o advogado desonesto de um grande m afioso, não há galinhas dos ovos de ouro a encontrar ! Ou você é rico de berço, é isso? Um lugar para ficar em Nova Iorque, na Quinta Avenida. Um esplêndido dúplex em Beacon Hill, em Boston. Um a fazenda no Maine e um apartam ento na Flórida. Não m e diga que quer abandonar tudo isso para o bem da hum anidade ou pela grandiosidade do direito. Você m e faria chorar, e eu perdi o hábito de m e com over.
– E, segundo você, qual é o m eu negócio? – ele perguntou suavem ente, apesar da cólera que lhe corria pelas veias.
– Você se lem bra ainda de um a frase… um a m áxim a… não sei… do im perador Marco Aurélio, nos seus Pensamentos? “Quando alguém lhe diz algum a coisa, pergunte a si m esm o de im ediato : o que ele quer exatam ente, qual é sua natureza?”
– Ah ! E qual seria m inha natureza?
– O dinheiro, é claro.
Devernois-Kly ne sentia que sua fachada de segurança se desfigurava. Ele lutava contra o desej o de insultá-la, de perguntar se realm ente ela se j ulgava superior a todos, incluindo ele próprio.
– E você?
– A caça. A revelação do dia. Minha natureza é a caça. Presas m uito perigosas. De fato, predadores. Eu sou um a predadora de predadores.
Ele hesitou um a fração de segundos. Lançou m ão do últim o recurso ao sentir que estava perdendo o j ogo. O golpe baixo, sangrento.
– Leonor?
O olhar dela se enevoou. Dois pedaços de gelo o fitaram , e ele im aginou que aquela m ulher seria capaz de m atar. Em vez disso, ela expirou profundam ente, boca fechada.
– É isso.
A voz dela não tinha se alterado : estava calm a, lenta, séria.
– Ele m orreu, não? O assassino.
– Richard Ford. O belo Rick ! É. Ela tam bém . Com o quinze outras m eninas. Sem contar aquelas que não sabem os. Percebo que você m orre de vontade de saber o que realm ente se passou – ela acrescentou, sem que ele conseguisse detectar um a m udança de tom .
Ela teria se tornado um a assassina? A ferida a atorm entava a ponto de anestesiar qualquer sensação? Ela continuou :
– Ele foi preso por policiais de Nova Iorque. Supostam ente em briagado. Bebia direto do gargalo de um a garrafa em brulhada em um saco de papel. Os dois policiais encontraram vídeos no porta-luvas. Ele film ava seus estupros, suas torturas. Eu exigi ver aquele no qual ele “se ocupava” de m inha filha. Detalhes? O vídeo durava quatro horas – contou, em um tom m ais solto. – Exatam ente três horas e cinquenta e seis m inutos. Leonor levou todo esse tem po. Infelizm ente. Devo contar pra você com o foi? Cada im agem está gravada na m inha m ente. Mesm o os m enores detalhes. A lâm pada de halógeno ilum inando a lâm ina do bisturi. A cham a azul, bem forte, de um pequeno m açarico. A m úsica heavy metal com o fundo sonoro. Muito alta. Mas não o bastante para cobrir os berros. Devo continuar a historinha?
– Não.
Ele esfregou as palm as das m ãos um a contra a outra e se arrependeu desse gesto, que revelava, indubitavelm ente, seu nervosism o.
– Se você se direcionar para a j ustiça penal e os assassinos em série, vai precisar ficar m ais cascudo, m eu rapaz – ironizou ela. – Você não tem ideia do que esse tipo de gente pode fazer no m undo real. Você se aproxim ou deles pelos livros, alguns de excelente qualidade. Todos edulcorados, entretanto. Por respeito. Venha então exam inar um a de suas cenas de crim e, um a de suas vítim as. Acabaram -se as noites agradáveis. Acabaram -se os belos m om entos. A vida m orre diante disso. Resta apenas o sangue, os gritos, o sofrim ento… Para retornar ao assassino de Leonor : ele foi solto. Sob a alegação de um a falha na detenção de Rick. Os policiais não podiam revistar o carro, visto que a garrafa de uísque estava escondida dentro de um saco de papel. E sem revista, eles não tinham com o se certificar de que era álcool. Ele poderia estar degustando um suco de m aracuj á com m anga, o que não j ustificava um a averiguação. Foi a linha de defesa do advogado dele. Um a figura irrepreensível. Richard Ford foi liberado. Ele estuprou, m atou, m utilou três outras m eninas em seguida.
– Até ser m orto em um acerto de contas com traficantes.
– Você estudou direitinho. Esse pequeno vendedor de pó de origem chinesa pegou sete anos por ter acabado com a raça de um estuprador assassino em série. Esse cara provavelm ente ignora o im enso serviço que prestou à hum anidade. Espero que consiga um a redução da pena. Na realidade, ele m ereceria um a m edalha !
Ela tirou um cinzeiro cheio de bitucas da gaveta de seu arm arinho que ficava em baixo da m esa e acendeu um cigarro, sem m esm o perguntar se a fum aça o incom odava. Tinha certeza de que se protestasse, ela o despacharia :
– Sério? Bem , saia do m eu escritório.
Ela continuou :
– Bom , após todas essas confidências, som os agora praticam ente am igos, caro Sr. Devernois-Kly ne… E se você m e dissesse a verdade? – apontou com o dedo A arte da guerra, que estava sobre a m esa e prosseguiu : – “A guerra tem a m entira por fundam ento”. A m anipulação é a form a m ais sofisticada de m entira. Grande problem a : para que um m anipulador exerça seus talentos, ele deve ter, diante de si, um m anipulado. Ora, eu não sou, eu não sou m ais m anipulável. Esse tipo de j ogo de im becis é j ogado a dois… Mais nada tem im portância pra m im , ao m enos no plano pessoal. Eu sou livre, irreprim ível, incontrolável. Com o faço pra você parar de tentar m e enganar, pra você parar com essas inform ações de terceira m ão? Até agora, tudo o que disse se parece m uito com um a boa novela de televisão. Em sum a, isso não tem nada a ver com a realidade, porque a realidade é de um a banalidade insuportável.
Devernois-Kly ne perm aneceu m udo, procurando no horizonte algo que não aparecia. Im passível, ela percebeu seu em baraço e seguiu em frente :
– Você vem m e m entindo desde que chegou. De um a hora pra outra, sou eu que faço isso. Inversão de papéis. Sua pesquisa não será m ais do que um a série de banalidades se você acreditar em tudo o que eu disse. – Fez um a pausa, endireitando as costas e o livro A arte da guerra no canto da m esa, e perguntou : – Quem é? Seu… com o dizer… cliente, patrocinador? Quem quer saber com tanto cuidado e precaução sobre assassinos em série?
Inútil contornar a situação, ela sabia. Devernois-Kly ne adm itiu :
– Segredo profissional.
– Ótim o. Eis, ao m enos, um a confissão. Eu tam bém : segredo profissional. – Um sorriso perverso surgiu em seus lábios. Porém nada m udou em sua postura. – Meus m étodos, quero dizer. Vou acom panhar você durante os seis m eses de seu estágio, Devernois-Kly ne. Você não saberá nada saindo daqui, salvo o que terá lido nos livros j á acessíveis ao público em geral. Vá chorar no colo de Casney Jr. ! Diga a ele a que ponto a m ulher, eu, é gentil. Você sabe do que m ais? É verdade. A m ulher não é gentil. Ela é m esm o m uito desagradável.
Seu cliente rico, m uito rico, tinha previsto essa reação. Devernois-Kly ne sabia que nada dobraria Diane Silver. O cliente o tinha autorizado, quando necessário, a revelar um a parte da verdade, m antendo seu nom e em sigilo.
– Ok, Dra. Silver… De fato, eu não tenho nenhum a intenção de trabalhar com direito penal. Meu cliente m uito endinheirado paga por esta pesquisa, que deve ser dirigida por você e por m ais ninguém . Inútil dizer que se pudesse m e poupar do seu convívio, eu teria aproveitado a oportunidade…
Ele esperava ofendê-la. Contudo, um aceno de cabeça saudou essa indelicadeza. Ela ironizou :
– A gente se am a, não é? Isso é tão precioso ! Prossiga.
– Mas esse m eu cliente, cuj o nom e não posso revelar, é… com o dizer, provocado pelos assassinos em série.
– Provocado? É um a piada?
– O term o é idiota, eu concordo. Entretanto, nesse contexto, “fascinado” seria ainda m ais estranho, quase doentio. De qualquer form a, ele quer saber exatam ente quem são, com o são presos e, sobretudo, com o entrar na cabeça deles.
Ela franziu as sobrancelhas, e ele a reviu degustando seu m usse de fram boesa. A ideia incongruente, m as m uito convincente, de que ela era louca, que ela havia perdido o j uízo, se im plantou em Charles Devernois-Kly ne.
– Por quê? Ele fica entediado com todo o dinheiro que tem ? Em vez de financiar um a fundação de arte conceitual, um a associação em favor das crianças deficientes, ou de aj udar um leão m altratado no cativeiro e um velho urso de zoológico a sair da j aula, ele tem o desej o de desvendar os m istérios do lado negro da m ente hum ana? É um desequilibrado ou um curioso?
Devernois-Kly ne hesitou. Com efeito, a m anipulação não serviria para nada contra aquela m ulher. Ela era, em com pensação, suficientem ente louca, segundo sua experiência com o advogado, para com preender o delírio de alguém .
– A ideia veio à m ente de m eu cliente durante um a conversa. Na verdade, acho que ele vê isso com o um a espécie de ato de cidadania…
– Eu adoro esse tipo de expressão… “Ato de cidadania” – ironizou. – Não se age m ais de m aneira correta, j usta, honrosa. Pratica-se “um ato de cidadania”. E quando se faz um a coisa negativa, repreensível, é o quê? Um ato de anticidadania? Ou um antiato de cidadania? Perdão por ter interrom pido você. Continue, por favor.
Charles Devernois-Kly ne segurou um suspiro de irritação e adm itiu :
– Você tem razão, ele poderia m uito bem criar um a fundação pra crianças autistas ou outra coisa sem elhante. Tenho a sensação de que está convencido de que pode aj udar a com bater esses psicopatas. Ele tem m eios financeiros, doutora Silver. Meios que você não tem ideia. Não vou negar que o lado um pouco… diferente desse… proj eto deve ter contribuído para o interesse dele por este… com prom etim ento. Isso com bina bastante com o que tenho visto da personalidade dele. É com o se fosse um a daquelas bolsas de estudo para os artistas.
– Legal, um original, além de tudo. Que sorte ! – ela com plem entou. – Com batê-los? Com o? Fazer j ustiça com as próprias m ãos? Reinstaurar um pouco de ordem , um pouco de bom -senso, um pouco de m oral… Um m onte de gente j á form ou m ilícias, um pouco por toda parte. Muitos resvalaram no fascism o. Muito poucos, para m im . Eu obedeço à lei.
Ele chiou :
– A m esm a lei que colocou o assassino, ou m elhor, o algoz de sua filha em liberdade? Você não é rancorosa. A m esm a lei que perm itiu que ele continuasse com seus “passatem pos” até que um traficante o m atasse porque ele não queria pagar sua dose de crack?
Ela vacilou som ente por um segundo :
– E você m e acha reacionária? Pensei que fosse contra a pena de m orte.
– De fato. É um a barbaridade. A prisão perpétua…
Ela soltou um a gargalhada :
– Que hipocrisia m aravilhosa. Sem pena de m orte para os assassinos em série. Porém , eles podem levar um tiro durante um a ação, ou na prisão, e todo m undo fica contente. Sem decisão prévia. As coisas são… acidentais. Qual é a diferença? A tranquilidade de sua alm a?
– Inútil prosseguir este debate. Não se trata disso. O obj etivo de m eu cliente é utilizar seu dinheiro pra… conter esse, esse flagelo m oderno. Um a doação pras forças policiais. Melhores program as de com putador, treinam ento especializado… tudo isso…
– “Flagelo m oderno”? Você está brincando? Os assassinos em série sem pre existiram . O Homo sapiens os inventou. Sabe por quê?
Ele abanou a cabeça negativam ente.
– Ouça bem , Devernois-Kly ne, pois é a prim eira inform ação valiosa que dou pra você. Porque nós tam bém som os assim .
– É um a figura de linguagem ?
– Não… é um a expressão bem crua da realidade. Som os um a espécie feroz. A m ais feroz dentre todas. Com o acha que conseguim os sobreviver? Do ponto de vista físico, som os desprezíveis, com parados às outras espécies de predadores. Nosso olfato e nossa audição são m edíocres. Não som os rápidos… Você sabe que um j avali corre m ais de quarenta e cinco quilôm etros por hora? É quase duas vezes m ais rápido que um hom em em alta velocidade. Ou sej a, nós não tínham os nenhum a chance.
– Se não fosse a nossa inteligência – contra-atacou o advogado, num tom superior.
– Errado ! O Neandertal era tão inteligente, ou m ais, que nós. E m uito m ais forte tam bém . Mas nós o exterm inam os. Sabe por quê? Porque ele era pacífico e nós éram os hiperviolentos, cruéis.
– Escutando você, parece que som os um a espécie m edonha.
Ela o observou, espantada, e um m al-estar foi crescendo no advogado, denunciado por sua reação ingenuam ente sincera.
– Isso o surpreende? Você nunca leu os j ornais, nunca escutou as inform ações? Que outra espécie é capaz das m esm as m onstruosidades que nós?
– Nunca fizem os nada de bom ?
– Sim , é claro, quando nos interessava. Em com pensação, destruím os o resto e continuam os. O m ais saboroso é que, apesar de nossa inteligência, não querem os adm itir um a coisa m uito sim ples : vam os j untos pro m esm o buraco. Vam os nos autodestruir. É um fenôm eno clássico, bem conhecido entre os paleontologistas e antropólogos : hipertelia. O desenvolvim ento excessivo de um órgão que conduz diretam ente ao desaparecim ento de um a espécie. O caso m ais frequentem ente citado é o dos tigres de dente de sabre. No com eço, o hiperdesenvolvim ento de suas presas os aj udava a caçar, a se alim entar. Em seguida, eles não puderam m ais abrir a boca o suficiente para capturar as pequenas presas. Foram extintos da superfície da Terra. Isso é o que está com eçando a acontecer com o Hom em , por causa do desenvolvim ento de seu cérebro.
– E então, segundo você, os assassinos em série são um … incontornável produto de nossa espécie?
– Sim . Nós criam os… com o dizer… rem édios, soluções para conter a hiperviolência que está em nós. O m odelo educacional, a ideia da im portância do grupo, a exclusão do prazer im ediato do indivíduo, a m oral, a religião, a punição. Todas essas barreiras foram quebradas. Exceto talvez a punição, m as ela está tão longe, é tão suave. E é um a reacionária convicta que diz isso ! – ela acrescentou, com um a risada sufocada e consultando o relógio. – Me desculpe, tenho outro com prom isso.
Dirigiu-se para a porta, titubeou e se virou. Em tom calm o, disse :
– Devernois-Kly ne, que pena que não nos encontram os… antes. Éram os sem elhantes. Eu detestava a violência. Detestava porque tinha m edo dela, por m inha filha, por m im . Mas aconteceu : m inha filha foi torturada m uito além do que se pode im aginar. Que eu posso im aginar, em todo caso. Ao m enos hoj e em dia. Ter m edo da violência, da brutalidade, da crueldade, evitá-las a todo custo não im pediu que nos atingissem . No fundo, m inha vida se resum e a dois períodos : antes de Leonor e depois de Leonor. Desde então, eu os caço. Quero que eles explodam . Todos.
A porta bateu.
Repentinam ente, ele teve um a vontade louca de deixar aquele lugar, de fugir daquela base m ilitar, com seu com plexo de antenas eriçadas, seus laboratórios em que se preparava um a guerra im placável, seus em blem as, seus guardas com arm as autom áticas, tão gentis, bem nutridos, cheirando a sabonete, m as capazes de m atar em caso de am eaça. Repentinam ente, teve um a vontade louca de voltar a seu belo escritório, de encontrar seu m undo de m uito dinheiro, no qual a pior carniça está tão bem lacrada que não fede m ais, sendo possível j antar em sua com panhia em um excelente restaurante conversando sobre arte, viagens ou m oda.
6 Cf. TZU, Sun. A arte da guerra. Tradução de Gilson Cesar Cardoso de Souza. São Paulo : Paz e Terra, 2006 [século IV a. C.].