Na mente, o veneno
Capítulo 33
Paris, França, julho de 2008
De volta à França, Victor se recusara claram ente a partir para o acam pam ento dedicado à equitação onde havia passado o m ês de j ulho do ano anterior. Confusa quanto ao m otivo de sua obstinação e levando em conta o traum a ocasionado pela m orte da irm ã, Sara Heurtel não insistira m uito, fazendo esforços diários de im aginação para entreter o m enino, que, entretanto, não era m uito exigente. Victor se satisfazia com pouco : um passeio, um film e, um livro – se possível, aventuras cheias de dragões, de unicórnios, de feiticeiros m alvados, de guerreiros poderosos de quinze anos e de princesas coraj osas. Para Sara, era um a questão de honra conhecer aquela heroic fantasy que cativava o filho. Porém , apesar de um a antiga paixão por ficção científica, o rom ance caiu de suas m ãos após um as cinquenta páginas…
Durante o j antar daquela noite, enquanto Victor contava entusiasm ado, detalhe por detalhe, as características físicas, intelectuais e m orais da dragoa azul
cham ada Saphira conquistada pelo j ovem Eragon, 15 o telefone tocou. O m enino parou e olhou para a m ãe, que não se m exeu.
– Você não vai atender?
– Não.
– Por quê?
– Porque sei quem está ligando.
– Quem ?
– Yves Guéguen.
– Você não quer falar com ele? – surpreendeu-se Victor.
– Não. Talvez m ais tarde.
– Com o tem certeza de que é ele?
– Porque sua m ãe tam bém tem superpoderes – brincou ela, sem alegria. – Na realidade, ele deixou um a m ensagem ontem , quando estávam os no cinem a. Além disso, não sei se você notou, m as não se pode dizer que têm chovido ligações, nestes dias. Eu m esm a j á deixei o telefone fora do gancho para verificar que a linha funcionava.
– Ah, sim …
Na hora, ela se arrependeu do com entário infeliz e retificou :
– São férias.
A m orte assusta. Às m ães que perderam filhos, m ais ainda. O que dizer a elas e o que, sobretudo, não dizer? Mas eles não sabiam , aqueles interlocutores fantasm as que tem iam um a crise de choro tanto quanto o próprio desconforto, que Sara j á tinha com eçado a apagar Louise de sua m em ória. Para não odiá-la.
– Mam ãe, eu… – m urm urou Victor com um a voz hesitante.
– O que, m eu querido?
– Bem … não se aborreça, m as… enfim , eu estava m e perguntando… se a gente poderia j ogar fora as coisas da Louise, redecorar o quarto. Isso incom odaria você?
Mais um a vez, ela se enganou. As m arcas da vida de Louise não deixavam cicatriz no irm ão. Elas lhe causavam repulsa. Aquele pedido a tranquilizava, contribuindo para apagar da sua vida alguém a quem tinha dado à luz para am ar m ais do que tudo e que agora lam entava ter concebido.
– Não. É um a boa ideia. A gente faz isso am anhã, ok? A gente j oga tudo fora, Victor, a gente não guarda nada, a gente não dá nada.
Se pudesse, ela teria queim ado tudo com o em um exorcism o.
– Legal.
Se pudesse, ele teria queim ado tudo, para que não sobrasse m ais nada de Louise.
Era preciso que ela se decidisse a ligar para Guéguen. Ter coragem de fazer o que tinha que fazer, m esm o que j ulgasse um esforço sem sentido. Éric teria dito “a lei é a lei. Sem a lei, é o caos, com certeza. A lei nos incom oda, às vezes com razão, m as ela é a única garantia de civilidade que tem os, e levam os m ilhares de anos construindo-a”.
Aquele assassino, aquele Nathan Hunter, devia pagar. Devia ser preso, m esm o se, nesse caso, ele os tinha salvado, a ela e a seu filho.
15 PAOLINI, Christopher. Eragon. Tradução de Nelson Rodrigues Pereira Filho. São Paulo : Rocco, 2005.