Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 7 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 7

 

 

Base militar de Quantico,

Estados Unidos, maio de 2008

Diane levantou os olhos de sua sopa de frutos do m ar e encarou o doutor Charles Devernois-Kly ne. Um legítim o produto de sua classe e de sua função. Bem alto, de um a m agreza m usculosa que cheirava a salas de m usculação, cabelo castanho, m ãos bem cuidadas, a cam isa, sob m edida, de um azul pálido. O belo relógio discreto, que Diane pensava custar ao m enos três anos de seu salário de psiquiatra forense, o sorriso a um só tem po sedutor e conquistador, tudo nele lem brava um advogado bem -sucedido.

Um a m esm a questão não saía de sua cabeça : por que esse cara se interessava tanto por assassinos em série? Não tinha o perfil de um advogado crim inalista. Ganha-se m ais dinheiro com o direito com ercial, ou m esm o com ações coletivas contra em presas, m uito em m oda atualm ente. Aquele cara era m uito inteligente – as questões que lhe fizera com provavam . Estava satisfeito consigo m esm o, a facilidade de seus gestos e de suas palavras atestavam . Não parecia o tipo de gente que decide, de um a hora para outra, m udar de vida. Além disso, foi evasivo, desviando a conversa com habilidade cada vez que ela abordava seus planos para o futuro. Quem estava m entindo : ele ou Edm ond Casney Jr.? Não que a resposta fosse im portante : estava sendo forçada a recebê-lo para um estágio, quer tenham – ou não – lhe contado balelas.

– Escute, Dra. Silver, acho que li e vi bastante coisa – ele continuou. – Dos trabalhos de Robert Ressler aos de John Douglas ou de Colin Wilson, passando pelo de Candice DeLong. Até assisti às conferências de Micki Pistorius. Aterrorizante, de tirar o fôlego. E não sei ainda por quê.

Ela o encarou. Pensando que não tinha entendido, Charles repetiu :

– Por quê? Quero dizer : por que eles fazem isso, essas m onstruosidades.

– Pelo poder. O que m ais? Mesm o o sexo é apenas um atributo de poder pra eles. Diz-se que um hom em é “im potente” quando não tem um a ereção, não é? Eles recuperam seu poder, sua ereção física ou psicológica, m atando e torturando suas vítim as. O problem a é que essa… ereção não dura. Ela m urcha, fracassa. É preciso recom eçar, o que significa que alguém pagará caro às vezes com m aior violência. Então, naturalm ente, na sequência vêm as explicações acessórias quase exógenas, que perm item com preender a origem da im potência. Um a m ãe dom inadora ou prom íscua, um pai castrador ou ausente, abandono ou abusos sexuais na infância, o que você quiser. Às vezes, não se encontra nada. A infância do serial killer é norm al, pelo m enos, olhando de fora…

Ela atacou seu m usse de fram boesa com evidente satisfação, saboreando as colheradas, apertando os lábios e encovando as bochechas de pura gula. Tirou lentam ente a colher da boca e prosseguiu :

– E, de qualquer m odo, em m inha opinião, essa busca da origem não tem outro interesse senão facilitar que se estabeleça um perfil desviante. Ela não responde em absoluto à questão fundam ental : por que m uitas crianças m altratadas, abandonadas, espancadas, estupradas se tornam cidadãos de bem , ótim os pais, enquanto outras acabam com etendo crim es hediondos?

– Você pensa em um a explicação genética?

Ela sorriu.

– Se digo que sim , você vai pensar que eu sou um a m erda de um a reac…

Na verdade, ele não estava m uito longe de pensar isso.

– Existe um gene do assassino, ou m esm o um crom ossom a? Duvido. E todas as investigações sobre a presença de um duplo crom ossom a sexual Y nos crim inosos m uito violentos não foram conclusivas. Existe um a… digam os, um a base genética? Por que não? A gente ignora tantas coisas sobre a genética hum ana, sobre suas m anifestações. Peguem os a noção de grande bem -estar, por exem plo. Ela está ligada à secreção e à constância da serotonina, um neurotransm issor do cérebro. São as enzim as que produzem a serotonina. Ora, as enzim as são codificadas pelos nossos genes. É claro, há um a grande diferença entre esse conhecim ento e o fato de afirm ar que o bem -estar é genético. Na verdade, enzim as e genes não explicam por que a visão da pessoa am ada, de seu filho, um a bela m úsica – portanto, algum as sensações – provocam a liberação de serotonina. Não está se negando que a violência excessiva de alguns possa ter um a base genética, em sentido am plo, ativada de algum a form a por circunstâncias externas, m aus-tratos, falta de educação m oral ou de exem plos positivos no período crítico, entre seis e doze anos.

Ela m ergulhou a colher na taça de m usse e com pletou :

– O inverso é igualm ente possível. Em outros term os, o debate entre natureza e cultura é ultrapassado. Você sabe por quê?

Ele abanou a cabeça, negando.

– Por que o que é inato influencia o que é adquirido e vice-versa. Um verdadeiro imbroglio !

– Você não vê desculpa para o que eles fazem , não é? Não há circunstâncias atenuantes?

O olhar de gelo o capturou. Ela respondeu, com voz calm a :

– Não tenho tem po a perder. Todo o tem po e a energia que dedico a eles são destinados a um a única coisa : retirá-los de circulação antes que sej am nocivos novam ente.

Ela deixou a colher no pires e contem plou, um pouco decepcionada, a taça vazia.

– Posso fazer um a pergunta pessoal pra você?

– Pode. Na pior das hipóteses, deixo você sem resposta.

Ela não estava brincando :

– O que a atraiu para a psiquiatria forense?

O olhar de Diane Silver se perdeu na direção da grande j anela envidraçada da sala redonda. Ela hesitou, certa de que ele conhecia a história de Leonor e toda a sua vida, ou quase. Um “Vá se foder !” lhe teria dado m uito prazer. No entanto, seria um a de suas insolências, quase um a liberdade, coisa que se perm itia às vezes e que não lhe agradava por m uito tem po. Suave, preferiu dizer :

– Um acidente lastim ável.

Levantou-se e foi deixar sua bandej a sobre o carrinho, sem esperá-lo.