Na mente, o veneno
Capítulo 23
Boston, Massachusetts, julho de 2008
Nathan Hunter tinha flanado por horas, às vezes entrando em um a livraria ou em um a loj a de luxuosos e charm osos utensílios em Beacon Street. Em seguida, tinha atravessado o Center Plaza para chegar, sem pressa, à North End. Morria de vontade de provar um cannoli de chocolate da Bova’s Bakery, em Salem Street. Depois tinha ido à Prince Street para saborear um expresso no terraço do Marco’s.
Boston era um a de suas cidades preferidas – um a das raras cidades dos Estados Unidos onde vale m ais andar a pé do que de carro –, e ele tinha a sensação de redescobri-la após cada ausência.
Instalado sob um dos guarda-sóis azul-m arinho, observava os pedestres, os grupos de turistas de todas as nacionalidades.
Um a silhueta cortou seu cam po de visão : a de um a m enina m orena, de cabelos longos e brilhantes, m uito bonita, apesar da m aquiagem um pouco excessiva para o gosto de Nathan.
– Hã, m e desculpe, a m esa ao seu lado…
– Está livre – sorriu ele.
Ela se sentou e pediu um capuccino.
Fingiu estar concentrada na leitura de um guia da cidade. Porém , Nathan sentia os frequentes olhares que lhe dava.
– Lam ento incom odar, m as você é do bairro?
– Não m esm o. Venho de Nova Iorque. Um turista com o você, obviam ente – respondeu ele, sedutor, apontando para o guia que ela acabava de fechar. Você é inglesa?
Ela riu :
– Ah, nosso sotaque ! É só abrir a boca que dá pra ver.
– Acho delicioso.
Ela o envolveu com um olhar apreciador m uito insistente. Ele a agradava. Aliás, queria que ele percebesse isso.
E, de repente, a irritação que Nathan sentia havia dias voltou. Chega daquela m ulher, daquela rua, daquelas hordas de turistas. Chega daquela brincadeira cretina de terraço do café.
Levantou-se, observou-a por um instante, o suficiente para ler a surpresa, a decepção e o aborrecim ento em seu olhar, e se afastou sem um a palavra. Desceu a Prince Street em passos ágeis e dobrou na Hanover Street para chegar ao John F. Kennedy Federal Building.
Estava sem notícias havia dias. Pior : tinha o sentim ento de não ter avançado um centím etro. Aquela inércia o exasperava. Tinha tanto a fazer, tão pouco tem po para conseguir…
Havia anos esbarrava no m esm o obstáculo, logo ele, que detestava que lhe barrassem o cam inho. Mas estava certo de ter encontrado, enfim , a solução perfeita. Faltava saber quando “aquela solução” se decidiria.
Regra nº 7 : “Quem vence os outros é forte. Quem vence a si m esm o é poderoso”, Lao Tzu. Vencer sua im paciência.
Chegar novam ente até eles. Não sabia chegar novam ente até eles. Um lim ite exterior, fora de sua responsabilidade, de um a incom petência qualquer cuj a culpa teria sido sua. Aquela lacuna o freava. Um a sensação horrível. O últim o obstáculo, no m om ento, intransponível, entre ele e seu obj etivo final.