Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 5 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 5

 

Base militar de Quantico, Estados Unidos, maio de 2008

O nervosism o tom ava conta de Diane Silver. No entanto, nada em seu tom pausado ou em sua expressão tinha m udado. Ela teria sido um a adm irável j ogadora de pôquer. Pena que os j ogos de cartas eram chatos. Na verdade, esse rosto im passível que apresentava ao m undo não lhe custava nada, exigia apenas um pouco de esforço. Poucas coisas ainda a com oviam – um a arm a invencível contra os delinquentes que entrevistava. Boa parte dos assassinos e estupradores em série são m anipuladores notáveis. Procuram um ponto fraco em você e chafurdam nele assim que o descobrem . Para alguns, eles possuem um conhecim ento inato da psicologia hum ana, o que explica com o conseguem driblar a desconfiança e seduzir suas presas. Contudo, suas táticas são lim itadas, e o trabalho de Diane consistia em identificá-las, em reconhecê-las. Eles podem tentar nos convencer de sua estupidez ou de sua loucura, ser j ulgados irresponsáveis pelos seus atos e, consequentem ente, ganhar um a redução substancial da pena. O hospital psiquiátrico em vez da prisão, um a vantagem definitiva. É m ais sim ples fugir de um hospital, m esm o um carcerário, que de um a prisão de segurança m áxim a, principalm ente do corredor da m orte. Mais sutil, a farsa do abuso sexual ou de outros sofrim entos durante a infância, de algum a form a, j ustifica suas m onstruosidades quando adultos. Além disso, felizm ente, não são todas as crianças que foram abusadas que se tornaram assassinos : um a parcela significativa daqueles que o FBI havia detido provinha de fam ílias norm ais, sem histórico de m aus-tratos. Enfim , um últim o recurso após o j ulgam ento e a prisão : um a grande boa vontade. Um a notável assiduidade nas sessões de terapia, o desej o louco de aprender um trabalho útil – de bom beiro a médico –, sem falar do entusiasmo pelos remédios. Cerej a no bolo, a graça os inundava. O próprio Deus vinha sussurrar em seus ouvidos o quanto eles eram nocivos e ordenar que m udassem . No entanto, os cerca de trezentos assassinos em série que foram soltos, na m aioria das vezes por causa de um a brecha j urídica, tinham tido um a recaída, sendo que alguns tom avam horm ônios m asculinos para apagar os efeitos dos redutores de testosterona, supostam ente capazes de acalm ar sua agressividade e seu desej o de m atar.

Diane se lem brou do j uiz afro-am ericano de Massachusetts que ela chocara terrivelm ente em um j antar m uito chique, organizado no Hy att. Atiçado por um a de suas declarações, ele havia dito :

– Não m e diga que você está a favor da pena de m orte,2 essa barbaridade…

– Seria intolerante que um a sociedade civilizada punisse com a m orte um pobre rapaz que, num acesso de raiva, de ciúm e ou de m edo, m atou alguém … e lam entou por isso, provavelm ente, por toda a vida. A prisão é suficiente. Nesse caso, estam os dentro de reações hum anas “norm ais”, se assim posso dizer, m esm o se deploráveis. Em outras palavras, nos desviam os de nosso assunto : os assassinos em série. Aqui deixam os a psicologia hum ana “norm al”. Você conhece as estatísticas tão bem quanto eu, senhor j uiz.

Abalado, o gentil j uiz, que devia ter um a m ulher bem -educada, com filhos bem -educados e netos bem -educados, respondeu :

– Você não está m esm o sugerindo que nós deveríam os reservar a pena de m orte a essas pessoas, com o um a espécie de pena de exceção, válida para todos os estados do nosso país?

Após ter desfrutado um longo gole de seu excelente m erlot, ela rebateu :

– Por que não? Onde está o problem a? Além de sua consciência pesada de hom em satisfeito com a vida, onde está o problem a? A eutanásia ou a prisão perpétua vêm em seguida, sem possibilidade de perdão. Porém , a segunda escolha custa caro ao contribuinte. O dinheiro seria m uito m ais útil se investido na educação ou na saúde pública.

– É m onstruoso – bufou o sim pático j uiz.

– Sério? Pense bem : im agine se sua adorável netinha cai nas garras de um desses sádicos soltos pela j ustiça. O que é que ele vai fazer? Cantar um a canção de ninar e entregar ela pra você? Não. Ele vai estuprá-la, torturá-la durante dias antes de com pletar o serviço no m om ento em que ela não o divertir m ais : quando ela não for m ais do que um a m assa sangrenta e inerte. Depois, ele vai enviar pra você um a fita de videocassete com suas façanhas e vai se deleitar im aginando seu desespero – e, portanto, o poder que exerce – quando você a vir.

O j uiz engoliu com dificuldade, fitando-a com um olhar perdido. Ela continuou :

– A ideia não é m atar ou, m uito m enos, se vingar. É retirar de circulação, de m aneira definitiva, esses indivíduos. Eles nunca vão se “acalm ar”, você sabe tão bem quanto eu. A ideia é proteger suas vítim as potenciais – e elas são inúm eras –, não encontrar desculpas ou circunstâncias atenuantes. A única coisa que im porta é que eles m atam . Sua vida se resum e a m atar, estuprar, torturar. Devem ser elim inados. Rem ovidos da face da Terra.

– Mas, enfim – ensaiou o j uiz –, seu trabalho consiste em … com preender suas m otivações, o que os leva a…

Ela o tinha interrom pido, atordoada por sua candura.

– Em absoluto. Pelo m enos, não é assim que defino m eu trabalho. Meu único obj etivo é prender esses indivíduos. É preciso, então, que eu saiba com o pensam .

Teve um a necessidade repentina de ser im pertinente com o am ável j uiz e acrescentou apertando os olhos : – Sinto um a grande satisfação quando eles estão sendo j ulgados em um estado onde há a pena de m orte.

Ele não lhe dirigiu m ais a palavra durante todo o j antar, passando os olhos sobre ela com o se não a visse. Com o se ela não existisse.

Diane Silver retom ou sua conversa telefônica com Edm ond Casney Jr., o diretor da base m ilitar de Quantico. As m ás línguas afirm avam que a prestigiada carreira do padrasto dele, o senador Murray, não era um fator irrelevante em sua ascensão na hierarquia do FBI.

O que Diane tinha entendido ingenuam ente com o um pedido educado se revelava um a ordem disfarçada. No fundo, tirando o fato de que odiava que lhe im pusessem decisões goela abaixo, ela não ligava. Exceto se Bob Pliskin se encontrasse atrás do plano, o qual seria então um a arm adilha. Pliskin, o bisbilhoteiro, era o devoto secretário de Casney. Era quem fazia o trabalho suj o, m ais precisam ente. Tirar Bob, sabotá-lo no m om ento em que a oportunidade se apresentasse seria um dos raros prazeres de Diane. Um prazer confidencial.

– Eu entendo perfeitam ente, senhor –, ela repetiu pela terceira vez, com a voz polida de boa aluna. – Porém , o senhor conhece m inha relutância diante desse tipo de coisa. Não se aprende sobre a m ente crim inosa em seis m eses. Ainda m ais que esse… candidato, Charles Devernois-Kly ne, tem um a form ação de advogado, não é isso?

– De Harvard, com louvor. Brilhante – respondeu Casney. – Ele foi altam ente recom endado por várias pessoas… m ais do que respeitáveis. Além disso, sua m onografia e seu estágio conosco não nos custarão um centavo.

– Oh, disso eu não duvido – respondeu, evitando ser irônica. – Quer dizer, então, que não havia nenhum conhecim ento básico em psiquiatria, psicologia, crim inologia ou outra que pudesse j ustificar esse interesse por assassinos em série?

– Aonde você que chegar, Diane?

– Eu desconfio, por profissão, de pessoas que são fascinadas por assassinos.

– Não é fascinação. É m ais um desej o legítim o de trabalhar com um a área de interesse prim ário para a prática penal, que é o obj etivo de Devernois-Kly ne.

– Pensava que ele era um advogado de negócios em um escritório de prestígio em Boston.

– Todo m undo tem o direito de evoluir.

– Certam ente. Ele tem trinta e oito anos, não foi o que você disse?

– Sim .

– Um pouco tarde pra fazer um a m onografia, não? Se ele desej a se inform ar sobre… futuros clientes assassinos ou suas vítim as, há um a infinidade de ótim os livros. Além disso, sonhar em defender assassinos em série não é um a escolha profissional sábia. Sem falar no ódio que inspira ao público durante o j ulgam ento, m esm o ele sabendo que o advogado apenas cum pre o j ogo legal. Ainda bem que eles não são tão num erosos com o os bandidos de colarinho branco, sendo que seu “ofício” é m uito m enos lucrativo, claro.

A irritação tom ou conta de Edm ond Casney Jr. O que ela estava pensando? Que escolha tinha? Ele próprio sem pre acatava um a ordem de seu padrasto m uito autoritário e im portante. O velho idiota e pedante queria fazer um pequeno favor ao advogado de um am igo. A política, que define nossas vidas, se resum e cada vez m ais a isto : subidas e descidas de poderosos em elevadores de luxo. É assim que funciona o m undo, e se a inconveniente da Silver não entende, pior para ela!

Mas ele estava errado : Diane tinha entendido, m as não ligava para isso tam bém . Casney ouviu o estalar característico da tam pa de um Zippo.

– Você fum a! – acusou ele.

– Grande perspicácia.

– É proibido fum ar aqui.

– Estou no m eu escritório, com a porta fechada e sozinha.

– É proibido em todos os edifícios.

– Difícil ignorar, tendo em vista a quantidade de avisos que indicam isso. Hoj e em dia é m ais correto carregar um a arm a na cintura, um direito constitucional, que tirar um m aço de cigarros do bolso. Para o senhor, o tabagism o passivo é m ais perigoso que um a bala no peito?

Aliviado por esse pretexto patético que lhe perm itia provocá-la, ele insistiu :

– É proibido por lei e pelo regulamento interno, Silver!

A m esm a voz calm a e séria lhe respondeu :

– O que o senhor desej a? Me dar um as palm adas, m e privar da sobrem esa ou foder com igo atrás da porta do escritório com um a reprim enda adm inistrativa presa em m inha blusa?

Ele a detestava, tinha certeza disso. Entretanto, a reputação de excelência e seus resultados a protegiam . Seu passado igualm ente. Pior, seu padrasto senador, a quem de fato ele creditava a nom eação dela, tinha insistido : Charles Devernois-Kly ne queria fazer sua m onografia orientado pela doutora Diane Sterling, ninguém m ais. Edm ond Casney Jr. era bastante esperto e honesto para adm itir que a anim osidade que sentia por ela nascia do desprezo que nutria por si m esm o. Um desprezo cada vez m ais forte. Cada vez m ais desagradável. Ele queria que Diane não cedesse, que não com pactuasse, que se lixasse para tudo aquilo, ou quase. Ele queria ser aquilo que não era m ais.

Edm ond Casney Jr. tinha internalizado o m edo social, esse m edo traiçoeiro e lam entável. Tem ia perm anentem ente perder o em prego, perder a proteção do padrasto, o que significaria perder sua m ulher, seus filhos, sua bela casa, suas ações na Bolsa, sua filiação ao clube de golfe de j ogadores seletos. Ele não ficaria m ais parado esperando a m orte com o rabo entre as pernas. Não lhe restava m ais espaço nem m esm o para tem er a m orte. A sua ou a dos seus entes queridos. Na verdade, nem pensava na m orte, exceto quando conversava com Silver. Quando ela respondia a um de seus raros cham ados com um “Bom dia, senhor” esbaforido, a m orte surgia no rosto de Casney. A vulnerabilidade hum ana se tornava um a obviedade indiscutível, e ele pensava em não viver m ais. E esperava apenas um a coisa : esquecê-la. Diane carregava em cada um a de suas células a lem brança de tantas vítim as cuj o calvário Casney queria ignorar. Ele precisaria ter perdido um filho para conseguir aguentar tudo, j á que nada m ais im porta realm ente depois disso? Está certo, não tinha experim entado o desespero pela m orte de um a criança. Então, sua sorte estava se transform ando em culpa? Som os culpados de não ter sofrido além do suportável, do com preensível? Não, não som os. Um a de suas crianças não tinha sido estuprada, torturada, esfaqueada. Ao contrário da filha de Diane. Onze anos. Leonor. O bastardo lunático tinha feito sua higiene íntim a, com todo cuidado : ela estava m enstruada, não estava lim pa. Isso, antes de continuar com o resto. O sangue escorria por toda parte.

Diane havia sucum bido. Durante quase um ano, tinha expurgado de si, com o podia, entre neurolépticos, álcool e entorpecentes, os pedaços de sua filha que haviam sido encontrados. A adm irável psiquiatra-psicanalista nova-iorquina, que recebia no seu divã todas as celebridades das finanças, da m oda, da arte, do esporte, tinha desaparecido de circulação, se enterrando em hotéis decadentes, trocando trepadas por doses ou por um bandej ão, conseguindo doses por m eio de golpes ou em troca de um aparelho de televisão.

– Enfim … é ruim para a sua saúde e para a de terceiros!

– É sim pático de sua parte se preocupar com a m inha saúde. E quem adverte os não fum antes sobre a poluição em geral, a deterioração do nosso m eio am biente?

 

2 Ela não existe m ais no estado de Massachusetts.