Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 11 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 11

 

Paris, França, junho de 2008

Yves Guéguen conhecia a alm a hum ana até seus recônditos m ais som brios, por isso raras coisas o surpreendiam . Mas não esperava o que Sara Heurtel estava prestes a lhe revelar quando o recebeu na sala de visitas de seu apartam ento. Ela era alta, m agra, e se m antinha ereta, desafiando a adversidade im posta a cada um de seus centím etros. É certo que as pálpebras estavam averm elhadas, o rosto fino e pálido; entretanto, a curva dos lábios e os olhos azuis traíam um a feroz determ inação.

– Sra. Heurtel… as palavras são vãs… Mesm o assim , acredite : eu entendo a sua im ensa dor. Perder um a filha… sobretudo dessa m aneira…

– Obrigada – ela interrom peu, com um a voz quase seca. – Sente-se, por favor. Você quer um café? Eu vou tom ar um .

– Com m uito gosto.

Ele se aproveitou da ausência dela para observar a sala m obiliada com bom gosto, nada m uito chique, com patível com um a pesquisadora que criava dois filhos sozinha. Tudo trazia leves m arcas de uso : o bonito sofá de pele de búfalo, a m esa de centro, cuj o tam po era feito de espesso e antigo carvalho e sobre o qual

repousava um a pilha de revistas, com o o últim o núm ero de La Recherche,7 e um grande cinzeiro de pastilhas de vidro cheio de bitucas, um elegante tapete persa, cuj os extrem os eram identificáveis pela m oldura acinzentada. Na parece em

frente estavam penduradas algum as tocantes sanguíneas, 8 provavelm ente do século XIX, representando rostos de crianças bochechudas. Um a estante cobria outra parede do chão ao teto. Prateleiras de livros lidos, a m aioria, edições de bolso. Obras j á consultadas cham am m uito m ais a atenção do que as que estão ali apenas por decoração; é com o se seus leitores tivessem deixado um pouco de si m esm os sobre suas capas, ao folheá-las ou ao devorá-las.

Sara Heurtel voltou da cozinha trazendo um a bandej a com um a xícara fum egante, que colocou diante dele :

– Leite? Açúcar?

– Açúcar, por favor.

Ela lhe estendeu um pequeno açucareiro de porcelana azulada e perguntou :

– Você se incom oda se eu fum ar?

– Nem um pouco.

– Eu tinha parado pouco depois da m orte do m eu m arido, acreditando, naquele m om ento, que as coisas dificilm ente podiam ser piores. Eu estava errada. Sem pre pode ser pior.

– É verdade – adm itiu.

Ela exalou um a longa baforada virando a cabeça, a fim de não j ogar fum aça na cara dele.

– Então, você é da Crim inalística? Seus colegas j á passaram por aqui duas vezes. Levaram o disco rígido do com putador de Louise. Me perguntaram um m onte de coisas… as m esm as que aquela incom petente da delegacia… um a tal de Nadège-algum a-coisa. Desde então, nenhum a novidade. Eu deixei m ensagens… Suponho que vocês não têm nada de novo… enfim … sobre a investigação.

– É isso. Na realidade, não sou policial no sentido estrito do term o. – Ele ia dizer “Eu sou um caçador”, m as m udou de ideia. – Eu sou um … investigador de pistas. As dos crim inosos.

– Um profiler, um especialista em psicologia crim inal?

– Mais ou m enos.

Ela vacilou por alguns segundos e perguntou :

– Talvez eu sej a influenciada por film es, m as… em geral, esse tipo de especialista se interessa pelos assassinos em série, não?

Ele optou por um a resposta vaga :

– Nem sem pre.

Yves lutava contra o m al-estar que novam ente se insinuava. Desde que ligara para Sara Heurtel, no dia anterior, para lhe anunciar a visita, tinha passado em revista todas as estratégias. Decidiu que não tocaria em alguns pontos. Há sofrim entos que é m elhor não infligir àqueles que j á estão sofrendo além do tolerável. Entretanto, era preciso que Sara os descobrisse, os deduzisse por si m esm a. Ele devia conduzi-la, m as detestava a ideia de lhe dizer qual porta devia abrir. Provavelm ente, Sara pensava que a m orte de Louise a tinha destruído de m odo irrem ediável. Ela estava enganada. O verdadeiro estrago, aquele do qual ela nunca se recuperaria, ainda estava por vir. Se Guéguen pudesse, a senhora Heurtel ficaria sem saber.

O coronel Guéguen estava certo de que Louise e Cy ril haviam sido m ortos pela m esm a pessoa, apesar de o modus operandi ser diferente. Os laços de am izade que pretensam ente ligavam os dois j ovens atestavam isso. A investigação m etódica dos arquivos desastrosam ente apagados do disco rígido de Louise tam bém . O assassino conseguira ser convidado por Cy ril a ir a sua casa, provavelm ente para recuperar o disco rígido do m enino. Isso significa que ou ele conhecia o j ovem , ou era extrem am ente persuasivo. Em com pensação, ele m atou Louise na m ansão da qual tinha as chaves, um a vez que nenhum traço de arrom bam ento foi encontrado. Ele não se im portava de que o disco rígido da garota caísse nas m ãos da polícia? Ou, ao contrário, desej ava que os policiais descobrissem o que Louise e Cy ril tram avam ? Por quê? Guéguen desconfiava dessas hipóteses. Perguntava-se, m esm o, se não estava considerando o assassino m ais inteligente do que devia. No entanto, um a teoria desconcertante tinha germ inado em sua m ente. Um a teoria que som ente Sara era capaz de confirm ar ou elim inar.

– Você quer dizer algo?

A eterna e com plicada escolha do m édico que está preocupado com a capacidade do paciente de suportar o anúncio da própria m orte. Os intrincados m eandros da m ente hum ana : entre inteligência, lucidez e sentim entos viscerais, a cegueira voluntária.

Yves disse :

– Sim .

Ela suspirou, apagou seu cigarro e acendeu outro.

– A m enos que você anuncie a m orte do m eu filho, não vej o realm ente em que poderia m e aj udar.

Ela tinha dito : sem pre pode ser pior. Mas ele não tinha a coragem de lem brá-la.

– Aqui vam os nós, então?

– Aqui vam os nós – encoraj ou Sara.

– A análise do disco rígido de Louise m ostra que ela passava um tem po na internet.

– Eu sei. Ela vendia e com prava coisas em sites com o o eBay. Para ganhar um dinheiro.

– Descobrim os poucos, m uito poucos registros de acessos a sites de leilões.

– E?

– E… Louise falava durante horas com Cy ril na internet. Encontram os no lixo de m ensagens excluídas. Nada se perde em um com putador, exceto para aqueles que não conhecem bem inform ática ou que dispõem de um program a especial de supressão definitiva de dados, o que não era o caso de sua filha. Ela consultava tam bém , exaustivam ente, sites especiais.

– Pornôs?

– Não. Estes são, em geral, relativam ente benignos, m esm o se deixam qualquer m enino verm elho de vergonha. É o que m ais se encontra na m em ória apagada, sendo assim m uito bem controlados.

– Que tipo de site então, no caso da m inha filha?

– Satânicos, de vam piros, de bruxaria…

– Ah, sim … o visual gótico… coisa de adolescente ! Todos nós tínham os as nossas m anias. Porém , a diferença é que as de Louise eram m ais persistentes.

– Sra. Heurtel… É um pouco com o o pornô. Há sites e sites. Há vídeos de sexo que se pode encontrar em qualquer lugar, brinquedos sexuais que se vendem em revistas, e há o resto. Toda… paixão hum ana pode ser separada em dois universos m uito diferentes : o excesso tolerável e o inaceitável, o ilícito, o perverso.

Sara apagou o cigarro sem deixar de fitá-lo nos olhos. Com um a voz agora cortante, exigiu :

– Você pode m e dizer aonde quer chegar em vez de ficar com esses rodeios? Não se preocupe : m inha inocência tem lim ites. Eu sei que som os a única espécie que se diverte com a desgraça alheia, com o se diz.

Ele baixou os olhos esboçando um sorrido :

– Você m e lem bra um a grande am iga norte-am ericana. Um a psiquiatra.

– Isso prova que alguns podem dizer coisas sensatas – retrucou Sara.

– Touché !

– Aonde você quer chegar? – insistiu.

– Sua filha visitava com assiduidade sites dem oníacos… sérios… de tendência radical, sendo que alguns eram vigiados de longe pela Agência de Inteligência… com o seitas am eaçadoras.

– De “tendência radical”?

Yves term inou sua xícara de café antes de responder.

– Que se referem … digam os assim , francam ente, à m orte de seres hum anos.

– Eu… não estou entendendo… Todos vam os m orrer, não é?

– O assassinato de seres hum anos. Com o etapa de iniciação. Estam os falando de verdadeiras iniciações aos sacrifícios hum anos.

– Isso é bobagem ! Não Louise ! – fulm inou Sara, saltando do sofá.

– Sra. Heurtel… Eu procuro apenas fazer com que você entenda que as… fantasias adolescentes de Louise eram provavelm ente m uito m ais sérias do que você pensa. Os pais são sem pre os últim os a saber. É norm al. O am or é cego. Sem pre.

Sara conteve a raiva que sentia subir pelo corpo, o desej o de chutar aquele cara porta afora. Um a reação epidérm ica, estúpida. Não era assim que poderia aj udar Louise. Com certeza, Louise estava m orta, m as sua m ãe ainda podia aj udá-la.

– Foi influência de Cy ril, não? Eu pensava que ele era um m enino educado, de boa fam ília, que se rebelava tim idam ente, com aqueles piercings falsos e braceletes de couro preto. O quê? Ele arrastou m inha filha para essas histórias de hom icídio?

Ele gostava daquela m ulher. Ela não m erecia saber o teor das m ensagens bastante explícitas de sua filha. Um a assassina de verdade. Era preciso que descobrisse por si só. Com o chegaria lá?

– Não sabem os. O disco rígido do com putador dele foi levado pelo assassino. De qualquer m aneira, você acabou de responder a um a das perguntas que m e trouxeram aqui : você não sabe m ais nada, não é?

– Afinal, não é porque Louise consultava casualm ente esses sites que isso significa… quero dizer, eu m esm o j á entrei em sites de pornografia, por engano… Foi preciso desligar o com putador pra sair…

– Você prefere o quê? Um a m entira confortável ou a realidade?

– Qual é a sua opinião?

– Ok. Louise acessava seguidam ente esses sites que prom ovem a teoria da raça superior… autoproclam ada, é claro. Eles são bem espertos. São cautelosos com visitas… policiais. Usam um a linguagem confusa, fazendo com que nós raram ente consigam os pegar algum deles. Se você consegue ler nas entrelinhas, a m ensagem é clara e, no m ínim o, inquietante. A raça superior dom ina e tem direito de vida ou m orte sobre a raça inferior.

Bruscam ente, o universo de Sara despencava em ruínas a seus pés. Aquele hom em não estava m entindo. Ela não tinha percebido a enrascada em que Louise estava m etida. Não tinha nem m esm o suspeitado. Suas m ãos trem iam tanto que teve de tentar duas vezes antes de conseguir acender um novo cigarro.

Ele baixou os olhos, tem endo que ela com eçasse a chorar. Um silêncio tum ular se seguiu. Por quais recantos dolorosos seus pensam entos vagavam ? Esperou ainda alguns instantes até que ela adm itisse, finalm ente, o inadm issível. Ele teve a certeza de que ela pressentia a verdade e se recusava term inantem ente a dar o últim o passo. Ele ousou :

– Com o ela se relacionava com o irm ão?

O rosto lívido, m arcado por noites de insônia e lágrim as, congelou. Ela acabava de dar o passo fatídico.

Ela abriu a boca sem pronunciar um a palavra, com o se todas lhe fugissem , e franziu as sobrancelhas, respirando com dificuldade.

– Mal. É clássico. Especialm ente sabendo que Louise não suportava ninguém … exceto Cy ril.

Outro silêncio. O olhar de Sara fugia do dele, agora. Será que ela tem ia ler nos seus olhos a confirm ação do que com eçava a vislum brar, do verdadeiro pior? Ele esperou.

Um m urm úrio que Guéguen não estava certo de que era para ele.

– Você sabe… um a das grandes qualidades de um investigador é a lucidez. Adm itir que aquilo que não se tem vontade de adm itir é real. Meu antigo chefe repetia : “É preciso deixar seus desej os no cabide quando colocam os um a blusa”. A lucidez, que herança terrível ! A ignorância e a cegueira são privilégios preciosos.

– É isso m esm o. Pelo m enos quando não vão em bora, quando nada acaba com elas. E é m uito tarde, não é?

Finalm ente, ela o encarou. Seu olhar tinha m udado, estava gelado.

– Sua pergunta… Não era um bate-papo, não é? Ela era… para valer?

– Sim .

– Victor se irritava com Louise. Eu tam bém , na verdade. Pensei que fosse um a crise de adolescente, da diferença de idade, do fato de que… Victor era m ais próxim o de m im … Era m ais sério… do que isso?

– Sim , pelo m enos é o que pensam os.

– Vá em frente – m urm urou.

Foi a vez de Yves se calar, evitar o olhar dela. Sara Heurtel tinha enfim chegado aonde ele queria, e ele tinha m edo do que estava por vir.

A ordem veio com tudo, perem ptória :

– Vá em frente, eu disse !

– De acordo com as m ensagens que recuperam os, todas endereçadas a Cy ril ou recebidas dele, Louise tinha… a intenção de m atar seu irm ão… depois de você.

Ela o encarava, im óvel, e Yves teve a im pressão de que tinha parado de respirar.

– Pra que tudo fique bem claro… Sra. Heurtel… Não eram reclam ações adolescentes do tipo “Minha m ãe m e irrita, queria que ela m orresse”. Se fosse isso, eu não teria m encionado. O proj eto, porque era um proj eto, de Louise estava m aduro, pensado com m uito ódio.

Ele a viu fechar as pálpebras e se perguntou se não estaria desm aiando. Seria norm al.

– E Cy ril?

– Estava decidido, com bastante… serenidade, se m e perm ite, a assassinar seus pais e sua irm ãzinha depois que com pletasse a m aioridade, para ficar com a herança.

– Doenças m entais?

Ele sentiu que sua voz suplicava. Um a doença m ental para atenuar o insuportável.

– Sociopatas perigosos, sem nenhum a dúvida.

– Os pais de Cy ril…

– Não sabem de nada – ele term inou. – Não estou seguro de desej ar que sej a diferente.

Repentinam ente agressiva, ela deixou escapar :

– Por quê? Eu sou a única a m erecer ser castigada um pouco m ais?

Ele balançou a cabeça negativam ente. Um a ternura inesperada o invadiu. Se não fosse policial, adoraria tom á-la em seus braços, acalm á-la um pouco. Com o fizera um a vez com Diane, um a noite em que ela tinha bebido tanto que as portas de sua m em ória estavam entreabertas.

Lutando contra a crise de lágrim as, Sara balbuciou :

– Merda, o que está acontecendo? Meu m arido é deixado agonizando pelo m otorista que o atropelou, m inha filha é degolada, e eu fico sabendo que ela tinha decidido nos m atar, eu e seu irm ão…

– É isso que j ustifica a m inha visita, Sra. Heurtel – ele adm itiu.

– O quê? O m eu m arido, Louise, Victor, eu…

– Não. O… proj eto de Louise e sua sobrevivência, sua e de seu filho.

Ela o olhou sem com preender. Ele foi m ais preciso :

– Escute… m inha teoria é provavelm ente incorreta, visto que não é baseada em nada e talvez sej a apenas um am ontoado de coincidências. E se o assassino quisesse proteger você, você e Victor?

Ela balançou a cabeça com veem ência :

– Você está delirando !… Ele tam bém teria vontade de proteger a fam ília Janet, nesse caso, j á que Cy ril estava decidido a destruí-la? Isso significaria que os Janet e eu conhecem os esse cara. Ele nos am a ao ponto de m assacrar nossos futuros carrascos? Isso é ficção científica ! – Levantando o tom , ela afirm ou, com voz fraca : – Isso é um a trem enda loucura ! Você não tem nada de m ais urgente a fazer do que j ogar no ventilador elucubrações de psicólogo de quinta categoria? Se conduz essa investigação com tanta seriedade e perspicácia, você está longe de prender o assassino de m inha filha. Além disso, eu quero ver as fam osas m ensagens de Louise, porque não acredito m ais em nenhum a palavra sua. Você diz qualquer im becilidade que passa pela sua cabeça !

– Você está no período da negação, é norm al.

Ela pulou do sofá e gritou :

– Vai se foder ! Saia da m inha casa !

Ele sentiu que ela estava prestes a agredi-lo. Contudo, ainda tinha um a inform ação a dar.

– Quando se “am a” as pessoas, com o você disse, a ponto de m atar pra protegê-las, não se abandona na casa delas o cadáver do filho esfolado vivo. Por isso, não acredito que os Janet precisem dessa “proteção”, caso eu não estej a enganado. Ele tinha outro m otivo pra m atar Cy ril. Diferentem ente, Louise foi levada a um local “neutro” para ser m orta. Ela foi – e você vai m e detestar ainda m ais – executada de m odo… rápido e higiênico.

Sara berrou, avançando na direção dele com a m ão levantada, fora de si :

– Chispa daqui, seu m onte de m erda ! Agora ! Cai fora !

Yves Guéguen estava desolado. Jogou seu cartão sobre a m esa de centro e saiu. Quando a cólera dim inuísse, ela refletiria, acrescentaria, com pararia, rej eitaria, associaria todas as inform ações. Ela tinha a inteligência e o treinam ento necessários para tal. E, no final, a lucidez seria m ais forte. Im placável, inevitável.

Se ele estivesse correto, Sara Heurtel era a única ligação que tinham com o assassino.

 

7 Literalm ente, “A Pesquisa” : revista francesa m ensal que trata das últim as notícias referentes às ciências. (N. T.)

8 “Sanguínea” é um a espécie de “giz verm elho”, de tom sem elhante à terracota, usado por Leonardo da Vinci, Rafael e Rubens. Por extensão, a obra (pintura) feita com esse giz. (N. T.)