Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 9 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 9

 

 

Paris, França, maio de 2008

A raiva e a exasperação, alternadas, tom avam conta de Sara. Depois vinham a angústia e o m edo. Se Louise tivesse fugido, com o sugeriu um policial da delegacia, ela poderia ao m enos ter enviado um a m ensagem . Quanto a Sara, j á tinha tentado um as cem vezes ligar para sua filha. Prim eiro exigindo que ela atendesse, depois suplicando. Duas noites e quase dois dias.

Quando vira a m ensagem da filha, ficara com raiva. Louise não tinha o direito de dorm ir fora, sabia disso. Um a nova rebeldia, e Sara tinha que lidar com a situação. Deixou três m ensagens am eaçadoras, exigindo o retorno da prim ogênita antes da m eia-noite. Nenhum a resposta. Sara acabou tom ando um calm ante para dorm ir. Não daria m ais a Louise a satisfação de ver a que ponto ficava preocupada. Entre um cochilo e outro, vigiava a porta de entrada, esperando que se abrisse.

O café da m anhã foi tenso. Victor perguntou :

– O que ela está fazendo agora? Encontrou algo novo para destruir nossa vida?

– Olha, ela passa por um a fase difícil e…

– Um a fase? – o filho a interrom peu. – Já faz quase três anos que ela nos inferniza. Desde que encontrou o Mister Nosferatu, o tal de Fausto, tem sido assim . Eu tenho m inhas dúvidas se ele sabe quem foi Fausto. Senão, poderia ter escolhido um nom e com o Belzebu, ou algo assim .

A observação conseguiu tirar um sorriso tím ido de Sara. Sentindo a ansiedade de sua m ãe, Victor perguntou, colocando a m ão sobre a dela :

– O que vam os fazer, m am ãe?

– Vou esperar m ais oito horas e depois vou cham ar os pais de Cy ril. Louise talvez estej a na casa dele, e daí vou m e entender direitinho com ela.

A senhora Janet-Thévenin, farm acêutica, proprietária de quatro farm ácias em Paris, a recebeu friam ente. Foi logo dizendo :

– Nós estávam os tom ando o café da m anhã, senhora Heurtel.

– Lam ento incom odar, m as preciso saber se m inha filha passou a noite na sua casa.

– Seguram ente, não – respondeu a m ulher, ofendida.

– Eu poderia falar com o Cy ril, por favor?

– Ele está estudando. – O tom se tornou seco e perem ptório. Após um suspiro irritado, ela perguntou : – Cy ril? Você sabe onde está Louise?

Sara ouviu a resposta indiferente do j ovem :

– Nenhum a ideia.

– Ele não sabe – traduziu a senhora Janet-Thévenin. – Olha, eu…

Sara percebeu a im paciência. Tom ada pelo pânico, balbuciou :

– É que… eu esperava tanto que… não sei m ais o que posso fazer…

– Me parece que, nesse tipo de situação, o m elhor é procurar a polícia – retrucou a m ulher, condescendente.

A j ovem inspetora, Nadège Rollin, que tinha tom ado o depoim ento de Sara e pegado as fotos de Louise trazidas pela m ãe, lhe fizera um a centena de perguntas. Sim , Louise era difícil. Sim , ela odiava o m undo inteiro, em especial a m ãe. Não, ela não tinha m uitos am igos, tirando Cy ril Janet. Não, ela não praticava nenhum a atividade de grupo. Não, que Sara soubesse, ela não se drogava. Nem m esm o um baseado. Tam bém não bebia. Não, ela não parecia estar sendo nem perseguida nem am eaçada no colégio. Provavelm ente, as pessoas zom bavam do seu visual gótico. Contudo, o estabelecim ento de ensino era calm o, conduzido pela m ão de ferro envolta por um a luva de veludo da diretora. Sim , Louise passava a m aior parte de seu tem po na internet. Em sites de leilões.

Em seguida Sara telefonara ao diretor de seu departam ento de pesquisa, inventando um trabalho urgente a term inar. Trabalharia m uito m ais rápido e eficazm ente em casa. Recusava-se a com entar o sum iço de Louise na frente de estranhos, com o se o sim ples fato de m encioná-lo confirm asse seu desaparecim ento. Louise logo chegaria em casa, tinha certeza. Em vez de se desculpar, seria agressiva e insolente, com o sem pre. Sara protestaria apenas pró-form a, de tal m odo aliviada que teria vontade de apertar a filha em seus braços até sufocá-la. Ela fugiria disso. Louise não suportava m ais nenhum a dem onstração de afeto de sua m ãe. Nem de seu irm ão, diga-se de passagem .

A espera com eçara. Interm inável. Dolorida. Aterrorizante. Sara observava os m enores barulhos do elevador, vigiando seu telefone com o se ele fosse tocar por pura força de vontade sua. Im agens apavorantes tentavam se im iscuir em sua m ente. Ela as expulsava, lutando com unhas e dentes contra elas. Não. Não aconteceu nada com Louise. Era um a nova punição para a m ãe, com o suas notas na escola, seu distúrbio alim entar, seu azedum e perm anente. Nada de m ais.

Sara estava conseguindo m anter um a fachada de norm alidade para tranquilizar Victor. A angústia tom ava conta tam bém do m enino, Sara a percebia no j eito com o ele falava, na necessidade de não deixar o m enor silêncio se instalar. Victor falava, contava histórias, inventava anedotas insignificantes para distraí-los de sua vida e de seu m edo.

Vinte e um a e trinta. Um a voz hesitante e seca. Sara a reconheceu im ediatam ente com o sendo da inspetora que havia pegado o seu depoim ento.

– Sra. Heurtel?

– Sim , sim . Você tem algum a notícia?

Um silêncio, um suspiro, então :

– Hum … Sim . Elas… não são boas.

Um a série de suposições veio à m ente de Sara, m enos um a. Ela perguntou prontam ente :

– Drogas? Ela foi estuprada, espancada… Onde ela está? Eu devo ir. Estar perto dela, para aj udar…

– Ela está… m orta, Sara. Assassinada. É preciso que…

– O quê? ! – berrou a m ãe. – O que você está dizendo? Mas… não pode ser !

A voz derrotada, m as profissional, continuou :

– Estou indo buscar você. É preciso que identifique o cadá… o corpo no Instituto Médico Legal.

– Não, não, espere… Sim , venha, m as não deve ser Louise… Deve ser um engano…

No m om ento em que Sara pronunciou essa frase, soube que estava agindo com o todos os pais quando negam a m orte de um filho. Louise estava m orta. Era tão absurdo, inim aginável. Im possível. Extrem am ente m onstruoso. “Assassinada”, tinha dito a policial? O que isso significava? Porra, com o um a m enina de dezesseis anos podia ser assassinada? Os crim inosos, os m afiosos, os políticos que incom odam , os terroristas, m uitas pessoas são assassinadas, m as não um a m enina de dezesseis anos. Não fazia nenhum sentido.

Nenhum sentido na m áscara congelada, de cera, dessa adolescente que saía de um a caixa refrigerada.

– Hã… ela parece tranquila – disse a inspetora, atrás de Sara.

Sara respondeu, com voz átona :

– Os m ortos não têm nenhum a expressão. O im pulso nervoso não existe m ais depois que a pessoa m orre. Os m úsculos relaxam . Todos os m ortos aparentam tranquilidade, m esm o aqueles que sofreram m uito. Guarde os consolos estúpidos para os outros. Lem bre-se de que eu sou um a cientista.

– Eu só…

– Eu sei. Obrigada… É inútil.

Nenhum sentido na ferida aberta no pescoço, logo na artéria carótida, sem o sangue que tinha corrido abundantem ente.

– Ela… m orreu por hem orragia, não é? – perguntou Sara no m esm o tom apático.

– Sim . Nós a encontram os em um a m ansão em Neuilly, depois do cham ado dos inquilinos, que voltavam de um a viagem profissional. Sem digitais, nenhum a pista, exceto as suas… quero dizer, as de sua filha, e depois as dos m oradores e da faxineira.

– E eles? Os inquilinos?

– Diplom atas. Fora de cogitação. Louise m orreu pelo m enos seis horas antes do retorno deles à França. É verdade.

– Um … delinquente sexual…

– É bem possível, m as ela não foi estuprada. Na verdade, não tinha relações sexuais há pelo m enos seis dias. Ou usava proteção. E foi sem violência, bem suave.

Ouviu-se um a cam painha alegre, destoante do am biente gélido do necrotério, revestido por azulej os brancos do piso até o teto e invadido pelo cheiro forte de form ol, que irritava a garganta e os olhos. A inspetora, cuj o nom e, m uito m enos o sobrenom e, Sara ainda não conseguia lem brar, pegou o celular no bolso de seu paletó com um pequeno gesto de desculpas.

– Sim … m erda… Eu entendo… Hã… eu estou com ela… não… no Instituto… Hã… sim …

Nadège Rollin desligou o celular, exam inando-o com o se o visse pela prim eira vez. Enxugou cuidadosam ente a palm a da m ão. Com os olhos sobre o teclado, perguntou :

– Cy ril Janet… Era o m elhor am igo de sua filha, não?

– Hã… sim – hesitou Sara.

– Sua m ãe o encontrou no quarto… Morto. Desm em brado, em princípio, antes de m orrer, m as ainda precisam os confirm ar com o legista. A pele do rosto e das pernas… arrancadas… penduradas… – Sara viu o pânico nos belos olhos am endoados da m oça. – Porra… O que é que está acontecendo? Enfim , devo lhe dizer… nunca vim os algo assim … Pessoas que explodem os m iolos ou que se esfaqueiam em um m om ento de raiva… e que depois ficam com o idiotas… é clássico… Mas isso… O Departam ento de Crim inalística assum e, agora. Não posso dizer a que ponto isso… enfim , isso m e deixa aliviada… Quero dizer… eles são os m elhores para este tipo de…

– Estou feliz por você – sibilou Sara, controlando-se para não esbofetear a policial. – Inspetora… m inha filha m orreu… assassinada !

Viu as lágrim as brotarem nos olhos am endoados da policial.

– Eu… Eu sinto m uito… Eu não estou preparada para isso… O garoto… Cy ril estava am ordaçado por um a resistente fita adesiva… para não gritar… – Irritada, exclam ou : – Não é m eu trabalho, m erda ! Meu trabalho são os assaltos, os problem as entre vizinhos, os desaparecim entos, eventualm ente, os assassinatos de pessoas norm ais… Delegacia de polícia, entende? Quem cuida dos dem entes é o Departam ento de Crim inalística. – De m odo seco, para não desabar com pletam ente, finalizou : – É ela? É sua filha, Louise?

– É ela.

– Tudo bem . Venha com igo. Vou acom panhar você.

Quando Nadège Rollin deixou Sara em casa, dez m inutos m ais tarde, esperava apenas um a coisa : que ela ficasse calada, que não dissesse nada. Não deu.

– Você se tornou policial por quê? Term inou a faculdade e não encontrou trabalho?

– Foi m ais ou m enos isso – confessou relutantem ente a inspetora. – Não é algo para se ter vergonha.

Fria, Sara adm itiu :

– Não. Você passou num concurso, foi aprovada. Poderia m uito bem ter ido trabalhar nos Correios ou na Secretaria da Fazenda. Deveria ter feito isso. Você não tem nada a ver com um a policial. Boa noite.

A porta de entrada do prédio bateu. Nadège ficou olhando a m ulher se afastar, com a coluna reta feito um a espada. Deu um m urro no volante. Tinha se com portado com o um a idiota.

Nadège retom ou o prum o. Voltaria para casa, tom aria um a longa ducha quente, faria carícias na sua velha gata Mousse, assistiria a um a bobagem divertida num DVD, com um pote cheio de doces e colesterol, sem esquecer um bom copo de vinho. Isso é que era vida. O resto ela deixaria para o dia seguinte.