Na mente, o veneno
Capítulo 14
Oaxaca, México, junho de 2008
Os gritos term inaram num soluço. O sangue escorria pelas coxas do m enino. A im agem escureceu depois que o hom em nu, cuj o rosto estava coberto por um capuz de látex preto, se espreguiçou, saciado, diante da câm era de vídeo. Um final em grande estilo depois de um a transa plenam ente satisfatória. Durante m ais de um a hora, ele tinha estuprado repetidas vezes e espancado barbaram ente o m enino de cinco ou seis anos. Constantino observou o rosto do norte-am ericano, o sorriso que boiava em seus lábios, e disse pela quinta vez :
– Nenhum truque, palavra de honra ! São as crianças da escola… É m eu
irm ão que a dirige. 9
O olhar do norte-am ericano se perdeu no pátio de recreio inundado de sol que tinha atravessado um pouco m ais cedo, escoltado pelos olhos escuros e assustados das crianças, surpreso pelo silêncio que reinava. Sem gritos, sem j ogos. Nenhum a briga infantil por qualquer bobagem . Crianças am ontoadas sob as raras árvores que som breavam o pátio, o m ais longe possível dos prédios.
Os olhos azul-m arinho se voltaram para Constantino, um olhar suave. O
m exicano se alegrou.10 O novo cliente com praria aquele e os outros film es. Havia para todos os gostos : uns preferem as m enininhas, outros, os garotinhos. Um negócio perfeito. Dez m il dólares cada, se Constantino trabalhasse bem . Um em prego fantástico, pensando bem . Ele se divertia com as crianças e ainda ganhava um a bolada por isso.
– É preciso se decidir, señor. Acaba rapidinho, você sabe.
– Não tenho dúvida. O realism o é convincente.
– Eu disse pra você, não tem truque.
– É você, não é… o centro… do film e, não é?
Algum a coisa na form ulação da pergunta incom odou Constantino.
– Por que você diz isso? – perguntou, de repente desconfiado.
Não, aquele cara não pertencia à AFI.11 Estes, sim , eram perigosos, im placáveis. Contudo, bastava m olhar a m ão de alguns dos policiais da região. Era possível, então, ocupar-se com seus pequenos negócios, confortavelm ente. Não, o norte-am ericano tinha sido recom endado por um contato de Constantino, Stanley Arm strong, um de seus clientes fiéis.
– Isso m esm o. Eu reconheci você pelas costas – explicou o outro, apontando para o pescoço de touro de Constantino. – Sua… produção m e interessa. Muito.
O norte-am ericano fechou as pálpebras lentam ente e confessou, com um sorriso sedutor, estendendo a m ão ao m exicano :
– A propósito… eu acho que você, que você tam bém é m uito interessante… Cativante, até.
Constantino pensou só por um instante. O norte-am ericano era um hom em m uito bonito, por que não? E isso podia deixá-lo ainda m ais generoso quando com eçassem a discutir valores.
Ele agarrou o punho estendido e se levantou. O norte-am ericano o im itou, sem pre de olhos fechados.
Constantino se aproxim ou com um passo de conquistador. Levou um soco de rara violência no plexo solar. Sem ar, vom itando um filete de saliva, tom bou para a frente. A lateral da m ão esquerda de Nathan se abateu sobre sua nuca. Constantino caiu de j oelhos, lutando para não desm aiar. Um a voz exultante m urm urou ao seu ouvido, em um espanhol perfeito :
– A gente vai j ogar, agora. E se eu film asse você, você tam bém ? Isso traria boas recordações, não? Ok… Não quero m ais ver seu rosto… Nem agora, nem depois…
Apesar das precauções, um rosário de gotas verm elhas e brilhantes constelavam suas roupas brancas. Ele observou as m ãos cheias de sangue e as lim pou na cam iseta. Um pouco m ais, um pouco m enos… Nathan avaliou seu trabalho, um trej eito hesitante nos lábios. Nada m al. Seria encontrada som ente a pele de Constantino na m ordaça de fita adesiva cinza que o m antinha de boca fechada. Todo o restante do rosto, até a raiz dos cabelos, estava esfolado. As coxas tam bém . Por que as coxas? Por que não? Era o local m ais acessível quando a presa se encontrava sentada, am arrada na cadeira. Além disso, daria m uito trabalho a todos os psicólogos crim inais que quebram a cabeça para descobrir um sím bolo. Constantino tinha parado de se debater, de tentar gritar. A dor insuportável o tinha m ergulhado em um estado de sem i-inconsciência. Bom para ele.
Nathan consultou seu relógio. Mais uns três m inutos antes da saída das pequenas vítim as, que não sabiam que um de seus algozes nunca m ais as m achucaria.
Escondeu-se j unto ao m uro para vigiar a fila inquieta de crianças que passavam na direção do portão de ferro. Muitos lançavam um olhar apavorado para trás, provavelm ente tem endo que Constantino retivesse algum deles para um a de suas alegres e m uito lucrativas festinhas film adas.
Esperou pacientem ente. Nenhum pequeno retardatário precisava correr o risco de ser ferido. Quando o portão foi fechado, Nathan se dirigiu para o alto arm ário em butido de onde o m exicano tinha pegado seu DVD “prom ocional” um pouco antes. Am ontoou o conj unto de film es aos pés da cadeira sobre a qual Constantino trem ia de tem pos em tem pos, gem endo. Pegou um par de luvas de látex em sua m ochila de couro, assim com o o refil de fluido para isqueiro.
Um a lim peza era necessária – provavelm ente, supérflua, tendo em vista o que se seguiria.
Regra nº 6 : Mais vale ser excessivam ente m eticuloso do que não ser o suficiente.
Pegou na m ochila as roupas que tinha trazido com o reserva, j ogou a cam iseta e a calça m anchadas de sangue sobre os DVDs, regou o m ontinho com fluido. Depois de se trocar, acendeu um Habano com prido e se inclinou. A pilha encharcada de líquido inflam ável logo pegou fogo, despertando Constantino. Em bora as dores fossem insuportáveis, o m exicano lutava para recuar. Sua cadeira caiu. Ele agitou os pés e, com um olhar aterrorizado, im plorou clem ência a Nathan.
– Ah, não, não, não… – cochichou este últim o.
Ele esperou que o fogo crescesse, se propagasse nos m óveis, nas lâm padas, nas bibliotecas, e saiu sem pressa do escritório.
9 “’Inj ustiça e im punidade’ em escândalos de pedofilia em Oaxaca”. In : Le Monde, 27-28 de abril de 2008.
10 As Nações Unidas estim am que 80 m il crianças m exicanas são vítim as de pedofilia. O México seria o terceiro m aior “produtor” m undial de pornografia pedófila.
11 Agência Federal de Investigação, equivalente m exicano do FBI.