Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 16 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 16

 

Paris, França, junho de 2008

Victor não tirava os olhos dela. A estranha seriedade do m enino a deixava desconfortável. Não conseguia tirar da cabeça a ideia cretina de que ele lia os pensam entos que se esforçava por esconder.

– Você quer um pouco de leite? Um pão com m anteiga? Um a fatia de presunto?

– Não, obrigado.

– Bom … Seria bom você ir pra ducha, porque não estam os nada adiantados.

Olhou-a sem se m exer, e Sara pensou que ele agora tinha um olhar de adulto.

– Vai, querido, você tem de se m exer !

Ela se levantou, e ele a segurou pelo antebraço; curiosam ente um aperto firm e para um m enino de doze anos. Com um a voz que a deixou m al, pois não era m ais a do seu bebê, m as a de um quase adolescente, ele disse :

– Mam ãe… Não sei o que dizer… Não sei o que fazer pra aj udar você, pra consolar você… Não sei. Não é j usto. Não é j usto que tudo caia sobre você !

– A vida não é j usta, querido. Não seria vida se fosse j usta. É preciso viver com isso, não há outra opção.

– Sim … Mas se eu não estivesse aqui, seria m ais sim ples pra você…

Ela se enfureceu, tom ada por um a espécie de terror supersticioso – ela, que desprezava a superstição :

– Eu proíbo você de dizer isso ! Proíbo de repetir palavras com o essas, de pensar nelas. Está m e escutando? Você é m inha única razão de continuar vivendo, de continuar de pé. Não se esqueça j am ais disso. Dê sua palavra de honra !

– Dou m inha palavra, m am ãe.

Ela teria se esbofeteado. Que terrível idiotice estava fazendo. O olhar am adurecido de seu filho. Ele estava em pânico. Porém , a ideia da própria m orte cada vez m ais a assediava. De fato, apenas Victor ainda era capaz de repeli-la.

Ela se aj oelhou ao lado da cadeira e lhe deu um abraço apertado.

– Oh ! Querido… Bem , você j á é um m enino grande, m as é ainda pequeno… Victor, se não tivesse você, eu perderia o chão, você sabe. Explodiria com o um a bom ba, com o você diz. Am o tanto você, tanto, m ais que tudo… – m urm urou ela, prendendo a cabeça do m enino contra seu om bro.

Por sua vez, ele a apertou nos braços, dando um beij o no seu pescoço, sussurrando :

– Am o você m ais que o m undo inteiro. A gente vai sair dessa, m am ãe. Com o quando o papai m orreu. Dói m uito, m as a gente vai sair dessa. Os dois j untos.

Havia duas horas que ela errava pelo apartam ento, desde que Victor tinha ido para a escola. Passava de um côm odo a outro, guardando um a tigela, lavando um prato, se percebendo com um a colher na m ão sem saber o que devia fazer com ela.

Sara se arrependia de tantas coisas. Nela se confrontavam dois seres : o racional e o outro, aquele que procurava sinais, que via provas na m enor coincidência, que extrapolava o am or que dava pensando que era necessariam ente recíproco. Fazia alguns dias, desde a visita daquele suj eito, aquele Yves Guéguen, que ela detestava, que tropeçava num a equação que, no fundo, se recusava a resolver, sabendo que era fatal. Louise os odiava realm ente, Victor e ela, a ponto de querer m atá-los? Não em fantasia, m as de verdade? Era im possível ! Eles eram um a fam ília norm al, ainda m ais coesa pelo luto por causa do pai que os tinha deixado desesperados, desam parados. Sara lutara com o um a leoa para que todos sobrevivessem razoavelm ente bem .

Ela até podia explicar o desvio de Cy ril, ainda que o ponto a que o rapaz tinha chegado lhe desse vontade de vom itar. Pais ausentes, para os quais ele era, com o a irm ãzinha, um gentil m acaco educado que gostavam de exibir para os am igos, m ostrando as excelentes notas no colégio e os perfeitos m odos à m esa. Mas Louise? ! Nada j ustificava Louise. Sara tinha se ocupado m ais dela do que de Victor, sentindo que a filha era fraca do ponto de vista psicológico. Em bora seu trabalho exigisse, nunca tinha negligenciado um espetáculo de fim de ano da escola, um a reunião de pais e m estres, um m om ento de tristeza. Tinha suportado tudo sem se im portar, explicando, tranquilizando. Tudo : as crises, as m entiras, as repetidas notas baixas na escola, e até m esm o os furtos de Louise, que pegava dinheiro da bolsa da m ãe e que, provavelm ente, tinha roubado seu anel de noivado para revendê-lo. Sara j am ais o encontrou. Onde tinha falhado no papel de m ãe, a ponto de Louise alim entar a ideia de assassinato? Assassinar a m ãe e o irm ãozinho. Um pesadelo desperto do qual não conseguia se livrar desde a visita daquele suj eito. Era culpa dele, dele ! Ela não tinha necessidade de saber a verdade crua. Ninguém tem o direito de expor às pessoas as coisas que podem m atá-las m entalm ente ! Ok : era ela que tinha exigido que desem buchasse. Mas ele a tinha conduzido a isso. Ele a tinha m anipulado até que ela exigisse saber de tudo.

Não podia m ais suportar a tristeza pela m orte de Louise, por isso se deixou levar pela raiva em relação àquele profiler que tinha roubado seu m undo de ilusões. A raiva é m ais sim ples, m uito m ais confortável que o sofrim ento, pois a prim eira tem um fim . O segundo, não.

Pegou o cartão que ele tinha deixado e discou o núm ero cuj a inscrição entre parênteses dizia “pessoal”.

Cham ou por seis longas vezes. Estava prestes a desligar quando ouviu a voz m asculina, antes m esm o que tivesse falado :

– Sara… Sra. Heurtel…

O núm ero de Sara, protegido, não era exibido. Entretanto, não perguntou com o ele sabia que era ela. Não im portava.

– Eu… O que é que fiz pra que Louise…

Um silêncio com o resposta am plificou sua raiva. Disse, quase aos berros :

– Merda… Você é psicólogo especializado em crim inologia ou um encanador? Você deve ter um a resposta !

– Você não fez nada… Pelo m enos, pelo que sei. Victor é a prova viva.

– Enfim … Ela não se tornou um a assassina potencial da noite pro dia. Não acredito tam bém nessas m erdas de influência nociva, m esm o se são explicações reconfortantes. Se Cy ril tivesse pedido pra ela dar um tiro na própria cabeça, ela nunca teria feito, era m edrosa. Então, não foi porque ele a carregou praquelas histórias satânicas que lhe veio o prazer de m atar.

– Exatam ente. Não é porque se vê ou se lê histórias de violência que se fica violento. Felizm ente, caso contrário, estaríam os todos m ortos. Porém , é preciso que a violência sej a explicada, desarm ada, e você fez isso.

A voz de Sara esm oreceu quando ela continuou :

– Então, o que aconteceu?

Ele teria adorado consolá-la. Contudo, não sabia com o.

– Você sabe, Sara… Já vi m uita coisa… Você se lem bra do furacão Katrina? Eu estava lá. O inferno que baixa. Pobres pessoas… despoj adas, desesperadas, lutando contra um a enchente m uito m ais poderosa que elas… Que se agarravam à casa, ao cachorro, se recusando a partir, enquanto a água subia, subia… E quem você acha que percorria de barco as ruas cobertas pelo rio? Algum as equipes de resgate, exaustas, e um a m ultidão de saqueadores. Eles não ligavam que as pessoas m orressem se podiam pegar um aparelho de televisão, o velho casaco de coelho da avó, j á podre. Todas as catástrofes acontecem do m esm o m odo. A hum anidade é isso, Sara. Alguns salvadores contra um a horda de predadores.

A voz da qual ele com eçava a gostar falou :

– Sei disso. Vi as reportagens, era m onstruoso. Os… policiais, as equipes de resgate, não sei, tinham recebido ordem de atirar nos saqueadores.

– Sim . Isso os acalm ou. Era a única coisa que podia am edrontá-los. A única coisa que desencoraj a os hum anos de sua ganância é a perspectiva da m orte. Um a ordem j udiciosa.

– Fiz um a pergunta precisa, Sr. Guéguen : Louise.

– Respondo de m aneira precisa : você não é responsável, tire essa estupidez da cabeça.

– O que aconteceu? Ninguém se torna um a assassina tão facilm ente, não é?

– Não se sabe grande coisa sobre o que faz alguém enveredar para a psicopatia crim inal.

– Porque, para você, Louise era um a psicopata crim inal?

Yves inspirou lentam ente, hesitante, depois se decidiu, por respeito a ela :

– Sim . Com o Cy ril. Teriam passado ao ato, disso não tenho nenhum a dúvida. Sara… Eu tinha j urado pra m im m esm o j am ais revelar isto a você… Não lhe dizia respeito, e é preciso poupar as pessoas boas… Contudo… A ignorância de alguns fatos m ergulha você em um m undo de culpa ainda m ais doloroso que o luto… Então, vou contar. Cy ril j á tinha passado ao ato…

– Desculpe, não entendi…

– Ele asfixiou um bebê num carrinho, num a loj a, por diversão. Louise ia fazer o m esm o.

Sara fechou os olhos. Se pudesse desabar naquele m om ento, abatida por um ataque cardíaco ou qualquer outra coisa, seria ótim o. Não, não : Victor, seu bebê. Nada de m orrer ! Ela não tinha o direito de m orrer.

– Então, o que é?

– Não sei, Sara. Os psicólogos vão se regalar com Cy ril : abandono dos pais, ausência de m odelos m oralizadores, toda a panóplia… nesse caso, j ustificada. No caso de Louise, não há nada, pelo m enos psicologicam ente, e não é a perda do pai que transform a um a pessoa, nem m esm o um ciúm e de adolescente dirigido contra você. Existe um a m argem enorm e entre ter ciúm es da m ãe, de sua im portância para o pai, até m esm o desej ar, m ais ou m enos conscientem ente, que ela m orra para liberar o cam inho, e planej ar seu assassinato. Com satisfação. Sobretudo quando o pai, o am or absoluto da filha, não está m ais presente. Tanto que os e-m ails de Louise pro Cy ril nunca fazem referência a seu m arido.

A voz chegou até ele, dessa vez, derrotada. Ela repetiu :

– Então, o que aconteceu? Genes podres?

– Não tenho a m enor ideia. Não existe nenhum gene do assassinato, não é com o o albinism o ou outros defeitos genéticos. Nesse sentido, não está excluído que a genética, em sentido lato, tenha um papel im portante. Resta com preender, e nós estam os longe disso. Sara, Sara, você é cientista… É preciso deixar aquela crença ultrapassada que gostaria que o… com portam ento fosse genético para as pessoas de direita e adquirido para as pessoas de esquerda. A genética é bem m ais com plicada que isso e não tem cor política. Você sabe m elhor do que eu : não é sim plesm ente um gene que se acende e que faz algum a coisa. A m ente hum ana é tão com plexa e tão poderosa. Pode com bater com sucesso o efeito dos genes. O am biente tam bém . Os filhos de alcoólatras têm cinco vezes m ais chances de persistir no vício. Porém , podem lutar contra. Graças ao cérebro deles, em bora os genes os incitem a beber. A m ente hum ana, Sara. Não existe nada m ais poderoso do que a m ente hum ana. Para o m elhor ou para o pior.

– Então, por quê? Por que Louise…

– Porque ela sentia vontade de m atar. Eu… Eu realm ente gostaria que Diane falasse com você… Ela sabe, ela com preende tudo. Ela sente tudo… Trata-se de um a am iga psiquiatra de quem falei… Atualm ente, é a m elhor especialista em psicologia crim inal do m undo.

– Quero conhecê-la.

– Ela nunca vai aceitar. Ela é louca, você sabe.

– Eu tam bém . Acho que com eço a m e tornar. A gente vai se entender.

– Não. Ela é verdadeiram ente louca. Gosto m ais dela que de todo m undo. Você… você está desesperada, isso não tem nada a ver. Ela está do outro lado. Afora isso, é a pessoa m ais genial e intelectualm ente com pleta que conheci. Sua filha… Ah ! Merda… Não deveria dizer isso, não sei por que… por que quero tanto dizer isso.

– Sua filha…?

– Leonor, onze anos. Você vai m e detestar m ortalm ente, m as o assassinato de Louise é um m ar de rosas com parado ao que aconteceu com Leonor. Nas garras de um sádico estuprador e torturador… Diane era um a psiquiatra bem conceituada, em voga em Nova Iorque. Desde então, caça assassinos em série.

– Quero encontrá-la. Posso ir am anhã pros Estados Unidos.

– Ela não aceitará.

A voz veio com o um estouro, im periosa, perversa :

– Dê um j eito, Guéguen. Você m e m ostrou todas essas coisas horríveis que eu não tinha nenhum a vontade de saber. Agora m e aj ude !

– Vou ver o que posso fazer. Mas não garanto nada.