Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 28 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 28

 

Roxbury, periferia de Boston,

Estados Unidos, julho de 2008

Quinze m inutos depois que ela entrou, ele a viu sair do im óvel de tij olo verm elho caindo aos pedaços que ficava na Trem ont Street, seguida por seu cliente. Ela devia ter entre trinta e trinta e cinco anos. Raízes escuras de m ais ou m enos um centím etro entregavam sua falsa loirice. Um a cadela. Um a cadela im unda. É claro que, em um bairro com o Roxbury, a gente não pode esperar encontrar um a Julia Roberts disfarçada de puta, assem elhando-se a um a frágil donzela. A vantagem era que as m eninas m ais baratas, m enos precavidas, faziam o que era pedido. De qualquer m odo, estavam todas tão deterioradas que raram ente se davam conta do que faziam . Ele apalpou com um gesto m ecânico a bolsa de vinil pendurada em seu om bro e senti os rolos bem feitos de pedaços de corda azul. Acariciou com o dedo a inscrição em feltro : Viva el papa. Um dos inum eráveis obj etos feitos para a visita de João Paulo II aos Estados Unidos em 1987. Ele não tinha ainda sete anos na época, m as se lem brava de tudo com um a surpreendente acuidade. Cuidava m uito daquela bolsa. Era um pouco com o seu pé-de-coelho.

Esperou que o cliente se distanciasse sem um olhar para a puta. Ela pareceu hesitar, plantada no m eio-fio, depois se dirigiu para o norte. Um sinal. O m otel que ele tinha escolhido ficava naquela direção.

Ele nunca usaria um preservativo ! Diziam que era im perm eável ao vírus, m as isso era para vender. Não o enganariam com boatos. De qualquer m odo, a ideia de introduzir seu pau, protegido ou não, nos buracos repugnantes daqueles lixos, preenchidos por todos os im becis que pagavam por um a transa, lhe dava náuseas. Lixos perigosos. Aquelas cadelas eram responsáveis pela epidem ia da aids. Os pederastas eram da m esm a laia. Pelo m enos, eles se elim inavam entre si, o que dim inuía aquela corj a que desagradava ao senhor.

Acelerou um pouco o passo, obcecado pela bainha da saia ultracurta que m al cobria as nádegas da m ulher. Um frisson de antecipação o eletrizou. Ah, sim , ela ia ser gostosa. Ele sentia. Chegou por trás e cham ou, com voz doce e hesitante :

– Hã… senhorita… hã…

A m oça se virou de um a vez, sem fazer esforço algum para sorrir. Não a pagavam para isso, m as sim para abrir as pernas.

– Sim ?

– Hã… Não sei se tenho o suficiente. Note bem , não sou exigente…

Ela observou o hom enzinho frágil de óculos, cabelos de com prim ento m édio, puxados para trás das orelhas, sorriso envergonhado. Decifrou a inscrição na bolsa dele e notou a pequena cruz de prata presa na gola de sua cam isa polo.

– Vinte dólares. Vinte e cinco se quiser boquete.

– Vinte dólares é perfeito.

Ela estendeu a m ão e exigiu :

– O dinheiro vem antes.

Ficou a dois passos enquanto ele vasculhava o bolso da calça de algodão.

Quando ele levantou os olhos estendendo a nota, ela notou que sua expressão tinha m udado. Antes indiferente, tinha se tornado im placável. A m ulher sussurrou :

– Não. Não gosto do teu cheiro. Sem pre confio nos cheiros.

– Mas… eu não cheiro m al… sou lim po.

– Me deixa em paz, j á disse. Não gosto do teu cheiro !

Ele lutou contra o furor repentino que lhe dava vontade de espancá-la, de estrangulá-la ali m esm o, naquele m om ento. Vadia. Cadela ! Tentou agarrar o pulso dela. A garota j ogou o braço para cim a, desvencilhando-se.

– Cai fora ! – berrou, recuando com agilidade.

Um negro enorm e parou na calçada do outro lado da rua, observando a cena.

Ele se perguntou se se tratava de um cafetão ou de um idiota que queria bancar o j usticeiro, porque ainda não tinha com preendido que aquelas m ulheres eram um a praga para a hum anidade.

Deu m eia-volta e foi em bora, suando de raiva e trem endo de frustração. Am aldiçoou-a – e, de todo m odo, ela ia m orrer de aids ou de overdose.