Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 8 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 8

 

 

Paris, França, maio de 2008

O olhar de Louise varreu a rua quando ela saiu da escola, às quatro e dez da tarde. Sua decepção se alternou com certa apreensão. O senhor Fausto não estava esperando. Vê-lo na calçada do outro lado, o rosto sério, os braços cruzados sobre a j aqueta de couro preto a encheu de euforia. De repente, o dia sem graça e, m esm o assim , irritante que tivera se evaporou.

Ela detestava todos aqueles im becis carentes com quem convivia durante horas. Eles se ocupavam , aprendiam , repassavam os conteúdos idiotas que, supostam ente, lhes abririam o espírito e, principalm ente, as portas do m undo do trabalho, no qual continuariam escravos. Às vezes, o ódio que sentia ao vê-los se m esclava com um a espécie de piedade. Se não tivesse tido a indescritível sorte de encontrar o senhor Fausto, dois anos antes, ela ainda seria um deles. Um a futura escrava. Agora, as correntes invisíveis que a prendiam , forçando-a a rastej ar com o os outros sem m esm o se dar conta, haviam cedido. Ela j á era quase um a m estra, tendo escolhido ser a m ais fiel, a m ais dócil adepta do senhor Fausto. Um a escolha, de fato, totalm ente consciente. O senhor Fausto repetia : eles tinham virado super-hum anos, transcendendo os lim ites do espaço m edíocre no qual nasceram . Eram aristocratas. Os pobres hum anos, seus servos. Havia outros com o eles por toda parte. Poucos. O senhor Fausto se com unicava com eles por e-m ail. Tinha tido dificuldade para encontrá-los. Visitara alguns sites de vam piros, de feitiçaria ou aqueles criados por satanistas, passando de decepção em decepção. Segundo ele, tudo não passava de um am ontoado de superstições, de infantilidades e traduzia, sobretudo, o desej o desesperado de reles hum anos de cultivar a ilusão de que eram diferentes.

Enfim , depois de interm ináveis noites sem dorm ir diante do com putador, ele descobrira o que procurava. Dois links, habilm ente disfarçados de inocentes, que levavam a seres de sua espécie : superiores. Foi assim que encontrou seu m entor. Um canadense. A iniciação tinha com eçado, prim eiro a do senhor Fausto, depois a de Louise. Um a longa iniciação, sem eada de dor, hum ilhação e obediência. A últim a prova fora im posta ao senhor Fausto pelo seu m entor, que sem pre recusara conversar com Louise enquanto ela não estivesse totalm ente iniciada. Matar. Tirar a vida de alguém .

Louise se lem brou da cena e um sorriso aflorou em seus lábios quase negros. O senhor Fausto m orrera de rir ao lhe contar as diferentes alternativas nas quais tinha pensado. Seu pai ou sua m ãe pareciam a escolha m ais óbvia. Contudo, essas duas sub-raças ganhavam m uito dinheiro, perm itindo, ao senhor Fausto, viver luxuosam ente e fazer o que bem entendesse. É claro, ele herdaria tudo, m as aos dezesseis anos ainda não era j uridicam ente independente. Em com pensação, seus pais o deixavam em paz, interessando-se apenas esporadicam ente por suas notas escolares, que eram excelentes, ao contrário das de Louise. Era m uito cedo para m atá-los.

Sua irm ã, cinco anos m ais nova? Que ótim a ideia. Aquela preguiçosa o irritava com seus m im os e caprichos, para não m encionar as m úsicas estúpidas que lhe infligia, um a vez que a idiota, por m edo de ficar surda, se recusava a usar os fones de ouvido do MP3 quando voltava da escola. Por outro lado, tratava-se de seu prim eiro assassinato. Um teste rápido, que ele desej ava transform ar em golpe de m estre. Mas ninguém está im une a erros. A polícia sem pre suspeitava dos parentes. Não havia dúvida de que ficaria solto.

Então, um estranho. A m elhor opção. Louise tinha sugerido um sem -teto, sub-raça dentre as sub-raças. O senhor Fausto hesitava. No fundo, Louise o entendia. A espera, a preparação era prazerosa.

Ela tinha entrado no j ogo, apesar de ser ainda um a aprendiz , pois sua últim a passagem iniciática só aconteceria no ano seguinte. Um a delícia quase insuportável : olhar um pedestre, um aluno de sua classe ou a j ovem caixa do superm ercado e pensar que vão m orrer porque vam os m atá-los. Im aginar cada detalhe da agonia, o pânico em seus olhos, que a luz abandona pouco a pouco…

A espera se estendeu por duas sem anas, até o dia em que o m entor canadense se inquietou. O senhor Fausto estaria à altura das suas exigências? Estaria com m edo? Em sua m ente, aquilo era um j ogo adolescente?

Espicaçado, o senhor Fausto tinha dado o últim o passo em direção à essência de um super-hom em . Um passo irrem ediável. Ele entrara em um a grande loj a de roupas, sem um a ideia definida de quem seria sua presa. Cam inhara tranquilam ente entre as prateleiras e, de repente, viu-a. Um bebê dorm indo em um carrinho. A m ãe gesticulava em um provador. O senhor Fausto se inclinara e, sem pressa por causa do m ovim ento das pernas do j eans que a m ulher tentava vestir, sorrira ao bebê, antes de pegar seu coelho de pelúcia e de apertá-lo contra o narizinho e a boca delicada. Ao sair da loj a, ele oscilava entre o ataque de riso ao im aginar a m ãe em purrando seu bebê m orto, acreditando que ele dorm ia, e certo descontentam ento consigo m esm o. Fácil dem ais. Não estava satisfeito com o que fizera e se preocupava com a resposta, talvez de desprezo, de seu m entor. Na verdade, este parecia decepcionado pelo seu desem penho lastim ável. Mesm o assim , ainda quis tranquilizar seu seguidor : ninguém se sobressai j á da prim eira vez.

Quando o senhor Fausto relatou sua façanha a Louise, ela ficou em êxtase, im aginando que tentaria fazer algo m elhor, m ais difícil.

– Tira essa bunda gorda daí, Louise !

Ela engasgou. Alexandre acabava de ligar sua lam breta e ela bloqueava a passagem . O loiro aguado, queridinho das garotas, lançou um olhar de desgosto para Louise, que recuou contra a parede da escola.

– Que coisa deplorável ! Você é tão pesada no sentido próprio como no figurado. Além disso, você fede ! – cuspiu Alexandre antes ir embora.

Ela o detestava. Ela execrava a todos. Pobres cretinos, inconscientes de sua inferioridade. Evidentemente, eles riam dela, de suas roupas extravagantes. Esses escrotos só sonhavam com Converse, Prada e Ralph Lauren. O look dominante daquele bairro de luxo. Entretanto, ela não tinha mais nada a fazer. Ela não os enxergava mais, não os ouvia mais. Tinha se tornado alguém totalmente superior. Eles eram larvas agitadas que ela esmagava com os pés.

Alexandre seria um alvo magnífico para a última etapa de sua iniciação. Um suspiro de conforto veio quando se imaginou estripando-o, cortando sua bela gargantinha com golpes de estilete. Suspirou. Não, ia deixá-lo para mais tarde. Primeiro, a mãe. Sua mãe seria sua presa inicial. Sonhava em matá-la havia muito tempo. Bem antes de ter encontrado Fausto. Louise tivera tempo de preparar seu plano. Ninguém nunca suspeitaria dela. Nem mesmo aquele aborto da natureza do Victor. Ela lhe contaria o segredo no dia em que o matasse.

Somente nesse momento percebeu sua presença. A do homem. Parado na outra calçada, ele a olhou fixamente, um sorriso charmoso nos lábios. Ok, era um pouco velho, mais de trinta anos, provavelmente, mas realmente um cara boa pinta. Alto, ombros largos cujas linhas viris eram realçadas pelo couro preto do sobretudo. Ela notou a calça, também de couro preto, gasto na altura das botas. Tinha um cabelo castanho claro, liso, na altura dos ombros, e seus olhos se escondiam atrás dos óculos retangulares de lentes curvas. Louise se perguntou se eram simples trajes dândi-gótico ou se aquele homem fazia parte de sua espécie, a dos super-humanos. Estava tentada a acreditar na segunda hipótese. A solidão dos seres superiores, que o senhor Fausto repetia ser um privilégio, era às vezes demasiada para Louise. Eram apenas ela e o senhor Fausto, sempre, pois ele jamais quis apresentá-la aos seus contatos na internet, além de ter julgado os três outros membros de seu grupo, é bom que se diga, indignos para a iniciação. Esses também eram sub-raças que deviam continuar sem saber nada sobre o desenvolvimento deles dois.

Além disso, os episódios masturbatórios recomendados pelo senhor Fausto começavam a entediar Louise. Certamente, era bom, mas o sexo a dois devia ser melhor. Tinha oferecido sua virgindade ao senhor Fausto, para a libertação completa das proibições e das convenções impostas pelos inferiores. Entretanto, apesar das tentativas, era duro reconhecer que ele era melhor mestre que amante. O suj eito, que ainda a olhava, braço cruzado sobre o peito, era bonito. Muito bonito. Ela respondeu com um sorriso e ele a alcançou alguns passos adiante.

O portão elétrico se abriu para dar passagem ao Porsche preto, que parou na frente da entrada de um a m ansão em Neuilly, situada em um a rua pequena, calm a e florida. Louise reprim iu um sorriso. Merda, o branquelo norte-am ericano, além de bonito, era podre de rico. Nathan, ele se cham ava Nathan. Louise sentia a excitação tom ar conta de seu corpo. Estava lá, finalm ente. Na verdadeira vida dos seres superiores. O senhor Fausto j á a tinha descrito inúm eras vezes. No entanto, às vezes ela duvidava. Não m ais, agora. Nessa vida, eles eram ricos, bonitos, poderosos. Livres dos m edos idiotas que im pedem as m assas de larvas de transgredir as regras. Estavam acim a das leis, das ordens, do m edo. Tinham os m eios, todos os m eios, de fazer exatam ente o que queriam . Eles eram os senhores.

Ele a em purrou escada acim a e Louise se perguntou se estaria ansioso para pular em cim a dela. Só tinha um desej o : que a pegasse nos braços logo depois de fechar a porta. Em vez disso, ele lhe indicou o cam inho do salão e a acom panhou, conduzindo-a com as duas m ãos na altura de seus rins. A peça estava m obiliada com bom gosto, apesar de um pouco burguesa dem ais aos olhos de Louise. Um a grande porta de vidro dava para um j ardim inglês, adm iravelm ente bem cuidado. Ele se livrou do longo sobretudo. O suéter, de fina caxem ira preta, m oldava os m úsculos de seu pescoço. Ele a convidou a se sentar em um dos sofás de couro bege e propôs :

– Um copo de cham panhe, um uísque?

Com um a insegurança que tentava cam uflar, ela perguntou, com um a voz autoritária :

– Quando é que vam os transar?

Ele franziu a testa e m urm urou :

– Oh ! Sinto que vou gostar m uito disso…

Louise sentia certa satisfação. Alexandre filho-da-m ãe. Se o loirinho m etido a besta a visse agora, naquela m ansão de luxo, na com panhia de um cara quinze vezes m ais excitante do que ele, m orreria de raiva.

– Eu voto por um a taça de cham panhe – insistiu Nathan.

– Pra m im , um a vodca – pediu Louise.

– Ok. Você prefere vodca.

Enquanto ele se aproxim ava do bar para servi-la, desaparecendo a seguir, provavelm ente para pegar um a garrafa de cham panhe na geladeira, ela se perguntava se contaria essa aventura ao senhor Fausto. Talvez não. Ele com eçava a incom odá-la, o Cy ril. Ela chegara à conclusão de que se sentia superior a ele. E se ele quisesse ser o suserano e ela tivesse que ser a vassala, ela não se encaixaria. Mas devia ter paciência. Ainda tinha necessidade dele para com pletar sua educação, chegar à últim a etapa da iniciação. Possivelm ente por causa disso, ele j am ais quis lhe dar os e-m ails de seus contatos, m enos ainda de seu m entor canadense. Para m anter o poder. A boa notícia era que, um a vez iniciada, não teria m ais necessidade dele. Ele a tinha decepcionado m uito com a m orte da criança. Um bebê. Fácil dem ais. “Você vem m e contar com o se fosse um feito !” Entretanto, ele parecia m uito orgulhoso. A ponto de ter lhe contado a cena um a dúzia de vezes.

Nathan lhe entregou um copo cheio de vodca, interrom pendo seus pensam entos.

– Um brinde? – sugeriu.

Ela assentiu e se levantou do sofá. Os copos tilintaram . Ele colocou sua taça na bandej a de espesso vidro fum ê da m esinha de centro. Aproxim ou-se dela e inclinou a cabeça em direção aos seus lábios. Louise pensou que poderia ter tirado os óculos escuros.

Na verdade, não se im portava. Só queria que ele pulasse em cim a dela. Com um pouco m ais de im aginação que Cy ril. Ergueu o queixo para alcançá-lo. Ele passou a m ão suavem ente em sua nuca. Devia fechar os olhos? Não, essa era a atitude típica de um a m ulher da sub-raça, não a de um a futura m estra. A m ão que segurava seu pescoço ficou m ais firm e. O gesto foi tão rápido que ela não viu. Algo terrivelm ente afiado e doloroso penetrou em seu pescoço, pelo lado. Um violento j orro de sangue esguichou sobre o couro do sofá. Outro. Louise gritou, tentou se libertar. Um fio preso à tom ada a fez cair no tapete. Quis pegar os tornozelos dele, que se afastou com um pulinho. Ela se arrastou em direção ao corredor. E o sangue, todo aquele sangue que j orrava no ritm o das batidas assustadas de seu coração…

– Mais um m inuto – ela o ouviu m urm urar.

O terror a fez chorar :

– Me aj ude… eu vou m orrer, eu im ploro !

– É feio querer m atar a m am ãe. Muito feio.

Enfim , ela conseguiu se arrastar até a porta do salão. Um a pesada bota de couro negro esm agou suas costas. Sentiu que estava sendo arrastada para trás. Ele a puxava pelas pernas.

– Não, não vam os sair. Está quase term inado.

Louise tentou gritar de novo. Um véu negro com eçava a escurecer sua m ente. Estava quase inconsciente. Seu coração parou alguns segundos depois. Nathan tirou a lâm ina triangular do ferim ento, um a arm a do exército, sem piedade nem hesitação. Direto na carótida. Serviço bem feito. Ele hesitou e a enxugou no vestido de Louise. Desnecessário m ais estragos. Detestava danificar as coisas bonitas. Era bonito, ali. Com certeza, m uito conveniente, m as tam bém agradável. Suficientem ente acolhedor. Se fosse dele, teria se livrado das duas lâm padas cuj os pés representavam um velho chinês com um a barbicha e um chapéu pontudo. Um exagero ! Porém , não estava em sua casa.

Nathan pensou, divertindo-se um pouco, no que iam fazer os inquilinos da suntuosa m ansão, um diplom ata queniano e sua esposa – charm osa, a j ulgar pelas fotos dispostas sobre a m esinha de centro de j acarandá. Seu avião, vindo de Los Angeles, aterrissaria no dia seguinte pela m anhã no Aeroporto Charles de Gaulle. Tinha dado a eles um bom álibi. A m orte j á teria com eçado seu trabalho de decom posição, m ostrando que Louise m orrera bem antes do retorno do casal.

Seu olhar passeou pela grande poça de sangue que decorava o carpete cor de areia e se estendeu até as m anchas que se destacavam no couro claro do sofá. Porra, era sem pre a m esm a coisa : o tapete estava arruinado. O couro se pode lim par sem problem a. É só usar um rem ovedor de m anchas. Quanto à pintura próxim a ao m arco inferior da parede, apenas um a pequena m arca fininha. Ele deveria tê-la m atado na banheira, m enos bagunça. Um a boa faxina e tudo estaria perfeito. Poderia ter alegado, com o pretexto, um j ogo erótico na ducha. Tinha pensado nisso. Mas a sim ples ideia de roçar a carne gorda e nua daquela m enina lhe dava ânsia de vôm ito. Não tivera nenhum desej o de dorm ir com ela. Um m onte de pele m acilenta, repulsiva. Em com pensação… em com pensação, a m ãe lhe agradava. Talvez. Mais tarde.

Observou o alfinete de segurança preso na carne flácida do antebraço de Louise, um traço am arelo-alaranj ado da Betadine. Sorrindo, abanou a cabeça :

– Bobinha, você j á era ! Queria ser o lobo m au, m as tem m edo de um a m ordida…

A grande lim peza com eçava. Lem brava-se de todos os lugares onde tinha colocado os dedos. Questão de prática. Antes de deixar a m ansão, se deleitou com um longo e m erecido charuto e se livrou de tudo o que pudesse identificá-lo em Louise. Entre o m om ento em que Sara Heurtel inform aria o desaparecim ento de sua filha e o m om ento em que o cadáver adiposo seria encontrado sobre o tapete, olhos bem abertos, haveria um ou dois dias.

Regra nº 3 : sem pre ganhar tem po, m esm o sem saber por quê. Isso sem pre pode aj udar.

Tem po de sobra para cuidar de Cy ril… perdão, do senhor Fausto. Houve problem as na iniciação. Sufocar um bebê. Que ideia horrível. A m iserável invenção de um cérebro. Grotesco. Deveria igualm ente recuperar o disco rígido do com putador do rapazinho : não se recusa nada a seu m entor canadense, ou tido com o tal…

Nathan trancou a porta atrás de si e brincou com o m olho de chaves na palm a da m ão coberta por um a luva. A polícia francesa chegaria até a proprietária da m ansão, j á que não houve arrom bam ento. A sobrinha de um nova-iorquino. Ela não seria de grande valia. Ele, ainda m enos. Nathan tivera um a ideia genial ao escolher aquele local.

Regra nº 4 : Jam ais ignorar seu instinto. De resto, não é instinto, é m ais um pressentim ento que tom a conta da cabeça disciplinada de um ser cuj os sentidos estavam afiados.

Parou a quinhentos m etros de distância da m ansão. Enviou um a m ensagem do celular de Louise para a m ãe dela, avisando : “Chegarei m ais tarde. Não m e esperem ”. Em seguida, j ogou o aparelho pela j anela do Porsche na boca do esgoto. Observou-o desaparecer com um sorriso.

Um pouco m ais de tem po ganho !

Sim , ele realm ente gostava dela. Um a boa escolha. Mais tarde.