Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 2 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 2

 

 

Cannes, França, abril de 2008

Irritada, Élodie Menez deixou o carro no estacionam ento de seu prédio. Olhou o relógio pela décim a vez em dois m inutos. Droga, quase sete da noite ! Estava cansada das interm ináveis reuniões que Bertrand, o chefe do seu departam ento, teim osam ente program ava na sexta-feira à noite, quando todos os técnicos não tinham m ais que um a ideia na cabeça : o fim de sem ana ! Só tinha trinta m inutos para tom ar um a ducha, se m aquiar um pouco, colocar um j eans e ir direto se j untar a Magali, Corinne, Stéphanie e Luce para a noite quinzenal entre m ulheres. Um grupo bastante incom patível de antigas am igas do ensino fundam ental que tinham aos poucos perdido o contato e se reencontraram anos m ais tarde. Porque só sobraram elas. Suas vidas se tornaram (ou tinham sem pre sido) pequenos desertos, pouco perceptíveis de fora, quase aceitáveis internam ente. “Som os um a legião de m inúsculos desertos.” Élodie tinha aprendido isso a duras penas. Crueldade final das inexistências : outro fragm ento de deserto pode se pôr ao lado do seu sem que isso signifique povoá-lo. Ao fim e ao cabo, tornam -se duas desolações contíguas.

Exceto um a vez. Um a vez, seu deserto tinha sido invadido, incitado por um a energia louca. Naquele m om ento, um a vida nova tinha com eçado. Efêm era. Em seguida o deserto voltou a ser o que era, inicialm ente um pouco m ais caótico, depois, à m edida que ela retom ava seus hábitos, nem m elhor nem pior do que antes.

No elevador, Élodie apertou o botão de seu andar e suspirou. No fundo, ela realm ente queria um a noite tradicional de pizza-fofocas-cinem inha seguida de um a passada no cassino? Sem exagero, um a passada é igual a vinte euros cada um a, nunca m ais do que isso, m as com duas taças de cham panhe de graça, oferecidas com um sorriso pelas garçonetes que percorriam os corredores de m áquinas caça-níqueis. Um a sexta à noite sim , outra não.

Fora Magali, Élodie não tinha m uita afinidade com as m eninas. A am izade entre elas, se m uito, era o que se poderia cham ar de um encontro oportuno, preso por um fio : elas se tornaram a principal distração, o único conforto um as das outras. Não se tratava de apoio ou afeição : era apenas um cobertor confortável que escondia de cada um a seus próprios defeitos, suas próprias frustrações. O fio se rom pia logo que algo m ais atraente se apresentava. Todas saberiam que eram com o um analgésico um as para as outras, um a distração? Provavelm ente não. Corinne e Stéphanie não eram exem plos de inteligência, e ainda m enos de lucidez. Quanto a Luce, a única resposta que tinha encontrado para sua depressão após o recente divórcio era tão banal que não se dava conta : ela sem pre tinha razão em tudo, e os outros estavam errados, sobretudo seu ex-m arido. Ela afundava gradualm ente em um a espécie de egoísm o cego e vingativo, tornando-se o centro de seu universo estreito e lim itado.

Magali destoava no grupo de m ancas sentim entais que suturavam suas feridas e dissim ulavam suas cicatrizes a golpes de grande gargalhadas, de um pretenso cinism o e de falsa cam aradagem . Com o Élodie, Magali esperava. Nem um a nem outra sabia exatam ente o quê. Melhor assim , em todo caso. Melhor que suas vidas naquele m om ento, naqueles últim os anos. Melhor que a boia de salvam ento quinzenal : pizza-fofocas-film ezinho-cassino. Magali, ela tam bém , tinha sido abandonada. Fazia dois anos, sem saber bem por quê. Um dia, ele tinha falado em férias rom ânticas na Martinica; um m ês m ais tarde, anunciou que a estava deixando por outra m ulher – m ais dinâm ica, m ais em preendedora, m ais bonita. Ela se viu sozinha, inútil, m olenga e feia, tudo depois de um a única frase, exatam ente antes que ele fechasse a porta. Ela se j untou ao grupo das antigas am igas do colégio, refeito às pressas. Um a espécie de confissão de im potência m al disfarçada. Receber um golpe devastador com o aquele fez com que dissesse a si m esm a que não conseguiria se recuperar. Mas a gente se recupera de tudo, não é? Som ente a m orte é definitiva.

Foram as batidas loucas de seu coração que a detiveram no m om ento em que abria a porta de seu apartam ento. Batidas tão desordenadas, tão ferozes que golpeavam suas têm poras, seu crânio. Bem antes de ela ouvir, ver, saber. Um a dor com o um soco na boca do estôm ago a im pediu de respirar. As chaves escaparam de sua m ão e foram quicando sobre as laj es cinza do corredor m al ilum inado.

Ela ouviu. A m úsica proibida. A m úsica m ortífera. Ebben? ne andrï lontana. Aquela do CD que tinha j ogado dez, cem vezes no lixo para depois o resgatar. La Wally de Catalani. Maria Callas. A m úsica, as vozes a faziam fechar os olhos de felicidade e gritar que o m undo era m aravilhoso. Ele.

Élodie hesitou. Fugir. Descer as escadas e pegar o carro. Com eçar chutando o balde, passando por cim a de tudo. Ou avançar verdadeiram ente. Lem brar-se, pela m ilésim a vez, de que não vivia, que esses dois últim os anos e quatro m eses sem ele tinham sido um pesadelo gélido e dolorido. A cada instante, salvo quando conseguia odiá-lo. Raram ente. Após tudo, o que ele tinha feito de tão im perdoável? Nada. Ele a tinha deixado, sem um a palavra, sem um a explanação. Desaparecido. Evaporado. Entretanto, ela havia se perguntado várias vezes o que ele poderia ter visto nela. Ele devia ter acabado por perceber a total inadequação dos dois. Com o culpá-lo? Ele era brilhante, bonito, alegre, um pouco louco, totalm ente generoso. Um hom em solar. Existem poucos. Mesm o com esforços constantes, ela era um pouco sem graça, um pouco sem sal. Não bobinha, m as tam bém não m uito inteligente. Não sem graça, m as tam bém não engraçada. Não apagada, m as tam bém não conquistadora. Um a banalidade desoladora que repercutia até m esm o fisicam ente. Não pequena, m as tam bém não alta. Não gorda, m as tam bém não m agrinha. Não loira, m as tam bém não m orena. Não feia, m as tam bém não um a beldade. Um a m ulher pau pra toda obra e que pode ser trocada. Daquele tipo que o açougueiro não reconhece na rua, em bora ela com pre carne no m esm o local há m ais de cinco anos. A Senhora Todo-m undo que queria tanto ser a Senhora Alguém -m uito-especial, um tipo inesquecível, que é acom panhado por olhares quando entra nos restaurantes, nas loj as, que é saudado por sorrisos de apreciação ou por explosões de ciúm es. Com o ele em versão m asculina. Muito m asculina.

Entrou no apartam ento m esm o sem querer, sem m esm o se dar conta.

Ele. Estava diante do com putador, de costas para ela. Não parecia ter percebido sua chegada, absorto que estava em sua pesquisa. Do m arco da porta, ela apenas distinguia vagas form as m arrom -bege sobre a tela. Subitam ente, um frio na espinha. Ele se virou lentam ente e a cum prim entou com um de seus sorrisos. Um sorriso que a perturbava até às lágrim as. Ela procurava desesperadam ente o que dizer, ao m esm o tem po que tudo parecia inapropriado : “Bom dia”, “Tudo bem ?”, “Você voltou?”.

Ele se virou de novo para a tela e fechou a j anela da página que consultava, dizendo, com um a voz suave e triste :

– Você não deve ver isso.

– O que é?

– Um a petição internacional sobre um suposto artista costa-riquenho.1 Ele pegou um cão de rua e o prendeu dentro de um a galeria para um a exposição. Ele o deixou m orrer, com o… “obra de arte”. Ali, na tela… eram as fotos do cachorro agonizando. Toda a resignação e a incom preensão do m undo em seu olhar. Droga, eu tenho certeza de que ele acreditou até o fim que alguém iria salvar o bichinho. Mas ninguém fez isso. Os visitantes passavam diante dele. Estranham ente, nem urina nem excrem ento em torno dele. Era preciso lim par tudo cuidadosam ente, deixando-o m orrer sozinho. Um a m erda de cachorro não era para ser… artístico ! Isso fede.

Lágrim as em baçaram o olhar azul-m arinho com que ele a encarava. O belo queixo quadrado se contraía. Ela sentiu sua raiva, sua dor, e se segurou para não correr e consolá-lo. Murm urou :

– Que horror ! É repugnante !

– Você sabe… não tenho certeza se am o ou não a nossa espécie – explicou ele, franzindo a testa. – Nós todos vam os apodrecer. Mesm o a arte e a criação.

Inexplicavelm ente, apesar da m onstruosidade do que ele contava, um a espécie de alívio quase insuportável invadia Élodie. Ele retom ava as conversas que costum avam ter do ponto em que a tinha abandonado dois anos e quatro m eses atrás, elim inando a ausência, aniquilando, com algum as frases, o m inideserto no qual ela se escondia desde então.

– Ele vai ser processado pela j ustiça?

– Espero que sim . Não tenho certeza. – Ele fechou os olhos e continuou, com um a voz estranha, que a incom odava : – Nós som os os últim os predadores. Os outros predadores m atam por necessidade, pra com er, se defender, proteger seus filhotes e seu território. Isso é norm al. É brutal, m as é assim que a vida funciona, que ela sem pre funcionou desde o início dos tem pos. Nós som os a única espécie que m ata por sadism o, pelo gosto de ter vantagem , pelo tédio, ou m esm o pela “beleza” do gesto. É a razão pela qual um dia nós desaparecerem os. Todas as outras form as de vida respirarão aliviadas quando nós não estiverm os m ais aqui pra atorm entá-las.

– Você está m e deixando totalm ente angustiada.

Ele se levantou e veio na direção dela, de braços abertos. Meu Deus… com o ela tinha esperado por aqueles braços ! Com o tinha sofrido por eles não m ais a acolherem . Um longo e terrível pesadelo. Silêncio, sem m ais pesadelo. Ele estava ali.

– Que cretino eu sou. Perdão. Vam os parar de pensar sobre isso… Muito deprim ente. Com o você está? Seu dia foi m uito cansativo? – Apertou os olhos e perguntou, com voz descontraída : – Ah… você tinha algo previsto pra esta noite, não?

– Eu… sim . Enfim , não, nada de m ais. Vou ligar pra avisar que não vou. – Subitam ente, em pânico por causa de detalhes, que eram m ais fáceis de abordar que o resto, ela se perturbou : – Vou sair… não tenho nada pra com er… o que você quer…

– Oh… Mulher de pouca fé ! Eu trouxe tudo. Certo, não cozinhei nada… Nós tem os foie gras, que parece bem bom . Metade de um a lagosta pra cada um , duas saladas e… O que eu com prei pra você? Seu grande pecado favorito… – ele brincou, satisfeito.

– Algo de chocolate?

Ela fazia um esforço desesperado para dem onstrar um ar tão alegre, tão relaxado e leve com o o dele. No entanto, tudo estava se quebrando dentro dela. Não conseguia entender um a coisa : com o alguém pode ter o poder de colocar tudo em equilíbrio em sua vida, de j ustificar quem você é, de legitim ar sua existência? Quer dizer que ela não tinha vida real sem ele? Sim , era exatam ente isso. E ele m al tinha passado pelo seu cam inho nos últim os cinco m eses. E ainda. Indo, vindo, partindo, reaparecendo. Um a espécie de m iragem , de alucinação im perceptível. Merda ! Ela dependia, havia dois anos e quatro m eses, de um a m agnífica ilusão em form a de hom em que perm anecera na sua vida som ente algum as sem anas. Pior. Se quisesse ser absolutam ente obj etiva, pressupondo-se que antes dele, em seus trinta e quatro anos de existência, ela nunca tinha vivido, ela devia a esse hom em as seis sem anas durante as quais tinha realm ente tido a sensação de ser plena. De viver.

– Um bolo recheado… com m uito, m uito, m as m uito chocolate… É sim ples : você vai se dar m al.

– E vou engordar um quilo – ela riu, sem j eito.

– Minha experiência diz que as coisas boas nunca engordam – ele sentenciou, fazendo Élodie ter vontade de rir.

Porém , ela sentia m uito m edo para sorrir. Muito m edo de que ele desaparecesse de novo.

– Ah, m ulheres e suas m anias ! Vam os correr um pouco, depois. Isso vale um grande bolo, não?

Quando acordou, em balada pelo cheiro dele, ela congelou. Não se m over, não abrir os olhos, m al respirar. Aproveitar cada segundo com ele, a leve cam ada de suor daquela pele tão desej ada em sua boca. Ele se rem exeu durante o sono, virou-se de lado, de costas para ela. Relutantem ente, Élodie decidiu se levantar. Deslizou para fora da cam a com cuidado especial. Um forte desej o de fixar aquele m om ento a invadiu. Agir com o se tudo fosse norm al, com o de costum e, com o se acordasse todas as m anhãs ao lado dele. Elim inar a ansiedade que não a deixava desde a véspera, quando ele reapareceu : e se ele partisse de novo, por um m otivo qualquer? Preparar um suntuoso café da m anhã. Algo norm al, é claro, um a m anifestação clássica da vida de um casal de am antes. Telefonaria em seguida para a clínica. Inventaria qualquer m entira para j ustificar sua ausência. Afinal, nunca faltava ao trabalho. Riu baixinho ao colocar os fones de ouvido do MP3. Um dia perfeito na vida de Élodie Menez. Com ele. Abriu a porta do refrigerador e verificou o que havia com um olhar exigente. Estava m orrendo de fom e. Que noite. Que m aravilha. Durante horas, tinha oscilado entre a sensação de ser um a m assa de nervos, de células nervosas, captando cada sopro, cada leve toque com um a nitidez quase dolorosa e um m ergulho abençoado. Em dado m om ento, enquanto o tinha dentro dela, tinha certeza de ter perdido os lim ites de seu corpo. Era um a parede de m úsculos quentes envolvendo o pênis, se contraindo em espasm os em torno dele.

Perdida em seus pensam entos, rodeada pela m úsica, não o ouviu chegar por trás. Pulou quando ele deu um a série de pequenos beij os ao longo do seu pescoço.

– Eu com eria um boi inteiro – ele m urm urou.

– Muito grande pro m eu refrigerador. Entretanto, nós podem os com eçar com om elete, presunto, torradas. O queij o está um pouco duro, e não tenho m ais suco de laranj a – ela constatou.

– É um bom com eço – ele com entou, verificando o que havia nas prateleiras, um pouco decepcionado. – Sendo assim , vai faltar m unição.

– Tenho um a proposta : tom am os o café da m anhã. Eu ligo pra clínica e m e faço de doente, depois vou ao superm ercado.

– Ótim o. Nesse m eio-tem po, respondo alguns e-m ails e, em seguida, fico livrinho da silva. Ao seu dispor, madame.

Um arrepio de prazer e de alívio percorreu Élodie.

Élodie entrou depressa no estacionam ento de seu prédio, MP3 nas orelhas, m arcando o ritm o dos pequenos m ovim entos que fazia com a cabeça. Estacionou em sua vaga e saiu do carro. Pegou as duas grandes sacolas plásticas recicláveis no banco traseiro e, carregada com o um burro, cam inhou para o elevador, cuj o botão para cham á-lo estava verm elho. Não tinha se esquecido de nada. Um a enorm e chuleta de boi, batatas sautées congeladas, cerej as, crem e de leite, queij o e duas garrafas de um bom vinho, sem esquecer um pouco de em butidos e da baguete. O suficiente para sustentar um ninho de am or.

Cantarolando, ela esperou, as duas sacolas no chão, a seus pés. Droga, quem estaria prendendo o elevador? Ele estaria de novo em pane?

Algum a coisa de m uito estranha e de m uito dura passou pela sua garganta. Durante um a fração de segundo, ela não com preendeu, até que a corda de m etal a estrangulou, inexoravelm ente. Tentou se debater, lutar, gritar. Depois pensou apenas em soltar a corda, respirar.

Desm oronou de j oelhos sobre as sacolas, um fio de saliva escorrendo pelo queixo. Um véu preto encobriu seu crânio. Suas unhas se soltaram da corda.

Ele a olhou por alguns instantes e m urm urou, aborrecido :

– Desculpe, não tinha outra opção. Entretanto, não fiz m al pra você, não é?

Ergueu o corpo sem vida de Élodie e cam inhou em direção a um a das grandes lixeiras que tinha reservado um pouco antes atrás de um dos pilares do prédio. Com um pouco de sorte, ela seria encontrada depois de três ou quatro dias. Talvez m enos, por causa do calor. Era m ais tem po do que ele precisava.

Pegou as duas sacolas e abriu a porta de incêndio que dava para a escada de segurança. Tendo chegado ao terceiro andar, tirou o j ornal que bloqueava a porta do elevador. Já na cozinha, verificou as com pras. Legal, um a costela de boi e batatas sautées ! Ligou o forno e se serviu de um copo de vinho. Um pouco m orno. Bastante leve e frutado, no entanto.

A grande faxina com eçava. Ele se lem brava com precisão de cada lugar onde tinha colocado os dedos. Um hábito. Um a sim ples questão de treinam ento. Quanto aos lençóis, às toalhas de rosto, aos guardanapos e ao teclado do com putador, foram direto para o saco de lixo.

Regra nº 1 : nada substitui o treinam ento.

Regra nº 2 : não im porta a presa, se for dotada de um m ínim o de inteligência, ela sabe que deve ficar alerta. Jam ais fechar os ouvidos quando um predador estiver no seu encalço.

Élodie ignorava isso? Que besteira. Principalm ente porque, pensando bem , a situação das presas hum anas é m uito m ais confortável que a de um pobre coelho. O coelho fica im pedido de fugir diante de tantas m andíbulas ferozes. Por outro lado, um único predador am eaça as criaturas hum anas e suas vidas insignificantes : o Hom em .

Com um sorriso de gourmet, Nathan colocou no forno a chuleta do boi; depois, retirou de sua m ochila de couro um par de luvas de látex e um longo estoj o de couro preto. Após o alm oço, ele se perm itiria fum ar um excelente Habano. Um a com em oração.

 

1 Ver a petição internacional para a retirada dos trabalhos de Guilherm o Vargas Habacuc da Bienal de arte contem porânea de 2008 de Honduras.