Na mente, o veneno
Capítulo 24
Base Militar de Quantico,
Estados Unidos, julho de 2008
Desem barcaram em Richm ond no final da tarde. Para Sara, a viagem , partindo de Paris, parecera interm inável; contudo, não tinha grandes lem branças dela. Victor tam bém parecia estar num a espécie de torpor : tinha dorm ido quase toda a segunda m etade do traj eto, sem reclam ar nem exigir nada.
Quando pegaram o carro alugado para ir da Interstate 95 até Quantico, Sara percebera a tensão de Yves Guéguen. Será que ele se alegrava com a ideia de, enfim , rever sua m entora, a doutora Silver? Ou tem ia o encontro que tinha conseguido prom over a tanto custo? No fundo, Sara não tinha nada a fazer, desde que a psiquiatra irascível a recebesse, por isso não perguntou a ele.
Quando, enfim , chegaram à guarita diante da im ensa grade que interditava a entrada da base, a noite j á tinha caído.
A recepcionista do Jefferson Building verificou seus docum entos por um bom tem po, com um sorriso cortês m as firm e nos lábios. Após três telefonem as, ela finalm ente os liberou, depois de lhes entregar os crachás de visitantes :
– São passes eletrônicos que perm item a vocês acessarem alguns setores do edifício, incluindo o refeitório. Vocês devem usá-los perm anentem ente, deixando-os visíveis. A topografia do Jefferson é um pouco com plicada pra ser m em orizada, por isso, aconselho-os a esperar que a gente vá procurar vocês pra conduzi-los de um lugar a outro.
– Acho que saberei m e localizar. Passei um ano aqui – declarou Yves, em tom conciliador.
– Ah… perfeito.
Um j ovem guarda arm ado os levou até os quartos reservados pela doutora Silver. Duas acom odações bastante espaçosas, com um m obiliário um pouco espartano, que se com unicavam por um banheiro.
Na m anhã seguinte, apesar das oito horas de um sono quím ico próxim o de um com a, Sara tinha a sensação de não ter pregado o olho durante a noite.
Levantou-se sem ruído e se aproxim ou da cam a de Victor. Ele dorm ia um sono profundo. Um rem orso tardio tom ou conta dela. Nunca deveria tê-lo trazido àquele país. O que ele ia fazer enquanto ela conversasse com a doutora Silver? Talvez Yves aceitasse distraí-lo um pouco, passear com ele, a m enos que a psiquiatra exigisse a presença do policial francês durante o encontro. Garoto incrível : ao m esm o tem po tão alegre e tão reservado.
Sara decidiu lutar contra a leve náusea que sentia com um a longa ducha fria. Entreabriu a porta do banheiro e olhou prudentem ente de um lado e do outro, esperando não dar de cara com um coronel nu. Sossegada, entrou na peça e notou que as portas que davam para os quartos possuíam ferrolhos internos. Tirou sua folgada cam iseta de dorm ir e observou friam ente a m ulher que a encarava do alto espelho chum bado atrás de um a das portas. Tinha em agrecido. Suas costelas apareciam sob a pele pálida. O cabelo tinha perdido o brilho, e um a ruga estranha, com o um a luazinha, tinha se form ado no canto direito dos lábios. Porém , foi especialm ente o olhar que a perturbou, tanto que ele parecia ser de outra pessoa. Um olhar indescritível, no qual se entrelaçavam o m edo e a raiva. Estranho : a dor parecia ter desaparecido de suas íris.
Entrou na ducha. As lágrim as que retinha desde a saída de Paris correram , enfim , gotas se m isturando a outras gotas. No avião, enquanto Guéguen lia, Victor dorm ia e ela fechava os olhos, fingindo sonolência, Sara tinha se autorizado a adm itir. Adm itir que a criança que carregara por nove m eses, pensando no m om ento em tê-la em seus braços, im aginando todos os m om entos de prazer que Éric, ela e o bebê iriam desfrutar, a criança que ela havia educado durante dezesseis anos pensava apenas em m atar a m ãe e o irm ão. Adm itir que Louise não teria recuado no últim o m om ento. Aceitar isso tinha feito explodir a últim a tranca que bloqueava seu cérebro. Sara tinha se deparado com a dura verdade da qual fugia desde a visita de Guéguen : Louise devia m orrer. Sara tinha apenas um m edo : que um dia Victor descobrisse a verdade sobre sua irm ã.
Tom aram o café da m anhã no salão. Victor parecia fascinado por tudo ao redor e lançava olhares furtivos para as m esas dos j ovens futuros oficiais. Guéguen, para quem o silêncio de Sara parecia pesar, relatou seu ano na base e contou um a ou outra história divertida, escondendo, é claro, o real obj etivo de seu estágio diante do m enino.
– … é um percurso tortuoso, de quilôm etros de distância, dentro dos bosques que rodeiam a base. Você afunda na água gelada, derrapa na lam a, quebra a cara no chão, tudo com trinta quilos de equipam ento nas costas.
Victor assediava o coronel com perguntas. Esforçando-se por dem onstrar m ais leveza do que sentia, Sara brincou :
– Não m e diga que você quer se tornar agente do FBI?
– Bem , parece ser m uito interessante – confessou o m enino com seriedade.
Ela term inou seu café e deixou a torrada m al com eçada.
Yves Guéguen consultou o relógio, hesitou, depois propôs :
– Tem os ainda um a hora antes do encontro. Vam os dar um rápido passeio ou voltar para os quartos?
– O que você prefere, querido? – perguntou Sara ao filho.
– Um passeio, de preferência.
– Victor, preciso ter um a conversinha… digam os, em particular, com sua m ãe, antes do encontro com a doutora. Ok?
– Ok. Vou cam inhar na frente e não vou ouvir nada !
Contornaram lentam ente o Jefferson Building e o estacionam ento, depois dobraram na alam eda que levava ao ginásio. Fiel à sua prom essa, Victor ia uns dez m etros na frente, sobressaltando-se, às vezes, com barulhos estridentes.
– Os cam pos de treinam ento de tiro são ali atrás – explicou Yves. – Hã… Sara… Diane m e telefonou esta m anhã, bem cedo. Ela quer a m inha presença.
– Isso não m e incom oda.
– Vou fazer o papel de um carneirinho – prosseguiu ele, com um sorriso sem alegria.
– Carneirinho?
– É costum e colocar carneiros no m eio de j um entos assustadiços. Isso os acalm a.
– Assustadiça? Não é com o m e vej o.
– Bem , espere até encontrar Diane – avisou.
– Ela é um a pessoa tão difícil assim ?
– Ela pode ser.
– Mas você parece adorá-la e colocá-la nas nuvens.
– Tenho excelentes m otivos pra isso, o que não m e im pede ser realista. Hã… Sara… Não m e entenda m al. Silver não pode fazer nada por sua dor. Ela está além disso. Ela viu… a gravação do m assacre da filha. Três horas e cinquenta e seis m inutos. O único m otivo pra que aceitasse receber você, o único interesse que você tem pra ela, em poucas palavras, é : você tem , sim ou não, elem entos que podem aj udar na caça ao assassino de sua filha?
– Tudo bem . – Ela o olhou, o rosto fechado, e acrescentou : – Não se preocupe, coronel Guéguen, não vou ter um ataque de nervos. Entendi bem o que você m e explicou no avião. Trata-se de um a guerra im placável e incessante. Contra m alucos psicopatas que sulcam a terra m atando pelo prazer de m assacrar. Mesm o se…
Ela parou abruptam ente.
– Mesm o se…?
– Nada.
Foi a vez de o policial francês observá-la, e ela soube que ele tinha entendido o que deixara de dizer : m esm o se, neste caso, o assassino tinha colocado um fim na determ inação m ortífera de Louise e Cy ril. Por am izade, ele m udou de assunto :
– Um a das auxiliares da base vai vir cuidar de Victor durante nossa ausência. Arrum ei tudo pela m anhã. Ela é havaiana, o que explica por que fala tão bem o francês. Há um a sala de espera para os agentes, com livros, revistas e j ogos de videogam e.
– Obrigada. Você sabe… não paro de pensar nisso. Não vej o onde e quando eu poderia ter cruzado com aquele hom em … Contudo, estou pronta a tentar qualquer coisa, m esm o a hipnose, em bora não acredite m uito.
– Diane encom endou um retrato falado a partir de alguns elem entos descritos aqui e acolá. Retrato falado é um exagero para o que ela m e disse que conseguiu. “Um vago esboço” seria m ais apropriado.
Um guarda os tinha acom panhado até o escritório de Diane Silver. Esperou até que entrassem na pequena peça sem j anelas, lem brando :
– Quando vocês term inarem , peçam que a recepção sej a avisada. Às vezes, a doutora Silver esquece os procedim entos. A gente virá procurar vocês… É pra evitar que se percam .
– Com certeza – com entou Yves Guéguen, sem pestanej ar.
Sara não teve tem po sequer de divisar a psiquiatra : esta correu na direção do coronel e o apertou contra si, sufocando-o, enquanto exclam ava :
– Senti sua falta ! Você trouxe o m oca e a cafeteira?
– Ah ! Sabia que tinha m e esquecido de algo im portante.
– Seu francês m alvado ! Golpe de sorte : m eu tenaz estagiário-advogado de unhas feitas teve de correr pra Boston, pra resolver um problem a em seu escritório. Vai ser com o um as férias pra nós.
Sara percebeu o verdadeiro afeto, a adm iração e a cum plicidade que uniam os dois profilers, e ficou absorta na contem plação do côm odo exíguo para lhes oferecer alguns instantes de reencontro que eram só deles. O espaço era vazio de qualquer m arca, de qualquer detalhe pessoal. Aquele nada pareceu dizer m ais a Sara do que um a declaração. Diane Silver desconfiava de todos e cobria seus rastros.
Enfim , os dois se lem braram de sua presença, e Diane se reinstalou atrás de sua m esa, sem dizer um a palavra, fitando Sara com um a intensidade desagradável.
– Diane, apresento a você a Dra. Sara Heurtel; Sara, esta é a Dra. Diane Silver. Pronto, as apresentações foram feitas – com pletou Yves, deixando-se cair sobre um a cadeira.
Um interm inável silêncio, m arcado apenas pelo som de suas respirações e pelo zum bido distante do ar-condicionado.
Diane pegou o cinzeiro e acendeu um cigarro.
– Não é proibido? – se inquietou Sara.
– Sim . Form alm ente.
– Posso…? – hesitou a francesa.
– Por favor. Serem os duas sem direito à sobrem esa !
O silêncio continuou. Sara pensou que não se tratava de um desses vazios hostis, pesados, urdidos de am eaças. Era m ais um tipo de trégua, quando cada um procura as palavras essenciais.
– Eu… insisti pra encontrar você… porque eu queria saber… entender… – com eçou Sara, num inglês com um ligeiro sotaque.
Diane soltou um longo suspiro, a boca crispada, com o se se perguntasse o que estava fazendo ali. Seu olhar perturbador se perdeu acim a dos om bros de sua interlocutora, e ela m urm urou :
– O quê? Saber o quê? Por que ele m atou Louise? Por que Louise era psicopata? Porque esse é o term o apropriado.
– Tudo. Saber tudo isso.
– Não tenho respostas, Dra. Heurtel. Pelo m enos, ainda não. É por isso que não queria que você fizesse essa viagem até aqui. Das duas um a : um a de suas lem branças, um detalhe de sua vida pode m e aj udar a chegar até o assassino, ou então você não terá nenhum a utilidade pra m im , e sua vinda era supérflua.
Diane pegou um a folha do fino dossiê am arelo claro alinhado perpendicularm ente ao canto da m esa e o entregou à pesquisadora, dizendo :
– É tudo o que tem os no m om ento, e é bem pouco. Este… esboço lem bra alguém a você? Ele é bem alto, tem entre trinta e quarenta anos, e provavelm ente é norte-am ericano ou canadense. Teria cabelos castanho-claro ou castanho-m édio.
Sara pegou o desenho e exam inou o oval de um rosto cuj o único detalhe era um par de óculos escuros, os cabelos cortados retos, um pouco longos. Ela cavoucou sua m em ória.
– É m uito vago. O rosto se parece com um as cem pessoas ou com nenhum a.
– Exatam ente, Dra. Heurtel. Nós chegam os ao fim deste encontro. Adm ita que isso não valia doze m il quilôm etros.
Yves Guéguen se surpreendeu com a espécie de gentileza que percebeu na voz da psiquiatra.
– Não… não – m urm urou Sara, sacudindo a cabeça com vigor. – É preciso que você saiba… adm ito… por trás da m áscara da m ãe que repete que deve am ar seus filhos, eu não tinha paixão por m inha filha. Louise não tinha nada de cativante, de tocante, e era assim desde m uito nova. A lucidez de um a m ãe é tão perturbadora… Em todo caso, ela m e envergonha. Peço que acredite em m im , pois m e virei do avesso pra encontrar e aceitar esta verdade.
– Eu acredito.
– Não tem nada a ver com o fato de Louise ter sido um a m enina e Victor, um m enino. Aliás, sem pre quis ter um a filha. Em com pensação, é verdade que sou elitista. Louise não era inteligente e tinha com o questão de honra recusar- se a aprender, a conversar fosse o que fosse. Era um a decepção, m as eu poderia passar por cim a disso se… se ela tivesse tido outra coisa… ternura… se gostasse de algum a coisa, qualquer coisa. Mas nada. Ela vivia feliz ao redor do próprio um bigo. No com eço, fiquei aliviada quando se aproxim ou tanto de Cy ril. Era seu prim eiro e único am igo. Disse a m im m esm a que, finalm ente, ela se abria para os outros, que alguém , que não ela m esm a, a interessava…
– Pelo que sei – interveio Diane –, Cy ril e Louise se pareciam em alguns pontos, notadam ente pelo fato de am bos serem fascinados apenas por eles m esm os. Não eram am igos no sentido verdadeiro do term o. Um era o espelho do outro. Um a característica clássica nesse tipo de personalidade.
– Na verdade… Vim principalm ente com o obj etivo de fazer um a pergunta pra você. Em sua opinião, Louise poderia ter sentido que eu só a am ava por… vam os dizer, por “dever de m ãe”? Sou a origem daquilo que ela virou? É m inha culpa?
– Por quê? Você errou em algum m om ento?
– Não acredito.
– Por que você seria culpada? Dra. Heurtel, você é um a m ulher inteligente, segundo Yves. Ou sej a, você é quem pode saber m elhor se as suas atitudes ocasionaram ou influenciaram o com portam ento desviante de Louise.
– Você é um a especialista de reputação m undial em … com portam entos desviantes.
– De fato, e vi todas as possibilidades no assunto. Não sei o que cria um psicopata e duvido que exista um a resposta sim ples. Não há respostas cabais, cristalinas.
Um desespero infinito invadiu Sara. Nesse caso, deveria carregar a dúvida durante toda a vida? Ser corroída por dentro um pouco m ais, dia após dia? Sentiu o sangue fugir de seu rosto e a testa gelar. Fechou os olhos. De longe, a voz inquieta de Guéguen :
– Sara? Tudo bem ?
A ordem veio, perem ptória :
– Dra. Heurtel, controle-se ! Poupe-nos do desm aio.
– Mas Diane… – protestou o policial francês. – Ela vai desm aiar…
– Não ! – cortou a psiquiatra. – Ela não vai desm aiar porque isso não serve pra nada, com o as lágrim as, os gritos ou as lam entações, e ela sabe disso. Ela aprendeu isso ao longo das últim as sem anas.
As frases encadeadas chegavam a Sara com o que sufocadas por um a espessa neblina. Exceto um a : “Isso não serve pra nada”. A francesa a guardou. Teve a im pressão de recuperar o controle.
Diane continuou a conversa de onde tinha parado, sem nem m esm o propor um copo de água à visitante.
– Porém , Dra. Heurtel, e m esm o que m e faltem elem entos, o tom dos e-m ails de sua filha era… com o dizer… aprazível. Não vi nada que pudesse estar relacionado ao ciúm e, ao desej o de vingança, ao am or não correspondido ou m esm o à ausência do pai. Você era som ente um obj eto aos olhos de Louise. Um obj eto odiado, m as m esm o assim um obj eto. É um a tendência frequente nos psicopatas : despersonalizar suas vítim as. O que você fazia ou deixava de fazer não im portava aos olhos dela. Não acho realm ente que você sej a a responsável por sua… oscilação, se é m esm o que se tratou de um a oscilação e não de um a tendência preexistente. Não digo isso com o obj etivo de reconfortar você, com preenda. Não é m eu papel.
Um suspiro de alívio. O rosto de Sara ficou um pouco m ais corado.
Diane optara de repente por um a quase m entira. Não tinha certeza sobre Louise. Contudo, pela prim eira vez, a com paixão e a lógica lhe tinham parecido preferíveis à indiferença. Louise era um a m aluca. Tinha sido elim inada do circuito, e Diane com em orava isso. Portanto, era inútil que a m ãe se devastasse ainda m ais por causa dela.