Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 35 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 35

 

Base militar de Quantico, Virgínia,

Estados Unidos, julho de 2008

O telefone pré-pago que Diane acabava de com prar e cuj o núm ero um a única pessoa conhecia tocou. Ela tirou o aparelho às pressas da m ochila.

– Dra. Silver, podem os arquivar o dossiê “Boston” – anunciou um a voz alegre.

– Bem ! Você fez rapidinho – com entou a psiquiatra, adm irada.

– Era preciso. Um a m ulher corria perigo ! De fato, ele era órfão e…

– Não im porta ! – cortou a voz, agora seca. – Você quer um a breve lista de órfãos? Jean-Sébastien Bach, Albert Cam us, Tolstoï, Keats, Steven Jobs (da Apple), Jean-Jacques Rousseau, e assim por diante ! Então, não m e venha com circunstâncias atenuantes. A única coisa que m e im porta é que ele não vai m ais m atar.

Um a gargalhada de j úbilo saudou aquela réplica pungente :

– Peguei você ! Quanto a m atar, não, pois é… ele não pode m ais. Parto depois de am anhã pra Nova Iorque. Mantenho você inform ada.

– Bem . – A voz, desta vez tensa, term inou : – Rupert? Obrigada.

– Nããão ! Eu é que agradeço. Em breve, espero. Diane… Tom e cuidado. Tem os tanto trabalho j untos pela frente ! Quantos assassinos em série estão soltos por aí, segundo você?

– Os cálculos são m uito variáveis e pouco confiáveis. Nos Estados Unidos, diria entre duzentos e cinquenta e quatrocentos.

– Multiplicados por de dez a cem vítim as cada um …

– Os núm eros não são precisos, são aproxim ações – pontuou ela.

–Mas o que eles dizem é de um a clareza terrível.

– É verdade.

– Tom e cuidado – repetiu ele. Depois, com um a gargalhada gutural : – Você é a m ulher m ais im portante de m inha vida. A pessoa m ais im portante.

– Ah, bem , vou tom ar isso com o um elogio – brincou ela.

– E você tem razão.

No final da tarde, quando Diane voltava da m áquina de café perguntando-se que perversidade a levava a engolir aquela horrível bebida batizada, de m odo fraudulento, de “café”, Mike Bard foi falar com ela.

– Você está sabendo? – perguntou, sem preâm bulo.

– De quê?

– O assassino de putas, de Boston… Executado, em um quarto de m otel, em Roxbury. Suas im pressões digitais foram confirm adas, e o DNA vai sair daqui a pouco. Devia ter um a m ulher com ele. Foram encontrados pedaços de cordas e um a m eia-calça no banheiro. O recepcionista disse que um a prostituta tinha alugado o quarto pra duas horas. Depois de um as três horas, ele foi expulsá-los e descobriu o suj eito. Num estado noj ento. Algo extrem am ente bizarro : ele foi esfolado vivo. Um a parte do rosto e um a coxa. Isso não lhe sugere algo?

– O quê? – exclam ou Diane sem que seu tom se m odificasse.

– Sim , você m e ouviu.

– Espere aí, com o nossas duas investigações poderiam se cruzar? Se for verdade, estam os lidando com um copy cat, um cara que ouviu falar do assassino de Valdez e de Arm strong e quis fazer igual.

– Não sei.

Ele lançou um olhar insistente antes de despedir-se :

– Você gosta do risco, percebo.

– Com o?

Ele apontou o copo que ela segurava.

– É preciso am ar o risco pra beber essa porcaria !

– A gente só m orre um a vez – respondeu Diane, abrindo a porta de seu escritório.

Perm aneceu lá, em pé atrás da porta. A ideia de Mike Bard a tinha incom odado. Ela sentira que havia m ais do que apenas a história de café ruim . Estaria ficando paranoica? Suspirou, irritada : não havia nada a ser feito a respeito de Bard e do que ele podia pensar dela !

Em contrapartida, um problem a a incom odava : Yves. Yves, o único que conseguia penetrar em sua carapaça, m esm o que os dois não tivessem m uito m ais em com um do que um a noção de j ustiça. É provável que esta sej a a m elhor definição do verdadeiro am or. Am ar o que é diferente. No fundo, a atração intelectual que sentia por Nathan/Rupert era m ais sim ples, m ais evidente : o obj etivo fundam ental deles era sim ilar, m esm o se m otivações diferentes os tivessem conduzido até ali – proteger os cordeiros de seus predadores. O que ela com partilhava com Yves era m uito m ais difuso, m uito m ais com plexo e m ais precioso : um a concepção de Hom em e de civilização.

Yves não a reconheceria m ais, agora que tinha dado o passo decisivo, do qual não se pode voltar. De peito aberto, Diane sabia que tinha feito um a escolha inevitável. Entretanto, a ideia de perder Yves era um sofrim ento pelo qual não esperava passar – ela, que pensava que nenhum sofrim ento, fora o que se relacionasse com Leonor, pudesse atingi-la.

E se Yves e aquela Heurtel ficassem obcecados em encontrar o assassino de Louise e de Cy ril, o que faria?

Ela estava certa, certa !

Mas Yves não estaria de acordo. E apenas a opinião do policial francês im portava para Diane.