Na mente, o veneno
Capítulo 13
Paris, França, junho de 2008
Afundado em um dos sofás da vasta e lum inosa sala, Frédéric Janet não tinha pronunciado um a só palavra desde a chegada de Yves Guéguen. O profiler não sabia se se tratava de um m utism o habitual ou de consequência da dor que sentia. Virginie Janet-Thévenin, sentada na beirada de um sofá, m antinha a coluna ereta e os lábios fechados. Tinha abusado da base, do blush e dos corretivos a fim de dissim ular os estragos do luto, e lem brava um a patética boneca antiga, daquelas com m uita m aquiagem . Ela repetiu, pronunciando cada sílaba num tom autoritário :
– Está fora de questão ! Nós contam os para a polícia, depois para você, tudo o que sabíam os, isto é, pouca coisa. Nada explica… Enfim , isso… essa m onstruosidade. – Sua voz fraquej ou. Ela se recom pôs e disse : – O… disfarce gótico de Cy ril era só um a m anifestação totalm ente benigna de sua vontade de ser único, de ser diferente…
“Manifestação benigna, sei”, pensou Yves. Com o im aginar, em detalhes, a m orte dos pais e a decapitação da irm ã m ais nova. Eles não deviam saber, diferentem ente de Sara. Deviam conservar sua terrível e bela dor, a perda de um filho perfeito. Não podiam aj udar, ele tinha certeza. Sua inutilidade na investigação os protegia da verdade.
Virginie Janet-Thévenin não havia agradado a Yves desde que abrira a porta do luxuoso apartam ento, m obiliado com o num a foto de revista de decoração. Porém , depois de ficar frente a frente com ela, ele adm itia que seu j ulgam ento fora precipitado. Ela era perem ptória, desagradável, um j eito com o outro qualquer de evitar um colapso. Mas trem ia tanto que, às vezes, seu queixo e suas bochechas chegavam a balançar.
– De qualquer form a – continuou a farm acêutica –,não interrogue m inha filha ! Ela está perturbada… em plena crise de nervos, desde que lhe explicam os que seu irm ão m ais velho tinha m orrido…
A pequena Jeanne era “sua” filha. Cy ril deve ter sido “seu” filho. Guéguen lançou um olhar furtivo para o pai, am orfo, em outro m undo. Outra m aneira de sofrer. Nós possuím os tantas que se poderia acreditar que som os program ados, para toda a eternidade, para sentir dor.
– Ah, m eu Deus… – Virginie baixou as pálpebras e Yves im aginou que aquela m ulher lutava contra a dor com o se estivesse num cam po de batalha. – Felizm ente, ela tinha aula de dança, naquela noite… Felizm ente, ela não voltou antes de m im …
Pôs a m ão sobre os olhos com firm eza, e sua voz travou, enfurecida :
– Não quero m ais ver aquilo ! Não quero m ais rever aquele horror. Eu em purrei a porta do quarto dele e… Mas eu só vej o aquilo, dia e noite… Meu filho…
Sim , ele a havia j ulgado erradam ente, a partir das aparências, m esm o sabendo a que ponto elas podem ser enganosas. A senhora Janet-Thévenin era o produto perfeito de seu m eio. Um m eio bem -educado, sensível às convenções e às conveniências, porque, no fundo, elas perm item disciplinar um pouco a vida, ainda que a privem de im aginação. Por outro lado, se a im aginação consiste em relem brar de seu filho am arrado sobre um a cadeira, esfolado vivo, é legítim o detestá-la. No m eio de Virginie Janet-Thévenin, m orria-se de velhice, de doença ou por acidente. A realidade assustadora do m undo exterior acabava de detonar o refinam ento das gerações passadas.
Ela continuou, venenosa :
– É culpa dela… Daquela… ordinária… horrorosa, idiota, vulgar… Foi ela que influenciou Cy ril… Estou convencida disso… Meu filho é… era… um m enino encantador, brilhante, engraçado… depois a encontrou… Aceitam qualquer lixo nessas escolas ainda consideradas de boa reputação…
– Louise Heurtel?
– Quem m ais? Ela se agarrou a Cy ril com o um a sanguessuga. Um excelente negócio para aquele lixo ! É assustador, pois Cy ril podia pretender m ais, profissional e sentim entalm ente.
Com toda aquela raiva, que a aj udava a esquecer por alguns segundos a m orte aterrorizante de seu filho, ela se levantou, percorreu com passos longos e nervosos o espaço entre o sofá e a m esa de centro em m árm ore e insistiu, apontando com o indicador na direção de Yves :
– Um grande troço horroroso ! Burra no colégio, ainda por cim a ! Pense com igo… Ela tinha tom ado bom ba, e Cy ril tinha passado com o prim eiro da turm a ! É a vida dela que deve ser investigada, senhor ! Foi por causa dela que essa m onstruosidade aconteceu ! É culpa dela ! O único erro de m eu filho foi tê-la encontrado, ter… tido pena dela… não sei… Está claro que Cy ril não podia encontrar nada de interessante nela… ele era um m enino gentil, sensível, refinado…
A culpa era do outro. Um recurso clássico. Encontrar um culpado. Yves não a contradisse. Ela m erecia esse pequeno consolo. Quanto a saber que seu garotinho lindo tinha planej ado acabar com ela, com seu m arido e com sua filha para se divertir e herdar seu dinheiro, com o um verdadeiro psicopata debutante, nem pensar. Realm ente, seria preciso abom iná-la para lhe revelar esse tipo de verdade.
– Voltando à Jeanne…
– Não ! – ela o cortou.
– Entendo sua relutância. Sendo assim , senhora, sem dúvida seu desej o m ais profundo é que nós parem os com essa… tortura. Pois possuím os m uito poucos elem entos.
– Não vej o em que Jeanne poderia aj udar você !
– Irm ã e irm ão frequentem ente com partilham pequenos segredos, para m anter os pais distantes. É a lei dos irm ãos. Cy ril pode ter falado para a irm ã sobre um hom em suspeito, um a pessoa que o seguia, qualquer coisa assim … Ele não disse nada para a senhora porque j ulgava a coisa sem interesse, ou porque não queria incom odar… É um a hipótese entre centenas de outras…
– Jeanne e Cy ril não se davam tão bem assim . Ela é ainda m uito pequena. Ela o irritava. Nada m ais clássico…
Sara Heurtel tinha usado o m esm o adj etivo. “Clássico”, um adj etivo reconfortante, indolor.
– Não quero que m inha filha suspeite…
– Está fora de questão revelar qualquer coisa sobre a m orte do irm ão.
– Não quero que fale com ela. Minha filha é m enor de idade, tem onze anos, você não tem nenhum direito !
Um a voz séria, distante :
– Chega, Virginie !
As prim eiras palavras de Frédéric Janet.
– Finalm ente, Frédéric…
– Chega, eu disse ! Não tem os nenhum a ideia da identidade do lunático que fez o que fez com Cy ril. Mas quero pegá-lo, m esm o que eu fique o resto dos m eus dias na cadeia. Ele trucidou m eu filho ! Você pode conversar com Jeanne, senhor. Ela está em seu quarto.
– Eu vou j unto ! – gritou a senhora Janet-Thévenin.
Yves Guéguen sentiu que o pânico tom ava conta do corpo dela. Por quê? Ela queria proteger a filha ou tem ia, inconscientem ente, um a revelação?
– Não, senhora. Ela não vai m e confidenciar nada se estiver j unto. Se houver m esm o algum a coisa a ser confidenciada – ele lhe assegurou. – Sou psicólogo e tenho um a longa experiência com testem unhas j ovens.
Yves Guéguen esperou Virginie Janet-Thévenin fechar a porta. Ouviu seus passos se distanciando no corredor. Jeanne o olhava, um sorriso nos lábios. Atrás dela, sobre a tela do com putador, fotos num tom cinza claro.
– O que você está vendo? – ele perguntou.
– O nascim ento dos falcões. Tem os deles na nossa casa de cam po. Peneireiros. Com o são bonitos ! Caçam gritando “Pi-pi-pi”. Ficam no ar quase sem se m exer.
– É o anim al que tem o voo m ais perfeito da natureza.
– Sério? Genial ! Aqui, colocaram um a webcam no ninho deles. Dá para ver tudo : o falcão fêm ea choca, o m acho a alim enta, o nascim ento, os prim eiros m ovim entos dos bebês. Parecem pom pons cinza, só com o bico de fora. Eles têm asas m inúsculas. É m uito lindo. E com o piam , com o piam !
– Jeanne… Hã… não é sim ples…
– Você está falando de Cy ril? É difícil – ela adm itiu, sem em oção aparente.
A experiência tinha provado a Yves que as pessoas reagem de m odo m uito diferente ao choque, à dor. As m anifestações variam de um a espécie de apatia, indiferente na superfície, a um a explosão violenta de sentim entos. No entanto, qualquer coisa na atitude da m enina, que sua m ãe tinha colocado na conta de um a “crise de nervos”, alertou o psicólogo.
– Deve ter sido terrível pra você, não?
– Sim …
A falta de convicção da voz dela reforçou sua suspeita. Ou Jeanne se encontrava no centro de um a tem pestade em ocional à qual resistia com o podia, ou então ela não tinha m uito o que fazer. Mentir para que a verdade em ergisse.
– De acordo com o que sei, ele não era m uito legal com você, seu irm ão.
Ela o olhou desconfiada.
– Escute, eu sou policial, e você é m inha testem unha. Então, não contarei nada do que m e disser aos seus pais.
– Você j ura?
– Eu j uro, palavra de honra.
A incerteza nos grandes olhos castanhos. Depois, um a confissão m urm urada, m as sem discussão :
– Muito idiota ! Ele era m uito idiota. E m alvado, além disso !
– Por que diz isso?
– Ele fazia coisas estranhas. E m e detestava. Posso dizer isso de verdade. É claro, m eus pais não viam nada porque nunca estão aqui. A única coisa que preocupa eles são as notas na escola !
– Que coisas estranhas?
– Eu não sei direito. Mas ele parecia m uito contente consigo m esm o, sobretudo de um tem po pra cá… contente de um j eito doentio… Além disso, a gorda chata da Louise era tão louca tão pirada quanto ele…
– Você poderia ser m ais específica? – perguntou Yves com doçura.
Ela vacilou e se inclinou na direção dele, abaixando a voz em tom confidencial :
– Você sabe, Caram el… era um gatinho lindo. Meus pais tinham acabado de m e autorizar a cuidar dele. Era um dos bebês da gata da m inha am iga Charlotte… Foi Cy ril que o m atou. Eu tenho certeza. Pra m e m achucar. Encontrei o gatinho m orto na m inha cam a. A língua para fora. Estrangulado. Corri para o quarto de Cy ril. Eu o acusei. Ele com eçou a rir. Foi ele que estrangulou o gatinho ! Nunca m ais pedi outro. Eu sabia que ele ia fazer isso de novo. – Ela com pletou, satisfeita : – Mas agora vou ter um ! E ele não vai correr risco de nada.
Yves hesitou.
– Você não gostava m uito de seu irm ão, não é?
– Você j urou, né?
– Eu não direi nada. Palavra de honra.
– Eu ri m uito depois que ele m orreu. Minha m ãe pensa que são os nervos. Ele era louco, m alvado. Claro que, para m eus pais, era o geniozinho. A oitava m aravilha do m undo. Sabe com o é, senhor… Vai pensar que estou m entindo, m as j uro que não… Ele m e dava m edo. Ele podia fazer m al pra todo m undo. E ele m atou Caram el !
É claro que ela tinha razão. A m aioria dos psicopatas com eça pegando anim ais. Yves apenas balançou a cabeça, concordando. Tranquilizada após essa aprovação silenciosa, Jeanne se levantou, estendeu a m ão e m urm urou, em tom de conspiração :
– Venha. No quarto dele. Vou dar um a coisa pra você. Você vai entender. Os outros policiais que vieram antes não viram isso. Eu não quis rem exer nas coisas dele. Tinha m edo. E se ele tivesse film ado a m orte de Caram el? Ele era capaz disso. Eu não podia ver. Estou certa de que tem m uitas coisas lá.
Ela foi na frente, entreabriu a porta do quarto, inspecionou o corredor antes de encoraj á-lo, com um sinal de cabeça, a segui-la. Foram até o quarto de Cy ril. O tapete encharcado de sangue tinha sido retirado, deixando grandes cicatrizes enegrecidas de cola. O quarto de um j ovem bem -educado, com m óveis de inspiração colonial. Duas raquetes de tênis protegidas por capas estavam apoiadas contra a porta de um arm ário. Yves se deu conta de que as paredes cinza pálido estavam sem as inevitáveis coleções de fotos e de pôsteres que se encontram habitualm ente no quarto de adolescentes. Som ente o cartaz do film e Matrix, coberto de vidro, decorava a nudez do gesso pintado. Um com putador, sem dúvida caríssim o, estava sobre a m esa. Na estante, alguns livros, sobretudo escolares, e um a im pressionante coleção de CDs e de DVDs. Em um a prateleira, um conj unto de som Bang e Olufsen. Via-se um a porta entreaberta na parede em frente. Yves teve certeza de que ela dava para um banheiro particular. Lem brou-se com carinho dos banhos e escovações de dentes coletivos, com andados por sua m ãe e sua tia na cozinha da grande casa da fam ília na Bretanha, que as duas fam ílias com partilhavam . As cinco crianças entravam , um a a um a, na enorm e m áquina de lavar de zinco, daquelas de antigam ente, sem pre na m esm a água, com o m edida de econom ia. Todo m undo gritava, ria. Os tapas choviam quando as senhoras tinham cansado de lutar contra a resistência daqueles que elas cham avam de “verm es im undos”. Saíam de lá corados e esbaforidos, às vezes em lágrim as, para serem enxugados diante do robusto fogão Godin. E então, estavam cheirosos e eram abraçados com um satisfeito “Hum m , agora tem cheiro de criança lim pa”, baj ulados, tendo com o recom pensa um a tigela de chocolate e um crepe ou um a fatia de pão com geleia.
Jeanne tinha dito : “É claro, m eus pais não viam nada porque eles nunca estão aqui”. A m ãe de Yves, sua tia, seu pai, seu tio, todo m undo estava lá. Observavam , vigiavam , am avam . Sua m ãe podia ter a m ão um pouco dura, m as ela transbordava de am or, sem “se deixar enganar”, com o dizia. Seu pai não deixava passar nada. Tudo o que era “nada bom ”, pronunciado em tom calm o, qualquer que fosse o contexto, era explicado; depois, em caso de reincidência, eram feitas sanções severas, por vezes com punição contundente, com o proibir andar de bicicleta durante três dias ou de tom ar sorvete no dia das com pras da sem ana. Fazer filhos, dizia a tia, irm ã de sua m ãe, qualquer “bezerrinho penteado” podia fazer, ainda que o pequeno Yves nunca tivesse visto um bezerro penteado. Criá-los para fazer deles adultos corretos era outra história. Yves tinha boas lem branças, quase am orosas, das am eaças, m uito frequentem ente ineficazes, da m ãe e da tia quando chegavam ao lim ite de sua paciência : “Você vai acabar apanhando !”.
As crianças corriam em disparada, e raram ente as duas m ulheres conseguiam pegá-las. A falta crônica de dinheiro contribuía para que os presentes de Natal ou de aniversário nunca fossem caros, em bora nunca tivesse faltado nada às crianças, graças à enorm e inventividade das duas irm ãs para alim entá-las e vesti-las. Na verdade, os dois casais lutavam para fazer, para confeccionar, para im aginar surpresas, m esm o que pequenas, que dem onstravam abundantem ente seu am or e sua atenção, sob todos os aspectos.
Um a infância m agnífica. Para Yves, sua força, sua resistência, seu senso m oral vinham dessas pessoas, um pouco pesadas, de religiosidade um pouco exagerada, m as que sabiam dar um sentido à vida, ao am or, ao esforço, ao respeito por si m esm o e pelos outros.
Após um a últim a olhada no luxuoso conj unto de som , Yves se virou para Jeanne, cuj os olhos fervilhavam sem que ele soubesse por quê. Por causa da conspiração? Pela vingança retroativa? Por divertim ento inadequado?
– Você queria m e contar um segredo?
Ela crispou os lábios e m eneou a cabeça em sinal de aquiescência antes de apontar para um livro com o indicador. Yves se aproxim ou e exam inou, espantado, a lom bada de um m issal.
– É um texto?
– Abra – ela aconselhou com voz doce. – Eu surpreendi m eu irm ão. Felizm ente, ele não m e viu. Você sabe… ele adoraria que eu m orresse… e não estou delirando.
– Eu acredito.
Yves entreabriu o livro. As páginas tinham sido coladas e o interior, recortado com um estilete, o que era evidenciado pelas irregularidades das arestas interiores. Um a chave USB estava escondida no m inúsculo cofre secreto.
– Posso pegar?
– Sim . Mas não diga nada aos m eus pais. Eles gostariam de continuar protegendo a todo custo o queridinho deles. Minha m ãe, principalm ente.
– Você o detestava?
Algum a coisa de selvagem passou pelo olhar da m enininha de onze anos. Ela sibilou, m aldosa :
– Sim . Sim m esm o ! Estou m uito aliviada porque ele está m orto.
Entre o ciúm e e o m edo. E m edo j ustificado, Jeanne nunca saberia a que ponto.
Yves se inclinou para ficar da altura dela. Apertou delicadam ente seus pulsos e disse, em voz baixa :
– Jeanne… eu agradeço. Você m e aj udou m uito. Muito m esm o. Jeanne… Você não é com o o seu irm ão. Você nunca vai ser com o ele. Porque você é racional. Ele não era um a boa pessoa. Jeanne, a verdadeira superioridade é nunca fazer m al gratuitam ente. Eu falo dessa… eu não sei o que exatam ente… m oral, consciência, o que quiser, que diz a você que um a coisa é boa e outra é ruim . E você sabe, essa é a coisa m ais im portante na vida, m uito antes do dinheiro, do conforto, das coisas divertidas.
O belo rosto infantil ficou sério. Jeanne respondeu com o se fosse um a adulta :
– Eu sei, senhor. Olivia, nossa criada, um a inglesa m uito legal, que tem m echas laranj a, sem pre m e diz isso. Foi assim que eu soube que Cy ril era ruim ! Muito ruim . Tem coisas que são certas e tem aquelas que não se deve fazer !
– É exatam ente isso. Olivia tem razão – Yves se levantou calm am ente. Jeanne era ainda j ovem , m aleável, para o m elhor e para o pior. Ele destinou um silencioso agradecim ento àquela inglesa que tinha com pensado a om issão do casal Janet.