Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 17 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 17

 

 

Base militar de Quantico,

Estados Unidos, junho de 2008

Diane Silver term inou seu quinto café com um a expressão de desapontam ento. Não eram ainda nove horas. Com o aquela bebida conseguia a façanha de ser, ao m esm o tem po, insípida e am arga? Não há com o negar, Yves lhe fazia falta por um a série de razões ! Após sua chegada à base, três anos atrás, tinha insistido para instalarem um a cafeteria, com o argum ento de que “O café é sagrado. Me recuso a beber um a fraude batizada de cappuccino que sai da m áquina e parece um xixi escuro”. Então, durante um ano, Diane tinha degustado um saboroso m oca, que Yves preparava com o cuidado que um a gueixa destina à cerim ônia do chá.

Ela passou em revista as diferentes peças do dossiê am arelado e pálido que estava sobre a m esa. No interior, pastas com o conteúdo idêntico. Ela lançou um olhar para o relógio. Nove horas, tinha tem po para um cigarro : chegaria três m inutos atrasada à reunião que ocorria do outro lado do interm inável corredor sem j anelas.

Os subterrâneos do Jefferson Building lhe davam a sensação de um gigantesco intestino, com suas torres e suas voltas. Ela não se localizara bem ainda, por falta de interesse nisso. Apenas dois lugares recebiam sua atenção : os banheiros reservados às m ulheres e a sala de autópsia, situada um andar abaixo de seu escritório. O refeitório tam bém . Contudo, bastava pegar o elevador para chegar às portas da vasta sala redonda. Para o resto, os outros sabiam onde a encontrar. Quanto aos agentes designados para as investigações nas quais trabalhava, eram relativam ente intercam biáveis, e poucas coisas concernente a eles despertavam a curiosidade de Diane : eram suficientem ente com bativos para não abandonar um a perseguição que com frequência chegava a im passes, eram suficientem ente astutos para superar as arm adilhas e os subterfúgios graças aos quais algum as das presas que caçavam encobriam suas respectivas pistas? Por outro lado, a vida deles, a razão pela qual entraram para o FBI, suas am bições, todo o resto lhe era indiferente.

Ela apagou a bituca e suspirou de desgosto. Bob Pliskin com pareceria à reunião. Pliskin era, oficialm ente, o secretário de Edm ond Casney Jr.; inform alm ente, seu lacaio, seu espião, seu fuxiqueiro de plantão. Pliskin era, de igual m aneira, a razão pela qual Diane não m antinha nenhum arquivo confidencial na base, salvando as inform ações que desej ava conservar sigilosas no seu pendrive a cada noite, antes de apagá-las da m em ória, depois transferindo-as para seu com putador pessoal. Pliskin, o fuinha, não recuava diante de nenhum a indelicadeza para servir seus interesses, que eram , ao m enos por hora, os de Casney. Tinha boicotado m uitas pessoas desde a chegada a Quantico. Em contrapartida, tinha conseguido prom oção para aqueles cuj o reconhecim ento em basbacado lhe perm itia im plantar sua influência com m ais firm eza. Havia tentado, de todas as m aneiras, oferecer um assistente a Diane. Ela m anobrara com a m esm a astúcia que ele para recusar aquele “favor”, alegando a falta crônica de pessoal na base. Bob, o fuinha, pensava que ela era idiota a ponto de não suspeitar que o assistente em questão fosse som ente um intruso com o obj etivo de inform ar seu bom m estre sobre as atividades da nova chefe? O poder de Diane era considerável, o que não era tolerado nem por Casney nem por Pliskin. Enquanto não conseguissem com preender com o ela pensava, com o fazia para deduzir, conservaria sua enorm e vantagem sobre eles. Um a vantagem que se resum ia a um a coisa sim ples, m as fundam ental : ficava sossegada ! Por esse m otivo, declinara todas as lisonj eiras propostas dos dois hom ens : fazer conferências, redigir um trabalho de referência. Ela continuava sendo um enigm a inquietante aos olhos de Pliskin e de Casney. Nenhum a das estratégias deles tinha superado a dela, nem a baj ulação, nem m esm o as am eaças m al disfarçadas. Não conseguiram por interm édio de Yves Guéguen, que, esperavam , se tornaria seu cavalo de Troia. Um fracasso. Não tinham levado em conta a personalidade do policial francês, sua inteligência, sua sutileza e, sobretudo, sua insolência afável e sua aversão à traição. Yves os tinha engam belado durante um ano, não sem contentam ento, fingindo não com preender o que os dois m edíocres m anipuladores esperavam dele. E com entava sua cegueira voluntária com um a risadinha : “Brinco com os cretinos com tanta naturalidade que isso acaba m e inquietando !”.

Diane entrou na sala de reunião às nove e seis. O burburinho das conversações interrom peu-se. Com o de hábito, Pliskin estava instalado na ponta da larga m esa folheada de m ogno, de frente para a porta. Olhou ostensivam ente o relógio. Diane fitou-o com seu grande olhar azul pálido e esperou a advertência, que ele engoliu. Ela fez pela m ilésim a vez a m esm a reflexão : ele teria sido um assassino em série m uito convincente. Reflexão bastante divertida. Bem baixinho, o rosto rosado e redondo, o loirinho parecia tão inofensivo, tão querido, que m uitas das vítim as tinham percebido a origem do processo destinado a excluí-las som ente quando era tarde dem ais para evitar a destruição sorrateira de Pliskin. Basicam ente, Bob Pliskin era um desses sociopatas de tendências paranoicas, tão bem integrados ao am biente que é difícil detectá-los. Contudo, são um a legião. Autoritária, coerente, plausível – m esm o, e principalm ente, em seus raciocínios distorcidos –, psicologicam ente rígida, com a convicção de ter sem pre razão e de ser incom preendida, rej eitada ou até agredida apenas porque os outros tinham ciúm es da sua pretensa superioridade.

Com um leve m ovim ento de cabeça, Diane saudou Erika Lu, um a das m elhores m édicas-legistas da base. A euro-asiática, que lem brava um pássaro frágil – im pressão enganosa, pois Diane a tinha visto, sozinha passando cadáveres de um a m aca para um a m esa de inox, na sala de autópsia –, respondeu com um sorriso distante. Um a personalidade difícil de entender. Um a m ãe de origem alem ã, um pai chinês, am bos universitários. Em bora Diane a conhecesse havia quase dez anos, ainda ignorava se a legista era casada ou divorciada, com ou sem filhos. Não que as respostas àquelas perguntas fossem algo m uito im portante para ela. Entretanto, Erika Lu era um a das raras pessoas que intrigavam a psiquiatra. Sua atitude tão suave e cortês, tão desprendida, prenunciava a existência de um abism o atrás da bela testa arredondada e dos olhos esticados de am êndoa, de um a cor indefinível, um tipo de cinza intenso adornado de lantej oulas douradas, resultado de um cruzam ento genético pouco com um .

Em seguida, seu olhar se m oveu fugazm ente para Charles Devernois-Kly ne, um enorm e bloco de anotações de páginas am arelas diante de si, a Montblanc erguida, o rosto sério, pronto para rabiscar observações. O bom aluno ideal !

– Podem os com eçar, Dra. Silver? – soltou Pliskin, fazendo um a careta contrariada.

– Por favor.

– Bem ! Em prim eiro lugar, perm itam -m e apresentar os agentes Mike Bard e Gary Mannschatz, designados para esta… vam os dizer, investigação… Nós tivem os tem po, m uito tem po de nos conhecer enquanto esperávam os por você !

– Que bom – contentou-se em responder Diane.

Aquele gnom o a divertia loucam ente. Ele a detestava, m as não podia fazer nada contra ela. A não ser que, de repente, se tornasse m uito inteligente, e esse tipo de contágio é raríssim o.

Diane fez um leve sinal de cabeça para os agentes. Os dois se pareciam , m esm o que não com partilhassem m uitas sem elhanças. Mike Bard era um suj eito de uns quarenta anos, robusto, um pouco gordo dem ais, provavelm ente alto, pelo que ela podia j ulgar. Os cabelos um pouco grisalhos m uito curtos, a cara fechada. Tinha o ar dos veteranos do FBI, daqueles que têm m uito orgulho de pertencer à nata dos policiais. A m aioria deles é de notáveis cães de caça, provavelm ente m ovidos pela ideia de que não podem desonrar com um fracasso a elite que representam . Gary Mannschatz era m ais j ovem , trintão recente, loiro, de pele m uito pálida. Alto, de um a m agreza nervosa. O m esm o sentim ento de autossatisfação no rosto. Era, enfim , um AGENTE DO FBI ! Am bos usavam o inevitável terno azul-m arinho ou cinza-carvão daqueles que conseguiram atravessar todos os obstáculos para chegar ao auge.

Bob Pliskin continuou, com um tom falsam ente entediado :

– Dra. Silver… devo confessar que… Bem , não vej o em que aquele assassinato com etido há alguns dias no México nos diz respeito… Enfim , estam os no lim ite da nossa ingerência…

– Ingerência? – riu Diane. – Poderia falar de tantas coisas que não dizem respeito às nações ricas, com o a nossa, m as nas quais elas m etem o bedelho… Mas a questão não é essa, tanto que o AFI quer m uito nossa colaboração. Colocando os pingos nos is : os m exicanos são aliados e bons clientes. Além disso, nós tem os razões para pensar que o assassinato em questão foi com etido por um norte-am ericano ou canadense que j á causou estragos em Nova Iorque e na França.

–Perm ita-m e acreditar que esses m otivos são um pouco forçados.

– Oh… Perm ito, sim . Porém , fatos são fatos. – Ela não pôde conter a m aldade que lhe vinha à boca. – Você sabe, existe sem pre m uita gente que “acredita” que a Terra é plana e que os gatos pretos dão azar. Significa que têm razão?

O agente Bard esboçou um sorriso e baixou os olhos.

A pele loira de Pliskin se inflam ou com a hum ilhação. O verm elho da raiva subiu até a testa. Um dia, ele a m ataria. Jurou para si m esm o.

– E chegam os aos fam osos fatos que j ustificam suas suspeitas, Dra. Silver – interveio o agente Gary Mannschatz.

Sua voz, m uito grave para um hom em de seu tam anho, de sua idade e de sua loirice, surpreendeu Diane. Um a voz de barítono profundo que se esperaria m ais de um m oreno.

Diane lhe destinou um dos seus olhares indecifráveis gelados. Gary Mannschatz o sustentou, sem desconforto aparente. Ela refletiu que ele era verdadeiram ente um policial.

Tirou cinco pastas fininhas de seu dossiê e as j ogou em cim a da m esa, na direção dos outros participantes.

Não deixou de olhar Devernois-Kly ne, sentado bem ao lado de Pliskin. Ele abriu a pasta que lhe era destinada e observou as fotos da cena do crim e. Diane Silver viu seu pom o de adão subir brutalm ente, acom panhando o penoso ato de engolir a saliva, o que ele tentou, sem grande sucesso, fazer com discrição. Pliskin piscou ao ver a prim eira im agem .

– Sobre a prim eira foto, o cadáver de Constantino Valdez – explicou a doutora Silver com sua voz lenta, indiferente. – Os pés foram parcialm ente consum idos pelo incêndio provocado pelo assassino. O resto do corpo até que está bem preservado por causa da rapidíssim a intervenção dos bom beiros que operavam não longe dali. Nota-se com clareza as áreas esfoladas : o rosto, as coxas. Ante mortem. Com o podem constatar, os órgãos genitais de Valdez estão intactos, o que, em si, não é um a surpresa. É relativam ente raro que um hom em m exa no sexo de outro hom em . O disco rígido do com putador de Valdez foi levado por seu carrasco, que se serviu de um a infinidade de DVDs para alim entar o fogo, bem com o de roupas de algodão fino. Os detritos são inutilizáveis. A doutora Lu recebeu o relatório do m édico-legista m exicano e provavelm ente possui outros elem entos – term inou Diane, virando-se para Erika.

– É verdade. Meu confrade Ernesto Ruiz-Santana realizou um trabalho notável. Nada foi deixado ao acaso, provavelm ente porque o senhor Valdez estava há m uito tem po na m ira da AFI.

– Por qual m otivo? – perguntou-se Mike Bard.

Erika lançou um olhar para Diane, que respondeu de onde estava. Esta não ignorava que os assuntos dos vivos, notadam ente os dos crim inosos, interessavam à legista apenas na m edida em que podiam aj udá-la a fazer com que os m ortos falassem .

– A AFI possui um espesso arquivo sobre Constantino Valdez. Ele era o fornecedor e organizador de um a grande rede de pornografia pedófila. Pedofilia violenta.

– Então não lam entarem os o fato de ele ter sido esfolado e queim ado – ironizou Gary Mannschatz.

– Sinto que vam os nos entender bem – respondeu Diane.

– Desculpem -m e… Porém , acho esse tipo de… felicitações deslocadas – revoltou-se Bob Pliskin, sentindo que a reunião escapava de seu controle havia algum tem po.

Só tinha se aproxim ado de Bard e Mannschatz (ou, m ais exatam ente, tinha conseguido que Casney os escolhesse) com um fim : acabar com Diane Silver. Bard sentia um desprezo enorm e pelos psicólogos de todos os tipos, que, segundo ele, estragavam o m undo se esm erando em análises dem asiadam ente detalhadas. Ele trabalhava havia tem po ao lado de Mannschatz, um rapaz silencioso, m as Pliskin tinha deduzido que este com partilhava as reservas de Mike sobre os psicólogos, um a vez que os dois agentes pareciam ser unha e carne. Após todas as suas tentativas frustradas de colocar um a casca de banana no cam inho de Diane, Bob Pliskin tinha chegado a um a conclusão : se ela falhasse significativam ente em um a investigação im portante, sua reputação levaria um grande golpe, e ele não precisaria m ais ser o responsável pelo tiro de m isericórdia. Seu plano, inspirado na investigação m uito confidencial que tinha conduzido, era de um a sim plicidade divertida. Diane estava im obilizada. Pliskin se espalharia em com entários, o ar doloroso, sobre seus vícios em álcool, em neurolépticos e em cigarro. Talvez até m esm o em outras substâncias ilícitas. Ele estava certo do contrário, m as nada germ ina m ais facilm ente do que a dúvida. Então, sugeriria que ela m atara aquele j ovem ladrão durante crise de alcoolism o que a tinha feito perder o senso da realidade, não sendo m ais confiável com o profiler. Silver estaria enterrada !

Pliskin olhou com ódio para Gary Mannschatz. Aquele filho da m ãe não ia j ogar seu plano para o espaço ! Nos raros m om entos de honestidade intelectual, Pliskin adm itia : tem ia Silver. Às vezes ela o observava com um olhar que teria reservado a um inseto bisonho e pouco apetitoso. E, depois, ele j am ais conseguia convencê-la de que tinha razão ! Ela ficava com o um a louca procurando falhas em cada um de seus raciocínios, com o se, para ela, se tratasse de um j ogo prazeroso. Merda ! Ela o cansava com sua espécie de intriga idiota, seu lado “Vão se foder, de todo m odo, tudo passa por m im ”. A integridade está fora de m oda, acabou. Só havia dinossauros com o Silver para saber o que im plicava a palavra. Às vezes, Pliskin tinha a vontade de gritar : “Sua puta, a gente está aqui pela satisfação im ediata, pelo poder, pelo alpinism o social, pela grana”. Entretanto não ousava. Afinal, qual era? Ele apavorava todo m undo. Por que não ela?

Erika Lu consultou o relógio, deixando escapar um leve suspiro, e antecipou-se à réplica zom beteira que viria de Diane.

– Lam ento, tenho m uito trabalho acum ulado para fazer e preferiria term inar o que tenho para inform ar. Não serei de nenhum a utilidade na sequência. A análise dos pulm ões de Valdez indica, sem am biguidade, que ele m orreu asfixiado pela fum aça, o que foi facilitado por sua posição. Ele deve ter caído pra trás tentando recuar. Os bom beiros o encontraram de costas, no chão, ainda am arrado. Com o consequência, seus pés se assaram acim a de onde o incêndio com eçou. O esfolam ento foi feito ante mortem, com o testem unha o conj unto das reações epidérm icas traum áticas, reações que só podem ocorrer quando o suj eito está vivo.

– Merda, eu teria detestado estar no lugar dele – com entou Bard antes que um olhar irritado de Erika o interrom pesse.

– A análise toxicológica revelou que Valdez tinha cheirado um a grande quantidade de cocaína pouco antes de seu… não hom icídio, m as… – hesitou a legista.

– Suplício – sugeriu Diane.

– Pois é, suplício.

– De m odo a dim inuir os reflexos de defesa dele? – perguntou o doutor Devernois-Kly ne, que com eçava a falar pela prim eira vez, tom ando o cuidado de não olhar novam ente a cena do crim e.

– Não. Isso podia alterar sua percepção da realidade, do perigo, m as não a capacidade de se defender. O professor Ruiz-Santana notou a presença de dois grandes hem atom as, um na altura da caixa torácica, outro na nuca. Foram golpes perfeitos, destinados a sufocar a vítim a, a bloqueá-la o tem po suficiente para am arrá-la. Lem brem os que Valdez m edia um m etro e sessenta e sete e pesava oitenta e oito quilos. Um a m usculatura considerável, revelando a prática de um esporte.

– Em outras palavras, não era um a coisinha fácil de dom inar fisicam ente – resum iu Bard.

– Justam ente – anuiu a doutora Lu. – Estam os lidando com um agressor do sexo m asculino e em perfeitas condições físicas. Alguém que, além disso, conhece os golpes que vão aniquilar em alguns segundos as reações de sua vítim a.

– Alguém que quer que ela estej a viva e consciente durante a tortura. Um sádico? – perguntou Gary Mannschatz.

– Não acredito – interveio Diane Silver e se interrom peu.

Erika Lu tinha se levantado. Após um olhar calm o sem endereço certo, ela perguntou, dirigindo-se unicam ente a Diane, o que fez crescer consideravelm ente o m au hum or de Pliskin :

– Diane, relatei tudo o que sabia. O resto está na síntese que m andei pra você. Se não precisa m ais de m im …

– Não. Obrigada, Erika. Pode ir… – Dirigindo-se aos outros, a psiquiatra sugeriu : – Bem , passem os às im agens anteriores… Em prim eiro lugar, as m ortes dos dois adolescentes parisienses.

– Diane, realm ente não vej o o que esses assassinatos têm a ver um com o outro… – protestou o secretário de Casney.

A interessada lhe lançou um insistente olhar de desdém antes de retrucar, com sua voz em bargada e lenta :

– Você não vê? Norm al, j á que ainda não se deu ao trabalho de olhar. As fotos.

Gary Mannschatz m arcava os pontos, reprim indo um a careta divertida, pretendendo não se preocupar com a troca de farpas em curso. Tinha sentido sem pre um a espécie de desprezo prudente em relação a Pliskin. Um verm e baj ulador, achava. Além do m ais, um verm e nocivo. No entanto, o secretário estava do lado bom da força, e, por isso, Mannschatz o tratava com a cortesia desconfiada que reservava a todo m undo, exceto a Bard.

Devernois-Kly ne espalhou algum as fotos da cena do crim e diante dele e passou a língua nos lábios antes de perguntar, com um a voz que se esforçava para engrossar :

– A m enina foi relativam ente poupada, não?

– Hum m – concordou Diane.

– Porque era um a m enina?

– Não. Justam ente porque ele não é um sádico no sentido crim inal do term o. Note, doutor – continuou ela, com um traço zom beteiro na voz –, que o obj etivo de um sádico é fazer o pior possível, durante o m aior tem po possível… Ele não term ina com a vítim a, exceto quando ela j á está quase do outro lado, sem nenhum a reação, sem m ais gritos : portanto, quando j á não é m ais prazeroso. Você encontrará, com m uita frequência, cenas de crim e em que a vítim a está presa pelos pés, de cabeça pra baixo. O único obj etivo dessa posição é facilitar a irrigação do cérebro – logo, m axim izar a dor prolongando a consciência…

– É…

– Por favor… Poupe-nos dos “é m onstruoso”, “é intolerável”, “é revoltante”. A verdade, Devernois-Kly ne, é que isso está m uito além das palavras. Então, deixem os isso de lado. Note ainda, pra seu conhecim ento : a m orte de Louise Heurtel parece um a execução. Ela não m orreu rapidam ente, caso se considere a quantidade de sangue arterial que j orrou nas paredes e nos m óveis. Tentou se arrastar na direção da porta. Seu assassino a puxou para trás. Isso explica sua blusa levantada até as om oplatas e sua saia na altura das coxas. Nenhum a relação sexual recente, ou senão só com proteção. Mas duvido disso.

– Por quê?

Diane observou a foto que conhecia de cor. Louise estava deitada de bruços, o rosto de perfil, as costas e as pernas desnudas.

– Porque não há nada sexual nessa m atança. Tudo é eficaz. Preciso. Pensado e calculado. Além disso, ela se parece com um bezerro inchado, não?

– Chega, Diane ! – ofendeu-se Pliskin.

– Bem … ela parece m esm o um bezerro… com os olhos m enos bonitos – insistiu a psiquiatra, surpresa.

– De qualquer form a, ela m orreu, abatida por um assassino em série, se quer saber ! Aquelas pobres m eninas m erecem toda a nossa com paixão, nossa dor, você deveria saber disso.

Diane lutou contra a raiva que se insinuava dentro dela. Não, não por Pliskin. Ele m erecia apenas desprezo. Acabava de encontrar um a m aneira noj enta de tirá-la do sério porque sabia perfeitam ente no que ela pensava : Leonor e seu rosto fino de anj inho. Ela fingiu pensar enquanto lutava contra o desej o de insultá-lo. Um único detalhe a acalm ava um pouco : em sua defesa, Pliskin ignorava ainda todo o ódio que sentiam Louise e seu am iguinho. Os m ortos m ereciam o respeito que ganharam em vida. Disse, com a m esm a voz polida :

– Você tem razão, Bob. De qualquer j eito, isso não a deixa m ais bonita. Mas não estam os aqui pra falar sobre padrões de beleza. Menciono o físico dela porque ele exclui, do m eu ponto de vista, o m otivo sexual.

– Você falou de execução – interveio Gary Mannschatz. – O que alguém poderia recrim inar num a m enina de dezesseis anos a ponto de querer m atá-la?

– Não é o seu trabalho investigar e encontrar o m otivo? Quando tiverm os certeza de que se trata de um a caçada internacional, a Interpol entra no j ogo. Ora, tem os representantes.

Mannschatz concordou com um pequeno m ovim ento de cabeça. Bard retom ou a palavra :

– Se foi m esm o um a execução, por que ele não deu um sim ples tiro na cabeça dela? A agonia durou quanto tem po, de seu ponto de vista?

– Dois, três m inutos, o tem po que ela levou para perder todo o sangue. Tudo depende de seu pânico, portanto, de seu ritm o cardíaco. O ferim ento no pescoço não é m uito extenso. Quanto à sua prim eira pergunta, ele procura o contato físico, algum a dificuldade. É fácil m atar alguém com um a arm a de fogo, a certa distância. É preciso m ais determ inação quando se usa um a arm a branca.

– Abater um a m enina de dezesseis anos não é m uito com plicado ! – resm ungou Bard.

– É verdade, m as Valdez era grande o suficiente para lutar. Segundo o legista francês, a m enina m orreu cerca de doze horas antes do m enino. Observe a foto… O tal Cy ril Janet foi torturado, esfolado.

– Ele deu azar – afirm ou Devernois-Kly ne.

– Não m esm o – contrariou a doutora Silver. – Se você exam inar a foto da cena do assassinato de Stanley Arm strong, tirada quase seis m eses antes, ou sej a, antes da m orte de Louise – ela esperou que todos a tirassem do dossiê e prosseguiu : – É a cópia fiel da cena do assassinato de Cy ril Janet e m esm o do de Valdez. Nada a m ais.

– Em Constantino Valdez, ele ainda pôs fogo – salientou Bard. – Isso é novo.

– Justam ente. Nós estam os lidando com um hom em m uito inteligente, estruturado, instruído, que calcula totalm ente o que faz. Do m eu ponto de vista, o incêndio na escola de Valdez não tinha por obj etivo “aperfeiçoar” o modus operandi, e ainda m enos sum ir com os vestígios. A prova : os bom beiros chegaram m uito rápido. Se o obj etivo fosse apagar provas, a AFI teria encontrado m arcas, indícios. Nada disso. Ou sej a, o assassino havia apagado todas antes de colocar fogo, por precaução. Portanto, m uito bem planej ado.

– O obj etivo do incêndio era destruir os DVDs? – interveio Mike Bard. – Isso coincidiria com o fato de que, em todas as m ortes, os discos rígidos dos com putadores das vítim as foram destruídos.

– Exceto o de Louise, j á que ele não a m atou na casa dela e que, provavelm ente, acreditava não haver nada de im portante no com putador dela – retificou Diane.

– Nós tem os o com putador da m enina? – perguntou Pliskin.

– Está nas m ãos da polícia francesa.

– Podem os fazer um a cópia?

– Caro Bob, eu pensava que você não era do tipo que quisesse negociar com forças policiais estrangeiras.

Pliskin fingiu não ter captado o veneno e insistiu :

– Já se sabe o que ele estava tram ando?

Estava fora de cogitação revelar o que Yves tinha contado sobre os dois j ovens psicopatas noj entos. Ele que se vire ! Ela se contentou com um :

– Os dois j ovens tinham se tornado satânicos.

Devernois-Kly ne a olhou com o se ela acabasse de soltar um a obscenidade. Diane explicou.

– Não, não… Não im agine coisas extraordinárias. Trata-se, m uito frequentem ente, de rebeldias um tanto adolescentes, um a m istura sim bólica, um am álgam a de rituais advindos das propagandas de sites da internet que se consideram especializados. É verdade que alguns “adeptos” flertam com o fascism o e a violência : profanam cem itérios e igrej as, agridem pessoas, esse tipo de coisa. Aqueles que pretendem ser os “verdadeiros” satânicos se distanciam dos vassalos, sendo antes pessoas dotadas de um a m elhor capacidade de reflexão, m ais estruturada…

O ar assustado de Pliskin lhe deu vontade de rir. Ela prosseguiu, com a m aior seriedade :

– Evidentem ente, não acreditam no diabo. Trata-se apenas de um a figura em blem ática. É um tipo de desej o de liberdade, de transgressão das convenções e dos hábitos sociais. Eles são, no m ais das vezes, inofensivos para os outros. Não é aí que está o… o que buscam . Além disso, espero que não decapitem m orcegos com os dentes, com o alguns m etaleiros de uns anos atrás. Isso seria de um raro infantilism o.

– Enfim , Diane – se introm eteu Bob –, parece que você os protege.

– Não protej o ninguém , caro Bob. Meu trabalho consiste em saber pra com bater. – Ela lançou um olhar birrento, certa de que ele com preenderia o subentendido : – Conhecim ento é poder. O único. – Ela se virou na direção de Bard e recom eçou : – Pra voltar à sua pergunta, não tenho certeza de que o incêndio tivesse por obj etivo destruir os DVDs. Nós estam os nos confrontando com um ser que prevê tudo e que sem pre tem um plano B, caso haj a algum inconveniente. Ele destruiu seus vestígios antes de incendiar a cena do crim e, por exem plo. Por que, então, não levar os DVDs j unto com o disco rígido? Isso não representa um volum e considerável.

–Pra cham ar nossa atenção pra eles – concluiu Gary Mannschatz.

– Exatam ente !

– Por que destruí-los, então?

– Porque o j ogo se tornaria m enos divertido se ele nos facilitasse m uito o trabalho.

– Quer dizer que eram film es pornográficos de pedofilia?

– É a hipótese que m e parece a m ais convincente. Se for isso m esm o, nós não estam os lidando com um assassino em série no sentido estrito do term o. Ele não seleciona suas presas por um a fantasia, m as por um m otivo específico.

Pliskin franziu os lábios, condescendente, e contra-atacou, após um olhar para as fotos expostas na frente dele :

– Você está indo rápido dem ais ! Concordo que três das cenas dos crim es, as das vítim as m asculinas, são m uito sim ilares. Além disso, a relação de am izade entre os j ovens e o fato de eles terem sido m ortos com algum as horas de intervalo, sem esquecer o satanism o dos dois, conectam , a priori, os dois casos. Daí a im aginar que Valdez foi m orto porque com ercializava pedofilia violenta – logo, que se trata de um a espécie de “punição” –, há um abism o !

– Por que, senhor? – lançou Bard.

–Bem … O que o m atador teria a condenar nos dois j ovens e em Arm strong? Você tem indícios significativos, Diane?

– No m om ento, nenhum – m entiu ela, pensando nos e-m ails de Yves.

Louise tinha o proj eto de m atar sua m ãe e seu irm ãozinho. Quanto a Cy ril, suas fantasias eróticas sangrentas tinham com o alvo a irm ã, e ele tinha sufocado um bebê no carrinho. Basicam ente, ela m esm a duvidava que houvesse um a ligação entre os dois j ovens franceses e Valdez. A teoria de Yves Guéguen se rearranj ou em sua m ente. Ela a rej eitou, j ulgando-a inverossím il, contrária a tudo o que tinha aprendido no contato com assassinos em série. Restava Stanley Arm strong. Continuou :

– A investigação sobre Arm strong foi encerrada m uito rapidam ente. Os policiais de Nova Iorque fizeram o que era possível. No entanto, logo se encontraram num im passe : sem precedente em relação ao modus operandi, sem roubo, com exceção do disco rígido, sem agressão sexual… Nenhum indício. Não tem os grande coisa, a não ser a breve descrição que o porteiro do im óvel da vítim a fez de um visitante que tinha chegado bem tarde. A hora bateria com o relatório do m édico-legista, m as nada prova que se trata do nosso hom em .

– Detalhes? – interveio Mannschatz.

Na tensão de sua voz, Diane sentiu que ele j á farej ava um a pista.

– Segundo o porteiro, um hom em se apresentou às vinte e um a horas e quinze m inutos procurando o senhor Arm strong. Um a entrega. Isso é certo. Está inscrito com o registro de visitantes que os porteiros possuem . O funcionário telefonou para o apartam ento da vítim a, que confirm ou que esperava o tal visitante. O hom em subiu. O porteiro não o viu sair. Seu turno acabava quarenta e cinco m inutos m ais tarde.

– E o porteiro do próxim o turno? – insistiu Mannschatz.

– Ele não se lem brava de nada em particular, pois seu trabalho era vigiar as entradas das pessoas, não as saídas.

– O prim eiro tinha um a descrição do visitante? – perguntou Bard.

– Vaga. O que cham ou a atenção dele foi que o hom em em questão se apresentou com o um entregador, m as estava m uito bem -vestido.

– Ele carregava algum a coisa?

– Não. Quando explicou o obj etivo da visita tardia, ele bateu na m ochila de couro preta. O porteiro insistiu m uito no fato de que seu papel não era policiar os m oradores do prédio, m as sim poupá-los de inoportunos. A partir do m om ento em que Arm strong esperava o visitante, não havia m ais problem a.

– Nós tem os o nom e desse hom em ? – perguntou Mannschatz.

– Está inscrito no registro. Contudo, aposto m eu próxim o salário que se trata de um pseudônim o. Nathan Hunter.

Bard veio com tudo :

– E a descrição, vaga tam bém ?

– Branco, alto, entre trinta e quarenta anos, cabelos na altura dos om bros, castanho-claro.

– Os olhos?

– Usava óculos escuros, apesar de j á ser noite.

– “Hunter13” – disse Mannschatz. – Engraçado, com o pseudônim o, não?

– Não é pra tirarm os conclusões precipitadas – disse Pliskin. – Hunter é um nom e m uito com um .

– É m esm o. Porém , ele poderia ter escolhido Sm ith ou Brown – ressaltou Diane.

Ela lançou um olhar furtivo para Devernois-Kly ne, cuj o silêncio obstinado a surpreendia. Ele tinha os olhos fixos na foto da cena do crim e de Louise e os lábios ligeiram ente abertos. Relem brando aqueles policiais nos quais tinha percebido excitação sexual enquanto observavam fotos de m ulheres vítim as de estupro, am arradas, estranguladas, Diane conj ecturava : isso lhe dá um a ereção ou vontade de vom itar?

– Perguntas, doutor? – disse ela.

Ele pareceu cair de um sonho longínquo e respondeu com um a voz trêm ula :

– Pode-se fazer um a ligação entre Stanley Arm strong e um … tráfico qualquer, do tipo daquele que Valdez organizava?

– É a pergunta, você tem razão – adm itiu ela. – A investigação da época não explorou nada nesse sentido. Não havia m otivos.

– Algum a coisa que estava na m ochila. Poderiam ser DVDs pornôs com garotinhos – concordou Mannschatz.

– Chegam os à m esm a conclusão. Mas os policiais do Departam ento de Polícia de Nova Iorque não encontraram nada desse tipo na casa de Arm strong. Acredito que seria necessário, no entanto, retom ar tudo desde o início, à luz dos novos elem entos. Stanley Arm strong era solteiro. Nenhum a ligação conhecida com m ulheres, nem antiga nem recente.

– Gay ? – interveio Mike Bard.

– Possível, m as nada consta nos testem unhos recolhidos pela polícia. A não ser que fosse um hom ossexual ainda no arm ário, m uito discreto. Ora, Arm strong vivia de rendas, sua única fam ília eram a irm ã hospitalizada em consequência de um a dem ência precoce e a sobrinha, que não via com tanta frequência. Em resum o, sem m edos profissionais nem fam iliares. Por que, então, tanta paranoia sobre suas escolhas se eram , com o dizer… inofensivas, bastante banais?

– Ainda um a vez, Diane, acho que você tem a tendência de saltar pras conclusões – vociferou Pliskin, que se sentia cada vez m ais excluído, um a sensação que detestava. Era o representante do diretor da base de Quantico. Com esse título, deveria ter sido o centro, a autoridade daquela reunião.

– Não são conclusões. Apenas hipóteses de trabalho.

– Que correm o risco de falsear o trabalho dos nossos agentes.

Ela levantou as sobrancelhas e respondeu, não sem ironia :

– Contudo, eles parecem ser m eninos crescidos, aptos a se virar sozinhos. Não m e diga que você incum biu j ovens influenciáveis de um a investigação internacional !

Ela leu a raiva no olhar que Pliskin lhe lançava. Ele tentou retom ar as rédeas da discussão com a única carta que ainda tinha : a aversão de Bard pelos psicólogos em geral.

– Diane, por favor, faça um desenho do perfil psicológico do seu assassino, Nathan Hunter, se se trata dele m esm o.

– Com o quê? Suposições? Hipóteses? Vento? Contrariam ente ao que pode parecer pra alguns, não utilizo bola de cristal. Analiso os fatos, reorganizo-os, destaco os elem entos m ais sugestivos. Isso pressupõe que tenha esses fatos com igo… e conto com estes senhores para que m e ofereçam tais fatos – com pletou ela, destinando um sorriso quase cordial aos dois agentes.

Mike Bard e Gary Mannschatz fizeram um a curta pausa diante da m áquina de café, sobretudo para se afastar um pouco de Pliskin. Bard lançou um olhar prudente a sua volta antes de perguntar, em voz baixa :

– O que acha?

– De quê? Pliskin é o idiota noj ento perigoso de sem pre e não para de cutucar a doutora Silver, o que faz com que eu tenha a tendência de vê-la com bons olhos.

– Sim … Ela é respondona, a m ulherzinha !

– Hum m , parece ser m uito com petente. Ouvi dizer que a filha dela foi m assacrada, quero dizer, noj entam ente m assacrada por um desses m alucos varridos.

– E a investigação? – perguntou Bard.

– Não sei ainda se ela está com pletam ente ou só um pouco podre.

– Por que diz isso?

– Porque estou certo de que Pliskin ainda tem na m anga um a grande cartada, m esm o que eu não saiba qual é – explicou Mannschatz.

– Pois eu tenho m inhas dúvidas é sobre ela.

– Escute, não tive a im pressão de que ela estava brincando, “no fundo, os assassinos são as verdadeiras vítim as”.

– Não, não é isso.

– O que é, então? – insistiu Gary, tom ando um gole do horrível café com um a careta.

– Ela está m entindo. Em alguns m om entos. Sobre o assassino. Estou certo de que sabe m ais coisas que não quer dizer.

– Talvez desconfie de Pliskin. E, quanto a isso, não está equivocada.

– Sim , m as isso não nos aj uda – com entou Mike.

– Seria preciso tentar fazê-la com preender que a gente está do lado dela. Enfim , pelo m enos não do lado daquele bunda-m ole do Pliskin.

– Fique atento – lem brou Mike lançando um novo olhar em volta. – Ele é realm ente um a pessoa ruim .

Um sorriso sanguinário assom ou aos lábios de Gary :

– Eu sei. Mas não o aconselho a ir contra a gente.

Esm agou seu copo com a m ão e o j ogou na lixeira, para pôr um fim à conversa antes que Mike lhe pedisse explicações.

De volta a seu escritório, acom panhada por Charles Devernois-Kly ne, que a seguia com o um cachorrinho, Diane acendeu um cigarro e deu um a longa tragada.

Sem esperar convite, tanto estava certo de que ele não viria, Charles se instalou em um a das cadeiras de visitantes e abriu sua grande caderneta sobre a m esa, caneta na m ão.

– Com o vai proceder agora, Dra. Silver?

Ela o olhou com o se ele acabasse de lhe perguntar o tam anho de seu sutiã.

– Não vou fazer nada, m esm o. Você m e ouviu : disponho som ente de poucos fatos. Não vou perder m eu tem po em elucubrações que levariam a lugar nenhum . Vou esperar.

Atônito, o advogado insistiu :

– Você não vai… enfim , não sei… orientar, conduzir a investigação policial?

Com ar zom beteiro, ela retorquiu :

– Ah? Quer dizer que você dorm ia durante a reunião, daí sua expressão apavorada enquanto exam inava a foto de Louise Heurtel.

Apesar de sua experiência em dissim ular, Devernois-Kly ne enrubesceu. Diane batia na tecla com voz indiferente :

– Saiba que alguns hom ens sofrem frequentem ente de um a… excitação erótica ao se depararem com fotos de m ulheres espancadas e assassinadas? Sobretudo, no caso de estupro. Mesm o que, por outro lado, não estej am tentados a praticar o ato que tanto os horroriza. Eles entram num a fantasia, m as um a fantasia de estuprador.

O advogado se endireitou com um sobressalto. Seu verniz de afabilidade se quebrou de um a hora para outra, e ele arrotou :

– Você m e considera um pervertido, um m aluco?

– Não m esm o. É um a inform ação que ofereço pra você. Para a sua dissertação.

A raiva fazia trem er a voz de Devernois-Kly ne quando ele desferiu :

– Perm ita-m e oferecer-lhe outra inform ação : não, as m ulheres assassinadas, estupradas, decepadas não m e provocam ereção ! Prefiro-as m uito vivas e, se possível, cheias de bom hum or !

– Então, por que a fascinação pela foto… que, além do m ais, é provavelm ente a m enos interessante pra nós?

Ele pareceu se acalm ar e se acom odou m elhor na cadeira. Hesitou antes de prosseguir :

– É estranho… A expressão daquela m enina…

– Os m ortos não têm expressão.

– Pouco im porta… talvez sej a porque… porque ela, enfim , quero dizer… ela tinha sem pre o rosto coberto pela pele… com plicado… Já vi fotos de cenas de crim e… nos trabalhos que consultei pra m inha dissertação. Isso m exe com igo… m e… dói. – De repente, desagradável, acrescentou : – Não vou inventar histórias : isso não m e im pede de dorm ir, m as, durante alguns segundos, sinto um a coisa, um sofrim ento. Mas sem com paixão… sem em oção, nada. Enfim , tratava-se de um a garota assassinada… Minha indiferença m e chocou.

Ela o observou em silêncio enquanto pegava um cigarro. Devernois-Kly ne seria m ais sutil do que im aginava? Menos antipático do que gostaria de acreditar? Talvez incom odado por seu longo silêncio, ele m udou de assunto :

– O que você vai fazer?

– Já disse : esperar, ficar em contato perm anente com os dois agentes responsáveis pela investigação.

– O que você achou deles?

– É cedo ainda pra ter um a ideia – declarou ela, prudente. Ignorava as relações entre o advogado e Pliskin, o fuinha.

Ele se levantou e se despediu. Quando chegou à porta, virou-se para ela e m urm urou, com o se lam entasse :

– A vantagem de ficar em silêncio durante um a reunião é que a gente ouve o que os outros não dizem . Correndo o risco de arrom bar um a porta aberta… Desconfie de Bob Pliskin.

– Sem brincadeira? – Ela riu, antes de retificar : – No entanto, obrigada. Não se preocupe : posso engolir dois do tam anho dele em cada café da m anhã.

– Eu tinha… enfim , tinha a sensação de que ele tram ava algum a coisa. Contra você.

– É claro. Com o sem pre. É o passatem po favorito dele. Cada um se diverte com o pode !

Ela quase acrescentou que o obj etivo de Pliskin era claro com o água para quem o conhecia um pouco : colocá-la em um a investigação m uito im portante e fazer com que fosse desm oralizada. No entanto, faltava sutileza ao caro Bob e, segundo Diane, ele tinha com etido um erro ao escolher aqueles dois agentes – pelo m enos, Gary Mannschatz, um a vez que ainda não estava m uito segura sobre a personalidade de Mike Bard, um “cara alto de om bros largos e que trabalha duro” para ficar com pletam ente tranquila. A desconfiança que ainda sentia em relação ao advogado a dissuadiu disso.

 

13 Caçador.