Na mente, o veneno
Capítulo 21
Boston, Massachusetts,
Estados Unidos, junho de 2008
O Bell Jet Ranger aterrissou suavem ente na pequena base m ilitar relegada aos confins do Aeroporto Internacional de Logan, que ocupa um a faixa de terra na frente de Deer Island. Um carro do Departam ento de Polícia de Boston a esperava. O chofer, um policial alto, negro, que não devia ter trinta anos, recebeu-a com entusiasm o, perguntando sobre as condições de voo, garantindo que lhe seria oferecido um café assim que possível.
– Um a bela noite, não é? – com entou ele, satisfeito. – É a Som erville. Nessa hora, não vai levar m uito tem po. A senhora prefere sentar atrás ou no banco do passageiro?
Diane pensava que poderia m uito bem ser um a turista guiada em um a espécie de Boston by night. À direita, o Museu de Ciências e o Hay den Planetarium ; à esquerda, o Massachusetts General Hospital…
– O banco dos passageiros, se isso não incom oda você. Assim , você vai m e contando tudo.
Ele deu de om bros, lam entando um pouco, e inform ou :
– Bem , não sei m uita coisa. Eu não estou no caso. A Central m e contatou porque eu estava patrulhando perto de Logan quando o piloto com unicou sua chegada.
– Você patrulha sozinho?
O belo rosto se fechou e o m otorista baixou os olhos antes de adm itir, em voz baixa :
– É só por um a ou duas noites, até que m e encontrem outro parceiro. Eu não queria ficar em casa. Meu parceiro foi baleado. Está no Brigham and Wom en Hospital. Caram ba… eu não vi o tiro !
Diane Silver o olhou com um olhar inquisidor, sem form ular nenhum a pergunta, a fim de que ele pudesse prosseguir ou silenciar, de acordo com sua vontade.
– Um a discussão boba. O m arido não concordava que a gente levasse sua m ulher antes que ele acabasse com ela com tapas e pontapés. Eu dei uns dois tapas nele. Ele pareceu se acalm ar. Se sentou no sofá… Enquanto Bert cham ava um a am bulância, o cara pegou um a arm a e atirou. Em Bert, em bora fosse eu que tivesse batido nele…
“Norm al para um hom em que bate em m ulher”, pensou Diane. “Esses caras não atacam os m achos alfa. Eles batem nos cachorros, nas crianças e nas m ulheres. Não nos m achos dom inantes.”
– Porra, eu não vi nada. Ele parecia parado, o cara, senhora, hã… doutora.
– Tudo bem .
Diane procurou o que dizer para aliviar um pouco a culpa que ele sentia por não ter sido capaz de proteger seu com panheiro. Ela explicou :
– Se Bert o tivesse acalm ado com duas bofetadas, ele iria atirar em você.
– Você acha isso?
– Não. Tenho certeza.
Sua convicção pareceu apaziguar um pouco o j ovem policial. De repente, o tiroteio no qual seu parceiro tinha sido ferido se tornava m ais aleatório, m enos sua responsabilidade.
Sincero, ele disse :
– Obrigado, senhora… doutora. Vam os lá? Prim eiro eu deixo você. Em seguida, entro no m eu turno e depois farei um pouco de com panhia a Bert.
– Diga pra ela que desej o um a recuperação rápida.
– Não m e esquecerei.
As ruas de Boston e de Som erville estavam sem pre um pouco vazias no início da m anhã ou tarde da noite. O Somerville Olde Motel tinha esse nom e de inspiração shakespeariana devido ao conj unto de seus quatro paralelepípedos de concreto cinza, a seus telhados planos eriçados por parabólicas e antenas e aos raros canteiros am arelados e rasteiros, cansados de m eio século de xixi de cachorro.
A m aioria dos veículos da polícia tinha saído após os prim eiros cham ados da ocorrência. Um furgão funerário azul-m arinho esperava em um a esquina. Diane percebeu a ponta incandescente do cigarro ilegal que seu m otorista fum ava, ainda instalado atrás do volante.
Seu chofer do Departam ento de Polícia de Boston a fez passar sob a fita da cena do crim e que cercava o pequeno estacionam ento em torno do prédio de um andar que continha um a dezena de quartos. Ao chegar ao sexto quarto, cuj a porta estava aberta, ele cum prim entou seus colegas, advertindo-os da chegada da “doutora de Quantico”, antes de apertar a m ão de Diane com efusão e de m urm urar :
– Vai dar tudo certo, né?
Diane não soube se era um a palavra de conforto para seu uso ou um a m ensagem para ele m esm o. Talvez as duas coisas. Acenou com a cabeça em sinal de concordância :
– Vai dar tudo m uito certo. Obrigada, oficial.
Os dois policiais sentados se levantaram quando ela entrou, um esforço que não tinham j ulgado necessário quando o colega os tinha advertido sobre a chegada de Diane.
Pequenas caixas de papelão de estilo chinês, um par de pedaços de pau e um papel vegetal m arrom que guardava um ham búrguer estavam sobre a m esa de centro deslocada para j unto da parede, na diagonal da televisão ligada, sem som . Diane notou as cinco latas de cervej a que os caras tinham bebido enquanto a esperavam . Eles não deviam estar particularm ente contentes por ter de velar durante horas o cadáver que j azia, am arrado, não m uito longe da cam a. Um a m orena de m enos de trinta anos, com o Diane percebia em seu perfil acinzentado.
– Sargento Ray Fuller – anunciou o policial m ais velho, um hom em exageradam ente gordo, cuj o colarinho estava aureolado de suor.
– Sargento John McNally – apresentou-se o segundo, trinta e dois ou trinta e três anos, parecendo m ais desperto que o parceiro.
Ele apontou para a vítim a com um m ovim ento de queixo e com entou :
– Coisa feia. Foram os ocupantes do quarto 4 que cham aram o recepcionista. A televisão berrava.
– Hum m … Dra. Diane Silver. FBI. A gente sabe quem é?
– Bernice Clay bone – afirm ou Fuller. – Vulgo Chloé. É verdade que Bernice não é o nom e m ais excitante, m esm o para um tipo necessitado – brincou o policial gordo. – Tirando a m inha tia-avó, não conheço ninguém que tenha um nom e desses ! E garanto que m inha tia-avó precisaria estar com fom e para…
– Ray m ond… não tem nada aqui pra deixar alguém m olhado –, ela o repreendeu em tom calm o, observando sua grande barriga e sua cabeça careca e brilhante com um a careta que forçava a repugnância.
Ele em udeceu. Jam ais teria pensado que um a fam osa especialista em psicologia crim inal de Quantico poderia dizer coisa sem elhante. Nem por um segundo ele entendia a que ponto estava desrespeitando a pobre j ovem estendida no chão, estrangulada, cuj o m aior erro tinha sido tornar-se o fantoche sexual de um m aníaco.
Silêncio constrangedor. O olhar de gelo passou sem pressa por Fuller e McNally. Diane respondeu com sua voz lenta, séria e sem em oção :
– Um esclarecim ento : ninguém m e suporta. Vocês podem m e detestar, dizer todas as bobagens que quiserem sobre m im . Não m e incom oda. Acho até m uito divertido. Em com pensação, o que m e incom oda é sua presença. Vão pegar um ar. Preciso ficar sozinha.
Eles a olhavam com o se ela tivesse acabado de baixar a calcinha. Não. Pelo m enos, isso teria sido divertido. Mas não o desprezo im passível dela.
Após segundos de hesitação, am bos os policiais deixaram o quarto.
Diane suspirou aliviada. Os dois ali, no m esm o lugar que ela, lhe envenenavam o cérebro, a im pediam de pensar.
Ela se virou lentam ente. Um canto da coberta de flores roxas sobre fundo azul tinha sido dobrado. Em diagonal, duas cadeiras de plástico cinza m oldado ladeavam um a m esa de centro com um a bandej a de fórm ica preta, sobre a qual os dois policiais tinham feito um a refeição. Cheiro de cigarro. No cinzeiro sobre a m esa, bitucas esm agadas num canto. De Fuller, provavelm ente. As cortinas duplas curtas, em tecido encerado cinza-escuro, cobriam parcialm ente a com prida j anela retangular. Os policiais deviam tê-las fechado. O pinga-pinga enlouquecedor de um a torneira do banheiro com a j unta de vedação defeituosa. O tapete raso, cinza tam bém . Na entrada do banheiro, um a grande m arca m arrom -clara. Provavelm ente, de um a antiga infiltração. Mais distante, o piso de ladrilho bege. Diane cam inhou alguns passos e curvou a cabeça para observar o m inúsculo banheiro. Depois se voltou para a cam a.
Seu olhar caiu, enfim , sobre Chloé. Ela contornou o cadáver da j ovem e se sentou na borda da cam a, sem tirar os olhos da m oça. Com o nos outros casos : os braços am arrados nas costas por um a m eia-calça, pernas fechadas, am arradas com cordas em três lugares. O resíduo em branquecido e um pouco brilhante do esperm a seco no alto de suas coxas unidas. Ela j azia de bruços, o rosto de perfil, os olhos abertos.
O sorriso de Leonor, sua grande m argarida alaranj ada na m ão. Diane a im aginou sobre a parede daquele quarto de m otel, coberta por um a espécie de tapete cheio de nervuras, de um bege acinzentado de poeira.
Diane m ergulhou em seus pensam entos, lentam ente, m uito lentam ente, acom panhada pelo sorriso de sua filha. O eco da conversa dos dois detetives do Departam ento de Polícia de Boston, que tagarelavam no estacionam ento, se atenuou até não form ar m ais que um m urm úrio insistente, m as indistinto.
Ela o via. De costas. Com o sem pre. Quanto ao resto – suas expressões –, se im punham a ela.
Tam anho e estrutura física m odestas, m oreno. Cabelo ondulado até o om bro. Rosto de adolescente, ou de um rapaz j ovem . Nada de m uito ostensivam ente m asculino. É provável que sorrisse tim idam ente enquanto a m oça o precedia a cam inho do quarto. Ela com eçou im ediatam ente a provocá-lo. Tinha todo o interesse em que tudo acabasse rápido, para poder retornar logo à rua, à caça aos clientes. Ele a em purrava com gentileza, indicando- lhe o banheiro. Um pouco irritada pelo contratem po, ela aquiescia. Diane via a am bos de costas. A prostituta se dirigia ao lavabo, baixando a calcinha. Ele tirava um bastão curto do bolso e escondia a m ão arm ada atrás das costas.
Diane fechou os olhos, expirando com a boca aberta. Não tinha necessidade de olhar o banheiro. Dois segundos tinham sido suficientes para m em orizá-lo para sem pre. Os azulej os azul-calcinha m anchados pelo calcário acim a do lavabo e no box da ducha. O chão bege. A cortina florida de plástico m arrom . A torneira que pingava, provavelm ente havia m eses, deixando um a pequena poça oval de borra esverdeada em seu cam inho. O espelho retangular, chum bado para que clientes indelicados não o carregassem , a lâm pada que pendia do teto – nua, pelo m esm o m otivo. O tipo de estabelecim ento onde se paga prim eiro e onde se deixa um a caução de cinquenta dólares em troca de dois lençóis, de m etade de um rolo de papel higiênico, de duas toalhas de rosto, sem esquecer um pedaço de sabonete.
Diane fitou o perfil da m orta, o nariz retocado, o rosto dourado pelo excesso de base, o batom borrado na com issura dos lábios, a som bra verde dem ais para um a m orena de olhos castanhos.
Os lábios de Diane m urm uraram , sem som : “Olhe pra m im , Chloé. Olhe pra m im pra que eu possa vê-lo, pra que eu acabe de com preender”.
Chloé que se aproxim ava do espelho, que erguia os olhos. Belos olhos castanhos sob a m aquiagem exagerada. Olhos que em breve iam se apagar. Ele chegava por trás dela, no espelho. O olhar de Diane recaiu na coisa que sobressaía em seu pescoço. No pescoço dele. Um a cruz. Um a grande cruz de m adeira, nua, do tipo daquelas que se distribuem durante as peregrinações ou os encontros de crentes. O braço arm ado do assassino se erguia e descia com tudo sobre o crânio de Chloé. Um gesto controlado. Era im portante que ela não m orresse naquele m om ento. Chloé caía no chão.
A cruz que escorregava por um a fina tira de couro.
Num j ardim público, a m ão esquerda ornada com um anel de noivado e um a aliança se estendia para Leonor.
Diane se sentiu com o que descolada de seu corpo. Voltou para o aqui e o agora. A cruz do assassino. O anel do caçador. Sím bolos. Ela sabia. Sua m ente lhe oferecia sím bolos a decifrar. Não visões. Nos dois casos, indícios de norm alidade, de bondade. Um hom em que parece um j ovenzinho e que carrega um a grande cruz não pode fazer m al, não é? Assim com o um a m ulher casada, talvez m ãe. Tranquilizar as vítim as. Aplacar sua desconfiança para m elhor torturá-las.
A psiquiatra quis se levantar daquela cam a que a repugnava. Sair daquele quarto que lhe dava náusea. Indicar, aos dois policiais e ao instituto m édico-legal, apenas com um gesto, que tinha term inado, que eles podiam colocar o corpo num saco e levá-lo. Entretanto, ficava ali, congelada, observando cada centím etro quadrado da vítim a, voltando de novo e de novo para a dobra dos j oelhos. Chloé, ela se cham ava Chloé. A decom posição viria em seguida. Ela se j untaria ao deserto sem fim daqueles que m orreram . Um a fam ília a procuraria, ou acabaria na vala com um , com o suas tantas outras irm ãs de infortúnio? Diane se sacudiu. Não era seu problem a. Sua m issão consistia em prender o assassino.
De repente, com preendeu. Com preendeu por que não conseguia tirar os olhos das pernas am arradas de Chloé.
– Hã… doutora… a gente pode levar o corpo?
Diane voltou os olhos para o assistente do necrotério de blusa azul-escuro. Não o tinha ouvido subir os dois degraus que levavam ao quarto. Assentiu com um sinal de cabeça. Depois, virando-se para um dos policiais em oldurados pela porta – aquele que tinha tido a com paixão de se referir à defunta com um “Coisa feia” –, o tal McNally, ela disse :
– Detetive, term inei. Você pode m e levar ao aeroporto de Logan. Quero voltar a Quantico o m ais depressa possível.