Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 22 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 22

 

Paris, França, junho de 2008

Sara tinha tentado negociar com Victor, m as o m enino estava inflexível : ele a acom panharia aos Estados Unidos e, se ela acreditava que ele podia ver ou escutar algo pior do que os dois acabavam de viver, estava redondam ente enganada !

À teim osia do filho, som ava-se a apreensão de Sara quando o m enino se afastava dela, m esm o para ir à escola ou à academ ia de artes m arciais. Ela não parava de contar os m inutos, consultando o relógio um as vinte vezes, perguntando-se se o m enino não estaria atrasado, e por quê. Se não era o caso de ir atrás dele. Cada instante sem Victor era sem eado por um a angústia lancinante. E se acontecesse algum a coisa com seu filho? Sara estava convencida de que som ente sua presença, a da m ãe, era capaz de afastar qualquer am eaça. Que am eaças? Não tinha a m enor ideia. Mas, agora, parecia a ela que o m undo tinha se transform ado num a gigantesca arm adilha, que cada instante escondia perigos. Detestava sua irracionalidade, logo ela, tão grata por seu pragm atism o, e lam entava ter requisitado um a licença não rem unerada no laboratório. Pelo m enos quando m ergulhava no trabalho, a sensação de que a m orte rondava Victor e ela se atenuava um pouco.

E depois, tinha de adm itir : ninguém tinha se oferecido para cuidar de Victor – no entanto, tão fácil de conviver – durante a ausência de sua m ãe, com exceção de um a colega de laboratório que esperava que Sara lhe desse um em purrãozinho para conseguir o posto de engenheiro assistente. Com m edo das fofocas da vizinhança, a m ãe de Sara teria, a contragosto, aceitado ser babá, o que não lhe agradava nem um pouco. Sua m ãe sem pre tinha agido em função do que a senhora Fulana ou o senhor Sicrano podiam pensar dela. Nunca teve paixão por crianças. Disse isso um dia, sem rodeios :

– Minha querida, se houvesse pílula na m inha época, j am ais teria tido você ! Teu irm ão m e bastava. Sonhava com um a vida m ais… divertida…

Nada m elhor para construir a personalidade de um a criança, m as Sara fingia que não ouvia, com o todo o resto. Sua m ãe não a am ava, porque era incapaz de am ar. Todas as coisas boas que a m enina perseguia obstinadam ente para lhe trazer, todos os cinzeiros de m assinha de m odelar, todas as felicitações das bancas acadêm icas, todos os seus esforços para agradar e ser am ada não m udavam nada. Sara tinha levado, sim plesm ente, quase quarenta anos para adm itir isso. Quarenta anos para tirar da cabeça que era culpada pela falta de am or de sua m ãe.

De seu pai, m orto quando tinha quatro anos, conservou apenas um a lem brança m uito vaga, inventada, reconstituída a partir de algum as fotos em que ele aparecia sorrindo. Na sua preferida, ele estava bronzeado, de calção de banho, sentado em um a praia. Um vento forte soprava, despenteando-o. Esticara o braço para apontar algum a coisa longe. Ria. Na lem brança fantasiosa de Sara, seu pai ria m uito. Era m uito alegre. Contava-lhe um m onte de histórias. Por causa da foto. Finalm ente, ela adm itia : talvez fosse um a sorte ele ter m orrido tão j ovem , sem que ela o tivesse conhecido. Sem ele ter tido tem po de decepcioná-la. O pai tinha sido seu talism ã, seu rem édio, seu analgésico contra sua m ãe. E se ele a tivesse decepcionado? Se ele fosse com o sua m ãe? Se tudo em torno dele fosse pintado de am argura, porque era incapaz de am ar quem quer que fosse? Sara provavelm ente não teria resistido. Nunca teria conseguido resistir com tanta energia ao com portam ento de bruxa de sua m ãe.

Victor tam bém tinha falado sobre a possibilidade de ficar com a avó :

– Ah, não, a vovó não. Você não pode fazer isso ! Um a tarde até que vai. Você pensa em outra coisa. Mas vários dias é de m atar ! Eu não quero m orrer.

– O que quer dizer?

– Não m e diga que você não notou. Todo m undo m orre em volta dela, m enos ela. O m arido dela, logo, seu pai, o irm ão dela, de quem ela tom ava conta, o seu irm ão, que teve a m á ideia de voltar a viver com ela, todos os gatos e cães que ela recolheu e que se foram em poucos anos. Não sei… Ela absorve a vida. Ela detesta a vida…

– Chega, Victor, você não pode dizer isso da sua avó !

– Por que não, se é verdade? Você sem pre m e disse que era preciso encarar a verdade, não?

Sara não tinha respondido nada. Ele tinha razão. Sua m ãe era m ortífera. Tudo m orria ao redor dela. Menos ela.

– Escute, querido… isso não vai ser… sim ples. Vou encontrar um a m ulher, um a psiquiatra, especialista em psicologia crim inal. Nada fácil, pelo que entendi. Hã… A filhinha dela m orreu… assassinada por um louco…

Ela detestava falar com o se Victor fosse um adulto, ou quase. Por outro lado, ele era provavelm ente o m ais adulto entre as pessoas com quem ela convivia ultim am ente. Tirando Guéguen, que ela não suportava – pelos m otivos errados, sabia. Victor lhe evitava a futilidade contra a qual não se pode lutar sob pena de passar por um terrível cínico. “Não tem nada m ais m agnífico que um a m ãe !”. E se a supracitada m ãe é incapaz de am ar, ela é sem pre m agnífica? “As crianças são um a preocupação, m as não existe alegria m aior !” Mesm o quando querem acabar com você?

– Bem , pelo m enos, estarei lá pra reconfortar você.

– Victor… Hã… Victor, não tenho cuidado m uito… suficientem ente de você… depois da m orte de sua irm ã e tudo o m ais. Enfim , quero dizer… Tenho estado um pouco – bastante, até – absorta, e não prestei m uita atenção no que se passava ao redor de m im e… eu m e detesto por isso. Não sei exatam ente o que você tem passado… Tenho a im pressão de que se sentiu obrigado a cuidar de m im . Eu… eu… quero dizer que se eu tivesse enfrentado tudo, com o deveria ter feito… você teria sido apenas um m enino que chora a falta da irm ã, em vez de tentar erguer sua m ãe devastada. Enfim , não estive à altura da situação.

Sério, o m enino segurou a m ão da m ãe e a apertou forte, antes de beij á-la.

– Escute m ãe… a gente concorda que é preciso dizer a verdade, exceto quando ela não é m uito necessária e pode fazer m al às pessoas boas, não é?

– É.

– O problem a é que eu não sei se isso vai te fazer m al…

Sara acariciou a cabeça do filho. Um dia, ela devia ter feito algo especial, sem perceber, para m erecer Victor.

– Diga, querido.

– Hã… m ãe… Não senti m uita dor, não se preocupe. Enfim , quero dizer… fiquei m al porque você chorava e tom ava todos aqueles com prim idos pra dorm ir e não com ia. Mas por Louise… bem , isso realm ente não m e fez m al. Eu não am ava tanto ela, m am ãe. Mesm o antes de ela ficar irritante. Lam ento dizer isso. Mas é m elhor. Assim você vai parar de se preocupar com igo. Apenas você im porta pra m im . Com ou sem Louise, não m uda m uito. Pra m im .

Sara fechou as pálpebras. Victor teria percebido em Louise algum a coisa podre, que ela m esm a, sua m ãe, ignorara? Seria a anim osidade de sem pre entre prim ogênito e caçula? Ciúm e pela atenção da m ãe? Devia ficar feliz ou se inquietar com a pouca em oção que a m orte da irm ã suscitava em Victor? Era incapaz de responder a essas perguntas.

Aquela m ulher podia aj udar. Aquela m ulher enterrada em um bunker subterrâneo no outro extrem o do m undo. Aquela m ulher que havia anos passava por m aus bocados. Aquela m ulher que havia entrado em colapso, m as que tinha se reerguido, que tinha decidido lutar. Até o fim .