Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 32 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 32

 

Perto de Boston, Massachusetts,

Estados Unidos, julho de 2008

Im óvel, sentado de pernas cruzadas no centro da arena de três m etros de diâm etro, Rupert/Nathan voltou à realidade. Sua respiração se acelerou. Sentia-se revigorado, com o sem pre, após as sessões de m editação, quando m ergulhava no m ais profundo de si m esm o, relaxado, em harm onia com o universo.

Levantou-se e lim pou com a m ão a areia colada nas coxas.

Aproxim ou-se da parede coberta de grandes viveiros e contem plou seus parceiros de com bate. A Crotalus adamanteus estava digerindo havia dois dias. A Crotalus durissus terrificus se enrolara em volta de um a pedra decorativa, perfeitam ente im óvel, assum indo sua m ineralidade. Ele suspirou de adm iração diante da serpente que tinha se tornado um tipo de fetiche : sua cobra egípcia de quatro m etros de com prim ento. A Crotalus atrox, a últim a com batente m orta em batalha, acabava de ser substituída. Sua sucessora era um pouco m enos com prida. Entretanto, era vingativa, pois se aprum ou, pronta para dar o bote, quando Rupert bateu com os dedos no vidro.

Rupert sorriu e lhes enviou um discreto aceno com a m ão antes de deixar o calor pesado da sala sem j anelas, situada no coração da casa de vidro e m adeira.

Não tinha necessidade delas naquele m om ento. Um j ogo m uito m ais difícil, em bora m enos atraente, o esperava : um assassino.

Entrou na sala de trabalho, na qual estava o com putador que faria invej a a qualquer força policial no país.

Apertou um botão. O escuro do m onitor se dissipou, e o fundo de tela apareceu. Devia ter um ano na foto. Ela o segurava entre os braços, fazendo barulho ao rir. Sua m ãe. Seu olhar e sua m iopia vinham dela, assim com o seus cabelos, m esm o que os de sua m ãe fossem m ais bonitos e sedosos, um a cabeleira com prida, de um louro dourado. Soprou um beij o para a foto e abriu o arquivo “Boston”.

Diane tinha partido havia dois dias, pela m anhã, espantosam ente sóbria, levando-se em conta a quantidade de álcool que ingerira. Para sua grande surpresa, sentia falta dela. Se esperasse aquela colaboração, ou m elhor, aquela cum plicidade, se j á tivesse possibilitado havia m ais tem po que ela se concretizasse, j am ais teria im aginado que laços de intim idade, até de dependência, pudessem ter se criado tão rapidam ente entre eles. No entanto, j am ais tinha sido tão sincero com alguém , e não duvidava de que a recíproca fosse verdadeira. De m odo em baraçoso, confiava cegam ente nela m enos de vinte e quatro horas depois de conhecê-la. Refletiu. Por que em baraçoso? Eles se pareciam tanto, até na vontade de pagar por um a culpa involuntária. Ela, porque não tinha sabido salvar a filha; ele, porque tinha sido incapaz de defender a m ãe.

Concentrou-se no trabalho da véspera. Bom serviço. Pelo m enos, esperava que Silver pensasse assim .

Regra nº 8 : Os anim ais selvagens sem pre se aproxim am da carne. Os pedófilos se viram para entrar em contato com crianças. Um assassino que odeia putas vive no m eio delas, o que apenas aum enta seu ódio, j ustificado conform e seus critérios.

Diane o tinha descrito com o pouco inteligente, m as organizado. Era provável que não m orasse no m esm o local onde caçava, com m edo de ser reconhecido. Um em prego sim ples, ou desem pregado, o que im plicava, a priori, poucos m eios financeiros. Portanto, era conveniente concentrar a pesquisa em bairros pobres, nos quais a m oradia fosse barata, onde os habitantes soubessem que era m elhor não se m eter nos negócios do vizinho e onde se encontrassem putas pouco exigentes, excluindo aqueles bairros onde o assassino j á tinha atacado.

Rupert contem plou o m apa de Boston e de seus arredores, no qual tinha circulado suas escolhas : South Dorchester e Jam aica Plain, em bora a reputação um pouco perniciosa do últim o tivesse sido atenuada pela presença de estudantes atraídos por aluguéis acessíveis e por um a m istura étnica bem -sucedida.

Pesquisou no Google. Nenhum a associação de am bidestros nem em South Dorchester nem em Jam aica Plain. Na verdade, havia apenas duas em Boston, o que incluía os subúrbios próxim os : um a em Brookline, outra em Cam bridge. Som ente o prim eiro possuía um ótim o site explicando os proj etos, as form ações, as atividades da associação, sem esquecer um pequeno histórico dos am bidestros fam osos, de Glenn Gould a Jim i Hendrix, passando por Leonardo da Vinci e até o doutor Albert Schweitzer.

Rupert se alongou com satisfação. Há tem pos não se sentia tão relaxado e, ao m esm o tem po, alerta. Desde Paris. Invej ava Diane Silver pelo processo quase inconsciente que perm itia à sua m ente organizar os dados para chegar a um a conclusão confiável. Diferentem ente dela, ele tinha de se concentrar m uito, refletir sobre os m enores detalhes. Um a tarefa laboriosa. Entretanto, era ainda um principiante em m atéria de perseguição, e a dificuldade era em ocionante.

Durante a m eia hora que se seguiu, elim inou um sem -núm ero de hipóteses, e de repente a evidência se im pôs. Bateu palm as de alegria. Se o assassino pertencia a um a associação, era a de Cam bridge. Brookline sem pre foi um a extensão nobre de Boston – e isso bem antes de John F. Kennedy ter nascido lá. Portanto, era de esperar que os m em bros dessa associação viessem das cam adas superiores da sociedade, nas quais as pessoas se vestem bem , falam com facilidade. Trocando em m iúdos, um contexto que podia reforçar o sentim ento de inferioridade do assassino e que ele evitaria. Em contrapartida, Cam bridge é, antes de tudo, um bairro de estudantes. A presença de quem tem dinheiro é m uito m enos perceptível no m osaico de nacionalidades e de costum es do bairro. Até porque a linha de m etrô que vai para lá passa tam bém por South Dorchester.

Rupert reuniu suas conclusões, acrescentou as peças do pequeno dossiê sobre a m ulher de Nova Iorque e enviou tudo para um dos endereços de e-m ail de sua agenda.

A ligação que ele esperava não dem orou.

– Sr. Teelaney, feliz de ter notícias suas. Estou estou olhando para o arquivo que acabou de m e enviar. Então, são duas investigações diferentes?

– Isso m esm o, Thom as. Quero que você se encarregue pessoalm ente disso. Acredito que… não seria apropriado que repassasse esse serviço a um de seus excelentes colaboradores.

– Entendo.

– Trata-se de assuntos… m uito confidenciais.

– Oh ! Sr. Teelaney … – censurou a voz em tom entristecido. – Trabalho para o senhor e sua fam ília há m ais de vinte anos. Algum a vez dei m otivos para duvidarem de m inha extrem a discrição ou das m inhas com petências?

– Desculpe, Thom as. Você tem m il vezes razão.

– Assim o senhor m e deixa m ais tranquilo. Talvez sej a m ais fácil localizar o hom em . Tem os um a descrição física, um perím etro bem delim itado, um a possível atividade social… Mas… a m ulher vai ser um grande problem a, e seria desonesto de m inha parte afirm ar que conseguirei com facilidade.

– Tenho consciência de que se trata de um a m issão m uito difícil, m as sei que você é capaz.

– Com o sem pre, Sr. Teelaney.

Thom as Bard, um ex-policial que virou detetive particular, m uito particular, era conhecido por sua tenacidade e eficácia. Prova disso era sua caderneta de endereços de clientes, que podia se gabar por possuir um núm ero im pressionante das m aiores fortunas do país. Thom as conhecia tantos segredos – m ais ou m enos honrosos – dos poderosos que poderia, sozinho, provocar a quebra da bolsa m undial. No entanto, sensatam ente, não ignorava que sua saúde, sua longevidade e seus enorm es honorários se sustentavam em um único um fio : o silêncio.

– Eu os localizo e, em seguida…

Thom as era inteligente dem ais para ter sua im agem ligada a um a execução. Todavia, conhecia profissionais para o serviço, dos quais, é claro, j am ais tinha ouvido falar.

– Nada m ais. Mantenha-m e inform ado, não im porta que hora do dia ou da noite. Trata-se, nos dois casos, de assuntos que acom panho… de m uito perto.

– Pode contar com igo, Sr. Teelaney. Mãos à obra !

Rupert desligou. Sua satisfação se m isturava com um grande pesar. Teria gostado tanto de cuidar ele m esm o da perseguição. Mas não havia tem po a perder. Outra j ovem ia m orrer. Não tinha o direito de arriscar um a vida por um a veleidade. Porém , pediu a Thom as para participar da investigação em Nova Iorque. Thom as não podia recusar nada, ele pagava bastante caro pelo trabalho. Rupert sabia que seria um a questão de honra para o detetive encontrar a aliciadora. Um ótim o desafio em vista.

Levantou-se. Era hora de se exercitar.

Regra nº 9 : Conservar um a form a física e m ental im pecáveis.