Na mente, o veneno
Capítulo 31
Perto de Boston, Massachusetts,
Estados Unidos, julho de 2008
Quando ele propôs tom arem um chá no salão, ela preferiu term inar a excelente garrafa de Montrachet.
– Você não terá m ais vontade de degustar em seguida m eu m agnífico Rom anée Conti – ele se inquietou.
– Vontade? Sim ! Se for necessário, estou certa de que dois de seus encantadores em pregados poderão m e levar com pletam ente bêbada pro quarto que você m andou preparar. Não é necessário que tirem m inha roupa. Eu costum o não ser m ais capaz de fazer isso. – Ela virou o precioso líquido na taça e prosseguiu :
– Chegou o m om ento, você disse.
– Hum .
Secos, seus cabelos tinham voltado a ser crespos, m as ele conservava as lentes de contato. Provou em pequenos goles o chá fum egante, que exalava um sutil arom a de m alva.
– Hunter : alusão ao caçador, com preendo. Mas por que “Nathan”?
– É o nom e que m inha m ãe tinha escolhido pra m im . Meu pai e m inha avó, é claro, foram contra. Todos os prim ogênitos do sexo m asculino dos Teelaney se cham am Rupert. Entretanto, m inha m ãe era um a rebelde, um defeito grave na fam ília. Ela só m e cham ava de Nathan. Isso os tirava do sério. – Ele acariciou a borda da taça de raku com a ponta do indicador e continuou, com voz distante : – Ele a estuprava, sabe? Quando ela não queria, ele batia nela – nunca no rosto, por causa dos em pregados e das recepções – e a estuprava. Ela tentava se defender, m as ele era forte com o um touro, aquele filho da m ãe. Eu ficava em baixo da escada ou no corredor. Escutava da porta do quarto deles. Chorava, m e detestando por ser incapaz de aj udá-la.
– A estátua de bronze é m uito alusiva – salientou Diane.
– Acredito que foi naquela época que com preendi o que era um a vítim a. No entanto, só m e lem brei disso m uito m ais tarde. – Hesitou, depois disse : – Eu preciso lhe explicar o resto, Dra. Silver?
Diane degustou o final de seu copo e se serviu de novo, term inando a garrafa com um a careta de pesar.
– O quê? A im potência das vítim as? Sua trágica fraqueza, o que explica que só com preendam no últim o m om ento, quando é tarde dem ais, que o predador está sobre elas? A catastrófica esperança que faz com que acreditem que, se obedecerem , serão poupadas? Eu disse pra você : odeio a esperança. Esperei, eu tam bém , quando Leonor…
– Eu tinha percebido.
Ela continuou, com o se não o tivesse escutado :
– A espantosa neurose desse m undo que cerca o torturador de fascinação, de com paixão, m esm o, relegando seu pavoroso “m ostruário de caça” ao papel de exem plos, de ilustrações? Por que você acha que m e tornei um a profiler, alcoólatra e viciada em neurolépticos?
– Não por esse m otivo – respondeu ele com voz doce. – Isso é a teoria, e ela veio depois. É disso que vam os descobrir se estou com pletam ente enganado ! Acredito que o verdadeiro m otivo é um a m enina e a sua… desculpe… incom petência, sua inutilidade de então. Você se odeia m ortalm ente por não tê-la salvado, por não ter sido, na época, um a caçadora capaz de chegar até aquele m aluco assassino para m atá-lo. A tem po.
Ela o olhou, a boca entreaberta, com falta de ar. Os insultos, a raiva, a negação, tudo tinha passado. Ele tinha razão.
– Posso beber algum a coisa, por favor?
– Pensei no Rom anée Conti – sugeriu ele em tom am igável, dirigindo-se ao interfone.
– Neste caso, um uísque. Não se preocupe. Sei ficar lúcida até que não sej a m ais desej ável.
– Proponho a você um a colaboração. Em m em ória de Leonor e de todas as outras vítim as im potentes do passado, do presente e do futuro.
– Até agora, não tive a sensação de que você precisasse de m inha aj uda.
– Pense de novo.
Eles ficaram em silêncio enquanto José servia Diane.
Quando o j ovem criado se foi, Rupert continuou :
– Stanley Arm strong foi bastante fácil de localizar. Era um pedófilo violento. Encontrei na casa dele DVDs que destruí. Eu ainda não estava pronto pra entrar em contato com você – pois se trata de um antigo proj eto. Em um dos film es, a garotinha era esfaqueada. Depois o resto. Adoro os pedófilos, porque são identificáveis quando se sabe o j eito certo de rastreá-los. Eles necessitam de contatos pra conseguir seu… divertim ento. Graças ao disco rígido de Arm strong, descobri a existência do señor Valdez. Exit, o belo Constantino.
– E os dois j ovens franceses?
– Internet, sem pre. Possuo um sistem a de m onitoram ento com palavras-chave.
– Sim ilar ao da CIA? Do m esm o nível?
– Ao da CIA. Com dinheiro, a gente pode obter quase tudo. Um a triagem de palavras-chave. Basta saber escolhê-las. Então cheguei até Cy ril Janet.
– O fam oso m entor canadense !
– Errado, não sou eu. O m estre canadense existe. Após a investigação, tive certeza de que se tratava de um pobre rapaz, desequilibrado, se alim enta de fantasia. Daí, tentei apagá-lo de m inha lista. Disponho de um sistem a de inform ática ultrarrápido, que m e perm ite entrar online e copiar um e-m ail ou um arquivo antes que ele chegue a seu destinatário legítim o, sem que este perceba nada além de um atraso norm al. É algo de um a fração de segundos.
– Por que esfolá-lo?
– Oh, isso, ou outra coisa… – respondeu ele com desinteresse. – O obj etivo era encoraj ar você a acreditar na existência de um assassino em série, fazer com que você investigasse e lhe dar pistas sobre a existência de um a… com o dizer, gradação. Cy ril, Valdez e Arm strong tinham passado ao ato, do tipo inaceitável. As punições deles eram , então, m ais severas que no caso de Louise.
– Não m e diga que tudo isso eram apenas m ensagens pra m im ? !
– Claro que sim ! – se surpreendeu ele.
A estupefação tom ou conta de Diane, a ponto de ela esquecer seu uísque.
– Sua reputação de excelência é notória e pública, m as ainda era preciso que eu a verificasse – ele se j ustificou. – Era o proj eto m ais im portante de m inha vida. Faço tudo o que for possível para isso, você não pode reclam ar disso.
– Não sabia que o budism o era com patível com o assassinato – ironizou ela.
– A essência do budism o é a supressão das dores. De certa form a, eu não m ato. Eu suprim o os terríveis sofrim entos das futuras vítim as.
– Um a pirueta inteligente – com entou ela. – E se eu m e levantasse e fosse contar seus segredos a m eus am iguinhos do FBI?
Nada incom odado, ele respondeu :
– Você não fará isso. Você precisa de m im e é indispensável pra m im .
– Preciso de você?
Diane pegou de volta seu copo de uísque e o esvaziou de um gole.
– Hum . Chegam os ao obj etivo de nossa colaboração : não sei chegar aos predadores. Já disse : os pedófilos são fáceis porque, em geral, dependem de um a rede de contatos. Em contrapartida, os assassinos em série, m uitas vezes solitários que não precisam de nenhum contato pra se divertir, estão fora de m eu alcance. Você, você sabe o que tem de fazer. Mas eu tenho apenas m inha determ inação – ia dizer, até, m inha paixão – e os m eios financeiros ilim itados. Nós som os dois com ponentes essenciais de um m esm o ser que devem se unir pra que ele chegue à sua plena funcionalidade.
Ela se recostou no encosto do sofá de linho e cruzou os braços. Ele seria louco? Não tinha certeza. Pelo m enos, não m ais que ela. E depois, não estava convencida de que som ente loucos capazes de esquecer-se de si m esm os podiam m udar o m undo? Diane poderia ter pensado a respeito durante horas, ponderado todos os prós e os contras. Entretanto, fazia j á doze anos que refletia. Conhecia os núm eros que indicavam que a lei era insuficiente, ultrapassada por um fenôm eno para o qual não tinha sido preparada, o dos assassinos em série. A lei é feita para e por pessoas que aceitam , a priori, as regras da civilização. Os assassinos em série não são esse tipo de pessoa. A lei tinha concedido a liberdade para cerca de trezentos assassinos, quase sem pre por questões processuais. Um deles foi o belo Rick. Todos tinham recom eçado a estuprar, a torturar, a m assacrar. Um gosto am argo e difuso invadiu Diane. Acreditara na lei, porque era um a m ulher civilizada que queria viver em um m undo civilizado. A lei foi quebrada. Prim eiro, com Leonor; em seguida, com todos aqueles cadáveres ou pedaços de cadáveres torturados que a tinham im pelido a encontrar os autores. E depois? Ela m esm a tinha m atado um predador. Sem nenhum rem orso. Por outro lado, para ela, era um a questão de proteger, som ente de proteger. Não era um desej o de m atar. A única coisa que a enfurecia era aquela aliciadora que tinha levado Leonor a seu algoz. Quem era exatam ente Nathan/Rupert? Adm itia : ele tinha chegado até ela, até suas em oções, com um a facilidade que a inquietava.
– Por que eu deveria confiar em você?
– Porque som os da m esm a raça e porque tem os o m esm o obj etivo. Cada um do seu j eito. Som os terrivelm ente sós, Diane. Seria um suicídio se nos traíssem os, não acha?
A psiquiatra fez um a pergunta que, em outras circunstâncias, teria sido um a infantilidade :
– Você gosta de m atar?
Ele riu :
– Não, não sou um psicopata que fica procurando m otivos para se entregar à sua diversão : m atar. – Um a onda de carinho encheu seus olhos de lágrim as. – Sinto um a… com o dizer… um a ternura extrem a em relação às vítim as… as crianças e as m ulheres, sobretudo. Os anim ais tam bém . Eles não podem se defender. Os hom ens dignos desse nom e desafiam aqueles cuj a força é equivalente. Os outros atacam indivíduos m ais fracos pra garantir que vencerão. Quero m ostrar que isso é falso. Acredito na evolução, Dra. Silver. São precisos poucos m achos pra reprodução, pra sobrevivência da espécie, m as são necessárias m uitas fêm eas. Confúcio disse : apenas um bule de chá enche dez taças. De que serviriam dez bules de chá se houvesse apenas um a taça? Então, por que há tantos m achos quanto fêm eas? Na espécie hum ana, quero dizer.
– Pra proteger.
– É isso ! Pra proteger a fêm ea, pois ela protege as crianças. Nós nos tornam os um a espécie transviada. Corrom pida. Os m achos atacam as fêm eas e as crianças. Os fracos. E não é nem pra com er nem pra se defender.
– Não. Nós som os um a espécie bastante fabulosa, na qual alguns elem entos estão corrom pidos Seriam ente corrom pidos. Nenhum a outra espécie possui elem entos tão desequilibrados com o a nossa. Nenhum a outra espécie possui elem entos tão geniais, tão m ágicos com o a nossa.
– Estam os de acordo. Só proponho rem over aqueles elem entos seriam ente corrom pidos do sistem a. Im pedir que eles prej udiquem o resto da espécie. Você sabe, existem psicopatas em algum as espécies de m acacos. Eles são m ortos pela com unidade, pelos m achos m aiores, ou excluídos de m odo a não poderem ficar a m enos de cem m etros do grupo, sob pena de serem m ortos.
– Eu sei. Contudo, são indivíduos cuj a m ãe estava longe de ser a ideal. Não suficientem ente presente, não suficientem ente autoritária, não suficientem ente am orosa e terna. Às vezes, um a m ãe m uito j ovem , m uito im atura.
– Trazendo pra nossa espécie, qual a relevância disso? As consequências nós j á sabem os, e são os inocentes que pagam o preço por elas. Deve-se tolerar que o belo Rick tenha torturado quinze m enininhas ou m ais sob o pretexto de que sua m ãe não era suficientem ente presente, suficientem ente autoritária, suficientem ente am orosa e carinhosa?
– Não. Além disso, na nossa espécie, isso não é sem pre verdade. Não foi assim no caso de Richard Ford. Sua m ãe foi testem unha no processo. Um a velha professora de inglês. Um a baixinha encantadora que adorava seu único filho. Ela não entendia. Estava arrasada.
Um a grande m argarida alaranj ada entre os dedos da garotinha. A m ão de um a m ulher com um anel de noivado e de um a aliança.
Diane tirou um pendrive do bolso de fora da m ochila que tinha deixado j unto do sofá e perguntou :
– E aquele fam oso Rom anée Conti?
Ele se levantou e cam inhou devagar na direção dela. Segurou sua m ão e a beij ou.
As cinco fotos da cena do crim e estavam proj etadas sobre um a im ensa tela que cobria quase a m etade da parede da sala do escritório de Rupert Teelaney. Fotos que pareciam cópias. Diane tinha explicado todos os detalhes dos relatórios m édico-legais e policiais.
– A últim a aconteceu há alguns dias – especificou, apontando para Bernice com o indicador. – Ele vai recom eçar. A caçada está aberta. Difícil, adm ito. É claro que esta é um a selva de concreto. Tem suas leis, todo m undo sabe. As j ovens que andam pelas ruas não ignoram . Os m alucos são um a legião, os policiais estão sobrecarregados, alguns à beira de um ataque de nervos.
– O que você sabe dele?
– Cruzando m inhas deduções com os relatórios : hom em , branco, entre vinte e cinco e trinta e cinco anos, m uito provável que de envergadura e corpulência m odestas e solteiro, de porte físico fraco, aparência tranquila, inofensiva, grande liberdade de m ovim entos e de horários, pois ataca a qualquer hora – logo, desem pregado, ou entregador, algum a coisa assim –, cabelo castanho escuro, ondulado, de tam anho m édio. Provavelm ente com um a inteligência m ais que m ediana; um cara organizado, j á que carrega um a m eia-calça nova e cordas e que escolhe o m otel antes de abordar a vítim a. Com plexo de inferioridade, pouco à vontade com o convívio social, o que com bina com sua condição solitária. Im potente em circunstâncias norm ais. Um ódio evidente por todas as prostitutas. Ah… im portante : não tem ficha crim inal. Tenho quase certeza de que o perfil é este, m as ele pode corresponder a um a infinidade tam anha de pessoas que acaba não sendo m uito discrim inante.
– Você sabe de algo m ais, não é?
Não se tratava de um a pergunta.
Um sorriso. Um a voz calm a :
– Este Rom anée Conti é um a m aravilha – declarou ela, colocando seu copo sobre a grande escrivaninha de m adeira wengé, que contrastava com o branco da sala. – O que pretende fazer pra m im ?
Rupert a saudou com o copo e degustou um gole, fechando os olhos de satisfação.
– Um a bela celebração. Posso acender um charuto?
– Por favor.
Ele acendeu o havano sem pressa e soltou um a longa baforada da fum aça de cheiro forte.
– Som os parceiros. O que você quiser que não contrarie m inha m oral.
– É assim que entendo a coisa. Procuro um a m ulher. Outra agulha no palheiro. Foi ela que levou Leonor pro seu assassino. Nova Iorque, há quinze anos. Um a m ão m uito bonita, longa, j ovem , fina. Acho que com um anel de noivado e um a aliança, m as não tenho certeza. São sím bolos que m e vêm à m ente. Nesse caso, os sím bolos significam que a m ulher era tranquila dem ais para um a m enina. Um lado m aternal, de proteção, de doçura, não sei ao certo.
– Entendo. O que acontece depois?
– Você m e cham a. Eu m e encarrego disso. Exijo que sej a eu. Ela é m inha, não se esqueça. Em troca, dou pra você todas as inform ações sobre o assassino de Boston. Esse é seu.
Rupert não teve dúvida de que Diane m ataria aquela m ulher se colocasse as m ãos nela. Um a reação de hum ana dom inante, alfa. De m ãe. Um a fêm ea sem piedade. Ele adorava as fêm eas.
Sua m ãe tam bém era um a fêm ea alfa. Ele se lem brava de sua risada. Ela não tinha m edo de nada. Pelo m enos, quando seu único filho estava envolvido. Ele. Ela gritava, am eaçava, batia. Louca, talvez. Foi o que lhe disseram . Mas um a louca… louca de am or pelo filho. Estranham ente, ela m al se defendia quando o porco escroto a estuprava.
Morreu quando ele tinha apenas oito anos de idade. Afogada, após um a overdose de cocaína, conform e a investigação. Rupert acreditara. Sua m ãe nunca o teria abandonado neste m undo de loucos. É claro que ela estava louca. O m undo enlouquece, não? E havia m otivo para ficar louca entre um m arido despótico e estuprador e um a sogra que odiava todas as m ulheres que se aproxim avam de seu filho. Um m al necessário, contudo, pois era necessário um herdeiro.
Sua m ãe nunca o teria deixado sozinho. Disso ele tinha certeza. Eles a tinham m atado. Seu pai e sua avó. Rupert ignorava com o, m as eles a tinham m atado. Ela sabia m uitas coisas sobre o im pério Teelaney para que seu pai aceitasse um divórcio. O j ovem Rupert tinha entendido que devia m anter a cabeça baixa, porque eles eram capazes de tudo. Ser o herdeiro perfeito, o queridinho do papai. Assum iu o papel.
Eles tinham m atado sua m ãe. Na piscina. Rupert sabia que ela não se drogava nem nada parecido. Ela am ava seu bebê. Nunca tinha am ado a não ser ele. Aqueles dois canalhas a tinham sufocado, responsabilizando-a por toneladas de coisas que não existiam . Fizeram com que ela parecesse um a idiota viciada e alcoólatra, incapaz de cuidar do filho. Do único herdeiro cuj os genes tinham sido verificados, legitim ados, para que se tivesse certeza de que eram m esm o os do pai.
Eles a tinham afogado na piscina.
Pela m anhã, Rupert a encontrou, boiando de barriga para baixo, os longos cabelos cobrindo sua cabeça com o um véu.
– Você vai m atá-la? – perguntou ele com um a voz suave.
– O que m ais poderia ser feito? Um a m ulher que entrega um a m enininha a um assassino pra que ele a estupre, torture, esquartej e e m ate em três horas e cinquenta e seis m inutos não tem , do m eu ponto de vista, nenhum a atenuante. Não haverá processo, eu garantirei isso. Advogados espertos ainda seriam capazes de inventar um a história em que ela, depois de ver o pai se m asturbando, teria ficado traum atizada, o que explicaria o resto ! Vam os parar de engolir essas psicoses goela abaixo. De qualquer m odo, os psicóticos não são doentes m entais, não são irresponsáveis. Pessoas inocentes não têm de m orrer porque tiveram a infelicidade de encontrá-los pelo cam inho. Ela escolheu? EU escolho. Minha escolha? Ela m orre. Sem um processo interm inável, sem apelação.
– Você tem vontade de torturá-la? – perguntou ele com o se fosse um a banalidade.
Diane sorriu, divertindo-se com aquela pergunta que havia feito a si m esm a durante sem anas. Tinha se visto utilizando um bisturi ou um m açarico, com o o am iguinho daquela m ulher quando torturara Leonor. Diane teria conseguido fazer isso : não sentia com paixão algum a pela aliciadora. Mas não. Com isso, teria sentido apenas um a gigantesca repulsa. Nenhum alívio, nenhum a recom pensa. Queria som ente m atar a m ulher, para colocar um ponto final na história de Leonor. Tinha a im pressão de que seu anj inho não poderia descansar sem isso.
Não se preocupe, m inha querida. A m am ãe vai cuidar de tudo. Durm a, am orzinho, durm a. A m am ãe está aqui.
– Não, m as j á pensei m uito nisso.
Ele j ogou a cabeça para trás, sorrindo. Diane o achou m uito sedutor. Talvez tam bém fosse um psicopata. Mas não im portava, desde que pudesse aj udá-la. Visto que a definição da psicopatia, em bora vaga, não convinha para Rupert nem para ela. Am bos eram capazes de gostar e de postergar seus desej os im ediatos. Am bos não se desviariam de seus valores m orais : proteger pessoas inocentes que ainda não sabiam que se tornariam vítim as.
– Ah… Tem os um a m issão a cum prir. Fazer m aldades de graça seria a prova de nossa im pulsividade, de nossa im potência. Ora, nós som os seres poderosos, não é?
Diane se perguntou por um instante se ele queria se convencer disso. Quanto a si m esm a, estava certa : era poderosa. No com eço, tinha sido im potente, e seu bebê estava m orto. Na verdade, era a culpada pelo calvário de Leonor porque fora incapaz de defendê-la. Logo após o desaparecim ento da filha, ela, a m ãe, tinha obedecido aos policiais, a seu pai e a seus am igos. Tinha esperado com o barata tonta. Durante esse tem po, um m aluco tinha m artirizado seu bebê. Ela deveria ter saído à caça im ediatam ente. Deveria tê-lo perseguido para m atá-lo, salvar Leonor. Não ficar em casa soluçando diante do telefone. Deveria ter sido um a fêm ea im piedosa em vez de um a m ulher bem -educada. Tudo aquilo acabara. O verniz de civilidade tinha trincado. Diane estava m uito satisfeita com isso.
Um a antiga lem brança a perturbou. Um a ratazana. Um bichinho enfurecido de vinte centím etros de com prim ento que não tem ia atacar alguém de um m etro e setenta. Diane, um a j ovenzinha, tinha encontrado o ninho na garagem dos pais. A ratazana tinha arrancado pedaços do que podia – borrachas, roupas velhas, guarda-sol, j ornais –, tudo para construir um abrigo confortável para seus filhotes. Quando Diane descobrira os cinco ratinhos guinchando, a m ãe estava ausente. Diane decidira sacrificá-los com um pouco de éter, em um saco plástico. Eles fizeram um a barulheira. Quando ela m ergulhou o últim o no saco azul-m arinho, cheio do vapor m ortal do éter, a ratazana apareceu. Diane tinha com preendido, então, que a fêm ea estava pronta para lutar pelos filhotes. A m enina, inquieta, pegara um a chave inglesa no arm ário do pai. A ratazana a fitava, encolhida, o olhar passando do saco onde seus filhotes acabavam de ser asfixiados para os olhos da hum ana. Não sentia m edo. Não m edo de m orrer. Estava louca de ódio. Apenas procurava o m elhor ângulo para atacar. Saltar sobre o rosto da m enina, da assassina de seus bebês. Diane com preendera isso. Um a im ensa adm iração por aquela fêm ea a tinha invadido. Ela recuara até a porta da garagem , sem deixar de olhar nos olhos do anim al. Tinha aberto espaço para que a ratazana fosse em bora :
– Salve a própria pele. Salve a própria pele, porque senão vou ser forçada a m atar você. Vai procriar em outro lugar. Juro que, m esm o se encontrar você de novo, não os m atarei.
A ratazana tinha hesitado. Após um últim o olhar para o saco plástico, tinha ido em bora.
Diane se transform ara naquela ratazana. Muito m aior, m uito m ais perversa, m uito m ais perigosa.
– Você tem razão, Sr. Teelaney. Som os poderosos porque não tem os m ais m edo. Você sabe o que é o m edo? É a ideia da nossa própria m orte. Um a vez que você decidiu que não tinha nada a perder, m as que não ia entregar os pontos não há m ais m edo.
– É j ustam ente isso !
– Quero aquela m ulher m orta. Se tiver de arriscar m inha pele, não tem problem a, contanto que ela m orra e que saiba por que : por causa de Leonor. Se… eu não estiver à altura de m inha tarefa… Você teria a bondade de levá-la a cabo pra m im ? Mas não antes.
– É claro. O que você tem sobre ela que pode facilitar m inhas… pesquisas?
Ela se inclinou sobre o teclado e abriu outro arquivo.
– Pouca coisa. Grande erro de m inha parte. Só há pouco tem po tive… a certeza de que ela existia. Tudo o que você encontrará aí dentro é sobre ele, o assassino, Richard Ford, o belo Rick ! Detalhes fora do inquérito que recolhi sobre ele, após a m orte de Leonor, após o arquivam ento do processo, exatam ente antes do im enso serviço prestado por aquele traficante que atirou nele. Os restaurantes e os cafés que ele frequentava, suas loj as preferidas, esse tipo de coisas.
– Então, você j á suspeitava que… a história não tinha term inado? Fascinante.
– Algo na m inha cabeça m e dizia que ela estava incom pleta.
– Então, com eça um a segunda caçada. Mais um copo?
– Com m uito prazer. Acho que vou aceitar sua oferta de aloj am ento pra esta noite.
– Fico satisfeito e lisonj eado. O que você tem m ais sobre o assassino de prostitutas?
– Um a certeza e um a convicção que não com partilhei com os dois agentes encarregados da investigação.
– É um sinal. Você sentia que ia oferecê-las a seu parceiro antes m esm o de encontrá-lo. Eu.
Ele estaria brincando?
Mais um a vez, Diane m ostrou o m osaico de fotos da cena do crim e.
– Olhe bem . Eu aj udo : não se preocupe com as diferenças físicas entre as vítim as. Concentre-se nas encenações. Elas parecem idênticas? Errado ! Adm ito que tam bém fiquei m uito tem po em pacada aqui…
Rupert, o rosto tenso, se aproxim ou da tela gigante.
– Contudo, antes de responder, digo o que acho. Im aginei o assassino carregando um a grande cruz austera de m adeira. Mais um a vez, é um sím bolo inventado pela m inha m ente. Ele deve ter, carregar, não im porta, algum a coisa que fortaleça sua im agem inocente, tranquilizadora, inofensiva. Recruta suas vítim as entre as prostitutas baratas dos bairros desfavorecidos. Em outras palavras, j ovens m ais que desconfiadas e que não têm nenhum a ilusão de que o m undo é um lugar bom . No entanto, ele consegue levá-las a m otéis que não costum am frequentar.
Rupert Teelaney não tirava os olhos da tela. Murm urou :
– Adoro sua m ente !
Aquela declaração a fez sorrir. Provocado, ele prosseguiu :
– Em com pensação, a m inha m e decepciona ! Não vej o nada de diferente, Dra. Silver.
– Os nós.
– Com o?
– Observe os nós das cordas e da m eia-calça. Os dos pulsos e das pernas.
No pesado silêncio que se seguiu, ela sentiu a concentração dele.
– Droga… desisto ! – exclam ou, exasperado, virando-se para ela.
– Ele é am bidestro. Um verdadeiro am bidestro, e não existem m uitos. Existem , ao contrário, m ais am bidestros lateralizados.
– O que significa isso?
– O lobo esquerdo do cérebro controla a m ão direita, enquanto o direito controla a m ão esquerda. Os am bidestros lateralizados são pessoas que sistem aticam ente fazem um gesto com a m ão direita e outro com a esquerda. Por exem plo, indivíduos que levantam seu copo com a m ão esquerda, m as que escrevem com a m ão direita. Estes são, no m ais das vezes, canhotos que, ou de m odo forçado ou pra serem aceitos em um grupo, aprenderam a utilizar a m ão direita pra algum as ações. O caso do assassino é m uito diferente. Ele faz perfeitam ente o m esm o gesto com as duas m ãos. Tem quem diga que isso não é bom do ponto de vista psicológico.
– Por quê? Pelo m enos, se ele quebra um a m ão, pode utilizar a outra !
– Faz sentido, dito assim . Entretanto, alguns psicólogos pensam que o fato de ser am bidestro não aj uda o suj eito a se posicionar m ais tarde nas suas ações. Mas há exem plos conhecidos que derrubam essa teoria. Duvido que o Dr. Schweitzer, prêm io Nobel, teve dificuldades para se posicionar !
Foi a vez de Diane se aproxim ar da tela, apontando para as duas prim eiras fotos com o indicador :
– Aqui e ali, todos os nós foram feitos por um destro. Acho que foi por isso que os policiais não perceberam . Caso eles tenham realm ente verificado. De qualquer m odo, o legista do Instituto Médico Legal se preocupou com isso, pelo m enos na prim eira autópsia. Era um destro, então era um destro. Inútil ir m ais longe.
Fascinado, Rupert aproxim ou a cabeça da tela a ponto de roçá-la. Depois reproduziu o gesto de entrelaçar duas extrem idades com um a corda.
– Ah… ali, na terceira foto, os nós no alto das coxas e dos punhos estão invertidos !
– Para um destro, corrigiu Diane. Na quarta foto, todos os nós das pernas foram feitos por um canhoto. E, na últim a, apenas o nó que prende os j oelhos foi feito por um canhoto.
– O palheiro se reduz – ele suspirou, satisfeito.
– Sobretudo porque existem associações onde am bidestros se reúnem .
– Você disse que era um solitário. Ele deveria estar sem pre fugindo de grupos e reuniões, não?
– Um solitário, não tem com o negar. Entretanto, vej o-o com o alguém que acha que está com a razão e quer encontrar j ustificativas pras suas atitudes. É bem com um nos psicopatas. Ou sej a, ele não faz nada de anorm al, ele é “norm al”, segue a norm a, com o os outros. Então, não é culpado. Um a associação é ideal pra essas pessoas. É possível encontrar quem com partilhe um a m esm a particularidade com você e que sej a “norm al”, sendo a convivência lim itada às reuniões.
– Brilhante… m as psiiiu ! – interrom peu ele gentilm ente, o indicador sobre os lábios. – Você está fazendo m eu trabalho de caçador. Tenho de provar pra você que estou à altura.
– Estam os avançando ! – Ela ergueu o copo e tom ou um longo gole do precioso vinho. – Bem … Não tenho m ais necessidade de m inha lucidez. Vou m e em bebedar até cair.