Na mente, o veneno
Capítulo 15
Fredericksburg, Virgínia,
Estados Unidos, junho de 2008
Diane Silver acendeu um cigarro e releu a m ensagem que acabava de receber de Yves Guéguen.
Cara mentora, como você anda se comportando? Quero preveni-la antes que a Interpol tome conta do caso. Naturalmente, eu não revelei nada e você entendeu tudo sozinha, graças à borra de café ! Dois jovens franceses, de famílias burguesas e católicas, morreram em circunstâncias estranhas, com vinte e quatro horas de intervalo. Detalhe perturbador : os dois eram amigos próximos e estavam numa onda gótica de tendência satânica, coisa séria a priori. A garota, Louise Heurtel, dezesseis anos, foi morta “sem frescuras”, de modo cirúrgico ou próximo a isso, com uma adaga na garganta, em uma mansão em Neuilly onde ela não tinha nenhuma razão para estar. O menino, Cyril Janet, dezesseis anos também, foi “cuidado” com um tratamento especial, esfolado, em grande parte, ainda em vida, na própria casa. O disco rígido de seu computador foi retirado. Em compensação, a Polícia Criminalística recuperou o da menina. Ela tinha deletado muita coisa. De modo tão desajeitado, no entanto, que nossos técnicos conseguiram restaurar. Jeanne, a irmãzinha de Cyril, que ele tinha intenção de matar – não é piada – me confiou, secretamente, o pen drive que seu irmão tinha escondido. Louise e seu amiguinho Cyril agiam de modo brutal. Ele sufocou um bebê no carrinho, para completar sua “iniciação”. Ela estava determinada a matar a mãe, Sara, uma pesquisadora, viúva, depois seu irmão de doze anos, Victor. Era o credo da raça superior, que se limitava a eles e a dois interlocutores na internet, entre eles o mentor de Cyril, supostamente um canadense. Envio-lhe um arquivo em anexo com alguns dados recuperados de e-mails trocados entre nossas charmosas crianças, especialmente um no qual Cyril descreve o orgasmo que teve imaginando que degolava a irmãzinha de onze anos. Edificante. Em outras palavras, nem você nem eu choraremos a morte desses dois malucos, no mínimo sociopatas confirmados. Contudo, uma coisa me intriga, talvez porque eu esteja tão desocupado que vejo assassinos em série em todos os lugares ! O endereço IP do computador do “mentor” canadense, recuperado do USB, corresponde a um cybercafé de Toronto… fechado faz dois anos. Estranhamente, de acordo com nossos colegas canadenses (que são brilhantes, como você sabe), o comércio em questão não está nem à venda nem para alugar. Serve como
retransmissor para outro computador? Os canadenses cavoucaram essa pista. O “mentor” se expressa em um francês quase perfeito (cometendo menos erros de ortografia que eu). Verifica-se também que alguns modos de dizer são indiscutivelmente anglo-saxões. Envio-lhe uma cópia dos arquivos do USB. Sirva-se antes de um bom uísque, você não se arrependerá. A menina tinha razão. Ele se filmou estrangulando um gatinho. O idiota tinha uma ereção. Dezesseis anos. Um abraço,
Yves.
P.S. : Não tenho certeza se somos humanos, eu e você. Não tenho certeza se quero ser humano.
Diane soltou um a longa baforada de fum aça e respondeu :
Dois potenciais assassinos estão mortos. É sempre um ganho. Amo a eficácia. Não me importa o fato de terem dezesseis anos. Assassinos são assassinos, seja qual for a idade. A propósito, essa história de idade é bobagem. Na Idade Média, era-se adulto com doze anos. Esfolado, onde? Quais partes do corpo? Com que tipo de arma? Um escalpelo, uma faca?
Um abraço,
P.S. : Humano? Tudo depende da definição, meu caro. Humano é mérito, é conquista. Não se herda ! Não se é humano pelo simples pretexto de que se caminha com duas pernas em vez de quatro e de que se sabe ligar um aparelho de televisão, abrir uma lata de cerveja ou atender ao telefone. Se é humano porque se escolhe e porque se trabalha para se tornar um e permanecer um. Pelo menos, é a MINHA definição.
Diane hesitou. Yves tinha razão. Aquilo m erecia um bom sedativo. Pegou a garrafa de Glenm orangie deitada em um a das prateleiras do alto m óvel dos dossiês. No prim eiro gole, ingeriu tam bém dois calm antes em form a de robustos grãos de arroz, lançando um olhar para o relógio. Quatro horas da m anhã na França. Suspirou de exasperação. Teria um a resposta apenas no outro dia. Um sininho alegre a desm entiu. Yves acabava de enviar um e-m ail, prova que tam bém estava sem sono.
Silver – não você, mas minha cadela – está com gastrite… eu fico cuidando dela ! Pobrezinha, ela está mal… para cachorro. Não indiquei esses detalhes na primeira mensagem, certo de que sua curiosidade faria o resto e você me responderia o mais rápido possível. Ganhei ! As coxas e o rosto. A operação era delicada, necessitou de tempo – em outras palavras, eu teria odiado estar no lugar de Cyril. A arma : uma faca de caça com lâmina serrilhada. Tenho certeza de que esse detalhe vai excitar seus neurônios : sem escalpelo, sem estilete, muito limpo, muito moderno. A boca do garoto – ou melhor, do assassino ainda verde –, estava tapada com uma fita, para evitar que se ouvissem os gritos.
Ele estava amarrado na cadeira de sua escrivaninha. Foi morto após a extração do último pedaço de pele. Um golpe muito limpo com a lâmina na carótida, como Louise. Ele perdeu o sangue que restava. Nenhuma impressão digital, nenhum traço do assassino, nada. Como no caso de Louise. Se isso diz algo para você, me conte, para me salvar do tédio. Um beijo na testa, na ausência de algo melhor !
Ela sorriu ao term inar de ler.
Gostaria de lembrar que sou uma mulher honrada e madura. Consequentemente, você só tem o direito, na verdade, de me beijar na testa, ou na ponta dos dedos, o que seria ainda mais chique ! Sim, isso me diz algo que ficará somente entre nós. Um assassinato em Nova Iorque, faz alguns meses. É preciso que eu pegue o processo para verificar os detalhes. Por desencargo de consciência, porque me lembro muito bem disso. As semelhanças nos assassinatos são perturbadoras. Um tal de Stanley Armstrong. Um cara esperto que, no momento certo, ganhou uma bolada especulando em companhias start-
up12 de biotecnologia. Tinha um apartamento na França, outro em Miami. A sobrinha herdou tudo. O dossiê desse sujeito está aqui, no escritório. Você conhece minha paranoia crônica : não guardo nada em Quantico. Não durma. Faça um carinho na Silver por mim, isso o manterá ocupado. Pesquiso e depois conto tudo.
A resposta não dem orou :
Silver – não você, a outra – ronrona de felicidade, o que, para um buldogue, se traduz em roncos e pigarros que acordam os vizinhos : estou coçando a barriga dela. Aproveito sua pesquisa para ser mais ousado : como vai você? Refiro-me ao ladrão que matou. Em legítima defesa, insisto !
Diane acabava de pegar o dossiê verm elho no qual constava, em letras garrafais, um nom e : STANLEY ARMSTRONG. Acendeu um cigarro e soprou a fum aça sobre a tela : adorava vê-la se desfazer na superfície de vidro e, em seguida, sum ir pelas bordas. Hesitou. Yves era a única pessoa a quem podia dizer a verdade. Entretanto, “dizer a verdade”, às vezes, não era m ais do que um conforto para ela m esm a, apenas. Esvaziar a própria lata de lixo m oral sobre o outro para relaxar. De tem pos em tem pos, é preciso gostar bastante das pessoas para m entir, lidar com a culpa e não se desem baraçar desse sentim ento a um custo baixo. Confessar é se absolver. É igualm ente, por vezes, entulhar o outro com arrependim entos, lem branças que não lhe pertencem e que ele não tem nenhum a vontade de ouvir. Ela com eçou :
Eu minto educadamente para Folston, o psicólogo que tive de escolher para agradar ao escritório, para tranquilizar o pessoal de lá. Ele é
gente boa, faz o que pode para me ajudar. Além disso, permitir que ele penetre na minha mente seria a pior maldade que eu poderia fazer. Ele não merece. Poucas pessoas merecem esse tipo de punição. Sobre o ladrão, que fique entre nós… não me importo de tê-lo matado. Nenhum arrependimento. A única coisa que acaba comigo é que tive medo dele. Bom, deixe-me ir por alguns minutos, o tempo de vasculhar o dossiê.
O indicador hesitou sobre o botão “Enviar”, sobre a verdade. Por honestidade, por respeito pela inteligência de Yves, apagou a antepenúltim a frase antes de despachar a m ensagem . Encheu outro copo de uísque e acendeu um cigarro. Merda, não deveria ter tom ado o rem édio para dorm ir tão cedo.
Um barulho distante, de vidro se quebrando; cacos que estilhaçavam no chão. Um som vago no cochilo de Diane, entorpecida, com o todas as noites, pelos rem édios para dorm ir e o uísque. Não suficientem ente entorpecida. A prova : só raram ente conseguia adorm ecer por com pleto. Um tum ulto no térreo a livrou dos pesadelos, nos quais se m isturavam im agens dos últim os dias e as do vídeo do suplício de Leonor. Caso se leve em conta as recentes teorias da neurologia, os sonhos são apenas lixeiras que perm item ao cérebro descartar as m em órias supérfluas. A encenação deles, a pretendida significação som ente intervinha a posteriori. Lixeira? Um a lixeira m uitíssim o tenaz, um a vez que quase toda noite, salvo quando estava m uito bêbada, sonhava com o calvário de sua filha. Durante o dia, ao m enos, conseguia disciplinar as visões, m anter distância. Conseguia selecionar som ente os m ais belos m om entos de suas vidas. Não à noite. À noite, os neurônios escapavam ao seu controle.
Diane voltou à cam a e pegou o revólver guardado na gaveta da cabeceira. Destravou a arm a e se levantou. Atravessou o quarto e entreabriu a porta. O eco na escada de um passo pesado, hesitante.
Ele chegou ao piso, ilum inado pelo feixe de sua lanterna. Jovem , vinte e quatro, vinte e cinco anos. Ela saiu para o corredor, pés descalços, vestida com um a cam iseta com prida, e ligou a lâm pada do teto. Um instante de incerteza : ele não entendia a cena. O m odo com o um edecia os lábios com a língua, o estado das pupilas, o suor que lhe escorria pela testa a despeito do frescor da noite, os pequenos m ovim entos nervosos da cabeça, dos om bros, lem brando tiques, tudo indicava : ele tinha cheirado m uita cocaína, fum ado crack ou se entupido de anfetam inas.
O olhar de Diane caiu sobre a navalha que ele segurava. Um a lâm ina de navalha que brilha sob a luz de um a lâm pada de teto é bonita. Tão im placável. A navalha trem ia em sua m ão. Um efeito da droga, não de insegurança. Estava pronto para m atá-la, se tivesse a oportunidade. Ela lia isso em seu olhar, no rangido de sua m andíbula. Levantou o revólver e apontou. O cano parecia com o selado no ar.
O belo rosto do hom em de cabelos ondulados, um pouco longos, se decom punha. Sentia m edo porque, no lugar de um a vítim a am edrontada, acabava de encontrar um a inim iga poderosa.
– Oh ! Cara… Oh, vam os se acalm ar… Uh… Estou parado, ok… Peguei algum as coisas lá em baixo, m as desisto, não levo nada, ok…
Sem deixar de olhá-la, recuou na direção da escada. Ela sentiu o alívio dele. Era um a m ulher, não ia atirar, m uito contente por evitar um estupro, um espancam ento, até m esm o um hom icídio.
Diane m eneou a cabeça em sinal de recusa e m urm urou para si m esm a :
– Não… É o m om ento de saber…
Esvaziou o cartucho na barriga do hom em , sem pestanej ar. Bala após bala. Sem som bra de m edo ou de rem orso. Ele desabou e despencou de costas escada abaixo.
Ela finalm ente acabava de encontrar um a resposta à pergunta que a assom brava desde a m orte de Leonor : seria capaz de m atar um predador a sangue frio?
Um a segunda resposta a satisfazia : se não sentisse nenhum arrependim ento, não experim entaria nenhum prazer. Ainda era hum ana, segundo sua definição. Podia m atar. Sem nenhum j úbilo.
Passou os quinze m inutos seguintes a tecer um a bela história para os policiais. Falaria do pânico de um a m ulher sozinha diante de um viciado arm ado. Afinal de contas, era um a das m elhores profissionais, não? O escritório exigiria que consultasse um psicólogo a fim de assegurar sua estabilidade em ocional. Já sabia que escolheria um j ovem charm oso que clinicava em Fredericksburg, um suj eito cham ado Folston. Um hom em legal, pelo que tinha ouvido. Bom profissional tam bém . Mas não para gente com o Diane, ou para aqueles contra quem ela lutava cada segundo de sua vida. Em sum a, um psicólogo com um , m anipulável, exatam ente o que precisava.
Diversão. O escritório a m im ava porque era um a das m elhores especialistas em psicologia crim inal do m undo. Era capaz de penetrar em m entes tão conturbadas que a sim ples m enção a elas dava vontade de chorar e vom itar. Passava m eses nessas m entes. Dia e noite, chafurdava em seus excessos sangrentos ou em sua feroz m ediocridade. Acabava por ver com os olhos delas as m utilações terríveis que infligiam para ter prazer, por ouvir com seus ouvidos os gritos anim alescos das vítim as. E deveria ser um a gentil senhora norm al? Nenhum ser hum ano perfeitam ente “norm al”, dentro do padrão, pode suportar essa “profissão”. Um legista pode se blindar, deve fazê-lo : unicam ente seu intelecto está em j ogo. Porém , de tem pos em tem pos, a blindagem sofre fissuras. Mas é um a bela fissura, m esm o quando m achuca : um a grande em oção ocasionada pela visão de um a vítim a, pela com paixão. Nada a ver com um profiler, pois este deve absorver o desviante, o sádico, o assassino que se deleita com o crim e. Basicam ente, só as lem branças de Leonor a im pediam de se inclinar para o outro lado, que alguns, por sim plificação, cham ariam de “loucura”.
Lutando contra um a espécie de letargia que lhe invadira o cérebro, espalhou as peças do dossiê sobre a m esa. Estranho : ela, que agora era incapaz de lem brar se precisava com prar leite, pão ou xam pu, conseguia m em orizar o m enor detalhe dos relatórios da autópsia ou da polícia, as fotos de cenas de crim e, ao final de um a sim ples consulta.
O dossiê sobre Stanley Arm strong era tão fam iliar que parecia que o tinha estudado no dia anterior. Quarenta e dois anos, nova-iorquino de adoção, nascido no Kansas, vivendo, m uito confortavelm ente, da renda de seus sábios investim entos em ações no m ercado financeiro, solteiro, sem filhos. Um a irm ã m uito m ais velha, diagnosticada com Alzheim er, um a sobrinha de vinte e oito anos. Nenhum outro parente. De acordo com a investigação policial, um a vida regrada com o um relógio : segunda, j antar rápido em um restaurante tailandês. Terça, pizza pelo tele-entrega. Quarta, um restaurante italiano em baixo do seu apartam ento. Quinta, j antar na casa de repouso onde a irm ã m ais velha passava um longo e vão com bate contra a degeneração. Sexta, ficava em casa. Som am -se a isso duas idas sem anais à academ ia de ginástica e um a ida à natação. Sábado e dom ingo, concedia a si m esm o pequenas saídas, frequentem ente à Nova Inglaterra, m ochila e piquenique, em com panhia de três am igos que só sabiam duas coisas dele : fazia um a m aravilhosa torta de m açã com canela e tinha paixão por árvores, das quais sabia tudo e m ais um pouco. À parte isso, conform e os depoim entos de am igos ou vizinhos, o senhor Arm strong era um suj eito reservado, educado, sem senso de hum or nem m uito criativo, m as um cidadão exem plar que separava escrupulosam ente o lixo a ser reciclado.
Sua sobrinha, Susan Arm strong, inquieta com o silêncio do adorado tio que tinha exercido um pouco o papel de pai na sua vida (a m ãe tinha sido abandonada quando a m enina não tinha nem três anos) acabou batendo na sua porta, Arm strong não respondia aos insistentes cham ados da m oça. Ela havia exigido que o porteiro do im óvel abrisse a porta do apartam ento, e em seguida se viu rodeada por um a nuvem de m oscas enfurecidas pela interrupção do banquete. Stanley Arm strong estava m orto havia três ou quatro dias. Um a carnificina adm iravelm ente organizada.
Diane m ergulhou em reflexões. Não tinha necessidade das fotos; entretanto, espalhou-as diante dos olhos e em seguida os fechou. As gravuras arm azenadas em sua m ente eram m ais precisas, m ais preciosas. O patético cadáver de Arm strong se decom punha, nu, sentado em um a cadeira. Cada tornozelo tinha sido preso com um a larga fita adesiva cinza ao pé da cadeira, e os braços estavam am arrados nas costas, atrás do encosto. Um a enorm e m ordaça, da m esm a fita, cobria a boca. A pele do rosto tinha sido retirada, m eticulosam ente, com o a das coxas, deixando os m úsculos azulados pelo entrelaçam ento das veias. O ritual do assassinato tinha durado m uito, m uito tem po. A priori, não tinha term inado, ao contrário do do j ovem francês. Não houvera tem po suficiente para continuar o j ogo até o fim ? Ou, então, ele tinha m orrido de ataque cardíaco. Mas todo m undo m orre de ataque cardíaco. O coração para, nada m ais. Fica a dúvida sobre por quê. Um sofrim ento intolerável? Um a hem orragia fatal? Um a m orte violenta? Nada parecia ter sido roubado, exceto o disco rígido do com putador de Arm strong. Outra sem elhança com o j ovem psicopata francês.
Diane deu um a olhada nos relatórios. A vítim a possuía não um apartam ento na França, m as um a m ansão em Neuilly. Diane não tinha a m enor ideia onde ficava isso. Provavelm ente era um a cidade pequena.
Enviou um e-m ail a Yves, inform ando o endereço, e perguntou :
Onde fica?
A resposta veio em m enos de dois m inutos.
Um lugar chique, não muito longe de Paris. Exatamente o lugar onde foi encontrado o cadáver daquela menina, Louise Heurtel. Avançamos, minha linda !
Ela digitou a resposta, um sorriso esticando os lábios :
E se você me dissesse o que acha e o que lembra do caso? Não me engane. Conheço-o como se tivesse tricotado você, excetuando o fato de que não sei tricotar.
Diane se serviu de outro copo de uísque. Com eçava a se sentir m ais lenta, m ais calm a tam bém . Ou m elhor, m enos ágil. O sininho avisando a chegada de um a m ensagem a sobressaltou.
Ah, você sentiu. Tinha certeza disso e não estou certo de que isso é bom para mim. Note : também não estou certo do contrário. Acabei de ter uma ideia inverossímil, idiota, sem nenhum fundamento objetivo, mas que não consegui tirar da cabeça. Bom, vou lhe poupar de uma troca de e-mails expondo tudo, correndo o risco de me ridicularizar aos teus olhos.
Os assassinatos de Louise e de Cyril foram muito estruturados, premeditados, é evidente. Não se trata de vítimas aleatórias. O assassino queria matar exatamente os dois. Se levou o disco rígido do menino, é porque, possivelmente, temia ser identificado a partir dos dados ali contidos. Então, de uma maneira ou de outra, conhecia ambos os jovens, o que explica o fato de Cyril tê-lo convidado a ir à sua casa. Talvez seja ele o mentor canadense do garoto. Seja como for, teve cuidado de levar Louise para uma mansão. Matou-a de modo “gentil”, podemos dizer, diferente do garoto, que sofreu gravemente. Pergunto-me se não queria proteger a mãe de Louise e seu irmão, poupando-os até da visão do cadáver da filha, enquanto que não se importava com os Janet. Você acha que estou fantasiando?
Diane term inou o copo, lutando contra o torpor quím ico induzido pelo sonífero.
Não sei. Sua teoria faria sentido se ele tivesse um interesse particular por Sara Heurtel e seu filho. Porém, não há indícios suficientes. Igualmente, seria preciso que o sujeito fosse assustadoramente inteligente, que tivesse um plano a longo prazo. Nada comprova isso. E, depois, como você conecta Sara Heurtel a Stanley Armstrong? Mas está certo, você aproveitou algumas lições. Construir todas as teorias possíveis ou impossíveis. Entretanto, jamais se agarrar a nenhuma delas
se os fatos não se encaixam. Tenho de ir. Vou deitar. Bebi muito e tomei muitas pílulas. Minha cabeça está girando.
Diane Silver desligou o com putador e saiu do escritório após ter beij ado o sorriso de Leonor e acariciado com a ponta dos dedos a grande m argarida alaranj ada. Apenas no dia seguinte conheceria a resposta de Yves a seu últim o e-m ail :
Mesmo se isso não for importante, suplico, tenha cuidado. Um pouco. Sentiria terrivelmente a sua falta, e o mundo sentiria ainda mais, minha flor. Gosto muito de você. Descanse. Minha Silver, aquela que dorme do meu lado, cochila como um bebê.
Envio um abraço forte e lhe desejo uma noite desprovida de sonhos. Yves.
12 Com panhia start-up é um a em presa geralm ente recém -criada, em fase de desenvolvim ento e pesquisa de m ercado.