Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 34 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 34

 

South Dorchester, Massachusetts, julho de 2008

Rupert Teelaney levantou a cabeça na direção do alto-falante redondo, bege por causa dos vapores gordurosos e da poeira, situado j ustam ente acim a de sua m esa. Um a voz de m ulher estridente e fanhosa flutuava sobre os acordes de um a cítara. Era algo m uito distante de um Ravi Shankar.

Com o sem pre, Thom as tinha feito um excelente trabalho. Sentado em um angustiante restaurante indiano de Mount Vernon Street – Le Taj Mahal Palace –, onde tinha pedido um não m enos deplorável curry de legum es com em padas de queij o e um prato de arroz am arelo e seco, Rupert consultava de novo o relatório entregue pelo detetive, assim com o as fotos tiradas com um a teleobj etiva. Após um prim eiro exam e, j á tinha selecionado o candidato que m ais lhe agradava.

Um a apreensão bastante agradável tom ava conta dele. Teria feito a escolha certa? Caso contrário, sem pre seria tem po de recuar. Diane tinha falado de m im etism o, e ele tam bém tentou esse processo m ental.

Dispôs na sua frente, sobre a toalha de papel, três fotos de hom ens, todos da m esm a faixa etária, da m esm a estatura e com o cabelo da m esm a cor, todos os três am bidestros e m em bros de duas associações j á localizadas, m esm o que não estivesse certo de que o assassino fosse m em bro delas.

Ele se concentrou no estudo da prim eira foto, a de um entregador de um a lavanderia em Jam aica Plain.

Um a voz o sobressaltou : era o garçom rechonchudo e j ovial do m edonho “palácio”. O suj eito perguntou, num inglês colorido pelo sotaque :

– Acabou?

– Não.

– Um a sobrem esa?

– Não term inei – repetiu Rupert com um a voz que crescia em irritação.

– Ok, ok.

– Já que está aqui, você poderia baixar um pouco a m úsica?

– Ok, ok. São irm ãos? – perguntou o garçom , debruçando-se sobre o om bro de Teelaney e apontando com o indicador gordo e com prido para um a das fotos.

Rupert j ulgou a questão engraçada, e seu m au hum or se dissipou no ar :

– Não, candidatos pra um papel.

– Na televisão?

– Sim . Para um papel de cadáver – respondeu erguendo os óculos retangulares para o suj eito.

Adm irado, o garçom com entou :

– Legal !

E voltou para a cozinha.

Entrar na cabeça de um a m ulher ele conseguia. Sentia por elas, vítim as preferenciais, um a ternura m isturada com piedade. No bom sentido. Im iscuir-se no cérebro de um a puta de bairro barra pesada seria m ais difícil. Saber que qualquer cliente pode se revelar um m aluco, alguém perigoso. Ter entendido que não existe m ais nenhum a bondade, nenhum a generosidade. Jam ais abandonar um território conhecido, m inim am ente confortável, por um lugar estranho, am eaçador. Estar todo o tem po pronta para o que der e vier, procurar sinais de perigo. Nunca acreditar no cara que a acom panha.

Na foto 3x4, o entregador, um tal de Ted Sim m ons, conversava na calçada com um hom em de quem Rupert via apenas um pedaço da careca. Ele tirou do dossiê de Thom as um a foto am pliada do rosto. Sim m ons sorria, um sorriso m aquinal, apenas um estirar de lábios. Rupert observou a ponta do nariz, a linha do m axilar, as bochechas um pouco afundadas, as sobrancelhas grossas, quase retas. Se fosse um a prostituta desconfiada e aquele cara lhe propusesse trinta dólares por um program a, o que faria? Iria onde estivesse acostum ado a ir. E se o suj eito insistisse em levá-lo para um local desconhecido? Não. Não com aquele m axilar quadrado, não com aquelas sobrancelhas. Com toda a delicadeza, Rupert o m andaria passear.

Teelaney suspirou de felicidade. Estava perto, tinha certeza !

Recolheu as fotos dos dois am bidestros de South Dorchester. Analisou rapidam ente as de um tal de Ken Ham m ond, desem pregado. Os olhos próxim os, o nariz com prido e os lábios finos traíam – pura suposição – um tipo de violência escondida.

Seu favorito, agora : Stephen Grady. Espalhou as fotografias em volta de seu prato de curry. Reprim iu o princípio de excitação que lhe correu pelas veias. Sem precipitação. Enganar-se estava fora de questão. Stephen : bonito, com suas bochechas infantis, o sorriso hesitante, os cabelos puxados com cuidado para trás das orelhas. Ele entregava um a nota à j ovem m ulher que vendia sorvete na rua, com a cabeça coberta por um capacete branco de beisebol. Rupert pegou a foto am pliada. Poderia ter de dezoito a vinte anos, em bora, conform e o relatório de Thom as, tivesse vinte e oito. Com cerca de dezoito m eses de vida, Grady tinha

sido encontrado, na m anhã de Santo Stephen,16 diante da entrada de um orfanato católico, com o m anda a tradição. Bastante debilitado e sofrendo de asm a, tinha sido levado a casas de adoção, voltando sem pre ao orfanato. No final das contas, não saiu de lá, pois sem pre esteve em pregado na paróquia Saint-Andrew, que pertencia à instituição de caridade onde foi educado. Grady era encarregado de pequenos trabalhos pouco exigentes : com pras, um pouco de m anutenção, o m onitoram ento dos vasos de flores e das velas dos altares.

O olhar de Rupert caiu sobre o broche preso na gola da cam isa de Stephen. Um a pequena cruz de prata. Sem dúvida, ele gostava m uito dela ! Atenção, a caça devia ter lugar sem a priori, sem im paciência, sem im pulsividade. Sobretudo, sem errar a presa.

Um pensam ento em ocionado lhe ocorreu : Diane era ainda m ais excepcional do que im aginara.

Mem orizou o endereço inform ado por Thom as, guardou o dossiê num a m ochila e cham ou o garçom , de repente ansioso para sair logo.

Rupert Teelaney estacionou o pequeno carro cinza pálido alugado, escolhido por ser de fácil locom oção, diante do prédio de tij olos aparentes em Devon Street, perto do cruzam ento com o William Morrissey Boulevard. A espera com eçava. Podia ser entediante para um a m ente m al preparada, que procurava apenas um a distração, pulando de um pensam ento a outro. Não para ele. Abriu o Boston Globe e o estendeu sobre o volante para m anter as aparências, não cham ar a atenção, e m ergulhou num a espécie de m editação vigilante, observando cuidadosam ente tudo o que o rodeava. Era um prédio de cinco andares, ladeado por escadas de incêndio que conectavam passarelas de m etal transform adas em varais ou em m inúsculos j ardins por alguns dos m oradores. Um m enino negro estava sentado sobre os degraus que levavam à entrada do im óvel, fascinado pelos carros que chegavam da direita. Rupert logo com preendeu o m otivo de seu interesse quando ouviu o sininho do vendedor de sorvetes. O rapazinho se levantou de um salto e se postou sobre o m eio-fio. A encantadora j ovenzinha de capacete branco da foto parou diante da criança e lhe entregou um cornetto coberto por um crem e rosa. Rupert sorriu. Fazia tanto tem po que não via aquelas charm osas cam inhonetes que, im aginara, tinham desaparecido, esm agadas pela m ultiplicação de superm ercados e de congeladores dom ésticos.

Mas a espera… A espera é deliciosa. Vigiar, ter paciência até perceber o eco de um sininho.

O m enino se acom odou na escada, feliz, lam bendo o sorvete bem devagar para prolongar o prazer. Rupert fingiu virar a página do j ornal. Um a som bra escureceu seu para-brisa. Ele ergueu os olhos. Um suj eito com j eito de drogado o olhava, um sorriso ao m esm o tem po bobo e am eaçador. Rupert tirou seus óculos escuros e o encarou. O indivíduo não sustentou seu olhar m ais de cinco segundos, deu de om bros e se distanciou, com um :

– Hã… legal, cara !

O garoto tinha term inado o sorvete e lim pava os dedos pegaj osos nas calças que lhe chegavam à m etade da panturrilha.

E Rupert o viu. Stephen Grady. Ele apareceu na porta do prédio, de om bros curvados, o que acentuava ainda m ais sua aparência frágil, um a expressão tím ida e insegura no rosto. Usava um a cam isa polo preta, um a calça de linho bege e trazia um a bolsa de vinil azul a tiracolo. Disse algum as palavras ao m enino e se afastou na Devon Street. Rupert o acom panhou. Dirigiram -se para a estação de m etrô JFK/U Mass da linha verm elha.

Não se antecipar. Nada dizia que Grady ia à caça. Podia estar indo para o trabalho, ou à associação de am bidestros, em Cam bridge. E ele podia não ser a presa.

Stephen Grady desceu na estação seguinte, Andrew. Cam inharam uns dez m inutos, e Rupert lutou contra um a onda de desapontam ento quando o viu subir sem pressa a escadaria da igrej a Saint-Andrew.

Dom inar a im paciência. Ser poderoso. Então, esperou do lado de fora, um pouco inquieto : e se Grady saísse por um a das portas laterais? Não aguentando m ais, foi a vez de Teelaney entrar na igrej a, de tam anho m odesto. O piso estava m olhado, e um odor desagradável lhe chegou à garganta. Um a silhueta pequena, de costas, se m ovim entava no local do coro, em purrando um a vassoura com um pano de chão na ponta. Rupert saiu, tranquilo.

Stephen Grady reapareceu m enos de um a hora m ais tarde. A cam inhada recom eçou. O traj eto de m etrô foi m uito m ais longo. Na ponta do vagão, Rupert o vigiava, protegido atrás dos óculos. Tinha, enfim , podido decifrar a inscrição da bolsa de vinil : Viva el papa. Judicioso. Grady parecia distante, perdido em pensam entos. Cruzava e descruzava sem parar as m ãos pousadas sobre as coxas, às vezes m assageando os dedos em um gesto inconsciente. Seus pés batiam de m odo descom passado. Sua excitação crescia. A fantasia tom ava form a em sua m ente. Só pensava naquilo. Rupert estava quase certo : acabava de encontrar sua presa. Calm a.

Fizeram a baldeação em Downtown Crossing para ir ao Sul, até Roxbury Crossing. Alguns pontos de Roxbury têm há m uito tem po a reputação de serem pouco seguros, apesar das repetidas tentativas de trazer de volta a tranquilidade que conheceram no século XVIII. Rupert deixou seu alvo se afastar um pouco. Apesar do calor sufocante, tirou da m ochila um pulôver fininho, que deixou sobre os om bros, e colocou na cabeça o capacete de beisebol preto. Porém , duvidava que o suj eito o tivesse percebido, tanto a futura execução de outra puta o seduzia.

Quando desem bocaram na Alphonsus Street, Rupert duvidou que estivessem se aproxim ando de Mission Hill e atravessou a rua para seguir Grady do outro lado da calçada. Stephen dim inuiu o ritm o, adotando um passo de passeio. Entretanto, pela tensão de suas costas, Rupert sabia que estava alerta. Será que escolhia um a puta porque ela lhe lem brava algum a coisa? Ou porque lhe parecia m ais fácil, m ais m anipulável do que outra? O que im porta isso? De qualquer m odo, ele a atraía apenas para ej acular entre as coxas dela enquanto a estrangulava.

O delicado Stephen lançava olhares furtivos para os pórticos dos prédios sob os quais as m oças esperavam . Ele parou, parecendo hesitar. Rupert virou de costas e se apoiou contra o capô de um carro, de braços cruzados. Seu alvo voltou sobre seus passos e fez um gesto discreto e infantil para um a som bra que, im ediatam ente, desceu os degraus na direção dele. A j ovem m orena, vinte e cinco anos ou m ais, escutou o que ele dizia, balançando negativam ente a cabeça. De onde estava, Rupert a via de costas e observava as expressões que se sucediam no rosto de Grady : decepção, tristeza, esperança de bom m enino. A m oça deu de om bros com irritação, cansaço, e em bolsou o dinheiro que ele lhe estendia. Grave erro. Não fatal, contudo, pois Rupert estava lá.

O que ele inventava para convencê-las a ir até um m otel? Que tem ia que um cafetão indelicado o espancasse para roubá-lo? O caso tinha acontecido há pouco tem po. Porém , raríssim os clientes roubados tinham ousado reclam ar. O pretexto com binava bastante com seu j eito de m enino frágil e reforçava seu lado inofensivo e m edroso. A j ovem pensava, então, que estaria em posição de vantagem em caso de escorregão. Enganava-se.

Rupert os seguiu sem pressa, certo de que Grady j á identificara os lugares e que o m otel ficava perto. Apesar de toda a persuasão, o educado Stephen nunca teria convencido um a puta em poleirada em saltos alto e bam bos a cam inhar m ais de trezentos m etros.

Situado perto de um posto de gasolina, o Clairview Motel era um m agnífico exem plo de construção sinistra, pobre e decrépita, até nas rachaduras que abriam suas paredes de cim ento e nas cortinas de lâm inas que pendiam do interior da m aioria das j anelas. Devia haver pessoas que m oravam ali durante um a sem ana ou um m ês, porque roupas íntim as secavam do lado de fora, penduradas em cabides suspensos nas barras protetoras das aberturas que davam para um im enso terreno baldio. Boa escolha. Tratava-se de um a espécie de estabelecim ento onde ninguém cuida da vida de ninguém , exceto quando um vizinho fala tão alto que im pede os outros de dorm ir.

O im provável casal contornou o m otel, e a m oça se dirigiu para a m esa da recepção.

Teelaney os viu entrar no quarto 11. Consultou seu relógio. A prim eira parte da encenação era rápida. Grady abatia a m ulher, depois a estrangulava e lhe m etia um a bola de tecido na goela. Em seguida, as coisas eram m ais devagar. Ele a estrangulava lentam ente, m uito lentam ente, para atingir o orgasm o. Rupert dispunha, então, de cinco a seis m inutos para encontrar o m eio de entrar no quarto. A adrenalina crescia.

Adotando um a voz som bria e vulgar que, esperava, se assem elhasse à de um gerente noj ento digno daquele m otel, bateu com o punho na porta do quarto. Sem resposta, com o esperava. Bateu de novo, berrando :

– Ei ! Ela esqueceu o troco. Três dólares e quinze. Ei?

Ainda sem resposta. Com um tom que forçou desconfiado, exigiu :

– Ei… Está acontecendo algum a coisa ou o quê? Você tem algum problem a? Ei, senhora, abre a porta. Não ligo que você estej a com um cliente, m as não quero chateação no m eu estabelecim ento.

Ainda sem resposta. Em com pensação, barulhos lhe chegavam do interior.

– Abra ou cham o a polícia !

A porta se entreabriu, enfim . Stephen Grady, com ar surpreso e aborrecido, apontou a cabeça. Um pontapé contra o batente o j ogou para dentro do quarto. Rupert fechou a porta atrás de si. Grady abriu a boca, talvez para gritar. Um violento soco no plexo solar o fez se curvar. Outro golpe, na nuca, com a m ão aberta, o fez desm aiar.

Em purrou a fina porta do banheiro. A garota j azia no chão, inconsciente, am arrada. Stephen a tinha colocado ali quando o suposto recepcionista tinha batido. Rupert ergueu o pequeno Stephen pelas axilas e o fez sentar-se na cadeira de plástico verm elha do quarto.

Tinha pouco tem po, infelizm ente. Ela ia acordar. Se os policiais ainda não tinham sido avisados, ela fugiria rapidinho sem perguntar nada, feliz por não ter virado presunto. Entretanto, alguns m inutos seriam suficientes para fazer com que o gentil Stephen lam entasse dos seus atos. Rupert deveria acabar logo com aquilo. Seria um pouco rápido dem ais para seu gosto, m as tudo bem . A necessidade faz a lei.

O olhar aterrorizado do assassino fez com que Rupert sorrisse. Avançando para ele, m urm urou, faca de caça na m ão :

– Não pega bem ficar m atando m ulheres. Não pega nada bem .

Um longo gem ido abafado vazou pela m ordaça de fita adesiva cinza.

– Vou abaixar um pouco o volum e da televisão. Não desej aria que isso nos incom odasse.

Inclinou-se e deslizou, com gesto de especialista, a lâm ina larga sob a pele da coxa de Stephen.

Um urro anim al repercutiu na fita cinza e produziu apenas um balbucio esquisito, trêm ulo.

Rupert trocou rapidam ente de roupa e cortou as am arras da garota, que gem ia, recuperando aos poucos a consciência. Droga, não tinha m ais tem po para um a celebração. Mas um quarto tão deprim ente era capaz de estragar o m elhor dos havanos.

 

16 Em português, Santo Estêvão, considerado o prim eiro m ártir do cristianism o. (N.T.)