Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 29 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 29

 

Perto de Boston, Massachusetts,

Estados Unidos, julho de 2008

Bastante surpresa, Diane adm itiu : aquele alm oço vegetariano tinha sido um a delícia. À m usse de ovos trufados acom panhada de tortinhas de aspargos, tinham se seguido nhoques cobertos por um m olho branco com endro. Um caldo de coentro e feno-grego tinha sido servido no fim da refeição, à m aneira chinesa, um pouco antes da sobrem esa. A queda de Diane por açúcar e colesterol tinha, enfim , sido saciada : um m il-folhas de fatias finas de doce de am êndoa e de m usse de fram boesa, cercado de pequenos cubos de sorvete de rosas e de lavanda, se encarregara disso. Em sum a, os preconceitos da psiquiatra contra o cozinheiro-quase-lam a tinham se desfeito no com eço da refeição, quando José colocara sobre a m esa branca um a garrafa de Montrachet e outra de Gevrey Cham bertin – o que é suficiente para tornar afável a m ais rabugenta das profilers. Ela tinha bebido a segunda, e a prim eira estava em vias de desaparecer.

– Qualquer pessoa norm al rolaria pra debaixo da m esa, não? – brincou Teelaney.

– Não sou norm al e tenho bastante experiência em m atéria de anorm alidade… e de alcoolism o tam bém . Você nunca bebe?

– Sim . Muito excepcionalm ente. Pra com em orar. Na verdade, separei um a garrafa de Rom anée Conti pra m ais tarde. Espero que ela sej a extraordinária.

– Porque vam os com em orar algum a coisa?

– Espero que sim , Dra. Silver.

Ela não pediu detalhes, certa de que a resposta seria idêntica às precedentes : m ais tarde.

– O dia está m agnífico. Morro de vontade de lhe apresentar a piscina.

– Ah, a fam osa piscina que se autorregenera?

– Um a m istura criteriosa de areia, cascalho e plantas aquáticas que reproduz a reciclagem natural. Não se preocupe : a últim a parte dela é desprovida de vegetais, nada de suspeito vai escorregar entre suas pernas. Nós tem os m aiôs de banho de todos os tipos num a sala ao lado da piscina. Você tem interesse?

Ela o olhou por um m om ento e com entou :

– Por que tenho a im pressão de que tudo isso foi planej ado nos m ínim os detalhes?

Ele riu :

– Porque você é um a m ulher m uito inteligente e perspicaz.

– Está parecendo um a caça ao tesouro. Cada vez que descubro um a pista, que soluciono um a charada, tenho o direito de participar da etapa seguinte.

– É exatam ente a im agem apropriada ! – exclam ou. – Então, um m ergulho?

– Não vou resistir. E se o tesouro fosse m eu peso em uísque? Seria um a pena perder – ela ironizou, sem m alícia.

O plano de Rupert Teelaney estava claro. Ele a surpreendia, seduzia-a intelectualm ente, se expunha e, ao m esm o tem po, m antinha tudo m isterioso para que ela quisesse saber m ais sobre ele. Clássico. Contudo, eficaz.

Tudo isso para que ela aceitasse colaborar com a doação que planej ava para o treinam ento em Quantico? Sim ples dem ais. Ele podia im pô-la, com o tinha feito com a presença de Devernois-Kly ne e com o convite para aquele encontro.

Na verdade, Diane adm itia : aquele suj eito a intrigava. A coisa toda era bastante fora do com um para que ela se surpreendesse, até m esm o se inquietasse. Algo ia acontecer, não tinha dúvidas. De um j eito bastante estranho, sentia-se à vontade na com panhia dele. Quase tão bem com o com Yves, m as de m aneira diferente. Yves era um cúm plice, um irm ão, um gêm eo. Não Teelaney. No final das contas, quem era Teelaney ? Que função ele poderia ter para ela? Reprim iu um sorriso e levantou-se para segui-lo. Ela teria dado a m esm a resposta que ele : m uito cedo !

Rupert explicou o funcionam ento da piscina, levando-a pelo braço de um a bacia a outra, enum erando as plantas que ali cresciam generosam ente. Detalhou todas as reações biológicas im plicadas no processo. Diane estava seduzida por aquela engenhosidade, que tinha conseguido dom esticar as sim bioses da vida sem distorcê-las.

– Espero você?

Ele apontou para um pequeno e charm oso pavilhão, tam bém todo de vidro e m adeira, situado a uns cinquenta m etros da piscina.

Ela rem exeu num arm ário, tirou duas grandes toalhas m acias, um a touca de banho e um m aiô branco, peça que a faria parecer m enos m agra.

Quando ela voltou, ele estava vestido com um a sunga preta e tinha tirado os óculos. Teelaney não a atraía fisicam ente. Nenhum hom em a atraía m ais. Entretanto, era forçada a reconhecer que o herdeiro era um m agnífico espécim e do gênero m asculino. Ela não o tinha im aginado com m úsculos tão harm oniosos sob sua folgada cam isa de linho. Sem os óculos, ele perdera um pouco de seu charm e pueril, ganhando em m asculinidade. Ela notou um tipo de m arca sobre a curva de seu om bro direito. Um a tatuagem , talvez, em bora isso a surpreendesse. Entretanto, a m enos que se aproxim asse dele a ponto de roçá-lo, sua visão fraca não lhe perm itia discernir.

– Vam os m ergulhar? – perguntou ele, com um tom de m enino. – São dois m etros e cinquenta de profundidade. Nenhum risco.

– Oh, não ! Eu pulo fechando os olhos e tapando o nariz.

Um a gargalhada de am bos saudou seu com entário. Ela o viu voar com o um a flecha e penetrar na água translúcida. Pulou, desengonçada. Deram algum as voltas e depois se encontraram na borda. Ele subiu as escadas e lhe estendeu a m ão a fim de aj udá-la. Seu sorriso ficou a apenas quinze centím etros do rosto dela. Ele a fitava. Seu olhar azul profundo tinha adquirido um a estranha intensidade. A água alisara e achatara seus cabelos, que pareciam m uito m ais longos e tinham um corte reto, afilado. Quanto à m arca no om bro, tratava-se de um a cobra ereta, cuspindo raiva.

Ela se im obilizou, fechou os olhos. O retrato falado, m elhorado pelas lem branças de Sara e Victor. Diane suspirou :

– Nathan. Nathan Hunter.

Ele se inclinou, pegou um a das toalhas e a cobriu, m urm urando, com voz terna :

– O m om ento chegou.