Na mente, o veneno
Capítulo 4
Paris, França, maio de 2008
Sara parou na porta do quarto e repetiu, exasperada :
– Louise, você vem ? O j antar está servido, j á faz dez m inutos que estam os à m esa.
O rosto carrancudo da filha se voltou para ela. Os cabelos endurecidos e pintados de preto azulado a faziam parecer pálida, de um a lividez cuidadosam ente alim entada pela base quase branca e a tinta carregada do delineador preto. Sara se perguntou, pela m ilésim a vez, quando a crise de adolescência ficaria, enfim , para trás.
– Eu j á disse que não estou com fom e. E, além do m ais, estou no m eio de um a venda no eBay.
– O que você está vendendo?
– Coisas – respondeu Louise num tom que indicava que ela não contaria m ais nada.
Sua atenção se voltou para a tela. A conversa tinha term inado.
Sara fechou a porta atrás de si. Pelo m enos, com o tanto que com ia de guloseim as, sua filha não era anoréxica. Sara se preocupava m esm o com o contrário, tentando avaliar o avanço da obesidade de sua prim ogênita, apesar dos vestidos largos, das saias sobrepostas, dos casacos longos – escuros, é claro – atrás dos quais ela dissim ulava seus “pneus”.
Foi se j untar a Victor, j á sentado à m esa.
– Ela ainda está de m au hum or? – perguntou o m enino.
– Parece que ela conseguiu um pouco de dinheiro vendendo coisas em leilões.
– O quê? ! – se surpreendeu Victor.
– Eu não sei… Você sabe, sua irm ã…
– É coisa de m enina, esse hum or, essas crises?
– Não sei. Em todo caso, eu imploro, não seja assim em alguns anos !
– Oh ! Não… ela é m uito gorda ! – riu o garoto. – E depois, vej a aquele look ! Eu não fico dizendo por aí, m as não ouso m ais sair com ela.
Sara se esforçou para m udar de assunto a fim de atenuar o clim a.
Ela se esforçava para encontrar desculpas para a prim ogênita : a m orte do pai, os horm ônios, o trabalho que tom ava todo o tem po da mãe, a influência de seu grupinho de góticos, que pareciam bastante bonitinhos e inofensivos, principalm ente esse “senhor Fausto”, cuj o nom e verdadeiro era Cy ril. Um j ovem charm oso e educado. E aj uizado : provavelm ente pensando na futura carreira de advogado ou de funcionário de alto escalão, ele tinha optado por usar piercings m agnéticos.
O m ais saboroso era o uso de frases form ais e inform ais entre os m em bros do grupo. Sua filha e os três outros j ovens eram m uito form ais com o tal do Fausto, o qual, em contrapartida, retribuía com inform alidade. Ritos que assinalavam um pertencim ento. Por vezes, a lucidez de Sara passava por cim a de tudo, trazendo de volta seu espírito m aterno. De um a inteligência m edíocre, incapaz de superar a preguiça e a falta de curiosidade intelectual, nem seu perm anente azedum e, para não falar na agressividade latente, Louise era um a decepção. Sara odiava adm itir isso. Ela se repreendia : sua filha ainda era nova. Tantos adolescentes passam por um a fase difícil, colocando os pais diante de um a dura provação. O m al-estar da filha se traduzia no egocentrism o triunfante e num a alternância de episódios depressivos e de ódio. Era preciso esperar que a crise passasse. Elas ririam disso em alguns anos.
Um lento sorriso apareceu nos lábios pintados de batom grená de Louise. Ela leu e releu com prazer o e-m ail que acabara de receber do senhor Fausto. Ele descrevia com um a grande precisão de detalhes a ereção que tinha tido quando se im aginou decapitando sua irm ã m ais nova. Um orgasm o insano, segundo suas palavras, tinha subido quando viu o sangue esguichando sobre ele, encharcando seu rosto, suas m ãos e seu pênis. A m ão de Louise entrou por baixo de seu vestido. Sua respiração se acelerou e ela gem eu. A ideia de que a mãe poderia surpreendê-la a deixava ainda m ais excitada. Ela esperou que seu ritm o cardíaco se acalm asse antes de responder :
Que lindo e-mail, caro senhor. A morte é tão vibrante. Que alívio, que alegria eu sentiria se os matasse. Ambos. Eu os odeio com toda a minha força. Essa cadela mandona e seu filho anão. Acho que começaria por ela, de preferência. Em breve. Estou pronta, graças à sua valiosa lição. Uma bela noite, meu querido senhor.
Ela clicou em “Enviar” e, em seguida, apagou os e-m ails dele, com o tinha sido com binado. Que vergonha : ela teria adorado relê-los. Muito chato. A cena na qual o senhor Fausto decapita a irm ã estava im pressa em sua m ente, com todos os detalhes m acabros e sangrentos. Poderia revivê-la por prazer. Que belo presente acabava de receber. Com o agradecim ento, tirou sua veste de renda preta e levantou as m angas de sua blusa de gola rulê acim a do cotovelo. Olhou satisfeita a pele verm elha e gosm enta em torno do alfinete de segurança que tinha colocado alguns dias antes. Apertando a m andíbula, lutando para segurar as lágrim as de tanta dor, segurou o alfinete e girou-o em todos os sentidos, o que fez com que um tênue filete de sangue escorresse em direção ao seu pulso. Em seguida, inspirou profundam ente e pegou num a gaveta um frasco de Merthiolate para desinfetar a ferida com cuidado. O senhor Fausto havia sido taxativo : não estam os preparados para infligir sofrim ento a alguém se não o conhecem os. Entretanto, eles, os sobre-hum anos, deviam viver. Afinal, eles não eram a nova raça, a espécie superior destinada a dom inar e depois substituir as ineptas form igas hum anas, a sub-raça?