Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 12 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 12

 

Massachusetts, Estados Unidos, junho de 2008

Nu, com exceção da bandana preta que segurava seus cabelos, Nathan avançou em direção à arena de três m etros de diâm etro. Ele a contornou, arrastando com precaução um pé após o outro.

Parou, um sorriso flutuando nos lábios. O outro não se m ovia, encolhido no centro do pequeno circo de piso de areia que o deixava m aior do que era. Um a concessão de Nathan. Fazia parte de seu j ogo, assim com o o com prim ento do facão que segurava. Quarenta centím etros no m ínim o, sendo dez de cabo. Trinta pequenos centím etros de aço afiado. Nada m ais. A diferença entre a vida e a m orte. Um a m orte lenta, dolorosa.

Um farfalhar sedoso. O outro acabava de se m over, quase im perceptivelm ente. Um a onda de hesitação ainda detinha Nathan. Teria escolhido o parceiro certo para o j ogo? Havia tem po para trocá-lo. Um a careta de aborrecim ento o fez m order os lábios. Aproxim ou-se sem ruído da parede forrada de grandes viveiros. Seu olhar se aproxim ou de um a Crotalus durissus terrificus, um a m agnífica espécie de cascavel de quase um m etro e oitenta, cuj o hábitat natural é a Am érica do Sul. Um veneno form idável, neurotoxinas que provocam cegueira, depois sufocam ento por paralisia respiratória progressiva. Com o na m aioria das cascavéis, outra toxina, a hem olítica, provoca a explosão dos glóbulos verm elhos, ocasionando graves hem orragias. Vom ita-se sangue. Chora-se sangue.

Nathan bateu com o indicador no vidro do viveiro situado à direita, zom bando de seu gesto. Todas as serpentes são surdas. De fato, a Crotalus adamanteus, ou cascavel-diam ante, nem se m oveu. São encontradas norm alm ente nos Estados Unidos, especialm ente na Flórida, podendo alcançar m ais de dois m etros e viver vinte anos. Quanto às presas, as m aiores passam de dois centím etros de com prim ento e inj etam quase um gram a de veneno na vítim a. Um a dose seis vezes inferior à necessária para m atar um hom em adulto. Estranham ente, em bora se suponha que as serpentes possuem um a inteligência pífia, provavelm ente porque pertencem a um estágio inicial da Evolução, num erosos testem unhos de caçadores de serpentes apontam para outra direção : as cascavéis-diam ante que vivem perto do hom em aprendem rapidam ente a congelar seu guizo, esse chocalho no extrem o de sua cauda, conj unto de cam adas de escam as sobrepostas destinadas a assustar. Eles sabem que esse sinal faz com que sej am percebidas.

Um sorriso prazeroso se abriu nos lábios de Nathan quando encostou a testa no viveiro que continha sua últim a aquisição, um a m agnífica cobra egípcia de quatro m etros de com prim ento. Ele adorava abrir a tam pa situada sobre o vidro para em purrá-la com a extrem idade da longa pinça, a qual lhe perm itia retirar os anim ais da toca. A cobra se ergueu, enfurecida, inchando o pescoço de cólera até se assem elhar à estátua de um deus esquisito e feroz. Nathan adm itia : adorava observar as cobras, um a m aravilha da natureza. Em com pensação, enfrentá-las era m enos prazeroso do que enfrentar um crótalo, ou cascavel, um a das serpentes m ais perigosas. Outro assassino perfeito era a víbora de Russel, encontrada principalm ente na Índia, na China e na Birm ânia. Um a agressividade exem plar. Mesm o de tam anho m odesto, um m etro e cinquenta, essa víbora é particularm ente vingativa. Entretanto, o viveiro da víbora de Russel estava vazio desde o m ês anterior. Nathan esperava a substituta, j á encom endada. Ela dem orava a chegar : os caçadores, m esm o experientes, som ente a abordam com extrem a precaução.

Não. Tinha feito a escolha certa. Virou a cabeça em direção à arena. A Crotalus atrox estava im óvel no centro. Um a espécie de dois m etros de com prim ento, advinda de contrabando do México. O veneno da atrox é um pouco m enos perigoso que o da adamanteus. Mas o anim al é m uito m ais agressivo. A atrox não foge. Ataca. E havia algo com um em todos esses anim ais : estão entre os m ais rápidos. Têm reflexos que chegam à ordem dos centésim os de segundo. Os hom ens são infinitam ente m ais lentos. Em m édia, dez vezes m ais lentos. Contudo, os hom ens sabem prever o que vai acontecer; as serpentes, não.

As cascavéis, com o todas as serpentes, se aprum am antes de dar o bote. Sua rapidez e flexibilidade lhe perm item se proj etar por um terço de seu com prim ento. Dois m etros de extensão, um alcance de sessenta e sete centím etros, m uito m ais que o com prim ento da lâm ina de um facão. Era um j ogo elegante. A inteligência de Nathan, sua capacidade de antecipação, contra a rapidez da cascavel, sua total ausência de sentim ento, de m edo, sua com batividade. Nathan se aproxim ou da beirada da arena, arrastando os pés. As serpentes detectam a m enor m udança de pressão ao redor delas graças à língua bifurcada. O m ovim ento do ar, o im pacto sobre o solo. Boa parte possui captadores infraverm elhos que indicam com precisão onde se situa o agressor ou a presa e o que ele ou ela está fazendo. Nathan bateu o pé para sinalizar sua presença. A cascavel virou a cabeça em sua direção. A perfeita espiral de seu corpo m arrom , com pontilhados de verm elho-tij olo e incrustações brancas e pretas, deslizou sobre si m esm a. A língua saiu, vibrando para analisar os deslocam entos de ar. Nathan ainda não estava preocupado. Ela tinha aberto a boca, sentindo-se am eaçada desde que ele prendera sua cabeça com a longa pinça para tirá-la do viveiro. Depois se acalm ou. A areia, a im obilidade do am biente a tranquilizava. Tinha sido alim entada, três dias antes, com um rato. Nathan entrou na arena e bateu palm as três vezes. Forte. A velocidade da reação de seu oponente o perturbou. Sem que sua retina tivesse percebido, a serpente, em um m ovim ento m uito rápido, tinha se aprum ado. Sua língua testava o ar na direção de Nathan. Ele se perguntou se ela avançaria. A atrox é um dos répteis m ais desagradáveis. Quase nunca sai do chão. A serpente não se m exeu.

– Com o você é bonita – quase gritou Nathan.

Ela não o ouvia. Em com pensação, os deslocam entos na pressão atm osférica, decorrentes de sua voz, seriam perceptíveis.

– Você quer um com bate de vida ou m orte, não é? É você ou eu. Não tenho nenhum soro contra o veneno. Não teria graça. Se você conseguir m e m order, eu m orro.

Dois olhos de um negro quase azulado o fitaram . A serpente perm anecia im óvel, um quarto do corpo ereto, esperando. Apenas a língua parecia ter vida, saindo e voltando para a boca, recolhendo do exterior as inform ações necessárias para sobreviver. Nathan se aproxim ou sem tirar os olhos da cabeça de um cinza esfum açado. O coraj oso anim al ainda não sabia, não tinha entendido que lutava pela vida. Foi, com o sem pre, um com bate leal, e Nathan fez questão de insistir nisso ao deixar claro para a cascavel que ela acabava de encontrar um oponente m uito perigoso. O facão cortou o ar a poucos centím etros do nariz do réptil, que cuspiu, revelando as presas e se fechando sobre si m esm a. Bem , ela havia entendido. Nathan se virou lentam ente, acom panhado pelos m ovim entos do m agnífico corpo coberto de escam as. Boca aberta, em posição de ataque, a serpente o seguia. Nathan avançou. Um golpe de facão. A serpente recuou e depois se alongou com a rapidez de um raio, presas am eaçadoras. O hom em se esquivou o quanto pode com um salto para trás. O suor lhe escorria na testa, apesar da bandana. É claro que tinha m edo. Era esse o obj etivo do j ogo. Lutar contra o m edo. Avançar apesar do m edo. Mantê-lo sob controle, im pedir que ele o deixasse soluçando com o um covarde. As serpentes aterrorizam , daí sua superioridade, aos olhos de Nathan. Elas são im placáveis m áquinas de m atar. Sem ódio, sem efusões ou dem onstrações inúteis. Soberanas.

A atrox não tirava m ais os olhos da m ão direita de seu agressor, a que segurava aquela estranha coisa brilhante e fina. Nathan sorria de felicidade. A serpente tinha entendido que o facão era seu verdadeiro inim igo. Ele recuou. A cascavel avançou lentam ente em sua direção, aprum ada. A atrox se exibia em toda a sua força, em toda a sua velocidade para alcançar aquela mão. Nathan se atirou para o lado. A areia o atrapalhava, e ele tom bou. A serpente correu em sua direção, na direção do corpo enfim à sua mercê. O facão m udou de m ão. No m om ento em que a cabeça viperina se ergueu, com a boca aberta para atacá-lo, a lâm ina se abateu sobre seu pescoço. O m agnífico focinho triangular voou. O corpo sinuoso desm oronou, deixando sair um belo sangue verm elho, im ediatam ente bebido pela areia da arena. Um a trem edeira incontrolável sacudiu o corpo nu do hom em , sem pre deitado de lado. Os batim entos descontrolados de seu coração se acalm aram pouco a pouco. Ele se endireitou com dificuldade, sem pre sentado. Contem plou o perfeito tubo de carne que os últim os espasm os m usculares ainda agitavam e m urm urou :

– Belo com bate, am igo. Você foi digno. Lutou com bravura. Você será crem ado com o os outros. Com o um guerreiro.

Regra nº 5 : tratar com o m aior respeito os inim igos valorosos, m esm o depois de m atá-los.

Nathan se levantou, exausto. Minúsculos espasm os m usculares continuavam agitando a parte interna de suas coxas. Tinha vencido de novo. Com um gesto m ecânico, acariciou a tatuagem discreta que cobria seu om bro direito : um a cobra, pescoço inchado de cólera, presas expostas, pronta para dar o bote.