Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 30 de 36

Páginas do PDF

Na mente, o veneno

Capítulo 30

 

Entre Nova Iorque e Paris, julho de 2008

Sentado em um a poltrona atrás deles, Yves Guéguen relia – pela sétim a vez, tinha dito – Tristes Trópicos.

A m ente de Sara divagava, quase adorm ecida, em balada pelo ronronar regular e anestesiante dos m otores, pela respiração dos dorm inhocos à sua volta. Havia alguns m inutos que pensava em com o poderia agradecer aquela m ulher pelo encontro nos subterrâneos de um prédio. Em duas frases desprovidas de em oção, Diane Silver tinha salvado sua sanidade m ental. Agora, Sara se sentia forte e determ inada para lidar com o resto.

Virou a cabeça para o m enino que tinha desabado ao lado e dorm ia, boca entreaberta. Victor : a j ustificativa de um a existência, que não tinha o m enor sentido sem ele. No fundo, ela não desej ava outra coisa. Desde a m orte de Éric, cinco anos atrás, só tinha tido dois casos, que aconteceram durante congressos científicos no exterior. No entanto, “caso” era um term o exagerado para designar um am igável encontro de peles, de um a ou duas noites.

Éric : seu único am or. Victor : sua única paixão.

O sono a venceu. Ela aceitou m ergulhar nele.

Victor sentiu o corpo reconfortante e querido de sua m ãe relaxando. Finalm ente, ela dorm ia. Não tinha com preendido tudo, m as sabia que a psiquiatra daquela incrível base m ilitar tinha feito bem à m ãe. Gostava daquela doutora. Queria ter se encontrado com ela. A ela, ele poderia ter contado toda a verdade. Talvez.

Que lindo e-mail, querido senhor. A morte é tão vibrante. Que alívio, que encantamento eu sentiria ao matá-los. Os dois. Odeio-os com todas as minhas forças. Aquela idiota mandona e sua aberração de filho. Acho que começaria por ela. Melhor : que começarei. Logo. Eu me preparo, graças à sua preciosa educação. Bela noite, meu doce senhor.

Victor tinha m em orizado cada um a das palavras da irm ã. Com o as de Cy ril, quando descrevia o estrangulam ento de sua irm ãzinha com um a crueldade obscena.

O m enino nunca tinha acreditado nas pretensões pueris de Louise. De qualquer m odo, ela era um a pessoa tão podre que ele duvidava que ela desperdiçasse seu tem po na internet com leilões no eBay. Podre e chata. Megachata. Ela estragava a vida deles, a da m ãe e a sua.

Naquela noite, quando ela não voltou, ele tinha pensando “tanto m elhor”, até que sua m ãe não conseguia m ais dissim ular o pânico. A ideia de que Louise tram ava coisas obscuras com o idiota do senhor Fausto passara pela cabeça de Victor. No m om ento em que Sara fora à polícia, ele se trancara no quarto da irm ã e ligara o com putador dela. A caixa de entrada vazia o surpreendeu. Nenhum e-m ail, seu Nosferatu de m eia-tigela. Victor logo os encontrou na lixeira. Sua irm ã era um zero à esquerda em inform ática, assim com o em tudo o m ais.

Ele leu e releu os e-m ails, se perguntando se aquilo era um a piada noj enta, se estava entendendo bem . A dúvida tinha se desvanecido e o terror se instalara nele. Aquela puta queria m atá-los, ele e sua m ãe ! Victor tinha procurado desesperadam ente um m eio de enfrentá-la, de proteger Sara. Tinha se lam entado por ser ainda tão pequeno para dar um a surra corretiva em Louise quando ela voltasse. Ele não podia dizer nada à sua m ãe. Ela nunca devia saber dos planos m alucos que sua própria filha preparava para exterm iná-la. Se ele fosse à polícia, m esm o com o disco rígido, pensariam que se tratava de um j ogo m acabro de adolescente. De m au gosto, m as nada m uito grave.

Victor tinha odiado a irm ã. Tinha chorado, im plorando para que ela estivesse m orta, para que nunca m ais retornasse.

Quando sua m ãe, com um a voz trêm ula, escolhendo as palavras m ais inofensivas, explicou que Louise tinha sido assassinada, ele rom pera em lágrim as. De alívio.

O m enino suspirou de satisfação contra o corpo da m ãe. Tudo ia bem agora. Estavam j untos. Ele escutava a respiração regular da dorm inhoca.

Um a ideia lhe veio à cabeça m om entos depois. Não era sim ples construí-la, form ulá-la. No fundo, o que sua m ãe precisava era de um a criança. Ela devia ser convencida de que protegia, de que cuidava de m odo m aternal, de que era indispensável para a sobrevivência de seu bebê. Que não tinha o direito de entrar em colapso, de se deixar dissolver pela dor. Então, ele não podia lhe contar sobre o dia em que tinha descoberto aqueles e-m ails, em que a m orte, a verdadeira, estava diante dele, em que as portas da infância tinham se trancado brutalm ente, deixando-o de fora. Enquanto esperava ficar grande, forte para poder defender sua m ãe, só lhe restava um a coisa : perm anecer um m enininho para reconfortá-la. Perm anecer criança. Era por isso que devia ficar quieto.