Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 3 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 3

 

Paris, França, maio de 2008

Instalada no deque de um café, Sara Heurtel pôs seus óculos escuros. Um dia perfeito, suave, quase quente, lum inoso. Um a quarta-feira com o tinha se prom etido um a centena de vezes, m as que um a centena de vezes não tinha se perm itido. Seu olhar passou pela m ultidão de transeuntes, de turistas que encobriam todas as arcadas do Louvre, perdendo-se em seguida em direção aos Jardins das Tulherias. Ela soltou um suspiro de contentam ento e esticou as pernas sob a m esa. Um erro logo saudado pelo grunhido de um pedestre que tropeçou em um de seus pés e lhe lançou um olhar enfurecido :

– Está bom aí, né?

Sara virou-se para o hom enzinho instalado ao seu lado. Victor, seu filho de doze anos, que tom ava um refrigerante, um a concessão reservada aos bons m om entos. Ele a fitou com um ar m uito sério, ponderado. Dois olhos am endoados, do azul cam biante de um m ar frio e profundo.

– Está m uito gostoso aqui, querido… Eu quero que isso… A gente deveria se perm itir m ais vezes este tipo de escapulida. O problem a é que sem pre tem algo que acontece no últim o m om ento.

– Não é sua culpa. – Ele sorriu, encolhendo os om bros. – Você trabalha m uito. É o seu trabalho, que determ ina isso… Não é com o o trabalho de todo m undo – acrescentou num tom orgulhoso.

Victor, razoável e sutil. Victor, cuj a inteligência precoce a desconcertava. A propósito disso, ela se esforçava para ser lúcida. Faria parte de um a legião de m ães que estão convencidas de que sua prole é a coisa m ais preciosa do planeta? Ou, ao contrário, ele era m esm o tão extraordinário com o ela acreditava? Victor, a j ustificação de um a vida. Sua com pensação deslum brante. Um a vaga sensação de culpa tem perou sua satisfação. Louise. Sua filha de dezesseis anos. A idade ingrata, m elhor dizendo – frase que poderia ter sido inventada para sua prim ogênita. Louise se em penhava em arruinar a vida de todo m undo, com o se tivesse um recorde a bater.

Muito poucas coisas pareciam ligar o irm ão à irm ã, exceto a cor dos cabelos, castanho m édio com um reflexo ruivo que m udava para o cobre no verão, os cabelos de sua m ãe. Victor tinha herdado tam bém outras características de seu biotipo – era um pouco com prido dem ais, um pouco m agro dem ais – e de seu olhar azul carregado, enquanto Louise era coberta de curvas que pareciam um a concha ou um a arm adura. A m orte de Éric, cinco anos atrás, tinha perturbado terrivelm ente a filha, a ponto de Sara ter sufocado a própria tristeza. Provavelm ente, Victor era ainda m uito pequeno para com preender a que ponto aquele estúpido acidente de m oto iria devastar suas vidas. Não devia pensar no carro que tinha batido na Honda do m arido, j ogando-o em alta velocidade contra o parapeito de um a ponte. Sem parar. Éric tinha m orrido de um a hem orragia no fígado pouco depois de ser internado na em ergência do hospital. Se o m otorista do carro tivesse cham ado um a am bulância, talvez Éric ainda estivesse vivo. Não devia pensar nisso, não hoj e. Devia evitar a raiva descontrolada que a sacudia a cada vez que refletia sobre o ser hediondo que tinha abandonado seu m arido em agonia, no m eio da noite, em um a ponte.

– A gente precisa encontrar um a lem brancinha pra Louise, de qualquer m aneira – repetiu o filho pela quinta vez, apontando a cam iseta que Sara acabara de lhe oferecer. Um tigre rugia, cercado pela frase Knowledge is Power !, Conhecimento é poder !

– Neste caso, é melhor que você escolha, porque, se vem de você, é m ais fácil – argum entou Sara.

– Sim , ela tem um ar um pouco soturno ultim am ente. Na verdade, essa gente igual ao Nosferatu, cheia de piercings, toda de couro preto… é um saco.

– Eu não ligo pra roupas extravagantes, pra m im , isso é indiferente. – E acrescentou, com um sorriso : – Sua m ãe – que tem um ar de um a m ulher séria – teve tam bém sua turm a, m ais do tipo em petecado. Não, o que m e aborrece é que ela parece tão bizarra com aqueles tênis, é estranho demais… Mas não há com o conversar. Ela m e repele.

– Bem , pra m im tam bém … Eu não ligo – retrucou Victor.

– E tem m ais : ela passa um tem pão naquele com putador…

– Eu tam bém , m ãe.

– Sim … m as eu não sinto que ela se diverte m uito.

Sara desviou o olhar para o hom em que estava em pé na frente de sua m esa. Ele sorria, a cabeça inclinada para o lado, esperando. Fez um gesto hesitante na direção da cadeira ao lado da de Sara, sobre a qual estava a sacola de um a livraria onde m ãe e filho tinham feito boas com pras um pouco antes.

– Desculpe – disse Sara, pegando precipitadam ente a sacola.

O hom em agradeceu com um aceno de cabeça e se instalou ao lado dela, em purrando um pouco sua cadeira, apesar da falta de espaço.

Apontando a sacola da livraria que ela segurava, brincou :

– Não vam os trocar um a pela outra. Você teria um a surpresa ruim quando chegasse em casa.

Ele falava com um leve sotaque norte-am ericano. Sara o analisou. Cara bonito, entre trinta e três e trinta e seis anos, cabelo castanho-claro um pouco com prido, cortado reto. Usava óculos de sol em m oda, com as lentes retangulares, m uito escuros e curvados, que lem bravam olhos de insetos. Ela teve certeza de que seus olhos eram azuis.

– Você tam bém , provavelm ente – respondeu gentilm ente.

– Estou certo de que há histórias em quadrinhos dentro da sua – acrescentou ele, analisando Victor.

– Você ganhou – adm itiu Sara.

– Adoro sua cam iseta – disse ele ao m enino. – E é verdade, o conhecim ento traz poder.

– Minha m ãe acabou de m e dar.

– A propósito, eu m e cham o Nathan – prosseguiu o estrangeiro, estendendo a m ão a Sara.

Ela a apertou sem entusiasm o e, principalm ente, sem dizer seu nom e. O cara com eçava a irritá-la. Certam ente, ela reagia com o um a boa parisiense : fechada. Não era para m enos : tinha bastante prática com norte-am ericanos para saber que eles são m ais com unicativos, principalm ente quando se transform am em turistas. Entretanto, ela não queria nenhum tipo de conversinha casual num a m esa de um café.

Ele teria percebido? Talvez. Ele lançou um olhar para seu belo e discreto relógio e disse em tom de lam ento, ao se levantar :

– Ah, Paris, Paris, eu adoro esta cidade… Porém , não se pode ter pressa…

Neste caso, o m elhor ainda é fazer seu pedido no bar – ela o despachou com naturalidade.

Ele respondeu com um sorriso alegre e se afastou, dizendo :

– Tenha um bom dia.

Ela o seguiu com o olhar por alguns instantes. Ele fez um a pausa sem se voltar para olhá-la e acendeu um charuto longo antes de continuar cam inhando. Victor com entou :

– Puxa, você foi m uito fria !

– Ele com eçava a m e cansar – adm itiu. – Não é porque querem conversar que as pessoas devem puxar assunto com um estranho.

A vivacidade de sua reação a surpreendeu. Não era próprio dela fazer tanto barulho porque um turista teve a audácia de lhe dirigir a palavra. Era um dia agradável e descontraído, na com panhia de seu filho…