Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 19 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 19

 

Base militar de Quantico,

Estados Unidos, junho de 2008

Um a frase de Sartre, gravada desde sua época de universidade, quando Charles Devernois-Kly ne pensava em m udar o m undo, defender os pobres, lhe veio à m ente : “Não se pode ser m oral sozinho”. A vida tinha se encarregado de provar outra coisa : quase nunca se pode ser m oralm ente correto, porque estam os quase sem pre sozinhos. A m enos que a m oralidade se tornasse o luxo suprem o, um a arte difícil e rara, um a excelência, aquela de um ser – rico ou pobre – que procura a exceção, a perfeição em tudo. A superioridade derradeira. Diane Silver, sem um tostão. Seu cliente, riquíssim o, fascinado pelos assassinos em série, um a das cinquenta fortunas do planeta. Rupert Teelaney, o terceiro Rupert da fam ília. Interesses variados : no petróleo, no arm am ento, na indústria farm acêutica, na indústria alim entícia, no lazer, no algodão e, agora o must : no carvão, o velho e m uito novo ouro negro.

Os Teelaney eram um a dessas fam ílias bastante discretas. Aquelas de grandes fortunas, que fogem da publicidade, pois m anipulam os fios do m undo nos bastidores. Rupert Teelaney, com o seu pai e seu avô, não era de caprichos. Não exigia que abrissem para ele, no m eio da noite, um a piscina olím pica, ou que a tem peratura de sua suíte fosse exatam ente de 23,5 graus. Não fazia escândalos porque o hotel no qual estava hospedado não servia sua m arca preferida de água m ineral. Não andava à procura de sexo, entupido de cocaína, para ser chupado por m eninas recrutadas para isso. Às vezes, era olhado de lado nas butiques de luxo porque seus j eans e seus tênis não im pressionavam as vendedoras, que ganhavam dez m il vezes m enos do que ele podia gastar em um leilão num piscar de olhos. Teelaney não se dedicava a nada, exceto ao poder. Natural, um a vez que o tinha. Para ele, era com o respirar. Rupert Teelaney vinha da grandiosa educação do dinheiro.

Na prim eira vez que o encontrou, Charles tinha esperado por ele na Com m onwealth Avenue, diante do hall do prestigioso escritório de advogados do qual finalm ente havia se tornado sócio. Sob um im enso guarda-chuva para se proteger do aguaceiro sem -fim que caía, esperava ver estacionar ao longo da calçada um a lim usine preta, dirigida por um chofer de uniform e. No lugar dela, um Volkswagen cor de açafrão, réplica do glorioso fusca, com o para-choque dianteiro um pouco am assado, parou na sua frente. Um hom em alto, de um a m agreza m usculosa m uito m asculina, saiu do carro com um largo sorriso que lhe ilum inava o rosto. Aj ustou os óculos para m iopia com um gesto autom ático antes de estender a m ão, exclam ando :

– Doutor Devernois-Kly ne? Teelaney. Rupert, pra todo m undo.

Charles tinha lançado um olhar em baraçado para o carro. Rupert Teelaney dera um a gargalhada sob as gordas gotas de chuva que m olhavam seu cabelo crespo e sua cam isa de linho azul.

– A lentidão e a paciência são luxos. Meus preferidos. Eu deixo o j ato com m inhas secretárias. Elas que corram , elas que se irritem . É pra isso que são pagas. Vam os alm oçar? Estou m orrendo de fom e. Minha colaboradora, a incom parável, a insubstituível Elisabeth, reservou um a m esa, num restaurante sim pático, não m uito longe. Posso levá-lo? A propósito, eu não bebo, não fum o e sou vegetariano, m as… os hábitos ruins dos outros não m e incom odam – concluiu ele com um a risada feliz e cúm plice.

Devernois-Kly ne adm itia de bom grado que Teelaney o fascinava. Certam ente, a riqueza o fascinava desde sem pre, provavelm ente porque, sob seu verniz copiado dos outros, sentia falta dela. Entretanto, Teelaney transcendia a fortuna. Esta era tão evidente para ele que não pensava m ais nela. E Rupert tinha a paixão dentro de si, enquanto Devernois-Kly ne perdera todas as suas, aborrecendo-se terrivelm ente sem elas.

O advogado não conseguia adivinhar em quê, porém tinha dúvida de que Silver, aquela idiota im becil, e Rupert Teelaney se pareciam . De um j eito estranho e inquietante, sem que conseguisse defini-lo. No fundo, apesar dos altos honorários, das participações nos lucros e dos bens, Devernois-Kly ne j am ais teria dinheiro suficiente para ficar tranquilo, enquanto os dois outros não ligavam para isso. Um a porque não tinha. O outro, porque tinha m uito.

Algum a coisa estava acontecendo, um a m udança quase im perceptível estava se produzindo, e Devernois-Kly ne não a queria, resistia.

Tinha apreciado Rupert Teelaney incondicionalm ente, sem segundas intenções, sim plesm ente porque ele era bonito, inteligente, m uito rico, m uito poderoso. Qualidades antes de tudo genéticas e genealógicas. Resum indo, um a inj ustiça contra a qual era inútil lutar – um a constatação reconfortante. Contudo, com eçava a adm irar o herdeiro por outras razões, as m esm as que o aproxim avam de Silver, m esm o que não a suportasse e que a psiquiatra tivesse tido a indelicadeza de ir alm oçar deixando-o plantado, sem nenhum pedido de desculpas, tão cara de pau era ela. Am bos, Diane e Teelaney, eram fortes. Um adj etivo convencional, não m uito exato, m as que abrange um a característica difícil de descrever.

Um a em oção desagradável invadia Devernois-Kly ne. Tinha plena consciência de não ser forte. Sem pre tinha m edo, apesar de seu apartam ento, sua fazenda, sua pousada nova-iorquina e seu m agnífico dúplex no Beacon. Apesar das m eninas espetaculares que levava aos m elhores restaurantes de Boston. Apesar de sua Mercedes de duas portas.

De repente, tinha a horrível sensação de que era um m enininho diante de dois adultos que o olhavam com um a piedade enternecida.

Lutou contra o desânim o que crescia dentro de si. Não pudera recusar a m issão em Quantico – pois era disso que se tratava –, a despeito do fato de que, no início, ela tinha sido terrivelm ente aborrecida e agora lhe pesava. Ele havia, finalm ente, se tornado sócio de seu escritório e devia atrair peixes grandes. Rupert Teelaney era um deles.

Um a dúvida se insinuava nele : e se Rupert tivesse escolhido seu escritório para transferir alguns de seus negócios apenas porque ele, Charles Devernois-Kly ne, conhecia bem o senador Murray – padrasto de Edm ond Casney Jr. –, que defendera brilhantem ente num j ulgam ento no qual Murray era, não por acaso,

acusado de crim e de insider trading14? E se todo o tem po seu único obj etivo fosse se aproxim ar da esquiva doutora Diane Silver? E se, na m ente de Rupert, não se tratasse de um a sim ples oportunidade surgida num a conversa, durante um alm oço de negócios, m as de um plano m uito bem pensado?

Charles delirava. O pessoal de Teelaney deveria ter lhe fornecido um a lista de cem fundações, instituições de caridade, bolsas de estudos que ele poderia criar a fim de perpetuar o prestigioso brasão fam iliar ligado à filantropia e obter substanciais reduções no im posto de renda.

Charles – para se gabar, adm itia – j á tinha contado sobre o processo em curso, no qual defendia o senador Murray, om itindo o fato de que Murray estava com os bolsos cheios graças a um a inform ação confidencial de últim a hora fornecida por alguns am igos. Em seguida, a conversa tinha naturalm ente desem bocado na base de Quantico, dirigida por Casney, o genro de Murray. Na sequência, a ideia tom ou conta dos pensam entos de Teelaney. Nada m ais norm al : a m aioria das pessoas se sente ao m esm o tem po repugnada e intrigada pelos assassinos em série. Desej ar contribuir para sua prisão quando se tem os recursos de um Teelaney é um a ação cidadã, tanto quanto financiar um a bolsa de estudo sobre o m eio am biente – o que, aliás, Rupert fazia, sensível que era à ecologia.

Charles Devernois-Kly ne se lem brava com precisão do cham ado de Teelaney um a sem ana após aquele alm oço.

– Charles… pensei de novo a respeito de nossa discussão sobre Quantico. Então, pedi a m eu pessoal que pesquisasse um pouco. Minha fam ília contribui com m uitos trabalhos, criou fundações. Porém , acredito que é im portante seguir as evoluções da sociedade. É a única razão pela qual eu financio essa bolsa de estudos dedicada ao m eio am biente. Parece que há centenas de assassinos em série em liberdade no nosso país. Você se dá conta? É assustador. Contudo, as forças policiais, o FBI, seus especialistas em psicologia crim inal, todos sofrem com a falta crônica de investim ento. A form ação de profissionais, o recrutam ento, o m aterial da inform ática, tudo é reduzido… Não é assim que se vai prender essas pessoas, que se vai im pedir que elas façam m al a alguém , você não acha? Penso em todas as vítim as que eles vão fazer… Esses hom ens são abom ináveis bom bas-relógios, soltas pelas ruas. Isso j am ais tinha passado pela m inha cabeça, m as pelo que li, isso m e deixa m al !

Charles Devernois-Kly ne, que se esforçava para se antecipar aos pensam entos de seus grandes clientes a fim de lhes m ostrar com o as necessidades deles eram tam bém as suas, tinha continuado o pensam ento de Rupert.

– Poderia ser um a doação anual reservada à educação, ao equipam ento de inform ática, esse tipo de coisas.

– Ah ! Boa ideia, Charles, boa ideia ! Suponho que essas pessoas desconfiam quando lhes oferecem dinheiro. E têm razão. Deixo a burocracia com você.

– Sem problem a, Rupert.

Devernois-Kly ne tinha aprendido um a coisa fundam ental no contato com ricos e poderosos : j am ais aventar um problem a, um a dificuldade, nem m esm o um a im possibilidade. Eles não se im portam . Pagam para poder não se im portar. É preciso chegar sem pre com a solução pronta.

– Perfeito !

– Vou cuidar disso im ediatam ente. Restam as deduções fiscais, que não podem ser esquecidas. Tudo é bem definido no caso de doações a instituições de caridade ou de arte, de saúde e de educação em geral. Nesse caso específico, duvido que haj a precedentes, m as m e encarrego de verificar. Deve haver um a form a de encontrar um a com posição que conduza à educação, contando que Quantico estej a de acordo.

– Hã… você conhece bem o senador Murray, não é?

– Sim . Se precisar, dou um a ligada pra ele.

– Estou contando com você, Charles… Você cuida dos aspectos legais. Quanto a m im , vou prosseguir em m inhas pesquisas e aperfeiçoar o conceito.

O term o “conceito” tinha deixado Charles seguro. Tudo aquilo era abstrato. Um proj eto financiado por caridade com o qualquer outro.

Até Rupert entrar novam ente em contato, um m ês depois. Faltavam elem entos realm ente consistentes. Tinha ouvido falar daquela psiquiatra, um a tal de Diane Silver. Um a expoente internacional entre os especialistas em psicologia crim inal. Saber com o trabalhava, quais eram exatam ente suas necessidades perm itiria direcionar a doação de m odo a não j ogar dinheiro pela j anela.

Apesar de nada entusiasm ante, a ideia de um estágio com a profiler tinha parecido lógica a Devernois-Kly ne. Além disso, difícil recusar o que fosse a um Teelaney.

Hoj e, porém , o advogado tinha suas dúvidas. Certam ente, Rupert era um tipo capaz de se apaixonar por um a ideia, o que explicava que tivesse feito frutificar a gigantesca fortuna fam iliar. Entretanto, seu entusiasm o por esse proj eto espantava o advogado. Era um entusiasm o tão grande que Rupert se esquecera de perguntar se podia se beneficiar das deduções de im postos referentes à grande doação a Quantico.

Um a conversa agitada com Diane Silver voltou à m ente de Charles. Teelaney estaria querendo form ar um tipo de m ilícia paga para caçar – e, por que não, elim inar – os assassinos em série? O advogado riu. Aquela paranoia estava passando para ele ! A visão de Rupert – o encantador m íope vegetariano, am ante de ecologia e de m editação, que não fum ava, não bebia, um budista convicto acim a de tudo – perseguindo assassinos faria rir, se não fosse tão grotesca.

Um a hipótese surgiu na cabeça do advogado. Ele desej ou que fosse infundada, provavelm ente porque, caso contrário, seria um a decepção. Neste m undo de “people” ultraj antes, no qual herdeiras vestem seu cão pinscher com saias xadrez rosa e se deixam fotografar bêbadas na saída de casas noturnas, no qual cantoras m edíocres m ostram suas pernas e se excitam com cham panhe para dar trabalho aos paparazzi – em resum o, neste m undo da vulgaridade triunfante, Rupert estaria pretendendo quebrar o elegante anonim ato da fam ília Teelaney ? Pois o que é m ais m idiático que os assassinos em série? Então, o generoso benfeitor contribuiria para a prisão deles?

Não, nenhum a dessas especulações era com patível com o que tinha visto do seu riquíssim o cliente. Estava divagando em pensam entos para nada. No entanto, prever tudo, suspeitar de tudo, nunca acreditar em nada nem confiar em ninguém fazia parte de seu trabalho.

Rupert em barcara naquela aventura com paixão porque ele era apaixonado e, provavelm ente, porque o tédio o rondava a cada dia. Tinha abraçado aquele proj eto com a m esm a energia com que abraçara o budism o ou o vegetarianism o, a ponto de oferecer um a vultosa quantia de dinheiro para um chef francês com o sim ples argum ento de que ele tinha passado três anos em um m osteiro. Rupert tinha necessidade de se em polgar pelos proj etos, de criar para si m esm o obj etivos essenciais. Precisava sentir-se indispensável, atribuir urgência à vida. A cocaína e o álcool se tornavam supérfluos.

 

14 Insider trading é a negociação de valores m obiliários baseada no conhecim ento de inform ações relevantes que ainda não são de conhecim ento público. (N. T.)