Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 27 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 27

 

 

Perto de Boston, Massachusetts,

Estados Unidos, julho de 2008

Dirigindo seu Chevrolet alugado, Diane Silver abandonou a Interstate 2 para ir na direção de Athol, pegando a seguir, guiada pelo GPS, as pequenas estradas cercadas de castanheiras e de pom ares.

A propriedade de Rupert Teelaney Jr. não estava indicada em nenhum lugar. Ele tinha exigido que ela fosse retirada dos planos aéreos disponíveis na internet.

No entanto, o doutor Devernois-Kly ne tinha dito que ela chegaria a um interm inável m uro de dois m etros e cinquenta de altura, arrem atado por um a som bria renda de aram e farpado, e que ela teria apenas de seguir até o portão de entrada.

Chegou ao destino cinco m inutos adiantada, o que não era habitual. Tinha a sensação de que as pequenas insolências a que estava acostum ada não seriam feitas hoj e. Tinha, contudo, sido veem entem ente contra aceitar aquele convite, apesar da insistência autoritária de Edm ond Casney Jr.

Três dias antes, o PBX de Quantico lhe havia passado um a ligação. Diane ficara surpresa com a pressa da recepcionista, que nem tinha perguntado se aceitava atender, nem inform ado quem ligava. A psiquiatra com preendeu rapidam ente o m otivo dessa solicitude quando um a voz grave, m esclada com um traço de divertim ento, anunciara :

– Rupert Teelaney Jr. Perdoe por incom odá-la, doutora… Acredito que nós estam os diante de um im passe. Tenho a im pressão que se trata apenas de um m al-entendido nascido de um a explicação… digam os, atrapalhada do senhor Charles Devernois-Kly ne.

–E se não se tratasse de um m al-entendido? – retorquira Diane, sem se preocupar com fórm ulas de cortesia.

– O que quer dizer? – perguntou a voz, m enos segura, m enos leve.

– E se eu tivesse com preendido perfeitam ente o que desej ava nosso bom Charles, m as vocês m e enchiam o saco, você e seu advogado de luxo?

Silêncio; depois :

– Oh, m uito pouca gente se perm ite esse tipo de liberdade com igo.

– É sério? Bem , aproveite a novidade !

– Você é de um a rara agressividade e…

– Sr. Teelaney, suportei seu cachorrinho adestrado durante sem anas, e adm ito de bom grado que a paciência não é um a de m inhas virtudes. Na verdade, não possuo m uitas virtudes. Todo esse tem po, seu cachorrinho bisbilhoteiro tentou m e enrolar. E você queria o quê? Que eu lhe fosse eternam ente grata?

– Concordo com você ! Nós tem os, de fato, um problem a de relacionam ento.

– Oh… adoro eufem ism os ! – ela ironizara.

– Escute… Prim eiram ente, m e perdoe por ter infligido a você um a… colaboração com Charles, o que, obviam ente, você não queria…

Ele tinha feito um a pausa curta. Diane esperara cautelosam ente a continuação, certa de que alguém com o Teelaney pedia desculpas m uito raram ente, e que ele estava tentando adulá-la.

– Por que não nos reunim os, num alm oço agradável… enfim , pra nos conhecerm os m elhor?

A voz calm a, séria, sum iu na hora :

– A resposta é não, e ela não é negociável. Adeus, Sr. Teelaney.

Ela desligara o telefone sem lhe dar a oportunidade de responder.

A reação do diretor do escritório não tinha dem orado m uito. A voz de Edm ond Casney Jr. trem ia de raiva quando ele ligou, m enos de um a hora depois.

– Você dispensou, com extrem a grosseria, o senhor Teelaney, Dra. Silver !

Desfrutando do m om ento, Diane tinha deduzido que ele acabava de ser repreendido pelo padrasto senador. Seu divertim ento tinha sido curto.

– Não, ele é que é m al-educado, acreditando que pode tudo. Não estou às ordens dele.

A resposta tinha se desvirtuado :

– Porém , você está às ordens deste escritório, isto é, às m inhas ! Então, aceitei por você o convite cordial do senhor Rupert Teelaney. Ele quer o… privilégio de sua presença no alm oço. Depois, vocês terão tem po de conversar sobre todos os detalhes de um a generosa doação que ele pretende dar à Base.

Diane respirou profundam ente para não o m andar pastar com “extrem a grosseria”. Com raiva, tinha decidido se fazer de doente, dar um bolo em Teelaney, nem que fosse apenas para deixar clara sua desaprovação. O ódio dim inuiu, substituído pouco a pouco por um a forte curiosidade. Teelaney seria um daqueles playboys para quem “não” nunca é um a resposta aceitável, um caprichoso m im ado pela vida que não desistia se percebesse a m enor resistência a um desej o seu? Existiria algum a coisa m ais séria por trás de sua insistência? Aquele enigm a tinha acabado por distrair Diane a tal ponto que ela pegou a estrada três dias m ais tarde, com certa im paciência.

Ela apertou o botão da cam painha do im enso portão branco de ferro. Im ediatam ente, o olho de ciclope da câm era de vigilância no alto do pilar se virou para ela.

Um a voz de hom em perguntou :

– Quem é?

– Dra. Diane Silver. O senhor Teelaney está m e aguardando. Rupert Teelaney.

A voz, m ais afável, disse :

– Você pode voltar para seu veículo. Alguém vai buscá-la.

Pensou que era suficientem ente crescida para ir sozinha até a casa, que ainda não avistava. No fundo, que im portância tinha isso?

Lem brou-se de tudo o que tinha podido apurar sobre o hom em que ia encontrar. Pouca coisa, na verdade. As conquistas financeiras e industriais de três gerações de Teelaney enchiam páginas na internet, assim com o suas ações de caridade. Em contrapartida, a vida privada do últim o descendente da prestigiosa linhagem se resum ia a algum as linhas. Um percurso universitário um pouco estranho, que m ostrava que o j ovem Rupert tinha se interessado por finanças, é claro, m as tam bém por filosofia, teologia e ecologia. Nenhum a m enção a esposas, am antes ou crianças. Nenhum escândalo. Um anonim ato é algo bastante clássico para aqueles que são realm ente m uito poderosos. Nenhum a foto recente. Aliás, só tinha localizado um a, dos tem pos de faculdade. Um loirinho de cabelos crespos, com óculos redondos, expressão de tim idez. Acrescentavam -se a isso as recentes e prudentes declarações de Devernois-Kly ne quando a tinha inform ado de sua partida, o ar aliviado, antes de enfim confessar o nom e de quem estava por trás dele. Rupert Teelaney, o terceiro de m esm o nom e, não bebia, não fum ava, era um ecologista por natureza e, ainda, vegetariano e budista.

Um pequeno veículo elétrico apareceu logo. O hom em que o dirigia desceu e abriu o portão com a aj uda de um controle rem oto. Ele avançou na direção dela, um sorriso cortês nos lábios, e disse :

– Você pode guardar seu carro ali – indicou estendendo o braço para um estacionam ento coberto pelas som bras de um esplêndido bosque de azaleias. O senhor Teelaney não quer veículos poluentes cruzando a propriedade.

Diane estacionou no lugar indicado e se voltou para ele perguntando, com grande seriedade :

– Suponho que sej a proibido fum ar na presença dele?

– Não. O senhor Teelaney é m uito tolerante quando recebe visitas.

– Um hom em ideal – ironizou Diane.

O outro, que tinha esgotado suas reservas de conversa, não respondeu nada, e a psiquiatra ficou absorta na contem plação da paisagem . Diante deles, um cam inho arborizado, sinuoso, que parecia interm inável. Diane pensou que estavam atravessando um a verdadeira floresta e tentou reconhecer algum as espécies, sem m uito sucesso.

– É im enso, não?

– Quase quatrocentos hectares.

Um a natureza exuberante que, no entanto, se percebia cuidada, conservada. Gritos de pássaros brotavam de todos os lados. À direita, Diane percebeu um casal de veados, que os olhavam passar sem m anifestar inquietação.

– Muito charm oso, quando se pensa que Boston fica apenas a uns cem quilôm etros daqui, em linha reta.

O m otorista pareceu apreciar o elogio e ficou m ais falante.

– É quase um paraíso terrestre, na verdade. O senhor Teelaney quis reproduzir um ecossistem a vivo. Tem os um m onte de anim ais aqui. Mas nada de anim ais selvagens capturados, arrancados de seu hábitat natural e exibidos com o feras ! Não. São veados, gam os, corças, j avalis, m uitas espécies de aves de rapina.

– Isso faz com que faltem predadores. Sem pre há predadores pra regular os ecossistem as.

– Tem os raposas.

– Para os coelhos e as lebres, serve, m as duvido que eles ataquem um veado ou um j avali. Os cervídeos devem se m ultiplicar.

– Os guardas florestais fornecem a cada outono a lista dos anim ais que descobrem . O senhor Teelaney aluga os serviços de um caçador profissional. Quando possível, os hom ens os capturam e os soltam nas florestas de Montana. Quando não, eles abatem um núm ero determ inado de indivíduos de cada espécie. O senhor Teelaney não caça.

“A natureza revista e corrigida pelo Hom em ” – pensou Diane antes de com pletar para : “o que é m elhor que a natureza exterm inada pelo Hom em ”.

Enfim , a casa apareceu. Diane estava esperando algo com pletam ente diferente, pelo m enos antes da conversa com o m otorista. Um a gigantesca m oradia ultram oderna de um piso, toda de m adeira e de vidro, se erguia diante deles. Ela identificou os enorm es painéis de aquecim ento solar sobre o telhado. Apesar da sim patia que a psiquiatra tinha por edifícios antigos, devia adm itir que aquela construção era um prim or arquitetônico. A casa lem brava um a elegante nave espacial.

O m otorista, lisonj eado pela intensidade de seu olhar, explicou :

– Som os totalm ente autônom os em m atéria de eletricidade. Utilizam os apenas energias alternativas, m esm o que tenham os um pequeno gerador convencional de reserva, caso haj a algum problem a. Nunca tivem os necessidade de usá-lo. Toda a nossa água vem da chuva. Entretanto – acrescentou, apontando para a vasta floresta e o m agnífico parque em torno da casa –, tem água suficiente para os dias m ais quentes ! O senhor Teelaney instalou um sistem a autom ático de irrigação gota a gota. Não se desperdiça nada.

Ela percebeu a sinceridade orgulhosa daquele hom em . Ele tinha a im pressão de participar de um a operação de salvam ento.

– Vai faltar água, você sabia? Enfim , não pra nós do Norte, m as pras pessoas do Sul. Portanto, seria um absurdo continuar a não fazer nada enquanto os outros m orrem de sede, não é?

Ela concordava plenam ente com tudo, por convicção, m as tam bém porque ele lhe ensinava m ais sobre seu patrão do que tudo o que ela tinha investigado até então.

– Concordo com você. É correto o que ele faz, o senhor Teelaney. Não é sem pre que o dinheiro vai pros im becis que o j ogam pela j anela.

– Isso é verdade ! Além disso, ele trata m uito bem seus em pregados, posso assegurar. Mas a gente é um grupo fechado aqui, entre os perm anentes e os tem porários. É certo que ele é exigente, m as dá gosto ver o resultado, porque nunca são bobagens de rico m im ado. Lá atrás – continuou ele apontando para um bosque espesso, situado a uns cem m etros à esquerda –, tem um a piscina fantástica. Um a piscina natural. Três tanques com diferentes cam adas de areia, de cascalhos e de plantas aquáticas que reciclam perm anentem ente a água, sem que sej a preciso usar produtos quím icos. A fonte é de um a pureza que só vendo ! Se tiver tem po e o senhor Teelaney autorizar, m ostrarei pra você.

O veículo estaciona na frente da entrada principal, um a im ensa parede de vidro.

– Venha, vou levar você.

Ela ainda tinha um a infinidade de questões para fazer, m as sentiu que o m om ento tinha passado.

Ia encontrar o enigm ático senhor Rupert Teelaney Jr., o terceiro Rupert da fam ília.

No m om ento em que o m otorista abria a pesada porta de vidro, ele apareceu no corredor, vestindo um a cam isa folgada e um a calça, am bos de linho branco. Avançou na direção dela, agradeceu seu acom panhante com um pequeno m ovim ento de cabeça e abriu um largo sorriso no qual ela não percebeu nenhum a ironia, nenhum ar triunfante :

– Estou honrado, Dra. Silver. Sei que você é um a m ulher de rara discrição.

Ela o observou. Era alto, de um a m agreza bela, e ainda se parecia com a foto da faculdade. O cabelo castanho bastante claro, bem crespo, os olhos azuis, intensos e calorosos atrás dos óculos.

– Nem um pouco. Sou um a velha selvagem , não tenho nenhum senso de diplom acia, e ainda m enos de política. Com o você pôde perceber.

Teelaney soltou um a gargalhada :

– Som os dois, então. Siga-m e, por favor.

Ela cam inhou bem atrás dele. Atravessaram um vestíbulo m obiliado de branco. Em todos os lugares, um a brancura opressiva. Um a m obília m inim alista. Nenhum quadro pendurado nas paredes. Brancas. Mais um a vez, a im agem de um a gigantesca nave espacial se im punha na m ente de Diane. Um a nave aberta de todos os lados para a natureza, para o verde im ponente da vida.

Os locais em que escolhem os viver se parecem conosco. Diane se lem brou de um de seus professores, aquele por quem , de saída, tinha sentido um tipo de antipatia instintiva, apesar de seu j eito paternal e acolhedor. O doutor Theodore Rankin, todavia, tinha se m ostrado um bom professor, com capacidade de escutar os alunos, o que poderia ter causado invej a em alguns de seus colegas. Mas algum a coisa de m uito difusa incom odava Diane, sem que ela conseguisse identificar. Rankin era um dos raros professores de psicologia que nunca tinha exercido a profissão. Além de sua excelente reputação profissional, era bem -hum orado e bem -intencionado. Todos gostavam dele. Exceto Diane. Ela tinha com eçado a odiar suas reservas inj ustificáveis. Ele a convidou um a tarde para tom ar chá sob o pretexto de que sua esposa teria o m aior prazer de encontrar um a das estudantes m ais brilhantes de seu m arido. Quando chegara diante do pórtico de sua casa, im ediatam ente tinha encontrado o porquê da reticência que nutria por aquele hom em . Um cubo cinza de dois andares, perfurado por algum as poucas e m inúsculas j anelas protegidas por grades, o que certam ente não se j ustificava, à época, naquela vizinhança residencial do subúrbio de Nova Iorque. O pátio era apenas um trecho de cascalho. Nenhum a planta, nenhum a árvore, nem um m etro quadrado de gram a. Um a espécie de m al-estar a invadira quando fora recebida com entusiasm o pela senhora Rankin. As lâm padas estavam ligadas em todas as peças, por causa da parca luz diurna que entrava pelas j anelas, ou m elhor, pelas seteiras.

A m obília do salão tinha sido outro m otivo de espanto. Móveis econôm icos, de um a banalidade angustiante. Nem sinal de um toque pessoal dos m oradores. Eles pareciam m uito felizes em recebê-la, e ela pensou que se assem elhavam com o irm ão e irm ã. O m esm o sorriso, o m esm o j eito afável, a m esm a voz doce. Ela sabia do boato de que eles nunca tinham tido filhos e se perguntara se era um a escolha ou um infeliz golpe do destino. De repente, enquanto ela se entediava havia pelo m enos um a hora, esperando o m om ento ideal para se despedir, o m otivo de sua reserva tinha ficado claro : os Rankin não eram atenciosos e acolhedores. Eram indiferentes a tudo o que não fosse eles, sua existência estreita m as confortável, sem confrontos, sem com prom issos, sem riscos. Estavam envoltos em um a carapaça bem lisa sobre a qual o resto do m undo deslizava, aquele m undo do qual se isolavam graças às suas seteiras cobertas de grades. Fechados em suas vidas, em suas cabeças, com o no bunker de sua casa.

Em vez disso, ali tudo era um a abertura, um convite, a ausência de m edo. Porém , com um a estranha veem ência. E um a abertura para o quê? Para o m undo de Rupert Teelaney, no qual ele controlava os elem entos, no qual ele era o m estre absoluto atrás do m uro alto, com os aram es farpados e o sistem a sofisticado de segurança? Diane se repreendeu. Estava construindo um pouco prem aturam ente um perfil psicológico.

Ele entrou antes dela num im enso salão, no qual duas das paredes eram de vidro.

Três sofás de linho branco, de assentos profundos e m acios, contornavam um a enorm e m esa de concreto bruto, em cuj o centro havia um vaso de flor-de-lis. Rupert Teelaney convidou-a a se sentar. Altas estantes de livros, feitas de carvalho pintado de branco, cobriam um a parede. Diane estava m uito longe para ler os títulos das obras, dispostas em um a ordem perfeita. Nenhum obj eto além de um bronze desconcertante, representando um a m ulher de j oelhos, nua, um a m ão cobrindo os olhos, a outra protegendo o sexo. Seu anfitrião seguiu seu olhar e com entou :

– O presente de um a… am iga j á falecida. Ela tinha servido de m odelo ao escultor. Gosto m uito dele. Norm alm ente, não gosto de m isturar gêneros… A arte fica com a arte, os livros com os livros, as flores com as flores… Esta sala é um capricho, m inha exceção. Reuni aqui a escultura e as obras que m e são m ais caras. O resto fica num a biblioteca e num a sala onde está depositada m inha coleção pessoal. Se se interessar, poderei lhe apresentar m inhas aquisições.

– Com m uito prazer. Quanto a m isturar as artes, devo dizer que tem os, então, dois pontos em com um – brincou ela.

– Por que você não gosta? – perguntou ele, sentando-se no sofá que ficava de frente para o dela.

– É sem dúvida um tipo de rigidez psicológica, ou a sensação de que a ordem externa participa da ordem interna.

– Você se sente um a pessoa m uito organizada por dentro?

– Nem um pouco. Muitas vezes, é um caos. Talvez sej a a razão pela qual preciso da ordem exterior.

Rupert suspirou, a boca entreaberta. Diane concluiu que nunca o teria considerado atraente se não fosse aquele suspiro.

Ela o fitou, esperando a continuação. Ele não desviou o olhar quando m urm urou :

– Quero que saiba que eu sei… sobre o… m artírio de Leonor. Preferia lhe revelar.

Por que as lágrim as enchiam seus olhos diante daquele estranho? Por que aquela súbita fraqueza diante do hom em sobre quem ela não sabia quase nada, nem o núm ero de celular? Ela se detestava – ela, cuj a couraça era tão robusta.

– Não quero falar sobre sua filha – continuou. – Entretanto, posso falar sobre você. É claro que sou incapaz de sentir o que você sofreu. Mas eu sei. Sei, intelectualm ente, o que foi seu calvário, o que você suportou, m esm o que eu sej a incapaz de im aginar com … m inhas células.

Diane lutava contra a crise de lágrim as, odiando-se por aquela reação inesperada, incom preensível. Tirando Yves Guéguen, que lhe tinha respondido com o silêncio, Teelaney era o prim eiro a com preender que a extrem a dor se espalha por tudo com o um fluido nocivo. Ela inunda o cérebro, intoxica a inteligência, invade cada sonho, cada pensam ento. Martiriza cada célula do corpo. Com o um a m aldição persistente, quando cada fibra pensante ou orgânica de seu ser decide crucificar você.

Ciente de sua com oção, do fato de que ela não a adm itia em sua presença, ele se levantou e disse, dirigindo-se à parede nua, branca, que estava na frente de Diane :

– Me perdoe.

Ele apertou o botão de um interfone que ela não tinha notado e disse :

– José? A doutora Silver e eu desej aríam os beber algum a coisa.

– Agora m esm o, senhor. Para o senhor, o de sem pre?

– Sim .

– E para a doutora?

Teelaney se virou para a visitante. Ela foi grata pelos instantes oferecidos para que se recom pusesse.

– Um uísque triplo, seco.

– Você ouviu, José?

– É claro, senhor. Qual uísque?

Seguiu-se um a lista. Diane se ateve à m arca que conhecia m elhor e cortou :

– Um Glenm orangie.

A voz agradável de José ressoou na peça :

– Canapés, senhor?

– Perfeito. Até onde sei, a doutora Silver não é vegetariana. Ah, por favor, José, traga um cinzeiro na bandej a. Nossa convidada fum a.

Estranham ente, um a vez que não se im portava com a opinião dos outros sobre ela, Diane soltou, sem querer :

– São apenas dez horas e trinta… É um pouco cedo pra…

– Quem liga pra isso? – interrom peu ele, sentando-se diante dela. – Se outra coisa não m atar você antes, seus… péssim os hábitos farão o serviço, sabe disso. Você aceitou, talvez tenha m esm o desej ado isso. Você não é do tipo que lam enta quando tropeça. Trata-se, então, de um a troca j usta. Você cum pre um a tarefa… ou m elhor, um a provação extraordinariam ente im portante. Se precisa de álcool, cigarro, neurolépticos para conseguir, por que não? Você poderia cheirar um a carreira de cocaína na m inha frente que eu não teria nada a dizer, pois sei o que aceita passar para proteger futuras vítim as desconhecidas. Nisso você perderá sua saúde m ental, ou o que resta dela, e sua pele tam bém . É um a escolha que considero heroica, num a sociedade que não sabe m ais soletrar tal palavra. Quanto a m im , o ascetism o m e convém . Há, sem dúvida, certa arrogância nisso. Dom inar o corpo e a m ente. É verdade que não sinto com o você, m esm o que saiba com o você se sente.

Ela o observou alguns instantes e fez a única pergunta que lhe im portava :

– Aonde exatam ente você quer chegar, Sr. Teelaney ?

– Rupert, por favor.

– Não sou m uito afeita a fam iliaridades, exceto quando m e convêm , e você não respondeu a m inha pergunta.

– É cedo dem ais – ele riu. – Ainda é cedo dem ais. Você m e concedeu este dia. Inteiro. Enfim … você foi forçada, e peço perdão por isso… Mas não tinha outra m aneira pra encontrá-la que não fosse a coerção. Sinto m uito, de verdade. Seu quarto está pronto… se você concordar, pra m inha grande satisfação, em prolongar sua estadia. De qualquer m aneira, você não m e conhece ainda o suficiente. Eu lhe dou o direito de investigar m inha m ente pra saber quem sou eu.

– Por quê?

– Porque Devernois-Kly ne fracassou na m issão que lhe confiei. Não é culpa dele. Eu deveria ter adivinhado. Deveria ter previsto que ele não estaria à altura. Com m uita honestidade, ele reconheceu o próprio fracasso. Que im becil eu fui. Com o pude pensar que aquele charm oso burguesinho de Boston podia convencê-la a colaborar !

– Em prim eiro lugar, seria preciso que eu soubesse com que devo colaborar.

– Algum a coisa m uito preciosa pra você e pra m im tam bém . Mas m ais tarde.

José entrou, trazendo um a pesada bandej a carregada de copos, um prato e um cinzeiro. Não tinha esquecido a garrafa de Glenm orangie, caso Diane quisesse se servir novam ente. Ela reprim iu um suspiro ao ver o outro copo : Teelaney ia beber um suco de tom ate.

– Obrigado, José.

O j ovem saiu com um sorriso.

Teelaney ergueu seu copo e brindou :

– Ao nosso dia proveitoso, Dra. Silver.

Diane não tinha visto passar a hora. Fiel à sua prom essa, Teelaney tinha respondido a todas as perguntas. Tinha aberto sua m ente, e ela estava certa de que ele não tinha m entido em nenhum m om ento. Com preendera, de m odo um pouco confuso, que sua m ãe, por quem ele tinha adoração, tinha m orrido afogada em um a piscina da fam ília, que ele tinha tido um filho oriundo de um caso, que a criança vivia com a m ãe, m as que a via com frequência. Não tinha hesitado em confidenciar que suas relações com o pai tinham sido difíceis, para não dizer conflituosas. Teelaney pai era um déspota intolerante a qualquer contradição, e o pequeno Rupert era, a seus olhos, antes de tudo, o futuro herdeiro de um im pério, não um a criança. Em seguida, tinha se referido à paixão pela arte j aponesa, que parecia conhecer com profundidade, de Hasegawa Tôhaku, do período Mom oy am a, a Sakai Hoitsu, do período Edo, passando por Sengai Gibon, cuj as adm iráveis estilizações em poucos traços conferiam a qualquer rã um a perfeição absoluta.

Depois de olhar longam ente para a estátua de bronze da m ulher, Diane perguntou :

– E aquela am iga m orta que serviu de m odelo? Sua m ãe?

Ele arregalou os olhos, surpreso.

– Estou sem palavras ! Com o…

– Não sei. Talvez um a capacidade de m im etism o.

– Ou um a intuição?

– Existe m esm o a intuição? Me pergunto se não é um term o escolhido pra designar um conj unto inconsciente de dados esparsos. O resultado surge de um a hora para outra. Com o não percebem os, não seguim os o pensam ento de m odo consciente, tem os a sensação de que ele caiu do céu. Foi ela que sugeriu essa pose?

– De j oelhos, um a m ão sobre os olhos, outra sobre o sexo? Sim .

Ela o observou um instante em silêncio. Ele tirou os óculos e seu olhar se tornou m ais vago, um m agnífico olhar m íope. O gesto não surpreendeu Diane : não enxergar m ais durante um m om ento, um m odo inconsciente de repelir o que faz sofrer. Ela se contentou em dizer :

– Sugestivo.

Ele afirm ou, com um sorriso triste :

– É m esm o.

Antes, ele tinha tido a com paixão e a elegância de abandonar a lem brança de Leonor. Agora foi ela que, num gesto de necessária gentileza, m udou de assunto.

– Por que o… o com prom isso com o m eio am biente? – perguntou, servindo-se de um terceiro copo de uísque. – Você acredita que é possível salvar o planeta?

– Não de verdade. Há m uito desej o por dinheiro, por conforto, por poder em j ogo. Alguns j á estão se perguntando com o vão poder ordenhar a vaca leiteira da ecologia. Para encher os bolsos. Poucos decidirão viver com m enos facilidades, com m enos cegueira. Vam os continuar com o a espécie hum ana sem pre fez : fechar os olhos esperando que a catástrofe chegue. Surgirá um a solução tecnológica, de que duvido, ou então será o caos. Nosso leve verniz de civilização não durará m uito quando cada um ficar preocupado em defender a própria pele.

– Um prazer especial pelos com bates inúteis?

– Não. Certo gosto pela elegância e, vej a você, acredito que a grande diferença entre nós e o anim al é nossa capacidade de ter esperança.

– Um engodo form idável e um dos piores venenos pra m ente – contrapôs Diane.

– Nem sem pre. Contudo, m uitas vezes entendem os a esperança de m odo passivo. Mas a esperança se aj uda, se em purra pra frente.

– Eu pensava que o budism o pressupunha um a supressão dos desej os. A esperança é tam bém um desej o.

– Quem disse que eu desej o? Eu não desej o, eu realizo.

Em outro contexto, a frase teria sido de um a rara pretensão. Dita por Teelaney, parecia um a constatação sem ostentação.

– Sr. Teelaney, acredite que eu considero sua com panhia interessante e que não m e esqueço de que m e com prom eti a passar o dia em sua casa. No entanto, de m odo obj etivo, o que o senhor espera de m im ?

– Estam os nos aproxim ando. O j antar será servido em m eia hora. Meu cozinheiro vai surpreender você. É um francês. Passou vários anos num m osteiro.

Ela pensou com pesar que um a chuleta sangrando acom panhada de fritas douradas certam ente não faria parte do cardápio.