Na mente, o veneno

Andrea H. Japp · Capítulo 20 de 36

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Na mente, o veneno

Capítulo 20

 

 

Fredericksburg, Virgínia,

Estados Unidos, junho de 2008

Apesar da vontade de explodir em soluços que lhe travava a garganta, ela adorava esses m om entos. Fum ar um cigarro bebendo um longo copo de uísque e observando cada curva do rosto de Leonor, que conhecia m elhor que o seu. O j ogo doloroso era sem pre o m esm o : im aginar com o a filha seria em dez anos, em vinte anos, em cinquenta anos. Ela seria parecida com a m ãe, m ais graciosa, m enos enrugada. Diane sabia. Tinha feito a idiotice de conseguir o program a de com putador para reconstituição facial utilizado pelos policiais nas investigações sobre pessoas desaparecidas. O ideal é partir de um a foto do suj eito quando j ovem e outra de sua m ãe, m ais velha. Diane escaneara as duas fotos. O com putador se encarregara de envelhecer Leonor. Até quarenta e cinco anos. Um a nova Diane, m ais bonita, m enos devastada.

Cinco uísques depois, tinha tido a execrável ideia de tingir os cabelos de sua filha. Leonor não teria gostado das m echas cinzas que m anchavam o cabelo de sua m ãe. Diane foi seguindo sua idiotice ou seu m asoquism o até atenuar as rugas que riscavam o rosto de sua filha. Sem parecer um a dessas patéticas figuras que tentam fazer você engolir que rej uvenesceram trinta anos graças à m editação transcendental e aos peixes ricos em ôm ega-3, Leonor teria cuidado de seu visual. Um sexto uísque apagou Diane depois de salvar a foto retocada em um arquivo batizado de “proibido” e antes de tom bar desacordada sobre a m esa.

O cheiro azedo de vôm ito, m istura de suco gástrico e álcool, acordou-a pela m anhã. Um a enxaqueca lhe explodia nas têm poras.

Diane olhou a lista de arquivos na pasta “m eus docum entos”. Nunca, nunca m ais entraria naquele que se cham ava “proibido”. Exceto no dia em que decidisse m orrer, pois nesse dia seria a única coisa reconfortante, ainda que devastadora, que lhe restaria.

Apagou sua bituca e entrou na caixa de m ensagens. Um e-m ail de Yves a aguardava :

Bom dia ou boa noite, cara Diane.

A investigação sobre os dois jovens psicopatas está um pouco parada. Tenho certeza de que o assassino voltou aos EUA ou ao Canadá. Terminou o que tinha a fazer aqui. Nós – os policiais franceses – nunca o encontraremos. Pus em prática uma de suas lições. Doa a quem doer ! Que se danem as pessoas, se esta é a única maneira de avançar : contei a Sara Heurtel a verdade sobre sua filha e Cyril. Ela não é o tipo de pessoa que rola no chão com uma crise de nervos.

Muito educada e inteligente para isso. Eu, no entanto, tive a nítida impressão de que, se compreendia intelectualmente o que eu dizia, era incapaz de assimilar emocionalmente a informação. O verdadeiro choque virá mais tarde. Ela me detesta, é normal. Sou aquele que estragou a lembrança de sua filha. No final das contas, até gosto da irracionalidade das verdadeiras mães. É uma de suas melhores qualidades essenciais. Minha mãe era totalmente irracional com seus filhos. Adoro minha mãe. Não passa um dia em que eu não pense nela, embora tenha morrido há seis anos. De qualquer forma, Sara Heurtel quer encontrar você. Ela pode ir aos EUA quando for melhor pra você e fala o inglês perfeitamente.

Diane, não sei como confessar… Mencionei Leonor na conversa. Culpo-me terrivelmente por isso. Foi preciso. Você me perdoa? Um abraço bem apertado,

Yves

Ela leu e releu as últim as frases sem concluir nada. Detestava que Leonor caísse na boca de estranhos. Sua filha, o terrível suplício de sua filha pertencia som ente a elas duas. Entretanto, Yves nunca teria dado aquela inform ação irresponsavelm ente, nem m esm o com o trunfo para convencer alguém de algum a coisa. Além disso – e era a prim eira vez que tal ideia passava pela m ente de Diane –, Leonor podia se tornar o em blem a de um a causa j usta. Sua filha adorava aj udar, espalhar seu bom hum or para quem estivesse a sua volta, no seu j eito de m enina. Regava cuidadosam ente a horta da varanda da senhora Colm an, debilitada fisicam ente por causa da artrose. Tocou a cam painha do antipático senhor Crowford, quando ninguém o viu por três dias. Inform ava-se sobre a am igdalite da m ulher do porteiro. Todo m undo adorava o pequeno anj o, e ela às vezes se perguntava, apavorada, se a filha não term inaria em um a ordem religiosa ou em algum a ONG obscura – que, é claro, enviaria seus m em bros para países horrivelm ente perigosos. Diane tinha tudo im aginado, antecipado, tem ido. Tudo, exceto aquilo. Exceto a realidade.

Eu perdoo, naturalmente. Se você disse o que disse, foi porque não podia ser diferente, ou porque, no mínimo, achou que era importante. No entanto, não preciso me encontrar com outra mãe desesperada. Eu me basto e já tenho bastante dificuldade de me suportar ! Não quero recebê-la. Pra mim, ela não tem nenhuma utilidade. Tudo o que pode fazer é me encher a paciência.

Como se recuperou minha xará da gastrite?

Um abraço.

Silver.

Diane passou a hora seguinte debruçada sobre seu outro trabalho pendente. Aquele estrangulador de Boston lhe trazia um problem a insolúvel. Seu perfil era tão banal que um quarto dos hom ens da cidade teria podido se candidatar. Um a agulha em um gigantesco palheiro. Se o tivesse visto diante de si, se ele lhe tivesse dito três frases, im ediatam ente ela o teria reconhecido. Mas levaria tem po até chegarem a ele, e haveria outras prostitutas m ortas. A m enos que fosse pego por um delito, um roubo, um a m ulta de trânsito, um a bobagem qualquer que revelasse suas im pressões digitais, as quais sairiam na Associação Francesa de Inform ação Científica e chegariam até ela. Sem isso, não havia m uito com o encontrar o rastro do crim inoso. Droga ! Diane o odiava com cada fibra de seu ser. Com o odiava todos os outros assassinos. O problem a é que era a única a odiá-lo. Não podia nem m esm o culpar os policiais que colocavam o caso em segundo plano. O hom em pegava som ente putas de baixo nível. Aquelas que enchiam o saco dos policiais, que gritavam , que os insultavam quando eram presas por um a noite. Que defendiam seus cafetões. Que traficavam para pagar o vício. Os caras do Departam ento de Polícia de Boston não aguentavam m ais, com o todos os policiais das grandes cidades. Cada um tinha sua obsessão por um a investigação, algo inacabado que não largavam e a que dedicavam seu tem po livre, pois ali tinham deixado um pedaço de sua alm a : um a adorável m ãe de fam ília encontrada sem vida em um estacionam ento por causa de quarenta dólares, um encantador senhor de idade espancado até a m orte por uns filhos da m ãe porque tinha passado por eles com a cabeça erguida, um a j ovem estuprada e estrangulada quando saía da m issa de dom ingo. Enfim , vítim as cuj a perda toda a vizinhança lam entava. Não putas, que causavam úlceras nos hom ens de bem , apesar do serviço que prestavam à com unidade. Estranham ente, os policiais não eram um a exceção à regra : todos esqueciam que, se não houvesse dem anda, não haveria oferta.

O sininho alegre da caixa de m ensagens a tirou da contem plação das fotos das cenas de crim e, que nem via m ais, de tanto que as conhecia.

Eu compreendo você, minha cara, mas pense bem : se minha teoria histérica estiver correta – o que duvido, mas a gente nunca sabe –, se aquele homem queria proteger Sara Heurtel, ela o conhecia. De uma maneira ou de outra, mesmo se ela ignora o fato. Não temos nada pra chegar até esse cara, e você sabe disso. Ele é muito inteligente. Duvido que cometa uma bobagem que nos leve a ele. O perfil psicológico não nos servirá. O que mais? Ele tem entre trinta e quarenta anos, é branco, inteligente, tem dinheiro e, se confiarmos na descrição do porteiro do prédio de Armstrong, é alto e de cabelos castanho-claros na altura dos ombros. Isso deve corresponder a cerca de vinte ou trinta milhões de norte-americanos, sem contar os canadenses de língua inglesa, e ele pode ser canadense. Você faz o que com isso? Acredito que precisamos de uma investigação policial tradicional. Sara Heurtel é a nossa única ligação com o assassino, a menos que eu esteja enganado, o que é possível.

Sua homônima está curada. Ela come como uma vaca. No fundo, ela se parece um pouco com você. Um dia desses, durante um tranquilo passeio nas ruas de Paris, saltou sobre um rottweiler, que nem virou a cabeça. Eram cinquenta quilos de músculos bem relaxados, mas ainda perigosos, contra os quase dez da minha cachorrinha. Isso não pareceu

impressioná-la. Uma verdadeira sarna. Um frio me subiu pela espinha. Não ela, mas o animal preto e perigoso mantinha uma calma olímpica e se perguntava, obviamente, o que aquela buldoguezinha queria com ele.

Um abraço,

Yves.

Diane acendeu um cigarro de aborrecim ento. Tinha cigarros de calm a, de exasperação, de prazer – os m ais raros –, de tensão, de reflexão e de aborrecim ento. Um a nom enclatura precisa que só os fum antes conhecem . Não queria se encontrar com Heurtel. Para fazer o quê? Voltar com ela ao passado nos m ínim os detalhes, procurar onde poderia ter cruzado com o assassino? Yves era perfeitam ente capaz disso. Diane não tinha vontade de fazer vir à tona outra dor insondável. Merda ! Aquela m ulher que procurasse os sites na internet : havia vários, criados por parentes de luto que faziam um trabalho form idável ao perm itir que outros contassem seu sofrim ento extrem o. Diane não queria m ais um a dor por causa de um a criança. Não tinha m ais espaço para isso.

Obrigada pela comparação : estou lisonjeada. Por outro lado, poderia saltar no pescoço de um rottweiler, exceto que disfarçadamente, consciente de minhas fraquezas, eu anestesiaria o cachorro antes ! Não quero ver essa mulher. Você pode se virar sozinho. Descobrir onde ela pode ter encontrado esse homem.

Alguns m inutos m ais tarde.

Ela não falará comigo. Eu disse que me detesta. Além disso, acredito que ela construiu mentalmente uma equação clássica nas mulheres : nenhum homem pode compreendê-las, pois nenhum homem tem filhos. Ela não fará o mínimo esforço para se abrir comigo. Permanecerá enclausurada na sua fortaleza de dor. Acho que, inconscientemente, ela criou na cabeça um vínculo : você e Leonor, ela e Louise.

A fúria a fez gem er quando leu a m ensagem . Se Yves estivesse ao seu lado, ela o teria xingado. Digitou, louca de raiva :

O quê? O que você está falando? O que é essa ligação de merda entre minha filha e essa maluca da Louise, que queria matar a mãe e o irmão?

Colocou seu copo na m esa quando a resposta chegou, pronta para o confronto :

Diane, Diane, fique lúcida e imparcial como você me ensinou a ser. Eu não disse que existia uma ligação : disse que Sara tinha formado uma em sua cabeça, e que isso poderia ser um trunfo pra nós. Também

expliquei que Sara Heurtel não tinha ainda “assimilado emocionalmente” o fato de que sua filha IRIA matá-la. Diane, você me conhece tão pouco, tão mal assim?

Diane releu os últim os e-m ails de Yves antes de responder. Porra, ela estaria perdendo o senso de realidade? Tudo m udava quando Leonor estava envolvida, tudo ganhava contornos cortantes, dolorosos. As reações de Diane se tornavam viscerais, em bora nunca tivessem sido assim . Antes. Visceral e estúpida.

Perdão. Perdão de verdade. Você sabe, não digeri nada, não consegui atenuar nada ao longo de todos esses anos. Sinto muito, Yves. Você é a única pessoa em que confio. Peço desculpas, do fundo do meu coração. Estou disposta a receber a mulher, rapidamente, se você a acompanhar. Avisa pra ela. Não tolerarei nenhuma crise de nervos de mãe desesperada. Ou ela pode me ajudar a pegar o assassino de sua filha, ou ela não tem nada que interesse e vai embora. Se você soubesse o número de pais devastados, que não compreendiam nada, que identificavam, catatônicos, a filha ou o filho, com os quais me deparei ao longo de minhas investigações ! Uma mãe devastada a mais ou a menos não mudará nada. Sei tudo sobre estar devastada. Está no meu DNA, como um futuro câncer esperando se manifestar. Está fora de cogitação que essa Heurtel me faça perder meu tempo…

Seu celular vibrou. Ela olhou aborrecida para a caixa prateada que rastej ava sobre sua m esa, com o um grande inseto futurista.

– Alô?

Diane escutou seu interlocutor, que parecia feliz, com o se fosse anunciar um a boa notícia.

– Tudo bem . Estou indo. Obrigada. Aviso ao pessoal em Quantico.

Desligou e term inou de escrever seu e-m ail.

Um imprevisto, devo sair. Não reli o que escrevi. Concordo. VOCÊ a traz – isso quer dizer que VOCÊ a acompanha e que VOCÊ evita crises de histeria.

Um abraço forte. Silver.

Em seguida, Diane deu dois telefonem as, durante os quais se irritou, sem nunca levantar o tom de voz, m as conseguiu o que queria am eaçando com o descontentam ento de Edm ond Casney Jr. e de Bob Pliskin, que afirm ou ter tentado contatar, sem sucesso. Um a grande m entira. Não era a prim eira. Na verdade, se pudesse passar despercebido, Pliskin teria, com m uito gosto, dado um j eito de atrapalhar. Talvez Casney tam bém . Ela não tinha certeza.