Na mente, o veneno
Capítulo 18
Base militar de Quantico,
Estados Unidos, junho de 2008
Eram onze e m eia. Diane Silver estava sentada a um a m esa perto da im ensa j anela do refeitório. A sala ainda estava quase deserta, com exceção de um a m esa na qual j ovens futuros agentes, que a tinham cum prim entado afavelm ente quando passara perto deles, carregando sua bandej a, alm oçavam .
Tinha decidido que seus esforços – por m ínim os que fossem – para ser educada com Charles Devernois-Kly ne haviam acabado. Além disso, irritava-a a presença do advogado durante a única refeição digna desse nom e que se perm itia ao longo do dia : o resto de sua alim entação era constituído de am endoins, batatas fritas e, às vezes, nos grandes dias, até m esm o de um sanduíche que com prava no centro com ercial não m uito longe da sua casa. Dois dias antes, tinha decidido tam bém ir alm oçar m uito cedo ou m uito tarde, sem avisar o advogado, a fim de que ele não a seguisse no refeitório. Em defesa de Devernois-Kly ne, Diane adm itia que não sentia vontade de falar com ninguém . O silêncio a acalm ava. Um silêncio perturbado som ente pelos disparos que vinham do cam po de tiro vizinho, abafados por um a espessa cortina de árvores e arbustos. As conversas com outras pessoas raram ente interessavam Diane, exceto as que m antinha com Yves. Sentia falta das m udanças bruscas de assunto, das anedotas do policial francês. Sobretudo, sentia falta de suas intuições e de sua sutileza.
Diane atacou sua salada de lagosta, divertindo-se em apanhar com o garfo os tom ates-cerej a que rolavam no fundo do prato. Um pigarro artificial fez com que levantasse os olhos.
O agente Gary Mannschatz a olhava com seriedade, braços cruzados no peito.
– Bom dia, agente Mannschatz.
– Bom dia, doutora.
– Você tem algo a dizer?
Ele apertou a boca, refletindo, depois soltou :
– Não… Posso m e j untar a você ou prefere ficar sozinha? Eu não ficaria aborrecido.
Ele tateava o terreno porque tinha algo a dizer. A transparência do hom em ainda j ovem era voluntária. Diane não duvidava disso.
– Um pouco de boa com panhia j am ais pode ser ruim .
– Que bom . Monto o m eu prato e volto. Quer algum a coisa?
– Não, obrigada.
Ela o observou se afastar e entrar no longo corredor refrigerado no qual ficavam os aperitivos e as sobrem esas. Mike Bard e Gary Mannschatz deviam ter hesitado. Era m elhor abordar a psiquiatra, fam osa por sua execrável personalidade, em dupla ou sozinho, e qual dos dois iria? Tinham feito a escolha correta. Ela ainda não estava segura a respeito de Bard e desconfiaria m ais dele. Não que confiasse em Mannschatz.
Ela se perm itiu um j oguinho enquanto o esperava. O que haveria em sua bandej a? Nada de álcool, nem m esm o um a cervej a, era evidente. Um grande bife com batatas fritas? Não, ele não. Talvez Bard. Apostava num a sopa, um bife com salada, um laticínio e um a fatia de bolo, j á que os hom ens, m ais com ilões do que, em geral, querem adm itir, receiam que gostar de doces significasse um a espécie de fraqueza infantil.
Quando ele se instalou diante dela, Diane se deu m entalm ente um a boa nota. Quase tudo certo, exceto a sopa : fora substituída por um prato de tom ates com m ozarela. Na verdade, o j ogo era m ais um passatem po para Diane. Se podia prever o que ele iria com er, tam bém não devia estar enganada sobre o que tinha percebido sobre ele na reunião.
Conversaram am enidades : o tem po, o estado bastante precário do estacionam ento do Jefferson Building, que sofria pela falta de verbas, o terrível café servido ali, Mannschatz se extasiando com os expressos que tinha degustado durante um a curta viagem à Itália alguns anos antes.
Diane não sabia se ele esperava que ela desse o prim eiro passo – neste caso, ia ficar desapontado. Teria percebido isso?
– Eu… enfim , eu e Mike… a gente pensou que, j á que vam os trabalhar em colaboração, é im portante nos conhecem os m elhor. Enfim , quero dizer, a gente conhece bem sua reputação, você j á interveio em várias investigações nossas, m as nunca trabalham os diretam ente j untos.
– Bob Pliskin adora m e oferecer alterações no quadro de investigadores – com entou Diane com voz neutra, term inando sua enorm e salada.
– Hum m , Pliskin.
Ela o fitou com seus olhos claros e repetiu :
– É isso : “Hum m , Pliskin”.
Ele esboçou um sorriso, com entando :
– Vej o que é um de nossos bons am igos.
“Bravo”, pensou Diane. “Você acabou de, habilm ente, m e dar a prim eira inform ação : não gosta de Pliskin e não está do lado dele. Entretanto, fiquem atentos, você e Mike. A bola do j ogo está no m eu cam po. Devo m ostrar que não tenho m edo de Bob, o fuinha, e que ele não conseguirá atrapalhar m eu trabalho.”
– Bob aplica ao pé da letra o ditado “dividir para m elhor reinar”. É por isso que troca sem parar os investigadores designados pras m inhas investigações. Tem e que eu construa relações de confiança e, m esm o, de cordialidade com eles. Na verdade, tem e tudo o que possa ser contra ele.
– Em geral, dá certo, com o estratégia.
Ela colocou sua colherzinha na m ontanha de chantili que cobria a torta de nozes-pecã que escolhera com o sobrem esa.
– Isso não funciona m uito bem com igo. Pliskin é m uito previsível.
Ele a olhou por alguns segundos, se perguntando se podia apostar nela.
– Há quem diga que… você tem um a personalidade difícil – disse ele.
– Isso é quase um eufem ism o.
– Em geral, as pessoas que possuem um a personalidade forte são bastante honestas, não?
– Em geral. – Ela degustou com prazer um a colher de crem e e acrescentou com um sorriso pela m etade : – Escute, Mannschatz, se sua pergunta é : “Você pode confiar em m im sobre Pliskin e Casney ?”, a resposta é “Sim , absolutam ente”. Mesm o se eu detestasse vocês, não estaria lhes fazendo nenhum favor… em todo caso, não o de arm á-los contra alguém .
O agente Mannschatz suspirou de contentam ento. Ele acabava de obter um a parte do que procurava.
– E você sabe por que não hesito em dizer isso? – continuou ela, fitando com ar pesaroso a m ontanha de crem e que dim inuía visivelm ente. – Porque m esm o se você m e denunciasse e contasse nossa conversa a Pliskin, não m udaria nada pra m im . Pliskin j á m e odeia o m áxim o possível, e não tem com o odiar m ais ! Ele não tem nenhum a razão obj etiva pra isso. O caro Bob age som ente na subj etividade absoluta, porque o m undo dele gira em torno do próprio um bigo.
– Isso m esm o – aprovou Gary saudando-a com seu copo de água. – Vam os ao trabalho?
– Vam os ao trabalho !
– Mike e eu tivem os a sensação de que você retinha inform ações durante a reunião. Provavelm ente por causa da presença do “caro Bob”.
– Exatam ente. Quero que ele acredite que não avancei um a polegada nem vou avançar, porque é o que ele espera faz anos. É o único m eio de ele m e deixar um pouco em paz.
– Muito inteligente.
Ele em pilhou com cuidado os pratos vazios e passou o guardanapo na boca com um gesto quase elegante. Atacou seu iogurte light antes de prosseguir :
– Nada do que você m e diga irá além dos ouvidos do Mike. Respondo por aquele grande indivíduo com o por m im m esm o.
– Nada do que você m e diga irá além dos m eus ouvidos. Aprendi com um grande am igo da polícia francesa que form ei com o profiler…
– O coronel Guéguen – interrom peu ele, pronunciando “gu-e-gu-en”. – A gente pesquisou um pouco sobre você, sobre seus m étodos (note bem , não há m uita coisa) e todo o resto…
“Todo o resto” significava tam bém Leonor, e ela agradeceu por ele não ter pronunciado o nom e da filha.
– É verdade, trata-se de Yves Guéguen. Os dois j ovens franceses tinham ido bastante longe. Dois psicopatas. O m enino j á tinha com etido um hom icídio. Um bebê. Asfixiado. Ele estava disposto a continuar. A m enina ia seguir seu exem plo m atando a própria m ãe, depois o irm ãozinho.
– Legal ! Crianças encantadoras !
Diane lançou-lhe um olhar incisivo e liquidou a últim a colher de crem e antes de atacar a torta. Ele devia ir m ais longe. Provar que eram capazes, ele e Mike, de conduzir essa investigação.
Mannschatz colocou cuidadosam ente seu pote de iogurte raspado no prato e puxou o pires sobre o qual repousava um a grande fatia de bolo de banana coberto de crem e inglês. Franziu as sobrancelhas e perguntou, com voz lenta :
– Agora entendo m elhor… havia coisas no seu discurso que pareciam um pouco forçadas…
– A anim osidade de Bard pelos psicólogos? – brincou ela.
– Não é anim osidade. Porém , Mike é bem rodado e j á viu cada coisa ! Não é o caso de culpá-lo, ele tem seus m otivos. Há psicólogos que, com suas bobagens… com todo o respeito, acabaram com algum as das investigações dele. Foi então que ele se tornou desconfiado.
– Eu sei. Os psicólogos são com o o colesterol. Tem o bom e tem o ruim .
Ele riu :
– Vou dizer pra ele, isso deve agradá-lo. Ele tem . Colesterol, quero dizer. Voltando à investigação, ao tal do Nathan Hunter, ou assim suposto… Então, ele acaba com um pedófilo violento, que está no com ércio de crianças, e com dois psicopatas iniciantes, sendo que um m atou um bebê, m aluco noj ento, e a outra está a dois centím etros de assassinar a m ãe e o irm ãozinho.
– É isso.
– A priori, acho sim pático, esse cara – ironizou Mannschatz.
– Eu tam bém .
– Bom , um carniceiro, com seu lado de esfolador de vítim as m asculinas. Você acredita que se trata de um a espécie de… com o dizer… um suj eito que colocou na cabeça que era um j usticeiro…
Bem , Mannschatz tinha chegado lá, com o Yves, com o ela.
– Confesso que m e pergunto a m esm a coisa a partir de certo m om ento. O coronel Guéguen tam bém . O grande problem a é que esse tipo de perfil não bate com a tipologia clássica dos assassinos em série, em bora alguns tentem fazer crer, ou creem m esm o?, no contrário. Um assassino em série m ata pra si m esm o, porque isso lhe dá prazer. Não pra prestar um serviço. Estam os diante de alguém m uito inteligente e que tem dinheiro. Ele pode ir pro México, pra França. Pôde convencer Valdez de que tinha dinheiro pra com prar e dar a garantia de que não haveria sacanagem na negociação. Tenho certeza de que foi assim que ele venceu a desconfiança de Valdez : apresentando-se com o um rico entusiasta de estupros de crianças. O porteiro do im óvel de Arm strong insistiu no fato de que o fam oso visitante estava m uito bem -vestido.
– Sim . Eu e Mike chegam os à m esm a conclusão. É alguém que tem recursos intelectuais e financeiros.
Diane pensou que Pliskin ia se arrepender. Aqueles dois agentes eram bons.
– Concluindo, Gary – ela ficou surpresa de ter usado seu nom e, um a fam iliaridade de que ela não gostava e que, no entanto, de repente se j ustificava –, tropeço num a contradição e preciso de você. É com o lhe disse : um assassino em série clássico não faz favor pra sociedade, m esm o quando é esse o argum ento que ele apresenta ou que apresenta para si m esm o. Suas vítim as são escolhidas subj etivam ente, m esm o quando ele reescreve, a posteriori, a história dos assassinatos. Se nós… se vocês conseguirem encontrar algum a coisa na vida de Stanley Arm strong que j ustifique de algum m odo a m orte dele, isso significa que esse Nathan Hunter – partindo do princípio de que é ele m esm o – não é um assassino em série no sentido habitual do term o. Ele seleciona as vítim as a partir de critérios obj etivos. Isso não o torna m enos perigoso. Além disso, e é o m ais angustiante, significa que não poderei chegar até ele com as ferram entas clássicas.
– Está bem , nós vam os retom ar a investigação sobre Arm strong desde o com eço. Tenho ainda bons am igos no Departam ento de Polícia de Nova Iorque… passei m eus prim eiros anos com o policial lá.
– O que não im pede que eles não gostem m uito de pessoas do escritório.
– Ninguém gosta de nós. Mas a gente não liga, nós som os os m elhores !
Ela não o corrigiu. Ele estava convencido, e isso era crucial, a seus olhos. Quanto a Diane, não se sentia pertencente a lugar algum . A nada que não fosse um terrível passado.
– Dra. Silver ! Estava a sua procura !
Diane e Gary viraram a cabeça em direção a Devernois-Kly ne, que carregava sua bandej a com os braços esticados, de m edo de que um a m ancha m aculasse seu belo traj e.
– Ah, doutor… esqueci de avisá-lo que estava subindo pra alm oçar – declarou ela, esforçando para ele perceber que m entia e que não desej ava de m aneira nenhum a sua com panhia. – Infelizm ente, term inei – com pletou, levantando-se da m esa.
Seria um a som bra de censura ou de arrependim ento o que o olhar castanho escondia? Ela não saberia dizer e não ligava. Ele que se virasse. Não era sua m ãe e não tinha de cortar seu bife nem segurar sua m ão !
Seguida de Mannschatz, foi deixar a bandej a sobre o carrinho da cozinha e se dirigiu para o elevador.
– Você não gosta m uito dele, né?
Ela olhou o superpolicial e falou, com voz calm a :
– Não tenho um a louca paixão por pessoas que m e vêm com conversa pra boi dorm ir. Ora, sei sem pre quando estão contando m entiras.
– Seu trabalho?
Ela baixou a cabeça antes de corrigi-lo :
– Não, um a adorável m enininha, m uito esperta, que trazia pra casa cachorrinhos, gatinhos, ham sters ou gerbinhos que ela dizia ter encontrado no m eio da rua e que era im perativo adotar.
– Eu… nada !
– Obrigada, agente Mannschatz. Até breve !