Noiva até Sexta
Capítulo 7
QUE MERDA ACABOU DE ACONTECER?
O belo traseiro de Gwen balançava de um lado para o outro enquanto ela voltava para a mesa. Ele mal teve tempo de processar o ultimato dela quando ouviu alguém chamar:
— Mac? É você?
Neil ficou paralisado. Seu nome do passado ficou preso na garganta, fazendo-o pensar duas vezes antes de virar. Ele acenou com a cerveja vazia para o barman, esperando que quem o havia chamado não estivesse olhando para ele.
— MacBain?
Neil olhou por cima do ombro.
— Rick? — disse, em choque. A última vez que vira Rick...
O calor denso encerrava o cheiro de terra, sangue e morte. O helicóptero levaria em segurança o que restava de seus homens. Cinco conseguiriam, mas um deles daria o último suspiro antes de o helicóptero aterrissar.
E era culpa dele.
Rick cumprimentou Neil e o puxou para um abraço.
— Que bom te ver.
— Você parece ótimo — Neil conseguiu dizer, agradecido ao barman por ter sido rápido com a cerveja.
— Você parece bravo, como sempre.
Rick “Smiley” Evans — Smiley para os homens da unidade deles, por causa dos lábios sempre sorridentes, mesmo quando o céu estava desabando sobre eles — pediu um uísque e se sentou no banquinho agora vazio ao lado de Neil.
— Quanto tempo faz?
Neil olhou por cima do ombro de Rick e viu Gwen rindo.
— Alguns anos. — Cinco anos, oito meses e poucos dias.
Rick se remexeu no banquinho.
— Aquilo ali é problema. São suas amigas?
Neil desviou o olhar e se concentrou em seu velho colega. A última coisa que queria era explicar Gwen para Rick. Merda, ele não sabia como explicar Gwen nem para si mesmo.
— O que você está fazendo em Los Angeles? Pensei que não gostasse da costa Oeste — Neil perguntou.
Rick pegou sua bebida e seu eterno sorriso desapareceu. Um arrepio percorreu a coluna de Neil.
— Odeio esse ambiente cenográfico.
— Então por que está aqui? — Algo dizia a Neil que ele não ia gostar da resposta.
Rick esvaziou o copo em um gole só.
— Estava te procurando.
Ah, porra!
Rick largou uma nota de vinte dólares no bar e levantou.
— Vamos para um lugar mais calmo.
A mandíbula de Neil doía. Ele não estava a fim de deixar Gwen, mas sabia que Rick não teria pedido que conversassem a sós se não fosse importante. Olhou para ela uma última vez antes de segui-lo para fora do bar.
Havia muitos bares discretos em Los Angeles. Encontraram um, pediram duas bebidas e desapareceram ali dentro.
— O Billy está morto.
— O quê? — disse Neil, e os pelos de seus braços se arrepiaram.
Billy Thompson era um caipira das florestas do Tennessee e um dos homens de Neil. Seu avô havia sido notório em sua cidade natal por causa da bebida que fabricava em casa. Uma habilidade que passara a Billy, o qual distribuía a iguaria em potes de vidro. Sim, Billy era um caipira, mas podia rastrear um rato em uma floresta e acertar-lhe um tiro no meio da testa a mais de um quilômetro de distância. Seu papel na unidade era inestimável.
Havia sido inestimável.
— Como?
— O relatório oficial diz suicídio. Alguma merda pós-traumática.
— Duvido.
Billy se livrara de toda aquela merda melhor que a maioria deles. A última notícia que Neil tivera fora que ele tinha se casado com a namorada de colégio e estava tentando esquecer seus dias de militar.
Rick bebeu um gole.
— Foi o que eu disse. O fato de ter um relatório para hackear significa que os nossos homens estavam de olho nele.
— Por quê?
— A mulher dele desapareceu. Os boatos que correram na cidade eram de que ela tinha ido embora com outro homem. O relatório oficial diz que ele encheu a cara e pulou de um precipício.
Neil se inclinou para a frente.
— Se a mulher do Billy tivesse fugido com outro homem, ele caçaria os dois onde quer que estivessem e a traria de volta.
Rick sorriu.
— Exatamente.
— Então, o que você acha que aconteceu?
— Acho que alguém o empurrou daquele penhasco. E quem quer que tenha feito isso está com a mulher dele, ou a matou e ninguém encontrou o corpo.
— Por que você acha isso?
— A Lucy, esposa dele, trabalhava como garçonete em um restaurante da cidade. No dia em que ela desapareceu, alguém a viu no estacionamento de lá conversando com um cara. Que não era o Billy.
— Onde você conseguiu essa informação?
Rick deu de ombros.
— Várias pessoas comentaram. É uma cidade pequena, os moradores baixam o volume da TV para ouvir os vizinhos brigando. Entretenimento barato. No dia seguinte, a Lucy não apareceu para trabalhar.
— E?
— O Billy chegou em casa depois de mais um dia de trabalho no moinho. O relatório diz que algumas roupas dela tinham sumido, mas a mãe da Lucy disse que a única coisa que faltava era a bolsa dela.
— O Billy deu queixa do desaparecimento dela?
— Para os capiaus de lá encontrarem a mulher dele? O que você acha?
— Acho que o Billy poderia encontrá-la mais rápido que qualquer um.
Rick anuiu.
— Exato. Só que o Billy ficou em casa... não foi atrás dela. Houve três ligações para a casa dele, todas de orelhões. Quem é que usa orelhão hoje em dia?
— Pessoas que não querem ser encontradas.
— Exatamente. Quando a Lucy não apareceu para trabalhar e o chefe dela ligou, o Billy disse que ela tinha fugido.
Neil retorceu a mandíbula.
— Você acha que alguém estava com a Lucy e ligou para o Billy para... provocá-lo? Ameaçá-lo? Pedir resgate?
Rick apontou sua cerveja na direção de Neil.
— É justamente isso que eu acho que aconteceu. Só que eu não acredito que eles estivessem atrás de dinheiro.
— Acho que o Billy não tinha dinheiro.
— Não mesmo. É por isso que eu acho que eles estavam só querendo foder com ele, fazer ele sangrar por dentro, sabe?
— Caramba. Isso é doentio.
— Uns caçadores encontraram o corpo do Billy no fundo de uma ribanceira.
— Escondido?
— Não. Numa trilha. Quem fez isso queria que ele fosse encontrado.
Neil esfregou o queixo.
— E você quer ir atrás de quem fez isso com o Billy...
— Pode apostar. Mas não é por isso que eu estou aqui conversando com você.
— Não?
O olhar frio e duro de Rick cruzou com o de Neil.
— Encontraram uma gralha morta enfiada no casaco do Billy.
O frio na espinha de Neil se transformou em blocos de gelo.
Gwen afofou o travesseiro pela terceira vez e fechou os olhos. Ainda assim, o sono não vinha.
Ele tinha ido embora. Saíra sem nem olhar para trás. Em um instante a vigiava, em outro fora embora.
Tudo o que ela podia dizer a si mesma era: Eu o forcei a isso.
Karen e Eliza sugeriram que ela seguisse em frente. Independentemente da atração entre eles, se Neil não tomasse a iniciativa, a coisa nunca ia acontecer.
No entanto, quando saíram do bar, Gwen podia jurar que alguém a observava. Talvez Neil tivesse decidido não dar tanto na cara.
Eliza sugerira que ela fizesse alguns cursos de defesa pessoal e comprasse uma arma. Pelo menos para se sentir melhor quando morasse sozinha. Eliza podia enxergar através da armadura de Gwen. Ela não estava preocupada em morar sozinha, mas a verdade era que nunca tinha feito isso antes. Eliza já lhe mostrara como usar uma arma. Até o casamento da amiga, sempre houvera uma arma de fogo na casa. Os pais de Eliza haviam sido assassinados quando ela era pequena, e o responsável jurara matá-la também. Ela crescera fazendo parte do programa de proteção a testemunhas e carregava uma arma para a própria segurança.
Karen se mudara pouco depois da saída de Eliza. Com Karen por perto e a presença constante de Neil, Gwen não sentia necessidade de ter uma arma. Mas talvez pensasse nisso agora.
Por trás da fachada que levava gravado “Estou bem sozinha, muito obrigada”, ela não se sentia totalmente à vontade.
No dia seguinte, Eliza voltou para Sacramento e Karen teve seu primeiro encontro oficial com Michael. Às dez da noite, o celular de Gwen zumbiu, indicando a chegada de uma mensagem.
Gostei dele. Vou passar a noite aqui.
Ela sorriu e respondeu:
Ligue a qualquer hora se precisar de mim.
A resposta de Karen foi uma carinha sorridente.
E assim começam as noites em casa sozinha. Gwen ligou os alarmes, pensou em Neil e foi para a cama.
De manhã, quando entrou na cozinha para tomar seu chá, notou que a porta dos fundos estava aberta. Ela podia jurar que tinha fechado, mas talvez não. Os ventos terrais, também conhecidos como santa Ana, espalhavam folhas no quintal.
Ela tinha certeza de que os detectores de movimento estariam malucos, e mesmo assim Neil não telefonara.
Ele não ia ligar. Ele havia feito sua escolha.
— Uma semana a partir de sexta-feira — Karen anunciou quando entrou pela porta, ao meio-dia.
— Bem-vinda de volta.
Karen sorriu.
— Vamos nos casar em uma semana a partir de sexta.
Gwen se afastou da mesa, onde procurava na internet aulas de defesa pessoal, e abraçou a amiga.
— Que legal!
— Vamos para Nova York, casar lá e então nos esconder na França por uma semana. Eu nunca estive na França.
— Paris é linda nesta época do ano. Parlez-vous français?
— Que parte de “Eu nunca estive na França” você não entendeu? — respondeu Karen. — Eu não parlo vu nada além de inglês e de um ou outro palavrão do dialeto adolescente. — Karen se jogou no sofá e pôs os pés na mesinha de centro. — Não acredito que isso está mesmo acontecendo.
— Me conta tudo.
Ela soltou um suspiro e começou:
— Ele me levou a um lugarzinho em Brentwood. O garçom já o conhecia. Os clientes torciam o pescoço para olhar para a gente. Eu perguntei como ele conseguia ir ao banheiro sem que alguém o seguisse, e ele disse que faz como as mulheres: vai acompanhado — disse Karen, rindo. — A fama não o incomoda. Ele ignorava os olhares, e eu acabei ignorando também. Falei sobre as crianças do clube. Ele falou sobre o último filme. A conversa foi totalmente superficial enquanto comíamos. Entramos no carro e fomos para a casa dele.
— Não é linda? — Gwen perguntou.
— É incrível. Não é convencional como eu pensei que seria.
— Eu achei muito acolhedora.
— Quando estávamos sozinhos, falamos sobre o próximo ano... se tudo der certo. Vimos uma comédia romântica. Eu sugeri um dos filmes dele, mas ele disse que nunca assiste a nenhum, que não suporta se ver na tela. Ele gosta de beber vinho, mas em público finge gostar de cerveja. Você viu a adega? — Karen perguntou, embolando, em sua empolgação, os eventos da noite.
— Não, não vi.
— Enorme. Paredes de tijolos, mesa de ferro, prateleiras e mais prateleiras de vinhos que eu nunca tinha visto na vida. Esse é um dos motivos pelos quais escolhemos a França. Tem uns vinhedos que ele quer visitar, e que melhor desculpa para isso que uma lua de mel?
— Concordo. E por que você passou a noite lá?
Karen sorriu com malícia.
— Um sujeito com câmera nos seguiu saindo do restaurante. Quando eu fui embora hoje de manhã, ele tirou algumas fotos. O Michael sabia que ele estaria ali, esperando.
— Isso é só o começo.
— Eu sei. É só um ano. Bem, dezesseis meses. É loucura planejar o divórcio antes do casamento, mas o Michael traçou detalhadamente o cronograma.
Gwen estreitou os olhos.
— Tudo isso é para ganhar publicidade?
Karen deu de ombros.
— Não tenho certeza. Ele mencionou a família. Ninguém sabe sobre ele. Ele acha que a mãe suspeita, mas o pai não. Duas mulheres com quem ele saiu, só para as câmeras, deixaram claro para a imprensa que não rolou sexo, e acho que isso fez surgirem alguns rumores. A indústria é bastante unida, de acordo com o Michael. Não sei se ele está fazendo isso para salvar sua reputação de macho ou para ganhar tempo. Ele vai estar em três grandes filmes no próximo ano e mais dois no seguinte. Os milhões que ele ganha em cada filme são incentivo suficiente para casar.
— Foi o que eu pensei. Mas, de qualquer maneira, não importa. Contanto que você não tenha ideias românticas.
— Ele é absurdamente gostoso, mas me atrai mais como um bom amigo ou um irmão. Não tem perigo de eu me apaixonar.
— Ótimo — disse Gwen, levantando do sofá. — Você vai ter que me mostrar algumas coisas nos nossos arquivos. Duvido que eu tenha muito o que fazer enquanto vocês estiverem passeando pela França, mas nunca se sabe.
— Só vou trocar de roupa primeiro. — Karen saiu da sala e subiu as escadas.
Gwen salvou a página que estava olhando na internet e clicou nos arquivos dos clientes principais da Alliance.
— Ecaaa! Gwen, corre aqui! — Karen gritou.
Gwen riu enquanto ia até a amiga.
— Nossos vizinhos estão pelados de novo? Ficaram acordados até tarde na noite passada.
Mas Karen estava parada na porta do quarto. Gwen seguiu seu olhar. A janela de Karen estava entreaberta, e em uma floreira havia uma massa de penas pretas.
— É um pássaro morto?
— Um corvo, eu acho.
Gwen se aproximou. Sem dúvida, parecia que o corvo tinha tentado entrar pela tela. O bico ficara preso parcialmente dentro, enquanto o corpo jazia entre as gardênias.
— Eu odeio pássaros, Gwen. Me traz péssimas lembranças daquele filme do Hitchcock.
Gwen deu uma risadinha. Tirou o sapato e bateu na ponta do bico, até que ele se soltou da tela. Em seguida a abriu e, com a ponta dos dedos, conseguiu pegar uma pena e rapidamente atirou o pássaro para baixo.
— Vou jogar no lixo.
— Obrigada — disse Karen, estremecendo. — Que nojo.
Gwen saiu do quarto rindo.
— E todo mundo acha que a fraca aqui sou eu — disse baixinho.